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MOACYR LUZ NA LUZ

Foi belíssima – belíssima! – e inesquecível a noite de 24 de agosto de 2013, em São Paulo, no Liceu, próximo à Estação da Luz, quando os Inimigos do Batente receberam, para a II Edição da série O Samba na roda em prosa & verso, o cantor e compositor carioca Moacyr Luz, sobre quem, recentemente, escrevi aqui.

Moacyr Luz com Railídia Carvalho

Moacyr Luz com Railídia Carvalho, foto de Flávia Ferreira

O Liceu, palco da festa, e as centenas de pessoas que lá estiveram, testemunharam um Moacyr visivelmente emocionado, como emocionados estavam os anfitriões dos Inimigos do Batente, dentre eles Fernando Szegeri, Railídia Carvalho, Arthur Tirone e Augusto Diniz, que formaram o time que conversou com o Moa – a prosa – antes do couro comer – o verso.

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Moacyr Luz com Fernando Szegeri, foto de Flávia Ferreira

Samba em prosa & verso é isso: há um papo informalíssimo com o convidado da noite e depois, ou mesmo durante (tudo flui com a espontaneidade das melhores rodas de samba), os Inimigos do Batente desfiam seu repertório com a competência que é uma das marcas do grupo, cuja roda (já tradicionalíssima em São Paulo e mesmo no Rio de Janeiro, onde sempre estão!) “foi concebida nas históricas tardes de sábado no Butantã, no saudoso Bar do Bilú – uma das maiores rodas de samba que essa cidade já viu, comandada pelo Dr. Chico Aguiar, o Chico Médico. O “parto” foi em fins de 1999, nas mesas do Bar do Cidão, em Pinheiros.”.

E o que quero lhes dizer, hoje, é algo que não disse no sábado, durante o bate-papo com o Moa – muito por conta da emoção que senti, por inúmeras razões, durante toda a noite.

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Moacyr Luz com Railídia Carvalho, foto de Flávia Ferreira

À certa altura da noite, um dos componentes da mesa pediu ao Moacyr que falasse sobre o samba Anjo da Velha Guarda, parceria com Aldir Blanc, dedicado ao Zeca Pagodinho.

E ele falou.

Contou que uma noite fora ao Lapases, na rua da Lapa, para uma roda de samba que era comandada pelo Monarco, no início da década de 90 (curiosamente eu estava presente nessa noite e o Moacyr lembrou-se disso, inclusive, enquanto narrava a história), e lá encontrara o Zeca Pagodinho.

E que ficara bastante impressionado com a reverência com que Monarco tratara o Zeca, daí a idéia de transformá-lo no anjo da velha guarda (ouça o samba aqui).

Eis o que quero lhes dizer: é compreensível a modéstia do Moacyr e é obrigação nossa (minha, in casu) fazer o adendo necessário.

Não é de hoje que o Moacyr, já com o nome gravado em letras de ouro e parte do tesouro que ostentamos com orgulho, cumpre o papel de anjo da velha guarda e também de luz para os mais-novos. E explico: meninos, eu vi (ironicamente o mesmo personagem…) o Monarco subir ao palco do Renascença lotado para reverenciar o Moacyr, no comando de mais uma impressionante roda do impressionante Samba do Trabalhador.

Como vi, também, a reverência com que o trataram nomes da estirpe de Guilherme de Brito, Casquinha, Jair do Cavaquinho, João Nogueira, Dona Ivone Lara, Walter Alfaiate e tantos outros.

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Moacyr Luz, foto de Flávia Ferreira

Assim como vejo, incansável que ele tem sido, o Moacyr, generosamente, estender as asas sobre os mais-novos, como Moyseis Marques, Gabriel Cavalcante e toda a rapaziada que o acompanha com a certeza de estar seguindo os passos certos de quem trilhos os caminhos certos para merecer o título que hoje é dele e ninguém tasca.

Até.

