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ARREMESSO AO PASSADO (02)

Em oito dias, completo 48 anos. E em trinta e oito dias, 17/05, completa 70 anos a minha mãe. O Brizola morrera há poucas semanas e eu estava, naquela noite em 2004, num samba que acontecia no Guanabara, em Botafogo, de cara pra Baía, pro Pão de Açúcar. Estava no mesmo samba meu irmão querido, Fernando Szegeri. À certa altura, o couro comendo, noite alta, chega Beth Carvalho. E quando a Beth Carvalho chegava numa roda, meus poucos mas fiéis leitores, o couro comia ainda mais forte. Quando nos vimos, durante o abraço, lamentamos o morte de nosso eterno e saudoso governador Leonel de Moura Brizola. E na primeira oportunidade que teve, entre um samba e outro, Beth deu de cantar o Hino da Independência. Chorei. Choramos todos. Chorou de esguichar, Fernando Szegeri. E eu não sei se movido por essa emoção ou se embalado por ela, fato é que o Fernando chamou-me à beira da baía e me disse, entre soluços:

– Quero que sejas o padrinho da Iara!

Eram – o quê?! – duas e meia, três da manhã, e ele bateu o telefone pra Railídia, mãe da Iara, pra comunicar o fato. Falei também com a atônita Railídia, acordada àquela hora por tão inusitado telefonema, e eu era então padrinho da sexta criança (abaixo, foto da Iara que enfeitava minha geladeira).

iara na geladeira

Cinco anos antes, 1999, Mariana Blanc deu-me a Milena de presente. Tinha eu só 30 anos de idade. Hoje, quase-morro de orgulho da médica e da mãe do Danilo, bisneto do Aldir, neto da Mariana, tataraneto do saudoso Ceceu.

Foram chegando em fila, os afilhados. Depois da Milena, o Alfredo, filho da Raquel e do Alfredo. Em 2000, em dezembro, foi a vez da Ana Clara, a única que foi batizada na igreja, e na de São Judas Tadeu, exigência minha docemente acatada por seus pais, Magali e Ricardo. Depois da Ana Clara, o Raphael, que era filho de meus vizinhos de porta. Pouco depois, a Dhaffiny, filha da Lu e do Buba. Foi quando chegou-me a Iara.

Hoje sou também padrinho da Rosa, irmã da Iara, filha da Stefânia e do Fernando. Da Helena, que o Leo Boechat, à moda Szegeri, movido pela emoção do momento, disse-me de olhos cheios d´água e de cana:

– Quero que você seja também padrinho da Helena… – que já tinha padrinho, assim como a Iara, mas e daí? Esses afetos são de multiplicar, não?

Estávamos no final de 2011, um ano duríssimo pra mim, quando Luiz Antonio Simas e sua Candinha me deram Benjamin pra ser meu afilhado. Afilhado-de-rua, emendou o pai. Contei-lhes aqui sobre o episódio, que me emocionou sobremaneira.

Veio 2012, com ele veio vindo a Morena, e sua afilhada, a Nathalia, fez autodeclaração – é minha afilhada. A décima. Mas tem a Maria Helena, hoje uma mulher, que vira-e-mexe, como recentemente, deixa escapar um dindo falando comigo.

São, essas crianças (que já não são mais crianças em sua maioria), fonte permanente de apaziguamento das tais tormentas que me acometem, vez por outra. Eu mesmo, que às vezes teimo com a calça curta, a camisa listrada, o time de botão sempre ao alcance da mão guardado com talco dentro de uma lata de cuecas, sou um deles. Procuro pelas minhas madrinhas e não as encontro, salvo lá atrás, cada vez mais longe. Procuro por meus primos, minhas primas, eram tantos, e pude revê-los dia desses no enterro de um dos meus tios que muito pouco eu via.

No dia desse enterro a que me refiro, eu fui um assombro de “ohs” e “ahs” a cada primo que via, a cada prima que via, a cada tio, a cada tia, todos tão velhos e de cujo convívio fui sonegado na mesma medida em que fui cúmplice e partícipe dessa sonegação, desse afastamento, desse movimento que é a antítese do que genuinamente sou. Porque somos isso mesmo, a luta permanente contra o que fizemos, contra o que fizeram conosco quando não nos era possível reagir, contra a impossibilidade dolorosa de voltar o tempo, contra a finitude, esse terror, contra as janelas abertas para o infinito diante de nós.

Minha avó e minha mãe sempre me contaram que eu, moleque, ainda tropeçando quando caminhava, tinha altas conversas com as ondas do mar. Gritava, gesticulava, fazia comícios diante do oceano. Hoje encontrei minha mãe, seus olhos marejaram à certa altura, não agi como a criança que fui diante daquela água salgada brotando de seus olhos, mais bonitos hoje do que há tempos, emoldurados agora por cabelos brancos que lembram os cabelos de minha avó e de minha bisavó.

Tive ímpetos de enxugá-los. Mas por medo de molhar os meus, fiquei quieto, com certo medo, até. Não é hora de me expôr.

E não estou sendo irônico nesse momento em que sinto o vento dos leques das velhas matriarcas da minha família farfalhando e escondendo, e deixando de esconder, e escondendo, e deixando de esconder seus rostos.

A Morena adora usar leque.

Até.

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HOJE TEM BETH CARVALHO!

Acordei hoje, sábado, profundamente comovido. Ando, aliás, quem me lê e me conhece sabe, profundamente comovido. Esse viver-o-luto ao qual me dedico com a intensidade que me é freqüente – e que me serve de antídoto contra o estelionato afetivo – tem feito de mim um homem com a emoção à flor-da-pele, e me perdoem, desde já, se isso lhes soa piegas. O amor, meus poucos mas fiéis leitores, é piegas – ora!

Estive, na quinta-feira à noite, na casa de Beth Carvalho, uma amiga querida, companheira de tantas histórias e de tantas vivências, madrinha do samba – como é carinhosamente, e com justiça, chamada por quem manja do riscado – e representante do mais alto degrau do panteão da música brasileira. Eu não a via pessoalmente desde seu aniversário, em março, quando lá estive com a Dani – e pela última vez. Falamos disso – da Dani -, falamos muito sobre a vida, sobre seu novo disco – o fantástico Nosso samba tá na rua – e sobre o show, que estréia hoje, no Rio de Janeiro.

Se a Beth Carvalho canta, é pra lá que eu vou!

Beth fez uma dedicatória que me comoveu pacas – “Ao querido amigo Eduardo o meu carinho eterno” – e hoje cedo, porque acordei já com os olhos marejados e com o samba comendo solto em casa, mandei flores, mandei rosas pra ela, que ela merece. Por ser a artista que é, a mulher que é, a brasileira que é, lutadora incansável.

Deixo com vocês o vídeo produzido para promover o lançamento do disco – muito bacana, também, o filme.

E por fim, a faixa que mais tenho ouvido, Arrasta a sandália, parceria de Dayse do Banjo com Luana Carvalho, ela mesmo!, a filhota (linda, cada vez mais linda) da Beth. Partido-alto que foi gravado, no CD, com participação de Zeca Pagodinho, afilhado da Beth, ele um de seus mais generosos afilhados – ou o mais generoso. O Zeca, mais-que-consagrado, jamais deixou de render homenagens à madrinha, jamais negou um convite que fosse, jamais deixou de reverenciar aquela que lhe estendeu a mão pela primeira vez, ainda no terreiro do Cacique de Ramos. Troço bonito, isso.

Aumentem o volume, que nosso samba tá na rua!

Até.

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BETH CARVALHO, 65 ANOS

Eu nem consigo me lembrar de quando, exatamente, conheci a Beth pessoalmente. E faço questão de frisar o “pessoalmente” porque a Beth eu conheço (e ouço) desde muito pequeno. Meu pai, um homem de gosto restritíssimo, sempre foi absolutamente apaixonado por ela. Pra vocês terem uma idéia, papai é assim: cantor? Só Tim Maia, Dick Farney, Frank Sinatra e Lucho Gatica. Cantora? Leny Andrade, Claudete Soares e Beth Carvalho. Pois desde pequeno, bem me lembro, via o velho chegando em casa, uma ou duas vezes por ano, trazendo debaixo de braço, com um sorriso de criança no rosto, o mais recente LP da Beth Carvalho. Certa vez, em 1997, quando fiz 28 anos, armei uma festa de arromba no apartamento de meus pais, no Alto da Boa Vista (Aldir Blanc escreveu, dias depois, hilariante crônica sobre a efeméride, aqui) – foi a primeira e a última. Duas situações engraçadas naquele dia, fora a retratada por Aldir na crônica: eram mais ou menos 18h e tocou o telefone. Papai atendeu. Deu-se o diálogo:

– Alô? – temos, eu e papai, a voz parecidíssima.

– Oi, Edu! Estou no salão fazendo o cabelo. Me dá de novo o endereço de seus pais…

– É o pai dele que está falando… Quem quer falar com ele?

– Oi! Não precisa chamá-lo, não. Só quero o endereço daí… é a Beth Carvalho.

Papai, que não sabia que ela ia (escondi de propósito para lhe fazer uma surpresa), passou-me o telefone mais branco que sorvete de creme (que quando derrete, vira sopa, como lhes contei aqui).

A outra: no mesmo dia da tal festa estava havendo uma comemoração na quadra da Mangueira por conta do aniversário da verde-e-rosa. Beth já havia me avisado que chegaria tarde e assim foi. Por volta das onze e meia da noite, quando Moacyr Luz (vejam vocês…) já comandava a noitada com seu violão, chegou a aniversariante de hoje com alguns amigos ritmistas, dentre eles o Bira da Mangueira, filho do Padeirinho. Papai, ao vê-la, correu pro quarto e de lá voltou com todos os LPs pra que ela os autografasse, um por um.

Feito o longo intróito, vamos ao que interessa.

Hoje, nesse 05 de maio de 2011, minha querida amiga completa 65 anos de vida muito bem vividos. Mais que isso, vividos em prol da música brasileira, do samba, do Brasil e de seu povo. Eu disse lá no começo do texto que não me lembro de quando nos conhecemos, mas lembro de quando nos apaixonamos um pelo outro (estou, hoje, ligeiramente imodesto): nos primeiros quinze minutos de papo. A nos unir, o amor pelo Brasil, pelo samba, a admiração inextingüível por personagens como Che Guevara, Fidel Castro, Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.

A Beth, que no ano passado concedeu-me, e a Luiz Antonio Simas, uma senhora entrevista (leiam aqui), que passou por maus bocados por conta de problemas de saúde, tem mais é que comemorar, com pompa e circunstância, seus 65 anos. Já em 2006, por ocasião de seus 60 anos, prestei-lhe homenagem através desse texto aqui. Em 08 de maio daquele ano, deixou lá seu comentário meu irmão querido, Fernando Szegeri:

“Faço coro, assino embaixo letra por letra, bato o copo em pé e, mão no peito, canto em alto som em homenagem a ela e ao meu mano, em ritmo de samba:

Brava gente brasileira
Longe vá temor servil
Ou ficar a Pátria livre
Ou morrer pelo Brasil…

E mais não se precisa dizer, como sempre. A não ser, para bem dos fatos, o que vai omitido pela compreensível modéstia: que essa gigante gravou – sim, senhores! – uma bela canção de autoria do dono deste Buteco, em parceria com Edmundo Souto.”

Deixei, pois, a modéstia de lado quando publiquei o texto Sinfonia Sacopenapã, em janeiro do ano passado, disponibilizando a gravação, feita ao vivo, da canção de Edmundo Souto para a qual fiz a letra, aqui. Uma grande alegria – mais uma! – que me foi proporcionada por ela.

Como também foi motivo de alegria ter sido a mim confiada a missão de fazer correr sua declaração de voto em Dilma Rousseff em outubro de 2010, aqui.

A Beth é isso, meus poucos mas fiéis leitores: generosa e grandiosa, glória brasileira.

Deixo aqui minha homenagem, minhas flores em vida (sempre!), meus votos de muitos, muitos anos de vida e minha alegria exposta no balcão imaginário do buteco, que eu sou um sujeito que vibra demais no dia do aniversário dos meus mais-queridos. 

Até.

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ENTREVISTA – BETH CARVALHO

No dia 27 de julho de 2010, numa terça-feira, uma semana depois de uma visita minha à Beth Carvalho, que recupera-se, em casa, e de vento em popa!, de uma cirurgia realizada há uns meses, estive com meu mano Luiz Antonio Simas“o maior conhecedor de samba de enredo do mundo!”, foi assim que a madrinha o saudou – em seu apartamento, em São Conrado, na zona sul do Rio de Janeiro, para mais um entrevistão do BUTECO. Ficamos lá, precisamente, das oito da noite às duas da manhã.