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MOACYR LUZ

Tenho dúvida em afirmar quando foi a primeira vez que eu vi o Moacyr Luz, não sei se foi no Caras & Bocas ou no Erva Doce, mas foi seguramente no começo da década de 80, eu tinha 15, 16 anos de idade. No Caras & Bocas, na Haddock Lobo (rua em que eu viria a morar em 1999), sempre via o Moacyr com Aldir Blanc, com Paulo Emílio, com Paulinho da Viola (posso jurar que ao menos duas vezes o vi lá), sempre cercado de muitos amigos e de muitas garrafas, e no Erva Doce, na Antônio Basílio, também na Tijuca, mais profissionalmente, o via cantando e tocando violão, canções belíssimas e muito antes da gravação de seu primeiro disco.

Uma curiosidade: minha primeira batida de carro (numa árvore, pateticamente), um Chevette bege de minha mãe, foi saindo (altíssimo!) de uma apresentação do Moacyr no Erva Doce (talvez eu tenha tentado acompanhar seu ritmo, da platéia).

Mais precisamente em 1995 (tinha eu meus 26 anos de idade), pedi a uma amiga – Vera Brazão – que me apresentasse ao Moacyr. Era véspera do lançamento de seu disco Vitória da Ilusão (meu preferido, até hoje), no Teatro Carlos Gomes, noite de gala, com quarteto de cordas, participação da Cristina Buarque e da Velha Guarda da Portela, um luxo.

De lá pra cá, muitas histórias, muitos enredos, muitos encontros, muitos desencontros, muitos porres, muitos bares, muita festa, muito luto, muita dor e sobretudo muito samba – que o samba sempre salva, o samba sempre cura, “porque em toda a vida o samba foi cura pra minha doença”.

Por conta do samba, por conta da II Edição da série O Samba na roda – em prosa & verso, tocada pelos meus amigos dos Inimigos do Batente, em que o convidado e homenageado é justamente o Moacyr Luz (neste sábado, 24 de agosto, em São Paulo, para onde vou com minha Morena), meu irmão e meu compadre Fernando Szegeri pediu-me um texto sobre o Moa, e eu de cara disse a ele que eu falaria da relação fusionada entre a cidade do Rio de Janeiro e o Moacyr.  

Não foi mole encarar o pedido, mas escrevi e foi publicado originalmente aqui:

“Moacyr Luz nasceu em Jacarepaguá, em 1958, na rua Barão e entre os 2 e 3 anos de idade foi morar na rua do Chichorro, no Catumbi, época da qual guarda a primeira visão de que se lembra: ele, com três anos de idade, e o avô, músico da Banda do Corpo de Bombeiros, o ensinando a escrever música. Foi no Catumbi, na zona norte do Rio de Janeiro – cidade que se confunde com sua obra – que começou essa relação indissociável entre o compositor, a música e a zona norte da cidade.

“(…) a zona norte é feito cigana lendo a minha sorte…”, escreveria anos depois Aldir Blanc, um dos principais parceiros de Moacyr.

Se o avô paterno de Moacyr foi quem apresentou ao neto a música, foram seus avós maternos que o apresentaram aos mercados de rua – ambos eram feirantes.

Moacyr morou ainda em Bangu, em Copacabana, no Méier, no Grajaú, na Muda (um pedaço sagrado da Tijuca), mas notabilizou-se por um fenômeno marcante em sua carreira, uma característica muito forte, um traço de sua personalidade: Moacyr sempre vergou o espaço e o tempo na direção da zona norte – a cigana.

Aliado a esse outro traço, um talento dentre tantos que carrega: o de ser agregador. Começou, a certa altura, a fazer reuniões quinzenais em sua casa, já na Muda, zona norte, na rua Garibaldi (no mesmo prédio em que mora Aldir Blanc até hoje), para onde iam Guinga, Fátima Guedes, Leila Pinheiro, Selma Reis, Oscar Castro Neves, Paulinho Pinheiro, Sérgio Natureza, Chico César, Lenine, Dudu Falcão, Beth Carvalho, Leny Andrade, Cláudia, gente que ia lá só pra tocar, cantar, mostrar música nova.

Foi numa dessas reuniões que mostrou “Saudade da Guanabara” quando eram apenas suas a música e a letra, samba que já cantara, muitas vezes, no Caras & Bocas, botequim na Tijuca – zona norte – que ganhou fama já por conta do poder agregador do Moacyr.

Dessa primeira versão, Moacyr lembra apenas dos primeiros versos: “Eu sei / Que o silêncio da madrugada / Faz a gente chorar por nada / Faz um homem sofrer de amor / Chorei / Com saudade da Guanabara / Meia-noite era noite clara / Meio-dia era o meu cantor”.

Beth Carvalho disse ao Moacyr que o samba era ótimo, mas a letra nem tanto. Até que um dia Moacyr, com Paulinho Pinheiro e Aldir em casa, mostrou o samba e pediu uma letra. Aldir subiu e desceu em meia-hora com a primeira metade pronta. E no final do dia, por fax, Paulinho Pinheiro mandou a outra metade daquele que se tornaria hino afetivo da cidade do Rio de Janeiro. Foi feita na Tijuca, zona norte.

Moacyr Luz inventou o Bar da Dona Maria, na rua Garibaldi, na mesma rua em que morava, um bar que não existia… Não tinha nem queijo, não tinha nada! Mas teve visita de Paulinho da Viola, de Luiz Fernando Veríssimo, de Beth Carvalho, de gente que vinha de todos os cantos da cidade pra ver mais aquele sonho do Moacyr virando realidade.

Ali, no Bar da Dona Maria, Moacyr inventou o bloco “Nem Muda nem Sai de Cima”, que mudou a filosofia da Tijuca – as palavras são do próprio Moacyr.

A Tijuca, que ficava entregue às baratas no Carnaval, quando tijucano tinha que ir pra Região dos Lagos ou atravessar a cidade pra brincar em outros blocos, Simpatia, Barbas, quando não havia a menor possibilidade de ficar por ali…

Moacyr, ao lado das outras pessoas que pensaram o bloco, criou a necessidade de que o enredo falasse da Tijuca ou de um tijucano, e isso começou a recriar um sentimento diferente no bairro. Começava ali essa história do cara achar bacana falar do bairro, do Rio Maracanã, do Paulo Emílio, do Vavá…

E esse sentimento – o amor arraigado do carioca pela sua cidade – que cresceu e se solidificou por diversas razões (que não cabem agora), deve muito ao Moacyr Luz, que incansavelmente, como reza a letra do samba, tira, dia após dia, “as flechas do peito do meu padroeiro”.

Na mesma rua Garibaldi, Moacyr – voltando no tempo, indo, sabe-se lá, ao encontro dos avós maternos, – deu de reinventar a feira. Cooptou um feirante, arrendou uma barraca e passou a fazer, sempre às sextas-feiras, às margens do rio Maracanã, uma reunião de amigos que, como acontece com tudo onde põe as mãos, virou evento de proporções olímpicas.

Tinha uca, açúcar, cumbuca de gelo e limão, camarão comprado e frito na hora, ostras praticamente vivas, jiló, alho e óleo, uma horda de malucos e de malucas que passavam as manhãs e atravessavam os começos das tardes em torno dele, dono absoluto do pedaço, anfitrião daquela barraca, mais um degrau na trajetória zona norte do Moacyr.

Moacyr foi virando, aos poucos, “o embaixador dessa cidade”, título que Paulinho Pinheiro deu a Pixinguinha em letra (comovente) feita para samba do Moacyr.

E foi mesmo: São Paulo passou a reverenciar o Moacyr como embaixador de São Sebastião do Rio de Janeiro, e ele passou a freqüentar cada vez mais a cidade injustamente carimbada como “túmulo do samba”. Fez do Bar Pirajá, a“esquina carioca” em São Paulo, uma espécie de bunker seu. Ia pra São Paulo levando o violão e, junto com ele, além das seis cordas, os seis postos de Copacabana – “do um ao seis” – e a zona norte, sempre ela, regando cada pedaço por onde passava pra São Paulo ganhar novo alento – e ganhou, gerou frutos, e não por outra razão é o segundo convidado da série “O Samba na Roda”, depois da estréia com o mestre Wilson Moreira, também seu parceiro.