Eu, confesso – e confesso de novo, já disse isso aqui “n” vezes -, sou suspeitíssimo pra falar de Beth Carvalho. Como se não bastasse a admiração que tenho, herdada de meu velho pai, pela grande artista que ela é, tenho o privilégio de desfrutar de sua amizade, podendo atestar, com mais de 15 anos de convívio, que Beth Carvalho é uma brasileira máxima. Generosa, apresentou-me a Leonel Brizola, num encontro a três, no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, no início dos anos 90. Em 2007, levou-me pra conhecer Hugo Chavez, na Assembléia Legislativa, escrevendo (mais) uma página marcante da minha vida, já que passamos aquele dia, 18 de janeiro de 2007, inteirinho juntos, na rua do Ouvidor, mais precisamente na FOLHA SECA, a livraria do meu coração, vejam aqui (e vejam que curioso, na companhia de Moacyr Luz e Tiago Prata).

Pude atestar, ao longo desse tempo, que a mesma generosidade que ela tem por força da profissão (indo beber na fonte, desobrindo talentos, estendendo a mão a quem a comove) ela tem com os amigos. Ela sempre divide o pão, como contou emocionada durante a conversa registrada em mais de duas horas de gravação. Contou sobre sua infância, sobre suas influências e referências, sobre suas paixões, sobre política, e sua faceta política é das que mais me comove. Engajada sem ser patrulheira, envolvida até a raiz dos cabelos sem segundas intenções, esteve sempre – sempre! – ao lado do povo brasileiro. E se eu sou suspeito, insuspeitada é a opinião de outro brasileiro máximo, Fernando Szegeri: “(…) não acho Beth Carvalho somente uma grande artista. É uma figura de elevada importância na cultura brasileira das últimas 4 décadas, pelos autores que ela gravou, pelos intérpretes que incentivou e/ou descobriu. E pelas suas atitudes políticas também, (…), brizolista de 4 costados e firme em questões pontuais, por exemplo recente, na polêmica da numeração dos discos, enquanto os caetanosvelosos da vida tomaram partido da indústria multinacional. (…) quem diz que Beth não gosta de butiquim, de subúrbio, de pagode, sinceramente, não viu o que eu vi, nem uma, nem duas, nem cinqüenta vezes só. Esta defesa eu vou fazer, em nome do que eu vi nesses últimos vinte e cinco anos, toda vez que o nome de Beth Carvalho vier à tona.”.

Se até Luiz Antonio Simas, outro grande brasileiro, conhecedor profundo da música brasileira, espantou-se e encantou-se com as revelações feitas pela Beth ao longo da entrevista, você também, que me lê, haverá de ficar surpreso e emocionado.

E você perceberá, também, que não houve pauta, que não houve sensacionalismo, e que não houve sequer sombra de intenção de provocar a fera – ingredientes que, vira-e-mexe, são incluídos nas fraquíssimas entrevistas que são (quando são) publicadas nas revistas e nos jornalões, mais a serviço das assessorias de impresa e dos releases do que da informação que interessa.

Nossa (minha e do Simas) única intenção – e isso está presente, modéstia à parte, nas outras cinco entrevistas já feitas e publicadas pelo BUTECO – foi deixar a entrevistada fechar os olhos imaginariamente, puxar pela memória, trazer suas reminiscências à tona, abrir o coração e derramar sua história pra contarmos tudo por aqui.

Acho, franca e sinceramente, que conseguimos. Com vocês, Beth Carvalho!

Eduardo Goldenberg: Hoje é 27 de julho, nove e cinqüenta da noite, estamos aqui, eu e Luiz Antonio Simas, pra entrevistar Beth Carvalho. Como a gente sempre começa, Beth, fala, do seu jeito, o nome dos seus pais, onde você nasceu, as reminiscências da sua infância…

Beth Carvalho: O nome do meu pai, João Francisco Leal de Carvalho, minha mãe, Maria Nair Santos Leal de Carvalho, e eu nasci na cidade maravilhosa do Rio de Janeiro, no dia 5 de maio de 1946. Nessa ocasião meus pais moravam no Catete, na Bento Lisboa, 10. Esse prédio existe até hoje. É um prédio todo de pedra, todo de pedra, não fica velho nunca, resistente! Mas eu nasci na Pró-Matre, que fica na Gamboa. E meu pai, desde pequenininha, falava “você nasceu na Gamboa!”, e eu achava aquilo tão bonitinho… a palavra ”Gamboa”! E eu incorporei essa história… Qualquer pessoa que me perguntasse onde eu nasci, eu falava, “eu nasci na Gamboa!”. E isso ficou! E isso depois, bem mais tarde, em 72, quando eu fui fazer o disco “Pra Seu Governo” que eu pedi pro Mário Lago escrever a contracapa, ele me perguntou, “você nasceu aonde?”, eu falei, “eu nasci na Gamboa!” (ri). Aí ele disse, “ah, você nasceu no berço do samba” e tal, então ficou essa coisa… O Martinho da Vila fez um samba em minha homenagem, que é o “Enamorada do Sambão”… que ele fala (cantando) “Gamboa, Gamboa, Gamboa mas nem sempre estou na boa”, que eu também falava esse negócio de Gamboa pra ele, mas na verdade eu nasci no Catete, onde o Cartola nasceu também… (ri muito)

EG: E como foi sua infância?

BC: Minha infância foi maravilhosa, eu tive uma infância de rainha, tive tudo, tive velocípede, tive patins, tive balé (ri), tive natação, tive brincadeira na rua… Eu morei muito tempo na Urca… E a Urca era, ainda é um bairro muito…

Luiz Antonio Simas: Clima de interior…

BC: É impressionante! Pra criança não tem melhor! Então eu tive essa infância de praia, a praia da Urca não era poluída, tive infância de balé, como eu te falei, eu amava balé clássico… inclusive fui primeira bailarina na minha academia, eu tinha todo o jeito pra isso… Aos 13 anos eu engordei um pouco, veio o negócio de violão, de bossa-nova, e eu parti pra tentar o banquinho e o violão…

EG: Treze anos?

BC: Mais ou menos, por aí! Eu dei uma engordadinha, balé você tem que ser esquelética, e eu era esquelética! Pequenininha, não, mas depois eu ganhei corpo de bailarina mesmo! Eu não podia ver um poste que eu fazia barra, entendeu?! Eu era apaixonada, eu era rata do Teatro Municipal, minha mãe gostava muito… Mas também, ao mesmo tempo, eu era apaixonada por Carnaval…

EG: Desde pequena?

BC: Desde pequenininha! Minha mãe também! Minha mãe não era uma mulher de ficar saindo pra lá e pra cá mas Carnaval… ela era apaixonada! E ela me levava pra Cinelândia… Então eu via aqueles palhaços fazendo brincadeira com criança, eu me lembro disso… Tinha um XI e outro XI, juntos faziam XIXI! (rindo) Acho que tem isso até hoje, né? E aí as escolas de samba… Eu comecei a ver escola de samba eu tinha o quê?, uns 7, 8 anos de idade… E eu elegi a Mangueira pro meu coração, vai explicar! Não entendo!

EG: Sem influência de ninguém?

BC: Sem nada! Minha mãe não tinha uma escola, ela gostava de ver. Ela alugava um caixote, que era muito comum isso acontecer, a gente alugava um caixote pra ficar mais alto, que nem arquibancada tinha. E aí a gente assistia as escolas dessa maneira, Portela, Mangueira, Salgueiro, Império, não lembro… Eu lembro da Mangueira! Me marcou acho que pelas cores, pelas baianas… Porta-Bandeira e Mestre-Sala que eu sou apaixonada pela dança, né? Não deixa de ser um pouco clássica, né? Eu fiquei apaixonada pela Mangueira, então eu falava pra todo mundo que eu era Mangueira! Desde pequena, mesmo. E o baile do Teatro Municipal que era o que tinha, e era maravilhoso, baile infantil, era lindo, e os bailes de clube… Todos os clubes do Rio de Janeiro tinham um baile… Montanha, Tijuca Tênis Club, o Iate Clube, o Caiçaras, eu ia a todos. Chegou uma época que eu tinha o quê?, uns 14 anos, eu acho… Eu me mudava pra Tijuca! Eu tenho um lado tijucano forte…

EG (interrompendo): Ótimo!

(risos)

BC: … e isso por que? Minha avó morava lá, e meus primos que eu amo de paixão, Antônio Carlos, Luiz Roberto, Júlio Cesar, e minha tia Gardênia que já faleceu e meu tio Valdir… eles eram muito festeiros, muito festeiros!

EG: Você lembra a rua?

BC: Ernani Cotrim, uma rua sem saída, paralela à Maria Amália! Então a Tijuca… pra você ter uma idéia… Eu sempre morei na zona sul, morei na Urca, morei em Botafogo, morei em Ipanema… Eu acho que eu já estava em Ipanema nessa época. Agora… férias?! Eu ia pra Tijuca, dormia no quarto de empregada, numa beliche, eu dormia em cima, com aquele calor danado, com aquele morro atrás da gente, pedra pura, né? Eu ficava lá porque o Carnaval começava antes na Tijuca! Tinha quarenta bailes pré-carnavalescos!

LAS: Nos clubes?

BC: Nos clubes. No America… tinha muito bale no America. Eu, quando comecei a crescer, ia no infantil e no juvenil! E também brinquei muito no Botafogo… Eu freqüentei muito o Botafogo no Carnaval. Acho que era só no Carnaval que a gente ia lá. E o Carnaval era muito delicioso porque era na varanda, pras crianças era gostoso, tinha vento, eu me lembro que a minha mãe comentava, “ai, como é agradável aqui!”. Tinha orquestra, cara! Era coisa boa, entendeu? Os músicos eram da pesada, entendeu?! No Teatro Municipal tinha duas orquestras! Quando acabava uma, vinha outra. Wilson das Neves era um deles, que tava lá! Viu? Já desde aquela época, eu ficava ligada na orquestra, nos cantores, nos músicos… Eu tinha uma relação ali, sabe? Enfim… Carnaval… Eu aprendia cerca de setenta músicas por ano… Porque eu ouvia a Rádio Nacional direto, César de Alencar… Eu ficava o dia inteiro ouvindo aquilo… E a gente aprendia, naqueles programas, as músicas do ano, as de Carnaval. E todos os cantores tinham o que gravar no Carnaval. Nora Nei, Jorge Goulart…

LAS: Eles faziam música pra Carnaval!

BC: Sim! Eles viveram até morrer, disso! É o direito autoral mais forte do Brasil, é o direito autoral do Carnaval. Eu sei porque “Vou Festejar” segura a onda de todo mundo. Tinha que ser comigo o “Vou Festejar”, não podia ser com outra pessoa!

EG: Vamos voltar um pouquinho…

BC: Já falei muito! (risos)

EG: Com treze anos você largou o balé e foi pro violão… Foi seu primeiro contato com o instrumento?

BC: Eu tocando, sim. Mas teve o piano antes! Estudei um pouquinho, cheguei a dar uma audição e tal, mas não segui. Meu negócio era o balé!

EG: E o que é que os seus pais ouviam em casa?

BC: Meu pai e minha mãe tinham um bom gosto impressionante! Meu pai amava Dorival Caymmi, amava Noel Rosa, minha mãe ouvia muita música clássica, música erudita, ópera, ela adorava. Mas ela gostava também de cantores populares. Meu pai era mais ligado nesse negócio de compositor… Adorava Aracy de Almeida, chegou a ser amigo de Aracy, muito amigo da Elizeth Cardoso e do Sílvio Caldas. Sílvio Caldas era nossa paixão em casa. E a paixão da minha mãe era o Orlando Silva. Então aprendi isso tudo, pequena…

LAS: E as primeiras cantoras que você tem como referência são essas duas, Aracy e Elizeth?

BC: Talvez tenham sido. Mais a Aracy, viu?! Não sei te dizer. Eu sei que eu tenho tudo a ver com a Aracy de Almeida! (rindo) A mulher que vai pros botequins, a mulher que…

LAS: … rompe barreiras…

BC: É, meio isso… um pouco Chiquinha Gonzaga… tem muito a ver com esse espírito… Não sei exatamente se foi, mas acredito que sim. Eu era muito pequena…

EG: Então você foi estudar violão com treze anos?

BC: Fui estudar violão porque meu pai, pra variar… Meu pai era funcionário da Alfândega, conferente da Alfândega. Era bacharel em Direito mas não exerceu a profissão. Exerceu essa, que deu uma condição financeira boa pra gente. Não éramos ricos mas vivíamos legal. Meu pai foi pra Santos mas vinha todo final de semana. Ele adorava as filhas dele, minha mãe… Ele chegou com um disco e disse, “filha, escuta esse violão!”. Eu botei e me apaixonei. Era o João Gilberto. Me apaixonei por aquilo. Mas eu já tinha a Rádio Nacional em mim, Blecaute era o meu ídolo! Eu amava o Blecaute! O sonho da minha vida era tirar uma foto com o General da Banda. E eu tirei! (cantando) “Chegou o General da Banda ê, ê…”. E o destino é incrível, né? Não é que teve um música na minha banda, durante um tempo, que era neto do Blecaute!?

EG: Eu vou mandar pra você um fabuloso, genial e hilariante texto do Luiz Antonio Simas sobre o enterro do Blecaute!

BC: Ah, é?

LAS: Essa história é verdade! O Blecaute morreu e o camarada muito emocionado, tomou um porre, e foi homenagear o Blecaute mas foi pro cemitério errado. Entrou numa capela, achou um absurdo aquele silêncio todo e começou a cantar “Chegou o General da Banda ê, ê…” e todo mundo acompanhou!

(Beth ri muito)

BC: Então, fui encontrar o neto do Blecaute em São Paulo, em São Mateus! Não é demais? Aí o João Gilberto adentrou no meu mundo que já era muito rico musicalmente, porque eu tinha a Rádio Nacional, as cantoras populares, eu amava todas elas, Nora Nei, Emilinha, Marlene… Eu sou uma cantora de auditório! E eu tenho orgulho disso! Eu aprendi com elas, isso. Eu entro no palco, amiga da platéia! Dando amor pra platéia.

LAS: Não é aquela história de muita cantora que se diz tímida, que não gosta nem de ver a platéia…

BC: Dou meu coração pra platéia, entendeu? Isso eu via nas cantoras de auditório. E isso eu peguei. Talvez seja isso que me dê a popularidade que eu tenho. Eu não sei o que é que é vaia, por exemplo!

EG: O João Gilberto…

BC: O João foi uma mudança na cabeça de Deus e o mundo, né? Harmonia… Uma coisa da elite, da zona sul… O canto era um canto da zona sul do Rio de Janeiro… Corcovado, Arpoador, praia, garota de Ipanema, que tinha a ver com uma realidade minha. Eu também era isso… Mas eu sei o que é morar em Ipanema, sei o que é morar em Ipanema, sei o que é morar na Urca, mas sei também o que é a Tijuca, sei o que é o subúrbio. Minha mãe, quando eu era pequena, tinha amigas no subúrbio. Então eu pegava o trem com ela e ia pra Vicente de Carvalho e Padre Miguel. Eu ia pra lá sempre. Adorava aquele negócio de subúrbio, completamente diferente da nossa realidade mas que me fascinava também. Eu gostava daquilo. Desde cedo eu convivi com todas essas realidades… Como conhecia, também, todos os apartamentos da Vieira Souto… eu acho que eu conheço todos! Porque eu comecei a aprender a tocar violão pra valer, tocava legal, e hoje isso quebra o meu galho, eu tenho uma relação com músico maravilhosa porque eu sei o que é harmonia, posso discutir com músico, com maestro… Mas naquela época eu tocava legal, sabe? Me contaram, anos depois, que o Edu Lobo uma vez teria falado, “ela tem um violão masculino”… (rindo) Eu agradava muito nas festas. Eu sabia muito o repertório. Mas eu cantava, já nessas festas, eu cantava João, Tom Jobim, Nelson Cavaquinho, Cartola, cantava uns negócios que eu sabia do Salgueiro porque eu ia, com aqueles meus primos, todo domingo ao Salgueiro. O Salgueiro foi a primeira escola que se abriu pra classe média, e era no morro!

EG: Calça Larga?

BC: Calça Larga! Naquela rua que sobe, a General Roca… por ali. Lá em cima do morro. Então eu ia pro morro e eu dizia no pé! Com 13, 14 anos. Eu dizia no pé porque eu via as cabrochas sambando, eu aprendi olhando… Lógico que eu nunca fui uma cabrocha mas eu aprendi a sambar, o que era uma coisa muita rara na minha época! Eu nunca vi! Então eu cantava uns sambas de lá. Eu freqüentava também o Bafo da Onça, que era no Minerva, era época do Oswaldo Nunes, eu ia pra lá, ficava ouvindo aqueles sambas, um samba mais lindo que o outro… (cantando) “Quero ser feliz / Construir um lar / Mas o destino não quis / Quero ter alguém / Que me compreenda bem / E que me faça um dia feliz / Teremos crianças / Seremos carinhosos / Nas horas de alegria e da dor / Eu hei de ser um chefe de família exemplar / Amor, amor, amor / Não tem razão / Quem assim diz / Que o malandro não casa / Que o malandro não é feliz!” Quando tocava isso eu ficava emocionada, até chorava! Eu tinha uma coisa com o samba… E na zona sul, nem pensar… Na zona norte tinha mais! E eu comecei a freqüentar escola de samba com uma turma muito mais velha que eu. Quando eu mudei pra Ipanema, um dos meus vizinhos era um médico que era amigo do Albino Pinheiro. Inclusive a Banda de Ipanema surgiu ali naquele lugar. Eles bolaram a Banda de Ipanema, eles, o Ferdy Carneiro, e eu, claro, já querendo sair na Banda! Carnaval era comigo mesmo! Samba enredo também eu adorava, aprendia aqueles sambas compridões…

LAS: Essa época é anterior ao disco!

BC: Nossa, eu adorava saber aqueles sambas! Aí eu comecei a sair com essa turma, porque eles iam pra Mangueira. Estava pra ser inaugurada a nova quadra que Sabino Barroso e José Leal fizeram pra Mangueira.

LAS: O Leal, do Digão!

BC: É, da livraria da Ouvidor… E a Mangueira ficou linda. Eu conheci antes e depois. E a gente ia todo sábado… Eu me lembro que eu ia pra ver o Jurandir cantar! Eu era apaixonada pelo Jurandir cantando! (suspira e canta) “Minha companheira foi embora / Solidão veio comigo morar!”. Nossa, eu adorava isso! Eu vi a Leci Brandão chegar na Mangueira cantando (cantando) “Quero sim / Mais um pouquinho de inspiração”, lindo, isso. E ela foi pra ala de compositores da Mangueira… Então esse mundo aí era um mundo muito meu e dessas pessoas bem mais velhas que eu… Passei a freqüentar a praia que eles freqüentavam, porque a gente tinha a ver, a conversa tinha a ver… Nesse meio tempo eu conheci o Edmundo, arquiteto, a gente namorou, ele também tinha relação com essas pessoas, depois ficamos noivos, aí ele fez “Andança”, bom… aí já fui pra frente! É uma misturada a minha vida em termos de informação! (rindo) Zicartola eu ia muito, mas ia mais no Teatro Opinião quando surgiu a peça, que deu nome ao teatro. Você sabe que o teatro chamava Teatro de Arena e virou Teatro Opinião por causa da peça, pra você ter uma idéia do que foi aquele musical… Vocês chegaram a ver?

EG: Não…

BC: Você não tem idéia do que foi aquilo!

LAS: Tem uns registros em disco, mas só uma parte…

BC: Olha, o coração da gente vinha aqui! (põe a mão na garganta) A Nara… a Nara fez uma revolução. Ela era a musa da bossa-nova, aquela coisa de apartamento, de uísque, de frente pro mar, aquela coisa bem elitista e ela vai… (cantando) “Carcará, pega, mata e come!”. João do Vale! Aí vem com Zé Keti, né?, vem com Nelson Cavaquinho, Oduvaldo Viana Filho fazendo a peça… Foi uma revolução que ela fez, maravilhosa, e que tinha tudo a ver com o que eu também gostava, e muito, até mais, e eu acho que fui ver umas quinze vezes… Depois a Nara traz a Bethânia! Você não tem idéia do que foi a Bethânia, cara, quando ela chegou cantando, inacreditável!, arrepiava todos os cabelos. (canta) “Carcará, pega, mata e come!”. E ela falava… e eu cantava nas casas “Carcará”, “Subdesenvolvido”, já fazendo protesto! Eu já fazia protesto nessas casas de rico. (rindo) Ela falava um texto de teor político e muito emocionante, e voltava cantando… eu tenho o compacto!

LAS: Ela falava da fome…

BC: Nossa Senhora! Muito lindo aquilo, meu Deus do céu, eu chorava, muito aplauso! Foi uma coisa. Tanto que é o único teatro que tem o nome de uma peça, que eu saiba, né?

LAS: É verdade!

BC: Então depois virou Teatro Opinião. E tinha as rodas de samba às segundas-feiras… Eu já conhecia alguns sambistas, outros eu não conhecia… aquelas maravilhas… um elenco fixo… Nelson Cavaquinho, Cartola, Clementina e Xangô!

LAS: Dona Ivone Lara…

BC: Não… dona Ivone é bem depois! E eu passei a ir toda segunda-feira, aí saía dali e ia pra Adega Pérola, que tinha uns petiscos maravilhosos…

EG: Ainda tem!

Dona Ivone Lara e Beth Carvalho, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

BC: Era uma loucura… Mas eu já tô falando muito…

EG: Tá nada! Fala mais!

BC: (rindo) É que eu vou lá pro passado, volto pro presente…

LAS: O que fica de interessante nisso é o seguinte, e você vê isso em pouquíssimos músicos, cantoras e cantores brasileiros… É a questão da informação… Você tem muita informação, né? A Aracy tinha isso, o Noel tinha isso, você tem muito isso! Você transita, como eles, numa certa zona de fronteira!

BC: Verdade! Noel subiu o morro de Mangueira, fez samba com Cartola… o Sergio Cabral me chama de Túnel Rebouças! (rindo muito). Uma coisa também que eu queria falar… a parte latina! Eu tinha e tenho latinidade! E falta ainda muito no Brasil…

LAS: Verdade…

BC: E ganhei isso por causa da minha irmã, Vânia, 7 anos mais velha que eu. A Vânia, Vânia Santos Leal de Carvalho, cantava, e canta até hoje, muito bem, principalmente músicas espanholas porque ela estudou num colégio de freiras espanholas, lá no São Marcelo. Eram freiras espanholas, ela pegou aquela cultura… Essa coisa hispano, latina, eu peguei desde criança…

EG: Mais um ingrediente no seu caldeirão, né?

BC: Muito forte! Quando surgiu o Lucho Gatica, chileno, que é um dos maiores cantores do mundo pra mim, cantor de bolero, arrebatou. Minha irmã era alucinada por ele, e você sabe que irmã mais velha influencia… Quem, na minha idade, sabia quem era Lucho Gatica? (rindo) Ninguém! E a gente continuou ouvindo coisas espanholas, cubanas, veio a revolução cubana, Che Guevara, Fidel… essa coisa toda que nos encantou enormemente… “Guantanamera”… a Nara cantava “Guantanamera” no Opinião! Por isso eu tenho esse sonho de gravar um disco cantando as músicas revolucionárias da América Latina, porque eu sempre me liguei nisso, Mercedes Sosa, Pablo Milanéz, Silvio Rodriguez, Los Chalchaleros, é uma maravilha! A Rosita Gonzales, que cantava praticamente só em espanhol!

EG: Vamos voltar pro trilho!?

BC: Eu viajo muito, né? Vamos lá!

LAS: Estamos no início dos anos 60…

BC: Foram muito ricos…

LAS: Estamos no pré-golpe…

BC: Meu pai era um homem de esquerda. Sempre nos informou sobre a posição dele, e eu sempre segui ele. Papai tinha o retrato e o busto do Getúlio Vargas, papai falava muito do Leonel Brizola, do Prestes… Papai foi cassado porque pensava dessa maneira, passamos um sufoco por causa disso… Mas ele pegou o número do processo dele, jogou no bicho e vivemos um ano com esse dinheiro! (rindo) Meu pai jogava no bicho, sempre!

Leonel Brizola e Beth Carvalho, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

EG: Quando é que você decide que vai ser cantora?