Moacyr também sonhou o Samba Luzia, que hoje é realidade, às margens da Baía de Guanabara – foi quem plantou a primeira semente, que germinou.

O Renascença, há oito anos, é um fenômeno. Foi de novo Moacyr quem sonhou aquele encontro entre músicos, às segundas-feiras, e que se transformou naquela loucura que o Andaraí – zona norte! – vive semana após semana, com mais de mil pessoas em volta da mesa que comanda, como se fora, ele próprio, o anjo da velha guarda que cantou sobre verso de seu mais fiel parceiro, Aldir Blanc, abençoando a rapaziada que divide com ele a alegria daquelas tardes.

Mais outra prova de que Moacyr Luz faz das suas para torcer a trilha do samba para a zona norte da cidade? O Samba da Ouvidor, realidade também consolidada pela liderança de Gabriel Cavalcante, tijucano de escol, dileto seguidor da luz do Moacyr, ele próprio já com luz própria, começou com as suas bênçãos. Num dia 16 de setembro de 2006, tendo como testemunhas não mais do que 10, 15 pessoas, Moacyr desfiou sua obra durante uma tarde inteira.

Já escuro, sol posto, a pedidos acabou por reencenar ali um número somente testemunhado pelos felizardos partícipes daquelas reuniões indescritíveis em sua sala-botequim na Muda, cantando a canção que fez sozinho, música e letra, pra seu pai. “Luzes acesas na minha memória, escuto o silêncio e sinto saudade da voz de meu pai…”.

Os presentes sentiam que Moacyr, uma vez mais, estava plantando algo que brotaria forte pra fazer História. Seguiu cantando que luzes acesas “(…) movem o curso da minha vida (…)”, e fincou-se em cada um a certeza de Moacyr não é mero espectador do curso de sua própria vida e da vida da cidade que ajudou a reerguer. Moacyr, como ferreiro, torceu o tempo, torceu as ruas, torceu os morros e a geografia da cidade pra mover, ele próprio, o samba para a zona norte da cidade, e dali para todo o Brasil, que reconhece nele o Embaixador da mui amada e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.”

Até.

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ALDIR BLANC E ANESCAR, CRIADOR E CRIATURA

A cidade do Rio de Janeiro viveu, na noite de ontem, um momento mágico e por uma razão muito simples: Aldir Blanc esteve na rua. Mais precisamente no bairro do Leblon, na livraria Argumento, para prestigiar o lançamento do livro Aldir Blanc – Resposta ao tempo, do jornalista Luiz Fernando Vianna. Não é meu papel, tampouco minha intenção, fazer o registro jornalístico da noite (feito aqui, pelo Sidney Rezende). Quero mesmo é lhes contar a história de um reencontro que eu, não escondo meu orgulho por isso!, arquitetei. Antes, porém, vamos ao ano de 2009.

Passamos a madrugada de 04 para 05 de agosto de 2009, eu e Leo Boechat, no bunker do Blanc, na Tijuca (leiam aqui sobre a inacreditável noite).

Aldir e Leo não mais se encontraram desde aquele agosto de 2009…

Deu-se que passou o tempo e poucas semanas depois da morte da Dani, em julho de 2011, acordei destruído determinado dia, ainda esfacelado por conta de tudo aquilo. Como “cada um tem a própria receita pra combater a desgraça”, um dos versos blanquianos que repito como mantra, ancorei no Bar Britânia, na Tijuca, pela manhã, a fim de combater, à base de ostras e cerveja, a dor que me consumia. Leo Boechat ligou-me, sacou o clima (coisa de craque) e disse:

– Tô indo praí.

Em menos de uma hora bebíamos juntos. Leo, profundamente alérgico a frutos do mar (e eu acho que foi pra me agradar, sei lá!) disse à certa altura que comeria “só a pontinha de uma ostra”. Assim foi feito e em segundos meu compadre estava vermelho (tendendo ao roxo), dramaticamente pondo as mãos no pescoço e tossindo. Liguei, imediatamente, pro meu Orixá vivo:

– Aldir? Tu lembra do Leo, aquele meu amigo que esteve aí no dia da entrevista do João?! – ele, do outro lado da linha, lembrou-se no ato.