BC: Não decidi! Eu adorava cantar, ia pra todo que era lugar cantando… e veja bem… eu passei a ser a queridinha dos compositores… A gente tinha uma turma que já era… Veja… Eu freqüentava a casa do Tom… Eu namorava um cara que era amigo do Tom e eu ia pra lá fazer vocal. Adorava isso! Vocal era comigo mesmo. Já fazia no colégio! Freqüentava a casa do Marcos Valle, tinha umas reuniões musicais, muito boas… Mas nós já éramos os filhos desses caras… Filhos é exagero! Mas eu tinha uma turma que era Edmundo Souto, Paulinho Tapajós, Arthur Verocai, Danilo Caymmi, Arnoldo Medeiros, Tibério Gaspar, Antonio Adolfo… a gente saía em bando! E nessa época eu já ganhava dinheiro tocando violão! E quando eu era convidada pra fazer um show, eu levava uns dez comigo e entrava pela porta da frente! Foi quando começaram os festivais… Ah, o Luiz Claudio, que toca com o Chico Buarque, também era da nossa turma! Eles começaram a fazer música. E como eu sabia cantar as músicas deles, eu passei a ser a cantora deles. Eu tenho milhões de fitas gravadas na casa de um cara chamado Karan, que se está vivo, espero que sim!, ele tem um material riquíssimo não só da gente, mas de todo mundo! Ele gravava em fita de rolo, qualidade total. Foi lá que eu conheci o Milton Nascimento, isso já em 67. Milton na fila esperando pra gravar “Morro Velho”, “Maria, Minha Fé” e “Travessia”. Foi quando eu vi que estava diante de um gênio, mas isso é outra história… O que aconteceu, então, pra eu virar cantora profissional? Eu cantava em tudo o que era lugar. Mas eu ia muito no apartamento do Raul Alvarenga Porto, maravilhoso, câmera da extinta TV Rio. Ele me adorava. Um dia ele disse, “Beth, eu vou botar você no programa do Flávio Cavalcante”, o Flávio que tinha o maior programa da época da TV brasileira em termos de audiência… Acho que era parente, tio dele. Eu fui a uma festa no apartamento do Flávio e cantei, cantei as coisas todas, cantei “Subdesenvolvido”, e ele era lacerdista! Provocando ele! Mas ele amou, me adorou, e pronto! Me botou no programa dele. Pra você ter idéia, eu não tinha nem roupa, roupa de festa, quem me emprestou a roupa foi a mãe do Raul.

EG: Isso foi em que ano?

BC: 64 pra 65, por aí. Aí eu cantei uma música que o Menescal tinha acabado de fazer pra mim, chamada “Por Quem Morreu de Amor” e “Namorinho”, que era do meu namorado! Athayde e Mário de Castro! (rindo) Já cantei música inédita e música de compositor novo! Eu me acompanhando no violão. Quem me assistiu foi Humberto Reis, que era jurado do Flávio Cavalcante, e o Paulo Rocco, que era diretor-artístico da RCA. Assistiram, adoraram, comentaram com o Vica Giffoni, que era da nossa turma também, um compositor que vivia mais em São Paulo e ele disse “Bom, pela descrição só pode ser a Beth! Mulher, tocando violão, de perna grossa, e cantando bossa-nova, é ela”, aí não sei qual dos dois me ligou e me convidou pra gravar na RCA! Foi assim! Eu tive uma orquestra de cordas, imensa, um estúdio imenso, arranjos do Eumir Deodato – porque a gente fazia muito vocal, o Athayde, que eu namorava, tinha um conjunto, o Quarteto 004, e o Eumir fazia os arranjos – e o Menescal no violão. Eu tive os caras, né? O Eumir era um cara não entendido no Brasil de tão moderno que ele era, ele ia lá na frente. O disco tocou muito na JB, que era uma rádio bem elitista, a música do disco era mais elitista. Ah, tem uma história boa!

EG: Conta!

BC: Nessa época eu ia fazer um show que eu não fiz! Um show que foi feito pela Leny Andrade e pelo Peri Ribeiro! O Ronaldo Bôscoli me chamou pra fazer esse show. Eu não tinha experiência nenhuma, não era minha jogada… Mas ele queria que eu fizesse, eu era nova, era um trio, baixo, piano e bateria. Eu falei que não ia fazer. Era no Porão 73, no começo de Copacabana! E foi a melhor coisa que eu fiz… E eu adorei aquele show, que acabou sendo com a Leny. Muito tempo depois a Leny me contou. O Bôscoli foi à casa dela, ela preta de praia, e ele, (imitando) “Leny, vamos fazer um show que estréia depois de amanhã!”. Mas ela tinha experiência, já, né? Era da noite, ótima cantora, arrebentou, e acho que foi o primeiro disco gravado ao vivo aqui. Depois o show viajou, foi pro México, eles ficaram uns 3 anos morando lá! Recebi convite também pra cantar com o Sérgio Mendes, pra morar no Estados Unidos, e eu “ah, não, nem pensar!”. Eu tinha horror ao sistema imperialista americano desde cedo! Claro que eu gosto muito da boa música americana, é sensacional, mas enfim…

LAS: E você acha que fez muito bem de não ter feito esse show?

BC: É, eu tô querendo justificar porque é que eu gravei “Por Quem Morrer de Amor”, porque o Menescal tinha feito essa música pra eu cantar nesse show! E quando eu fui gravar o disco, gravei. Mas eu achei ótimo não ter feito esse show, nem ido pros Estados Unidos, se não eu não teria tido essa carreira que eu tive, não é verdade?

LAS: Verdade.

BC: Ah! Quando eu falei do Sílvio Caldas, da Elizeth e da Aracy, eu esqueci de dizer que eu fazia aniversário junto com o meu pai. E meu pai era amigo de pescaria do Sílvio Caldas, e o Sílvio Caldas deixou de fazer um show pra poder ir no aniversário do meu pai, e conseqüentemente eu peguei o jabá! Essa barbada! Eu me lembro que eu tinha 5 anos de idade e me lembro que o Sílvio Caldas, brasileiro do jeito que era, falou, “Nós não vamos cantar parabéns pra você nessa data querida, porque isso é uma versão! Vamos cantar o nacional”. E ele cantou o nacional (cantando) “Parabéns a você, parabéns / Toda felicidade / Muitos anos de vida, também / E sempre a nossa amizade”. Eu tinha 5 anos…

LAS: O que eu acho interessante destacar, Beth, é que existe, para algumas pessoas, a visão e a sensação de que você teria subitamente descoberto o samba, e a gente repara que não, que você já cantava samba nos seus shows, antes mesmo dos festivais…

BC: Em 66 eu fiz “A Hora e a Vez do Samba” no Teatro Jovem. Tudo era no Teatro Jovem, impressionante… Eu toquei piano nesse Teatro Jovem, eu dancei balé nesse Teatro Jovem, porque minhas aulas eram na União das Operárias da Jesus que fica ali, as feiras de samba, as feiras de música, todas foram feitas lá, que o Kleber Santos organizava, reivindicar coisas, sempre na luta pelo melhor da carreira artística das pessoas, eu já estava nesses movimentos… Fui fazer “A Hora e a Vez do Samba” lá. Era Nelson Sargento, Noca da Portela… (pensando)… Trio ABC da Portela! Colombo, Picolino e Noca! Isso em 66! Acho que tinha o Nelson Sargento também… Eram essas pessoas, que eu amava de paixão… Eu cantava sambas, claro, cantava Martinho da Vila, cantava “Iaiá do Cais Dourado”, foi lá que o Martinho me conheceu (rindo). Já ficamos um pouco amigos desde ali. Depois eu fiz “Sexta-Feira é Dia de Samba”, no Teatro Jovem, tinha Rildo Hora, tinha Antonio Houaiss, tinha o Nelson Sargento… ai, não lembro! Mas era samba, era essa coisa de resistência, o pessoal do protesto… E depois eu vi, no Teatro Jovem, um show que pra mim foi determinante, o show “Rosa de Ouro”. Ah não, mas antes disso eu fiz um show, “Arena Clube de Arte”, que era num teatro pra 50 pessoas, na Barata Ribeiro. Eu, Grande Otelo, Milton Morais, um grande ator, Sargentelli e mais o Nelson Sargento, Anescarzinho, Picolino e Zé Keti. O show era o seguinte… o Sargentelli enchia a minha bola, me adorava, eu era aquela menininha que sabia tudo de música, de todo jeito, de todo tipo, e aí ele falava pra platéia, “Pede aí um samba do Ismael Silva, do Noel Rosa, o que é que vocês querem ouvir?”, o show era isso, olha que loucura! Essa era a minha parte. O Zé Keti estava lançando “Máscara Negra”. O Grande Otelo fazia aquelas coisas dele, misturando poesia, e o Milton e o Sargentelli contavam histórias… ele que era sobrinho do Lamartine Babo, contava mais do samba. A gente saía de lá, ia pra Fiorentina e dividia uma pizza pra nós, e cada um comia um pedaço! Miséria total mas uma alegria absoluta, entendeu? (rindo) Essa história do samba culminou quando eu vi uma coisa que eu não acreditei, que foi a Clementina de Jesus. Quando a Clementina apareceu naquele palco do “Rosa de Ouro” eu falei “eu sou isso aí!”. Sabe o que é entender a Clementina?! Não é qualquer um que entende, não! Aquilo baixou em mim, sabe? Tanto que eu dedico meu primeiro disco de samba à Clementina e à Elizeth. Fui ver umas 15 vezes também! O show lançava Paulinho da Viola, lançava Os Quatro Crioulos, lançava Clementina e trazia de volta nossa Aracy Côrtes. Direção do Hermínio Bello, no Teatro Jovem também! A Clementina… eu sei imitar a Clementina… de tanto que eu a amei… Ela tinha as mãos enormes, as unhas compridas, fazia assim com as mãos (imita, imita cantando) “Benguelê, benguelê, benguelê oh mamãe Simba, benguelê”. Depois ficou comum, sabe? Mas não era. Não era nada comum! Era totalmente diferente! Vieram os festivais… Eu cantei, em 66, um samba urbano, tipo Chico Buarque… Ah! Ah!

EG: O quê foi?!

BC: Quando surgiu o Chico Buarque eu me apaixonei de verde, amarelo, azul e branco! E antes disso, quando surgiu o Baden, eu também me apaixonei! Meu violão deixou de ser João pra ser Baden! Mais negra, mais afro. João Gilberto, Baden, veio o Chico, e antes o Tom Jobim, que esse é sagrado. E mais o Nelson Cavaquinho, o Cartola, eu amava os dois mas tenho uma identidade maior com o Nelson… Onde eu estava, hein?!

EG: Nos festivais, Beth!

(rindo)

BC: Ah, o samba urbano. O samba chamava “Berenice” e eu o cantei no festival “O Brasil Canta no Rio”, da TV Excelsior. Em 67 veio o “Festival Universário” da TV Tupi. O Adonis Karan era o diretor do festival e me convidou pra cantar uma música chamada “Meu Tamborim”.

EG: O Karan daquelas gravações?

BC: Não! Era parente! Achava que era a minha cara, por conta do samba e tal. Era do César Costa Filho e do Ronaldo Monteiro de Souza. O arranjo do Ivan Paulo, e a música ficou em terceiro lugar… Aí veio 68. O que a gente tinha pra mostrar eras nos festivais, né, bicho? Veja bem… eu já tinha gravado meu compacto, em 65, tocou, mas era uma coisa mais elitista, como eu disse. Eu sempre gostei de ir pro povo, sabe? Eu sempre tive uma alma popular. Eu cantava bossa-nova como samba, eu gostei da bossa-nova porque era um braço do samba! E em 68, lembra das fitinhas que eu te falei?

LAS: Sim…

BC: Eu tinha 40 músicas pra escolher. Inclusive música minha. Mas escolhi cantar “Andança”. Chamamos os Golden Boys e foi aquele impacto. “Andança” só perdeu pra Geraldo Vandré, com aquele hino, e pra “Sabiá”… que eu chorei junto, sabe? Injusta, aquela vaia… Quando eu ouvi, nos ensaios, falei pro Edmundo que ela ia ganhar. Mas “Andança” pegou no primeiro “me leva amor…”, e não é uma música fácil, nem uma letra fácil… Estamos em 68 e o samba está aqui dentro de mim, batucando… Aí surgiu um movimento, em 67, chamado “Música Nossa”, liderado pelo Roberto Menescal. Era ali, onde era o Carinhoso, tinha um teatro. Toda semana tinha música. Eu cantava “Viola Enluarada”, que era inédita, e “Contraste”, do Edmundo Souto e do Arnoldo Medeiros. Um dia o Menescal avisou pra gente que as gravadoras iam lá pra ver os músicos e escolher seus cantores e cantoras, seus artistas. E assim eu fui pra Odeon. Aí eles gravaram “Berenice”, “Meu Tamborim” e “Andança” no estúdio. Vai sair tudo agora de novo! Aí em 69 é que saiu meu primeiro LP, onde eu já tô ali… tem uma faixa do Carlos Elias da Portela, sambas do Baden, “Andança”, lógico, músicas do Paulinho, do Edmundo, Arnoldo, Milton Nascimento, que é “Sentinela”, e ele toca o violão, a gravação é com ele, e eu chamei o César Camargo Mariano, que era do Trio 3D, que eu achava muito bom por causa do suingue. Meu primeiro LP foi com o César Camargo Mariano com o trio. Eu já tinha visto ele tocar com o Simonal, numa boate em São Paulo, eu acho, não lembro bem. É um disco que mostra uma cantora com algumas facetas mas mais pro samba, porque tem Baden, tem Paulo Cesar Pinheiro, tem Marcos Valle, tem Carlos Elias da Portela… Tem Vinícius… E assim foi.