Segui:

– Tava bebendo comigo, é alérgico a frutos do mar, comeu uma ostra e está tod… – fui interrompido.

– Leva o cara pro hospital agora! Agora! Ele vai morrer! Vai morrer!

Enquanto isso, Leo atravessava a rua de volta trazendo uma caixa de Polaramine, ainda vermelho e já tendendo ao cor-de-rosa. Explodiu meu celular, era o Aldir:

– E aí? E aí?

Contei tudo, atualizei o boletim, passei o telefone pro Leo (dia desses conto como também já tive consultas profícuas com o Aldir por telefone), desligamos, continuamos a beber, a tarde começou a cair como um viaduto e o telefone tocou de novo. Aldir, audivelmente emocionado:

– Edu…

– Oi.

– Eu sabia, eu sabia…

Fiquei em silêncio esperando…

– O Leo é o meu compadre Anescar do samba com o João… Escrevi sobre ele muito antes de conhecê-lo!

Explodi de rir e fiz o Leo explodir comigo diante da genial sacada do genial bardo.

Ontem, pouco antes de sairmos da livraria, minha Morena – que ganhou um abraço-benção do Aldir que quase me derrubou… – disse:

– Uma foto, uma foto de vocês três!

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Fez a foto.

E o Aldir, que já havia dedicado o livro do Leo para o Anescar, postou-se entre nós, abraçou-nos e disse: vamos cantar o samba que eu fiz pra ele.

Taí o registro.

Volto a falar sobre a noite de ontem. Por tudo, profundamente emocionante para mim.

Até.

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BOLA PRETA

Corria o ano de 2009, dia 20 de janeiro, e lá estava eu – como sempre – na festa de aniversário da livraria do meu coração, a mais carioca das livrarias da cidade, a Folha Seca, comandada pelo Comendador Rodrigo Ferrari. Samba comendo solto do lado de fora, na rua do Ouvidor, até que a noite foi caindo, restamos uns poucos no interior da livraria e encostei naquele sagrado balcão com meu copo americano e minha cerveja.

Chegou-se o legendário Zé Leal, chegou-se Gabriel Cavalcante (quando ainda não me era hostil) e chegou-se, também, o querubim Tiago Prata, apelido que lhe foi dado por Aldir  Blanc (vejam aqui como foi cravado o apelido).

Alguém fez a sugestão. Bola Preta, de Jacob do Bandolim e com letra póstuma de Aldir Blanc, genial como de praxe, e contando toda a história do histórico cordão. Ouso dizer, sem medo do erro, que só eu sei, de cabeça, de cabo a rabo, a imensa letra do bardo tijucano. Com o auxílio desses três craques – e eu não me lembro quem foi que registrou o momento – mandei bala.

Estávamos a poucas semanas do Carnaval, e o Bola Preta já fazia de mim um ansioso – tanto que cantei emocionado.

Até.

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O BÊBADO E A EQUILIBRISTA

Quando eu escrevi Uma noite na Tijuca, aqui, contando sobre a inacreditável tarde, a inacreditável noite que viveu-se, no dia 10 de setembro de 2007, no Estephanio´s Bar, durante as filmagens do filme Praça Saens Peña, de Vinícius Reis, exibi, também, um vídeo gravado naquela tarde, no qual o artista plástico Mello Menezes, acompanhado pelo violão certeiro de Tiago Prata (chamado de neto, naquela noite, por Aldir Blanc, está no texto!), interpreta de forma lancinante a belíssima Valsa do Maracanã, de Paulo Emílio e Aldir Blanc (é igualmente lancinante a interpretação do Prata, um craque).

Quero lhes contar, rapidamente, sobre a relação entre o Estephanio´s Bar e o Aldir.