LAS: E era um momento em que o samba estava explodindo mesmo, né? Se você pegar o samba enredo, por exemplo, a Mangueira, cantando Monteiro Lobato, foi um pouquinho antes… em 67!

BC: Olha só! Eu gravei um samba enredo da Mangueira num disco só com cantores e cantoras, não puxadores de samba. Foi quando comecei a desfilar na Mangueira, em 1970… Eu sei que eu estava nessa, festival, festival, festival… Aí eu disse pro meu diretor e disse “Olha, ouvi um samba maravilhoso, quero gravar, quero gravar um disco só de samba”, e fui vetada. Aí eu pedi meu boné na Odeon e fui embora! Eu já estava com um material enorme, já estava nas andanças, já estava na pesquisa, entendeu? “Minha Companheira”, por exemplo, era uma música inédita. Músicas do Nelson Cavaquinho… Pedi meu boné, pedi a rescisão do contrato e o Manolo Carmero, tinha aberto uma gravadora pequena, chamada Tapecar, uma gravadora pequena, na avenida Brasil, um cubículo. E a minha prima, Tânia Carvalho, jornalista, era amiga da esposa do Manolo e me disse que ele estava querendo conversar comigo. Aí ele foi na minha casa e eu assinei o melhor contrato do mundo! Pra você ter uma idéia eu tinha direito a 9 passagens por ano pra Europa! Aí eu virei uma forte vendedora na Tapecar. Gravei o meu primeiro disco só de samba, o “Canto Por um Novo Dia” – olha o recado, olha o nome! – porque o samba sempre teve essa conotação política, não só musical, sempre foi uma bandeira da esquerda mesmo! O samba sempre foi uma coisa da esquerda, meu Deus! A direita quis fazer o samba ser da direita, mas ele nunca foi! Sempre teve os sambas de protesto, que eu adorava, que só o povo sabe falar mesmo, né?

EG: E esse disco você grava com autonomia absoluta?

BC: Total! Eu botei todo mundo na Quinta da Boa Vista de manhã, Nelson Cavaquinho, Paulo Cesar Pinheiro, Gisa Nogueira, Mário Lago, todo mundo que tá no disco estava na Quinta da Boa Vista na foto! Um milagre, né, esse povo de manhã!

LAS: Tem música do Mário Lago…

BC: Tem, ele volta pro disco assim, com “Salve a Preguiça, meu Pai”. Que era uma coisa velada, né, mas era um recado pros caras… Venha me buscar, mas eu vou de colo pra não me cansar!

LAS: Tem Martinho, tem Nelson (cantando) “Quando eu piso em folhas secas…”… Beth, você lembra o ano em que você conheceu o Nelson?.

Nelson Cavaquinho e Beth Carvalho, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

BC: Eu acho que eu conheci o Nelson… (pensando) … esse filme do Leon Hirszman, de 69, eu não sei se eu vi antes ou depois… Eu conheci o Nelson, de vê-lo, no Teatro Opinião! Mas eu não tinha coragem de me aproximar dele, porque ele tinha os olhos esbugalhados quando bebia (imitando), ele gostava um pouco de beber, né? (rindo), eu achava que ele podia ser meio agressivo, ficava meio assim. Eu não era conhecida, eu estava começando minha carreira, né? Sabe como é, né? Até que um dia eu fui com Edmundo, minha irmã, uma turma, pro bar que ele freqüentava na Lapa, acho que Ouro Verde, um bar de esquina, botequim mesmo, de balcão, e nos fundos tinha umas mesas e cadeiras. Eu fui e aí encontrei o Nelson. Aí sentei do lado dele (rindo). Sabe aquela apaixonada? Aí eu comecei a cantarolar com ele, baixinho, e ele me olhava, sabe? Cantou uma música do Nelson pra ele, ganhou o coração dele, era assim, uma criança, sabe? Aí ficou meu amigo, sabe? Aí era Natal lá em casa, aniversário dele lá em casa, criou até ciúme… O Albino dizia “Pô, não agüento mais esse Nelson Cavaquinho com essa Beth Carvalho!”, era puro ciúme! O Albino Pinheiro veio me confessar isso uns dez anos depois. Eu ri muito com ele. Engraçado, né? A gente não imagina isso. E aí, pronto. Eu já era apaixonada pela obra do Nelson, vendo ele, entendendo ele… Lembra o que eu falei da Clementina? O Nelson também não era fácil de entender. O Nelson, cantando com aquele violão, ou ama ou odeia. Não tem meio-termo. E eu amava. E eu ficava sendo aquela menina andando com o Nelson, eu já tinha carro, já era famosa, deixava ele na Praça Tiradentes… Aí ele me deu “Folhas Secas” de presente, me deu o cavaquinho dele de presente e ele me adorava! Eu adorava ele e ele me adorava.

EG: Quantos anos de amizade?

BC: Ah… desde 71…

EG: Você consegue lembrar de alguma história épica do Nelson que você ainda não tenha contado?

BC: Não, não… (pensando) Olha, eu nunca vi ninguém tocar violão com a capa! Tinha hora que o sono era tanto, que ele tocava com a capa, com o violão encapado! Ah, e na capa daquele violão ele colocava coisa que até Deus duvida… Botava peixe e voltava três dias depois do peixe comprado, porque ele parava no botequim, emburacava… Quem sabe mais dessas histórias é o Sergio Cabral, um pesquisador nato! Eu fiz um show com o Sergio Cabral e o João Nogueira, no João Caetano, com o Joel do Bandolim, o Sergio contava histórias todos os dias, todos os dias eu ria! Eu lembro dessa coisa do peixe na capa do violão… Ah, e quando ele foi gravar comigo puseram o fone nele, né? E ele (imitando): “Eu não sou aviador pra usar isso aqui, não?”. Fizemos vários Seis e Meia juntos, Pixinguinhas… e ele não bebia!

LAS: É mesmo, é?

BC: A maior prova de amor dele! Tinha vezes que eu dizia “Nelson, bebe uma cerveja, você tá muito velho e tá chato”, porque ele é que ficava tomando conta de mim, sabe? (imitando) “Já vai pra farra, é?”. E ele ficava no hall do hotel, tão bonitinho, todo penteado com aquele pente que ele adorava, cheiroso, de roupa branca, com aquele lenço rosa saindo assim, às quatro horas da tarde ele já ia pra lá, pronto! E ele tinha essa coisa também: tinha meses que ele ficava sem beber nada… Mas de repente caía dentro e… ia direto!

LAS: Você lembra exatamente quando vem o Cacique?

BC: Eu fiquei muito enturmada com todos esses compositores, não só Nelson e Cartola. Cartola foi em 74, quando eu fui na casa dele e ele me mostrou “As Rosas Não Falam”, “O Mundo é um Moinho”, só música boa. Mas antes disso, eu já tinha relação lá de trás com Noca da Portela, Picolino, Zé Keti, essa turma que eu já falei, e mais outros, né?, que isso não para… Silas de Oliveira ia na minha casa… Eu resolvi digitalizar tudo o que eu tenho aqui em casa, sabe?, bicho, tenho coisas do arco da velha… tem fita do Silas de Oliveira, tem fita do Zeca Pagodinho no comecinho, tem Arlindo, tem Sombrinha, tem do Cartola, tem do Nelson, conversas com o Nelson, é uma coisa que eu tenho que botar num blog, criar uma ONG, um museu, uma fundação…

LAS: É raríssimo…

BC: Quem?

LAS: O Silas, é raríssimo!

BC: Eu tenho ele cantando, aqui! Entendeu? Porque eu sempre dei atenção ao compositor, sempre. Sempre tive a maior reverência… Eu gravava tudo…

EG: Olha, Beth, deixa eu contar uma coisa. Eu, quando te conheci, há uns 15 anos, eu era até chato seguindo você pra tudo o que é canto…

BC: (rindo)

EG: … e via você sempre sacando alguma coisa da bolsa, um gravador, uma câmera, registrando tudo, tudo! Pesquisadora mesmo!

LAS: Chega a ser curioso, Beth, porque o cantor ou a cantora podia ter identificação com uma escola, só que você tem essa identificação com a Mangueira mas é impressionante como gravava tudo, da Velha Guarda da Portela, por exemplo…

BC: Claro! A que mais gravou! Tenho uma placa, inclusive, que a Surica fez falando sobre isso… Só na avenida é que tem a disputa! Não tem essa história só de Mangueira. Eu gravei Mangueira, Portela, Salgueiro… Meu sucesso popularzão mesmo foi do Gracia do Salgueiro! Eu quero saber da música! É boa? Eu gostei? Eu gravo, depois vou saber de onde é. Claro que hoje eu tenho critério… Tem muito samba falando da Mangueira… mas é original, é bom? Vou gravar. Samba de amor, pra variar os temas, amor, Mangueira, Cacique, política, partido-alto…

LAS: Você falou de política… você lembra de seu primeiro contato maior com o Brizola?

BC: Ah, na volta dele. Pouco tempo depois. Porque quando ele voltou, minha música, do Noca, era o hino da campanha do PMDB! Olha a minha situação! Eu com Brizola no coração sem poder virar Brizola ali! Mas acabou sendo bom… Depois o próprio Miro Teixeira reconheceu a vitória do Brizola!

EG: E seu primeiro envolvimento com política?

BC: Lula, Sindicato dos Metalúrgicos. Mas isso política nacional, né? Política mesmo, sempre! Sempre discuti contrato, fui da Sombrás, sempre batalhei pela numeração dos discos, eu, Chico, Gonzaguinha… Pena que essa vitória veio num momento em que o disco perdeu força… Mas foi importante. E acho que valeu, porque foi o primeiro país no mundo a ter disco numerado. Agora… luta por contratos, reuniões com a classe artística, sempre, sempre. A gente tinha uma luta, né?

LAS: E o Lula?

Lula e Beth Carvalho no comício das Diretas Já, no Rio de Janeiro, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

BC: Ele era do sindicato dos metalúrgicos e eu já era um sucesso forte em 1978, já tinha o “Vou Festejar”, do Cacique – que é uma história à parte – e então eu fui cantar lá com o Fundo de Quintal. Tudo de graça! E quando o Lula fez a primeira pra presidência, em 89, apareciam essas imagens. Não tinha PT, não tinha nem PT, ainda! Foi em 78. O Lula foi a grande figura que apareceu, né?

EG: Beth, uma das coisas que é sabida a seu respeito, e não é à toa a história da madrinha, que tem a ver com sua postura de ir aos lugares, de gravar tudo…

BC: … de valorizar nas entrevistas, de colocá-los nos meus vídeos, nos meus discos… Eu sempre dividi meu pão! Eu sempre dividi! Podia ficar sozinha, mas não. Botava a Velha Guarda, mostrava o Argemiro, o Casquinha… sempre…

EG: E o Cacique, por que é uma história à parte?

BC: À parte, eu digo, porque eu já era um sucesso muito forte. Meus discos estavam no auge de vendagem, eu era uma grande vendedora de disco, a Clara também, a Alcione também, o Martinho também, a gente vendia essa quantidade louca, já saía com disco de ouro, depois disco de platina… hoje é um deboche, com 25 mil já ganha… Nós éramos o trio ABC, Alcione, Beth e Clara! Então… aí o Alcir Portela, do Vasco, que era meu companheiro de samba… (pensando)… Eu tinha uma turma, nessa época, que era do Clube do Samba, eu, João Nogueira, Paulo Cesar Pinheiro, Nelson Cavaquinho… todo dia! Nós éramos o quarteto da morte! Saíamos todo dia! Chegávamos no Sereia de Ipanema, por exemplo, os caras queriam morrer, sabiam que a gente só ia sair de lá às oito da manhã! Aí o Alcir, que era um cara que saía comigo, a gente ia a uns sambas no subúrbio, e ele era muito amigo do João Nogueira também, em 77, me disse, “vou te levar num lugar que você vai gostar”. E eu falei, “vamos nessa, onde é?”, e ele disse, “No Cacique de Ramos”. Meu coração já bateu por outra razão! Porque quando eu estava naquele negócio de carnaval, que eu sempre tive, o Cacique e o Bafo eram os dois blocos mais fortes, sendo que eu freqüentava o Bafo mas eu achava o Cacique mais interessante no desfile, porque tinha um negócio de tacape, tinha uma roupa de índio e tinha aquele samba (cantando) “Nesse carnaval não quero mais saber, ê, ê, de brincar com você”. Eu gostava muito desse samba e de um samba da Chiquita, irmã do Sereno, ela que já morreu, uma grande mulher, uma mulher que cantava um samba diferente de todo mundo, eu tenho a Chiquita filmada…

EG: Tem?

BC: Tenho, mas tenho que limpar essas fitas todas… A Chiquita tinha uma música, e eu tenho um caderno com a letra da Chiquita (cantando) “Querem me derrubar / Aí meu Deus, o que será?/ Uso arco e flecha / Mas em ninguém vou atirar / Entrego à proteção divina/ Só ela é que pode me parar/ É verdade sim o que ouço dizer / É verdade sim o que ouço falar / Visto, um saiote de penas / Uso também um lindo cocar/ Meu nome é Cacique de Ramos / Sou vacinada e batizada o que é que há!”. Eu achava demais, e era briga mesmo, esse “querem me derrubar” era pro Bafo! Mas aí eu cheguei no Cacique, e conheci a Chiquita, e vi uma rapaziada, o maior suingue… suingue pra mim é fundamental… Fazendo um som diferente no samba, sem perder a raiz do samba, cantando uns sambas bonitos, eu pensei, “o quê é isso, cara?”. E instrumentos nunca vistos antes. Repique de mão que o Ubiranyr criou, Sereno com aquele tantã daquela maneira tocando, o Neoci também, e o banjo com o Almir Guineto. Banjo era usado, mas de outro jeito, na época do Pixinguinha… O banjo é um instrumento africano. Sabe o que é fascinada? Eu fiquei fascinada! Eu encontrei o meu lar, meu lugar! Era a segunda vez que eles se reuniam… E por que o Alcir me chamou? Porque sabia que eu era famosa e tal… mas eu não pensei nisso, eu fui pra me divertir, pura e simplesmente! E fiquei me divertindo um ano! Eu não pensei em nada disso, sabe? Com o tempo é que a coisa foi amadurecendo, a coisa foi ficando forte em mim… até que o botei no disco, foi em 78, no disco “Pé no Chão”. É o registro, com eles, do novo som do samba. Gostem ou não, é o novo som do samba. Com muito suingue. E com muita negritude! O samba tava ficando meio esbranquiçado, entendeu? A bossa-nova fez muito isso, ficou só o tamborim… E eles vieram com batuque de mão, de tribo, tribal (batucando), repique de mão, tantã, o banjo era mais percussivo do que qualquer outra coisa… Eram os caras do Cacique de Ramos, entendeu? O Almir era do Salgueiro mas tinha uma relação lá… O Cacique em baixa, o bloco decadente… e eles com vontade de cantar os sambas deles que eles não tinham onde cantar, sabe? Porque as escolas de samba foram perdendo sua função… que era a de mostrar os sambas dos caras, pô! Os caras cantavam, então, seus sambas. E o Cacique de Ramos, eu chamo de Sierra Maestra do Pagode! O pagode é uma palavra que eu adoro, infelizmente deturpada, não fui eu que criei, o Paulinho da Viola já cantava “domingo, lá na casa do Vavá / Teve um tremendo pagode que você não pode imaginar”… Pagode é uma palavra simpática e virou um tormento depois dessas deturpações! Mas pagode é a forma íntima do sambista chamar o samba, pagode é a festa, tanto que existe pagode no nordeste também, no forró. Olha… pra vocês terem uma idéia, eu pensei em mudar pra Ramos! (rindo) Eu só vinha em casa pra dormir! E o que é que tinha no Cacique? De tarde tinha futebol de salão, por isso o Alcir era ligado, o Neoci, muito amigo do Edson, que foi meu marido depois, eles se conheceram jogando no juvenil do Bonsucesso, Paulo Cesar Caju, o Jairzinho…

LAS: O Alcir chegou a montar uma comissão de frente na Imperatriz só com esse pessoal do futebol…

BC: Exatamente! Era a turma que freqüentava o Cacique de Ramos! Então era uma delícia… Não tinha nada, mas tinha tudo! Digo nada, assim… não tinha um petisco, não tinha um guaraná, não tinha uma água, só tinha cerveja, eu que não gosto de cerveja, eu tinha que levar tudo… A mesa que eles usavam era a coisa mais tosca (rindo)… tinha que ter guardado aquela mesa, a mesa que eles usavam, é histórica! Cheia de farpas, os copos caíam! (rindo muito) Mesa velha mesmo! E era um paraíso mesmo… Eu ia pra lá e ficava tão feliz… sabe? (visivelmente emocionada) Ficava debaixo daquela tamarineira que foi abençoada pela mãe do Bira, que era mãe-de-santo, feita pela Mãe Menininha do Gantois, tinha um fundamento ali… Eu sei que quando eu resolvi botar isso no estúdio, eu cheguei pro Rildo, que era meu produtor na época, e disse “Rildo, eu conheci uma turma e eu quero gravar com esses caras”. O Rildo ainda disse, “olha, Beth, isso é muito bom ao vivo, aí chega no estúdio e não dá a mesma coisa…”. E eu disse, “Eu garanto!”. Eu tinha certeza absoluta! Tem maior precisão maior que o Ubiranyr naquele repique de mão? Não tem! Aí o Rildo foi lá, e não contente com isso, fizemos um bate-bola, que depois virou moda nas gravadoras! A gente, antes de gravar pra fazer, fazia o bate-bola. Cerca de 40 músicas, todas com a harmonia escrita, e a rapaziada metia a mão, entendeu? Aí… (emocionada)… a verdade… a verdade… Eu tava fazendo aquilo com um conhecimento de causa tão grande… que não podia dar errado… Eu não imaginava que fosse dar o que deu não, entendeu?, mas não podia dar errado… Ali estava todo muito com muita gana! Eles não tinham espaço! E eles tinham paixão por aquilo! Era mistura de bloco, com a composição, com a novidade, tudo junto, e eu dando força, moral… aí arrebentou o “Vou Festejar”, o disco todo, né? Várias faixas daquele disco…

EG: Tem um clipe gravado lá, belíssimo…

BC: É, então… Eu fiz tudo lá! A capa lá, a contracapa é lá, o encarte é lá e eu dediquei ao Cartola, esse disco, e fiquei ajoelhada aos pés de São Sebastião do Rio de Janeiro, que tem um altar lá no Cacique. Totalmente entregue! Eu não disse que eu quis morar em Ramos! (rindo)

Jorge Aragão, Beth Carvalho, Bira e Ubirany, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

LAS: Imagina, morar na Uranos!

BC: Ah, Simas, eu sou muito apaixonada…

EG: Beth… fala um pouco do Cartola…

BC: O Cartola teve, digamos assim, três lançamentos… Quando começou, fazendo música com o Francisco Alves, depois o ostracismo, quando o Sérgio Porto encontrou o Cartola lavando carro, depois ele teve um boom, depois veio a Jovem Guarda, foi ruim pro samba, e depois ele só foi voltar mesmo depois que eu gravei “As Rosas não Falam”… Foi quando ele pode ter uma carreira de discos, a RCA contratou ele…

Cartola e Beth Carvalho no Carinhoso, no Rio de Janeiro, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

LAS: Verdade…

BC: E quando eu gravei o “Folhas Secas”, em 72, a RCA contratou o Nelson, e o Nelson pode ter seus discos na RCA, que era uma grande gravadora! O Nelson já tinha um disco de depoimentos, ele cantava, um disco maravilhoso… Mas disco dele cantando, tocando, foi na RCA…

LAS: Beth, eu acho que a gente tem cantoras que colocam a obra a serviço delas, sabe? Você, não, você se coloca, na sua trajetória, a serviço da obra do compositor. E esse, pra mim, é o mérito maior de uma cantora. Você entender o que o compositor está querendo, o que é a obra está querendo, e não colocar a obra a seu serviço…

BC: Puxa… muito obrigada… Eu recebo muito isso dos compositores, sabe? Eles todos dizem isso, sabe? “Agora, sim, a minha música tá aí…”. Quando eu gravo…

EG: Quem te chamou de madrinha pela primeira vez?

BC: Ah, isso agora já virou até vulgar, mas não é!

EG: É que os detratores de plantão, que tem, né?, eles usam muito isso…

BC: Ah, tem!

EG: Mas você lembra quem foi que manifestou gratidão, assim, dessa forma carinhosa?

BC: Não lembro… Eu acho que foi o Fundo de Quintal, por causa do “Vou Festejar”… Eu acho… Sabe o que aconteceu? A música estourou de um jeito, do Oiapoque ao Chuí, sabe?, que o bloco, que estava decadente, subir de novo. Saíram 5 mil pessoas nesse ano, no Cacique! Demorou umas 5 horas, o desfile! E eu lá. Aí eu virei madrinha do Cacique de Ramos, do bloco. Aí quando o grupo Fundo de Quintal, que já tinha esse nome e era amador, entrou numa gravadora, eu me tornei madrinha do Fundo de Quintal. Eu ofereci eles pra RCA e a RCA não quis. Aí eu liguei pro Durval Ferreira, tinha saído da RCA, era diretor da RCA, meu amigo dos tempos da bossa-nova, e ele ficou encantado… Eu falei, “Durval, sabe aquele povo que gravou comigo?”, “Claro que eu sei, aquele grupo que tocou contigo?”, “Pois é, eles querem gravar um disco!”, e ele, “Pode mandar!”, era na RGE. Saiu o primeiro disco do Fundo de Quintal, eu escrevi a contracapa, contei a nossa história, a história da tamarineira, um texto grande, hoje no CD só tem a frase final! (rindo) E tem um beijo meu, no final, de batom mesmo, sabe? E o disco estourou, mais na periferia, mas estourou, foi muito bem. Era Jorge Aragão, Almir Guineto, aquela turma. Depois saem os dois e entram Arlindo e Sombrinha. É como eu digo sempre… o grupo Fundo de Quintal é uma filosofia, não é só um grupo de samba. É muito difícil, num grupo, saírem duas pessoas talentosas e depois entrarem mais duas talentosas, né?

Beth Carvalho e diversos amigos, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

LAS: Verdade…

BC: Eles conseguiram isso… Eles seguram a onda até hoje… Enchem quadra, o público quer… Acho que começou assim, desse jeito… Ah, e o primeiro contrato deles eu li e mexi! Aumentei o percentual deles, de 5% pra 7% (rindo) Eu sempre me meti além, sabe? A minha relação com as pessoas sempre é mais profunda, nunca é superficial. Conheço você (dirigindo-se ao Simas) há pouco tempo, mas já é profunda a nossa relação, não é? Não fica no superficial. Então, o Fundo de Quintal eu peguei como uma coisa muito linda, muito diferente… Eles tiveram dificuldade pra gravar, eu chamei eles pra fazer o Pixinguinha, eu já nem podia mais fazer o Pixinguinha, fiz por causa deles, juro por Deus… Eu tinha um namorado, na época, que tinha uma gráfica, e ele tirou a foto dos caras, fez a gráfica do segundo disco, e saiu, já com Sombrinha e Arlindo… E por aí foi… Voaram sozinhos… Eu acho que eles começaram a me chamar de madrinha do Cacique, depois de madrinha do Fundo de Quintal… Depois do Arlindo, do Sombrinha, do Luiz Carlos da Vila…

EG: E do Zeca, né?

BC: Mas é que eu cheguei no Cacique em 67… Em 84 eu tomei conhecimento dele ali, com aquela sacola da Sendas, com um cavaquinho, ele magro, parecia um palito… E pra chegar na roda… É como ele mesmo disse hoje… Tinha a turma que ficava sentada, a diretoria absoluta. Tinha a primeira fila que ficava em volta, o que já era um status, depois outras, depois outras. Um dia eu vi o Zeca versando… Fiquei encantada. O Almir Guineto versava maravilhosamente e ele ali, segurando a onda. Aí ele pediu pra cantar um samba e mandou o “Camarão que Dorme a Onda Leva”… (rindo), o título já é bom demais… Eu falei pra ele, na hora, “Eu vou gravar isso e quero você lá comigo, cantando!”. Coisas da vida. Eu saquei ele algo mais, entendeu? Gravei com ele. Aí ele foi pro estúdio gravar, eu lembro que tinha um microfone de ouro e eu disse “Aí, hein, Zeca, você vai cantar num microfone de ouro!” (rindo muito)

Beth Carvalho e Zeca Pagodinho, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

EG: Mas até hoje você recebe muita coisa pra gravar, né? Por exemplo… sei que você está escolhendo repertório pro disco novo… Quantas você recebeu?

BC: Ah, mais de 400 músicas. Mais até, sabe? Agora com esse negócio de e-mail, vem até por e-mail! É mais simples… Antes tinha que fazer uma fitinha… Era sempre mais difícil…

EG: E você ouve tudo?

BC: Ah, ouço! Tudo! Mas a gente de cara já sabe se a coisa é boa, sabe como é, né?

EG: Sei, sei! Tem uma história boa sobre isso de “coisa boa” com você…

BC: Qual?