O Estephanio´s, já lhes contei, ficava na esquina das ruas Ribeiro Guimarães e Artistas. O Aldir, que escreveu, inclusive, o belíssimo livro Vila Isabel – Inventário da Infância, passou grande parte de sua infância a poucos metros dali, na rua dos Artistas número 257, onde moravam seus avós Aguiar e Noêmia. Aquele bar era, portanto, de certa forma emblemático pra ele. E uma curiosidade: bares têm, quase todos, imagens de santos em seus balcões, em suas paredes, em seus altares pagãos. Lá, no Estephanio´s, tínhamos uma imagem gigantesca do Aldir Blanc, pairando sobre as cabeças dos freqüentadores. Talvez por isso o diretor do filme, Vinícius Reis, tenha escolhido o Estephanio´s para a gravação das imagens de cenas do filme que juntavam o ator Chico Diaz contracenando com o Aldir, no papel dele mesmo.

E o Aldir, se não era exatamente uma figura fácil entre os freqüentadores, até que foi muitas vezes – muitas! – ao Estephanio´s – tanto no antigo, na rua Visconde de Itamarati, como no da rua dos Artistas. Foi, cantou, tocou, varou noite, protagonizou muitas das mais bacanas noites naquele bar que, como lhes disse aqui, fez história na Tijuca. Foi até enredo do bloco do pedaço, o Segura pra não cair, cujas fotos disponibilizei aqui, e escreveu aquela que é a mais bela página da história do bloco: quando o enredo, no ano seguinte, em 2005, foi o João Bosco, Aldir desfilou e, à certa altura fez sinal e pediu silêncio à bateria. Chamou o violão do bloco, disse algo em seu ouvido, fez o mesmo com o João e os dois, para delírio absoluto dos milhares de presentes, cantaram juntos O Mestre-Sala dos Mares. Vamos voltar à noite do dia 10 de setembro de 2007.

Uma vez desmontado o set de filmagens, ficamos todos para a noite que se anunciava inesquecível.

O que quero lhes dizer, hoje, e lhe mostrar, é um tesouro. Ontem à noitinha a Gisela Camara, assistente do Vinícius Reis, avisou-me que tinha descoberto um vídeo muito especial, encontrado por acaso enquanto remexia em suas coisas, seus registros, seus materiais. E era, de fato, um tesouro.

O vídeo mostra Aldir Blanc cantando um de seus clássicos, O Bêbado e a Equilibrista, acompanhado, mais uma vez, pelo genial Tiago Prata, à direita do bardo tijucano, de vermelho. À direita do Prata, eu. À minha frente, à esquerda do Aldir, Mary Blanc, que dá uma força ao Aldir, travado pela emoção à certa altura da letra (notem que a voz falha quando canta-se o “irmão do Henfil”…). Vê-se Rodrigo Ferrari, já quase no final do filme, no canto à direita da tela. E a voz que emenda com o tema de Chaplin, terminada a música, é do grande Mello Menezes.

Meus agradecimentos públicos à Gisela e a Tainá, que fez o registro. Um momento, sem sombra de dúvida, pra sempre na minha melhor memória, e que agora divido com vocês, meus poucos mas fiéis leitores.

Até.

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HOJE TEM BETH CARVALHO!

Acordei hoje, sábado, profundamente comovido. Ando, aliás, quem me lê e me conhece sabe, profundamente comovido. Esse viver-o-luto ao qual me dedico com a intensidade que me é freqüente – e que me serve de antídoto contra o estelionato afetivo – tem feito de mim um homem com a emoção à flor-da-pele, e me perdoem, desde já, se isso lhes soa piegas. O amor, meus poucos mas fiéis leitores, é piegas – ora!

Estive, na quinta-feira à noite, na casa de Beth Carvalho, uma amiga querida, companheira de tantas histórias e de tantas vivências, madrinha do samba – como é carinhosamente, e com justiça, chamada por quem manja do riscado – e representante do mais alto degrau do panteão da música brasileira. Eu não a via pessoalmente desde seu aniversário, em março, quando lá estive com a Dani – e pela última vez. Falamos disso – da Dani -, falamos muito sobre a vida, sobre seu novo disco – o fantástico Nosso samba tá na rua – e sobre o show, que estréia hoje, no Rio de Janeiro.