EG: Quando você ouviu a primeira vez o “Saudades da Guanabara”…

BC: (rindo muito)

EG: Você matou de cara que era uma coisa boa mas…

BC: Isso foi em 84. Matei de cara! Melodia linda…

EG: Conta!

BC: Sabe a Célia, aquela cantora paulista? Ela vinha pro Rio pra fazer show no Arcos da Lapa e ela ficava hospedada lá na minha casa. Um dia ela me pediu pra ensaiar lá em casa. Na hora do ensaio, quem era o violonista? Moacyr Luz. Ensaiou com ela e quando acabou o ensaio ficamos no comes e bebes, e ele mostrou umas coisas dele… Gostei da primeira, gostei da segunda, várias outras, e uma tal de “Saudades da Guanabara”, que eu não gostei da letra… (rindo) Eu falei pra ele… “Você é um compositor!”, porque tem isso, né? É preciso um número “x” pra você saber que o cara é bom. E aí, cinco anos depois, em 89, eu já amiga do Moacyr, freqüentava aquelas reuniões musicais excelentes que ele promovia, Paulinho Pinheiro, Aldir Blanc…

EG: Fátima Guedes…

BC: … Sueli Costa, Claudio Cartier, Itamara Koorax, e eu já tinha fechado meu disco de 89. Mas aí, numa dessas reuniões, eu falei, “Moacyr, você tem um samba que você me mostrou em 84, ´Saudades da Guanabara´, lindo, mas eu não gostei da letra…”, eu já tinha intimidade pra isso, né? Sugeri a ele o Paulinho Pinheiro, o Aldir… Eu sei que ele me ligou, depois, e cantou “Eu sei que o meu peito é uma lona armada…”, putz! Aí virou o nome do disco, a capa foi concebida por causa desse samba, peguei o chapéu do Moacyr, tirei a foto com ele… (rindo)

LAS: Já que estamos em 89… Foi o ano que o Botafogo quebrou o jejum!

EG: Vou sair pra fumar!

BC: (rindo) Campeão! Nesse disco eu canto “Esse é o Botafogo que eu gosto…”.

LAS: A sua família era de botafoguenses?

BC: Toda! Meu pai era botafoguense, minha mãe era botafoguense. Meu pai remou pelo Botafogo quando era jovem, eu freqüentei o Botafogo quando era criança, nos bales infantis, e eu só ouvia falar de Botafogo na minha casa, não tinha como ser outra coisa. E eu tenho muito orgulho de ser Botafogo!

LAS: E tem muita gente do samba que é Botafogo…

BC: Tem, Vasco também… Foi minha paixão de criança também. E em 89 o Elias da Silva me mostrou esse samba, e eu chamei só botafoguense pra gravar, até o Edil Pinheiro gravou o côro, até a Sonja, aquela menina…

Beth Carvalho e amigos botafoguenses gravando seu disco de 1989, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

EG: A gandula, meu Deus…

BC: Na gravação teve até bolo do Botafogo!

LAS: Tem um vídeo, na internet, tem você, Emilinha Borba, no Maracanã, nesse jogo…

BC: Tem, é? Eu estava com uma bandeirinha de papel, do Botafogo, que a Luana fez pra mim… Supersticiosa como toda botafoguense…

LAS: Posso fazer uma pergunta de ordem sentimental?

BC: Pode, claro!

LAS: Fugindo um pouco disso, mas eu me lembrei, e é interessante… Eu sou filho de pernambucana, minha mãe é pernambucana, meu avô era pernambucano, e eles gostavam muito de você, e a primeira referência que eu tive de você, engraçado isso, não foi com samba…

BC: Foi com o frevo!

LAS: Isso…

BC: Evocação no. 1… e que eu ouvia quando era criança, foi música de carnaval no Rio de Janeiro, e eu achava incrível eu saber essa letra, lindíssima, difícil… Depois eu conheci o Nelson Ferreira, ele me deu os discos dele autografados! (imitando o frevo) Sabe… eu tive uma professora fundamental, cunhada do Villa-Lobos, e eu aprendi teoria musical, fiz parte do canto orfeônico… Cantei em igreja…

EG: Fala pra nós, agora, sobre política… Você se aproximar do Fidel, do Brizola… E fala, se você puder, né?, se isso de alguma maneira prejudicou você em certo momento na sua vida… Já que você é muito ligada às esquerdas…

BC: Mas eu vou morrer assim, não tem jeito, não vou mudar! Agora, por exemplo, temos um Presidente que é o mais próximo daquilo que a gente quer, e que encontrou um país muito estraçalhado pelos governos anteriores, e o Lula está fazendo uma série de coisas que me agradam no sentido da melhoria do povo brasileiro… Ainda falta muito, a gente sabe disso… Mas ele está conseguindo muita coisa. E eu vou sempre estar desse lado, sempre!

EG: E o Fidel, Beth?

BC: Ah, o Fidel… Olha… a gente era apaixonado pela revolução cubana, totalmente a favor… Era uma coisa absurda o domínio americano dentro daquela ilha, prostituindo as meninas de 10, 11 anos, e querendo tomar conta da América Latina, do mundo inteiro. E aí, por influência do meu pai, da minha mãe, a gente torceu muito pra tudo dar certo na revolução… E deu! E deu! Dizer que não deu certo é brincadeira… porque com todo o bloqueio norte-americano a gente consegue ter um país que não tem um analfabeto, e aquela história… e aquela frase linda… todo dia tem uma criança dormindo na rua, nenhuma delas é cubana! E é isso. Isso define tudo. É verdade. Eu fui lá e constatei. Bem depois da revolução. Não tem analfabeto, ninguém sem sapato, ninguém sem dente, não tem criança na rua, e criança na rua é uma coisa que me mata!

EG: Mas como você conheceu o Comandante, Beth!?

Beth Carvalho, Fidel Castro e amigos, em Cuba, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

(rindo)

BC: Olha… o Comandante sabe de tudo. Sabe quem é quem em cada lugar do mundo. Ele não vai convidar, pra lá, quem é contra a revolução… E ele tá certo, chamar só quem tem a ver com a causa! O que vai fazer lá alguém que é de direita, né? Ficar pichando? E ele me chamou por isso… Em 77… Festival de Varadero, fui com meus músicos…

EG: Antes do Brasil reatar relações diplomáticas com Cuba…

BC: Antes, antes… E aí, a grande Lázara…

LAS: … mulher do Santiago Alvarez, o cineasta…

BC: Isso… Hoje viúva… ele é considerado o maior documentarista da América Latina… Aquela mulher, tradutora do Fidel no mundo inteiro… quando eu fui à Cuba pela segunda vez, pegava a Luana por aqui (no colo)… (rindo)… Conheci Lázara naquela época, em 77, e somos amigas inseparáveis até hoje… Amo a Lázara, uma mulher negra, linda, maravilhosa, sempre com uma flor na cabeça… esse é o espírito cubano… Eu fiquei encantada com Cuba. Pra começar, o cara que carrega sua mala é um poeta, te dá um banho em qualquer assunto… Sabe… quem vai à Cuba tem que saber que o turismo é o povo! É linda, praias lindas, mas é o povo que te encanta, um povo solidário… Eu acho muita graça quando vejo campanha para sermos solidários com Cuba… Não! Vamos ser solidários contra esse bloqueio… Mas Cuba dá aula de solidariedade pro mundo, sabe?! Eles são capazes de mandar médicos pros Estados Unidos, pra população pobre dos Estados Unidos, que tem mas que os americanos escondem… Mas eu só fui conhecer o Fidel, pessoalmente, na minha segunda visita à ilha. Porque a gente nunca sabe se vai ou não conhecer, né? Mas dessa vez eu fui como convidada de honra, sem fazer show. Foram vários artistas… e Fidel nos recebeu, de repente… Sofremos uma revista muito simples… bebemos mojito… Anos depois o Fidel veio ao Brasil e eu fui escolhida pra entregar a ele o título de Cidadão Carioca, na UERJ!

Beth Carvalho entregando o título de Cidadão Carioca para Fidel Castro, na UERJ, no Rio de Janeiro, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

EG: Pra acabar… Eu acho que a primeira vez que eu te vi chorando, de dor, foi…

BC: … com aquele lance da Mangueira…

EG: … isso. Tem algo que tenha te ferido tanto, uma mágoa, na carreira?

BC: Não, sabe? Nada me magoou mais que aquele lance da Mangueira. Mas como qualquer profissão, a profissão de cantar é difícil. Tem o palco, vaidades… é complicado. Eu lamento, apenas, que eu tenha deixado de ser pura, sabe? Eu tenho o coração aberto até hoje, mas eu já tive mais. Eu tenho saudade do tempo em que eu não tinha esse… esse aprendizado, sabe? É bom por um lado mas por outro a gente sofre… E se você é politizado, sofre mais ainda…

EG: E um puta orgulho que você tem?

BC: Ser mãe, em primeiro lugar. E de ser brasileira, de ser brasileira, eu amo esse país. De ter sido enredo de uma escola de samba… Unidos do Cabuçu, 1984. De ter cantado no Carnegie Hall, eu acho importante, no Maracanãzinho, em 78, eu novinha, e ter dado conta daquele recado… ai, muita coisa…

Beth Carvalho desfilando pela Unidos do Cabuçu em 1984, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

EG: Gostou?

BC: Adorei! Mas faltou falar dos discos, né? (rindo)

LAS: Muita coisa… Beth, e o jongo? Uma das primeiras gravações que eu me lembro foi com você…

BC: Ah, é como eu te falei… Ali eu também fui fundo. Como eu te falei eu não faço nada superficial. Eu me encantei com a Vovó Maria Joana, eu passei a freqüentar o jongo da Serrinha, a aprender a dança, eu me envolvi com aquelas pessoas, eu ia pra lá almoçar, eu não sei fazer diferente. E deu um resultado que eu considero muito bom! Fizemos direito, com o som direito.

EG: O que é que você está ouvindo hoje?

BC: Muita coisa… Ah, Mariene de Castro… que também é minha afilhada (rindo muito), afilhada baiana. Querida, muito querida… Está na Universal agora, é uma grande representante da Bahia, do samba, brasileiríssima, linda…

EG: Acabou, né? Meia-noite e quarenta, já!

Não deixem de ler os outros cinco entrevistões do BUTECO, em ordem alfabética: Aldir Blanc (aqui), Fausto Wolff (aqui), João Bosco (aqui), Moacyr Luz (aqui) e Wilson Moreira (aqui).

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Arquivado em entrevista, gente, música

A ENTREVISTA COM A BETH CARVALHO

Preciso lhes contar uma coisa antes de publicar, provavelmente amanhã, a sensacional entrevista que fizemos com Beth Carvalho na semana passada, a sexta que será publicada no Buteco (as demais estão no menu, à direita de quem lê). Não sem antes lhes pedir desculpas pela ausência dos últimos dias. Trabalho em excesso, umas mini-férias que me permiti e o trabalho hercúleo que é a transcrição de uma entrevista desse porte. Tenho muita pena de perceber que hoje as entrevistas não existem mais, salvo raríssimas – e cada vez mais raríssimas – exceções. O que há hoje são as “coletivas”, um release distribuído à imprensa pelas assessorias, e o que temos são entrevistas modorrentas mais com cara de outdoor do que de entrevista. Não por outra razão estivemos, eu e Luiz Antonio Simas, na casa da Beth, na noite da terça-feira passada, de onde voltamos com exatos 144 minutos e 06 segundos de conversa registrados. Mas vamos ao que quero lhes contar.

Eu havia estado lá, uma semana antes, para cumprir uma promessa feita a um de meus afilhados, o cracaço Henrique Blom, doido pra conhecer a Beth pessoalmente. Ficamos lá – o quê? – umas 3, 4 horas de conversa, ouvimos os sambas que estão sendo selecionados para seu próximo disco, rimos muito, até que eu disse:

– Ô, Beth, e quando é que você vai me conceder um entrevistão?

E ela, generosa como sempre, mandou de voleio:

– Ué. Semana que vem!

E marcamos.

A entrevista, como já lhes disse, foi ouro puro, e mais vocês saberão provavelmente amanhã, quando eu a publicar. Ocorre que houve um contratempo danado e uma surpresa que hoje quase me matou. Vamos lá.