Se a Beth Carvalho canta, é pra lá que eu vou!

Beth fez uma dedicatória que me comoveu pacas – “Ao querido amigo Eduardo o meu carinho eterno” – e hoje cedo, porque acordei já com os olhos marejados e com o samba comendo solto em casa, mandei flores, mandei rosas pra ela, que ela merece. Por ser a artista que é, a mulher que é, a brasileira que é, lutadora incansável.

Deixo com vocês o vídeo produzido para promover o lançamento do disco – muito bacana, também, o filme.

E por fim, a faixa que mais tenho ouvido, Arrasta a sandália, parceria de Dayse do Banjo com Luana Carvalho, ela mesmo!, a filhota (linda, cada vez mais linda) da Beth. Partido-alto que foi gravado, no CD, com participação de Zeca Pagodinho, afilhado da Beth, ele um de seus mais generosos afilhados – ou o mais generoso. O Zeca, mais-que-consagrado, jamais deixou de render homenagens à madrinha, jamais negou um convite que fosse, jamais deixou de reverenciar aquela que lhe estendeu a mão pela primeira vez, ainda no terreiro do Cacique de Ramos. Troço bonito, isso.

Aumentem o volume, que nosso samba tá na rua!

Até.

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O RIO, POR LUIZ ANTONIO SIMAS

Já que falei hoje, mais cedo, aqui, sobre o Rio de Janeiro, essa cidade absolutamente fora de série, decidi transcrever alguns trechos de uma recente entrevista que demos, eu e Luiz Antonio Simas, professor maiúsculo as 24h do dia, justamente sobre o Rio. É evidente que as transcrições são todas de falas do Simas, que estava, inclusive, emocionadíssimo nesse dia. Exaltou-se, falou alto, foi veemente quando expôs, de forma despudorada, sua paixão pela cidade em que vive.

“Quando eu falo pra alguém conhecer o Rio de Janeiro, a primeira coisa que eu digo é o seguinte: já é uma cidade interessante pra você conhecer, porque é uma cidade absolutamente improvável. Se você observa, por exemplo, a característica da geografia do Rio, aqui não era pra você ter cidade nenhuma! Porque isso aqui era pântano, era montanha, era alagadiço, era o mar invadindo tudo… Então pra você construir uma cidade aqui, você teve que furar morro pra fazer túnel, você teve que drenar pântano, então é uma cidade absolutamente inusitada. E eu acho que o Rio é a cidade mais sincera do Brasil. Por que? Por conta dessa geografia muito peculiar do Rio… a montanha, o mar… O Rio é uma cidade, por exemplo, que não tem aquela noção clássica de periferia. Quando você chega, por exemplo, a São Paulo, a Belo Horizonte, você tem um centro, você tem uma região que é habitada por uma classe média, por uma classe média-alta, e aí você vai lá pro inferno e lá no inferno você tem a periferia…. A periferia do Rio de Janeiro tá dentro da cidade! O Leblon, que é o bairro de IPTU mais caro, Ipanema, que tem IPTU mais caro… Só que Ipanema tá convivendo com o Pavão-Pavãozinho, o Leblon tá convivendo com o Vidigal, aqui na Tijuca a gente tá convivendo com o Borel, tá convivendo com a Formiga, tá convivendo com o morro do Salgueiro, a gente tá convivendo com o Turano, a gente tá convivendo com a Casa Branca… E isso deu ao Rio de Janeiro uma peculiaridade cultural absolutamente maravilhosa… Isso é muito sério! Quando o Noel Rosa morreu, que é um ícone da nossa cidade… o Zé Ramos da Mangueira fez um samba pro Noel Rosa! O Noel Rosa era o branco, o Noel Rosa era o estudante de Medicina, o Noel Rosa era o aluno do São Bento que subia o morro da Mangueira porque era do lado da Vila Isabel, onde ele morava, um bairro que tinha operário, que tinha classe média… Aí o Zé Ramos faz o samba quando o Noel morre, ele diz (cantando):Chegou a capital do samba / Dando boa noite com alegria / Viemos apresentar o que a Mangueira tem / Mocidade, samba e harmonia / Nossas baianas com seus colares e guias / Até parece que estou na Bahia”. Aí ele diz: “Da cidade alta da Mangueira / Avisto a Vila, sinto saudades de alguém…”. Sinto saudades de alguém! É o Noel! É do Noel! Ele tá lá do alto do morro da Mangueira, e da cidade alta da Mangueira ele enxerga Vila Isabel! Ele enxerga o bairro onde viveu o sujeito de classe média, o Noel Rosa…Que aí subiu o morro, e aí o morro desceu… Então isso deu ao Rio de Janeiro uma peculiaridade! A nossa cidade é uma cidade única! É uma cidade que misturou tudo, é uma cidade de cultura de fronteira, é uma cidade em que a periferia tá dentro dela, o Rio de Janeiro não é uma cidade covarde! Todas as críticas que fazem à minha cidade do Rio de Janeiro são críticas que me fazem cada vez mais gostar do Rio de Janeiro! Porque o Rio de Janeiro não esconde! O Rio de Janeiro é aquilo que ele é mesmo! Eu chamaria um sujeito pra conhecer o Rio de Janeiro, primeiro, pra conhecer uma cidade que é rigorosamente peculiar. Você não vai encontrar outra com essa característica que o Rio tem!

A formação do Rio é muito parecida com Salvador, com São Luis do Maranhão, com o Recife… Na verdade, foram os grandes portos de recebimento de escravos no Brasil… Se você considerar que a gente teve 388 anos de escravidão, quase 4 séculos, a cidade é essencialmente uma cidade de rua, uma cidade negra, que tem essa característica…Aqui, pro Rio, vieram muitos bantos, depois chegam os yorubás, e os saberes africanos tem uma característica peculiar que é a seguinte: a cultura, a vida, ela se passa muito no espaço da rua, no espaço do mercado, a casa é um detalhe! Então o Rio de Janeiro tem uma tradição que eu acho que herdou da África… como Salvador tem, como São Luis tem… como Havana, em Cuba, tem… Esse detalhe é interessante… é uma cidade de rua, é uma cidade de mercado, em que o encontro é no espaço público… De certa maneira, o espaço de civilização entre os africanos é o espaço público. A vida ali se passa na rua… Você chega à Nigéria, à Angola, ao Congo, a rua é o espaço de convívio. E o Rio é uma cidade de rua, as coisas acontecem na rua, é a cidade do mercado, da feira… o Rio é uma das quatro grandes cidades do Brasil que eu chamo de cidades que têm como patrono, Elegbara, Exu… a entidade que cuida da rua, da esquina… Daí a ligação com Salvador, que é conhecida como a Roma Negra…

Se você chegasse no Rio de Janeiro em 1910, você ia observar o seguinte: está surgindo o samba urbano, tal como o conhecemos hoje, como manifestação cultural de comunidades negras… quem faz samba em 1910 é o preto! É o cara que tá batendo tambor, são as macumbas na casa da Tia Ciata, tá rolando aquele babado entre os negros. E o futebol era praticado rigorosamente por branco. Então em 1910, é o branco joga bola e é o preto faz samba. Se você viaja um pouquinho no tempo e chega ao início dos anos 30, o grande ídolo do futebol no Rio de Janeiro é um preto, é Leônidas da Silva, e o grande sambista é um branco de classe média, o Noel Rosa. O Rio é a cidade que permitiu ao branco fazer samba e ao preto jogar bola! Os dois se conheceram, porque o Leônidas chegou a morar em Vila Isabel, o Noel era de 1910, o Leônidas de 1913… É uma circulação tensa e intensa…”

É por isso que eu sempre digo e agora repito: sou um sujeito de sorte por desfrutar do convívio com esse brasileiro máximo que é Luiz Antonio Simas!

Até.

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