Fui fazer a entrevista com um Panasonic RR-US395, digital. Antes de começar, brinquei:

– Eu preferia um gravador de fita-cassete, não confio nesses troços…

A Beth, antenadíssima, deu-me um passa-fora de mãe… Mas o fato é que no dia seguinte, na quarta-feira, espetei o bicho no computador e… … … nada de arquivos gravados! Nada! Bateu o desespero absoluto. Liguei pra ela que, como esperado, ficou também desolada. Havia, porém, uma espécie de salvação. A entrevista foi também gravada em DVD, só que por conta dessas intempéries tecnológicas, foi cortada em determinado momento… Ou seja, a saída seria transcrever o material gravado em vídeo para, então, refazermos a entrevista noutra data. Transcrever a entrevista seria, inclusive, uma de minhas tarefas durante as mini-férias. Passei a quarta, a quinta, a sexta, o final de semana, completamente triste com isso… Mas eis que deu-se o milagre. Na segunda-feira li, de cabo a rabo, o manual do bichinho. E recuperei os três arquivos, na íntegra: o primeiro com 44min e 02seg, o segundo com 56min e 49seg e o terceiro com 41min e 35 de papo. Delírio!

Pedi à Beth, depois de dar a ela a monumental notícia, ontem pela manhã, que ela me mandasse algumas fotografias de seu acervo pessoal para ilustrar o entrevistão. E ela – não é demais repetir, generosa como sempre! – mandou-me hoje alguns tesouros muito bacanas que eu vou expôr amanhã, dividindo essa beleza com vocês. É que ela, além de seu próximo disco, está se dedicando a organizar o impressionante acervo que tem em casa, de fitas, discos, gravações em vídeo (algumas raríssimas, vejam amanhã!), documentos e fotografias. E ela – foi aí que quase me matou – mandou-me dois tesouros que interessam – confesso – apenas a mim, mas que quero dividir com vocês também.

Já lhes contei, em certa ocasião, que no ano de 2002, fui jantar com minha menina, a convite da Beth, na casa do Martinho da Vila, em noite dedicada ao meu eterno e saudoso governador, Leonel de Moura Brizola. Éramos poucos – e a noite foi intensa! Martinho da Vila e Cléo – sua mulher -, eu, minha menina, Beth Carvalho e Leonel Brizola. E só! Depois do jantar pintaram Mart´nália e Analimar, com uns músicos, para uma roda de samba assim, em petit comité. Comemos muito bem, bebemos muuuuuito bem (não me esqueço do Brizola bebendo vinho tinto com muita sede!!!), cantamos muito e eu ainda tive o privilégio de ver o Brizola pedindo aos músicos que o acomapanhassem numa de suas canções preferidas, que ele cantou de pé e com os olhos marejados (que se multiplicaram pela sala): Felicidade, de Lupicínio Rodrigues.

Um fotógrafo, contratado pelo Martinho e pela Cléo, fez os registros. Passei anos – mais precisamente 8 anos!!!!! – atrás de pistas dessas fotos. A Cléo jurava que tinha me dado; o fotógrafo, Fernando, se eu não me engano, jurava que tinha dado tudo a Cléo e mandado as minhas pelo correio (!), a Beth dizia que não lembrava de ter recebido foto alguma… e ficou nisso.

Até que hoje, anunciadas por um carinhosíssimo texto com gosto de muito dengo, me chegaram as duas fotos abaixo, localizadas na montanha de fotografias que a Beth mantém em seu apartamento. Na primeira, eu e Beth com o velho caudilho. E na segunda, eu e minha menina abraçados ao grande Leonel! E confiem em mim: vem coisa muito boa por aí, com a entrevista!

Eduardo Goldenberg, Leonel Brizola e Beth Carvalho, 2002

Eduardo Goldenberg, Leonel Brizola e Dani Pureza, 2002

Até.

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19 DE MARÇO, DIA DE SÃO JOSÉ

Hoje, 19 de março, é dia de São José. Dia de festa pelo Brasil, principalmente no nordeste (São José é padroeiro do Ceará), dia em que o sertanejo (que é forte e supera a miséria!) espera ansiosamente pela chuva que, segundo a crença, caindo hoje, indica um tempo profícuo para a agricultura. Aqui no Rio, pertinho de onde trabalho, no final da Antônio Carlos, início da Primeiro de Março, na altura da Assembléia, fica a igreja de São José, que está em festa desde cedo. Vou lá, daqui a pouco, pedir a benção do santo (e salve a religião Brasil!) para mim e para os que me cercam mais de perto. E também para minha amiga querida, madrinha de todos nós, Beth Carvalho, que divide a gravação, disponibilizada aqui, com Martinho da Vila. Vou cantar, pra dentro: “São José, protejas a madrinha…”.

Até.

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SÓ FICO À VONTADE NA MINHA CIDADE

Dia desses eu fui jantar na casa da minha amada Sônia, mãe dos queridos Manguaça e Manguaço, e lá encontrei-me com o Rodrigo, primo desses dois, sobrinho daquel´outra. Disse-me o Rodrigo, comentando sobre o episódio envolvendo a garotada do jongo da Serrinha, que relatei aqui, que tudo na minha vida era encantado demais, bonito demais, quase que duvidando das belezuras que conto aqui no Buteco. Não duvidava de mim, exatamente, mas queixava-se, numa pilhéria, do marasmo de sua vida em contraste com as surpresas da minha.

Não estava – confesso de pé no balcão imaginário – exagerando, o Rodrigo. Posso queixar-me de tudo: da carestia, do pouco dinheiro, do time do Flamengo, do janeiro estranhíssimo desse 2007, da distância de amigos queridos que insistem em não viver no Rio, menos das surpresas que a vida me apronta. Só que ontem, quinta-feira, 18 de janeiro de 2007, as coisas tomaram proporções bíblicas, vou explicar.

Às oito da manhã eu chego na Assembléia Legislativa, no Centro do Rio, para encontrar a Beth Carvalho. Eis aí o primeiro milagre. A Beth não levanta, nunca, antes das duas da tarde. Mas lá estava ela, de pé, como eu, às oito, para a cerimônia da entrega da medalha Tiradentes ao presidente venezuelano, Hugo Chavez.

O que aconteceu? A cerimônia foi transferida para hoje – sexta-feira – e vimo-nos, os dois, juntamente com dois grandes praças – Beto Almeida e Mário Augusto – sem saber o que fazer.

Só que o Rio, meus poucos mas fiéis leitores, é uma cidade mágica e muito mais bonita do que a cidade mostrada nos jornais. Eu disse à Beth:

– Vamos à Folha Seca? Quero que você conheça a livraria do meu coração, a mais carioca de todas, quero que você conheça o Rodrigo, a Dani, o chef Santos… Vamos?

Nem titubeio houve. Fomos.

Beth Carvalho na Folha Seca, 18 de janeiro de 2007

Preciso dizer, em nome da precisão que me caracteriza, que eu estava a caráter: terno, gravata, pasta, muito a fazer e muitos compromissos.

Mas a minha cidade, onde fico à vontade como em nenhum outro lugar, é capaz de nos encorajar para o ócio, para o prazer puro e simples, para esse fundamental gesto de jogar pra escanteio, sem culpa, o terno, a gravata, a pasta, o muito a fazer e os compromissos.

Chegamos à livraria, caminhando, às dez em ponto, justamente no horário em que a Folha Seca abre. E eis aí outra característica nossa, carioca, outra marca que nos identifica. Foi a Beth entrar na livraria, passar os olhos pelas prateleiras, sentar à mesa e dizer:

– Que livraria!!!!!

Ali, naquele exato instante, eu tive uma certeza inabalável: eu não trabalharia.

Diante dessa certeza não me restou outra alternativa: afrouxei o nó da gravata e mandei vir a primeira garrafa casco escuro.

Beto Almeida, Beth Carvalho, Bruno e Eduardo Goldenberg na Folha Seca, 18 de janeiro de 2007

Éramos, àquela altura, pouco antes das onze da manhã, cinco seres humanos felizes dentro da livraria… Eu, Beth Carvalho, Beto Almeida, Rodrigo Folha Seca e o Brunão.

Beth Carvalho jogando no bicho na rua do Ouvidor, 18 de janeiro de 2007

Até que o Rodrigo mandou a nota:

– Vamos ao Casual antes que lote!

Saímos da loja e a Beth, picada pela carioquice febril que tem na Folha Seca o habitat ideal para agudíssima proliferação, disse:

– Quero jogar no bicho!

Eu emendei:

– Joga no 37, número da Folha Seca, rua do Ouvidor 37!

O apontador:

– Escolhe uma milhar, madrinha!

A Beth é, como se sabe, madrinha de todos nós.

E ela, de voleio:

– 5137!

Fez o jogo. Cercou pelos 12, inverteu milhar e centena, cravou no coelho, mandou um duque de dezena, pagou os trinta reais e partimos pro Casual, do chef Santos.

Beth Carvalho e Rodrigo Ferrari na rua do Ouvidor, 18 de janeiro de 2007

E quem chegou?

Quem chegou?

Ele, o portento, o talento, o genial, Tiago PrataBeth fez festa, Rodrigo fez festa, eu fiz festa, e já sentados à mesa do Casual fomos de chope, alheiras, bolinhos de bacalhau, costelinhas assadas, batatas ao murro, cantamos sambas de enredo, choramos – sim, meu pai, choramos todos diante da beleza – e depois de pagarmos a conta decidimos, para o bem de todos e felicidade geral da nação, voltar para a livraria.

Prata na Folha Seca, 18 de janeiro de 2007

Voltamos, disfarçamos todos tomando um café expresso e o Rodrigo Folha Seca cochichava ao meu ouvido:

– Que noite ontem, que dia hoje!

Pausa esclarecedora: na véspera, quarta-feira, entrevistamos o João Bosco. Eu, ele, Simas e Leo Boechat. Em breve, brevíssimo, publicarei aqui a entrevista na íntegra, como sempre. Foi, devo confessar desde já, emocionante. Encontramos o João numa tarde/noite inspirada, num buteco pé-sujo na Marquês de São Vicente, na Gávea, derrubamos uma garrafa de Red Label, bebemos quase um engradado de cerveja, e o resultado – vocês verão! – foi surpreendente!

resultado do jogo

São quase três da tarde e o apontador de bicho invade a livraria:

– Dona Beth! Dona Beth! A senhora ganhou 300 reais! Por um número… Se desse 5137 ao invés de 6137 a senhora levaria mais de dois mil!

Vão tomando nota dos fatos da tarde. Tudo soa à mentira. Tudo tem cores de lenda. Tudo parece inventado. Mas não, meus poucos mas fiéis leitores, não. Definitivamente, não. O Rio de Janeiro tem essa capacidade. O Rio de Janeiro tem essa impressionante capacidade de surpreender a gente, e aquela esquina, aquele trecho do velho centro do Rio – leiam isso aqui – tem essa mania apaixonante de produzir mágica atrás de mágica.

A Beth foi, na hora, receber seu prêmio.

E a rua do Ouvidor foi um só alarido! Ela pousou para um sem fim de fotografias, deu incontáveis autógrafos, e eu mesmo respondi à hilária pergunta de um passante:

– Perdão. Essa aí é a Beth Carvalho de verdade?

Moacyr Luz e Beth Carvalho, 18 de janeiro de 2007

Quando já dávamos o dia/tarde por encerrado quem chega?

Quem? Moacyr Luz e Dorina.

Há mais festa no interior da livraria.

Môa toca e canta. Beth canta e chora. Eu choro. Dorina canta. E o Rodrigo prossegue, guinchando baixinho:

– Que noite ontem! Que dia hoje!

Daniela Duarte, Eduardo Goldenberg e Dorinna

Szegeri, meu mano Szegeri, o paulista mais carioca da paróquia, possivelmente sentindo apertar o peito diante de tamanha boniteza, bate o telefone pra mim. E eu choro – de novo, meu pai… eu chorei de novo… – contando sobre tudo.

Moacyr, Dorina e Beth batem em retirada por volta das sete e meia da noite. Vão em direção à Gamboa. Eu recuso o convite e fico. Eu fico porque minha menina, a Sorriso Maracanã, está chegando de Curitiba. Eu fico e fecho a loja com o Rodrigo às oito, depois de dez horas seguidas de batente.

E vamos a pé até a Praça Tiradentes, onde ele fica e de onde eu tomo um táxi para casa.

Vim mudo, sem falar palavra.

Só fui abrir a boca – e o coração, e a alma – quando a casa encheu-se de luz com a chegada da moça com um sorriso do tamanho da cidade que eu amo e onde fico à vontade.

Com a licença do Aldir e do Moacyr… Deus desenhou meu coração de um jeito igualzinho ao velho Centro do Rio.

E fiquei no colo da mulher amada contando sobre o dia. Contando sobre o dia mágico que vivi. Ela sorriu diversas vezes, como quem sorri pra uma criança diante do encantamento novidadeiro de uma descoberta. Fez festinha nos meus cabelos, enxugou minhas lágrimas com as mãos em cujas linhas tropecei faz tempo. Disse-me, com a doçura que só têm os cúmplices:

– Não fosse você me contando, meu amor, e eu diria… mentira!

Tal e qual me disse o Rodrigo, sobrinho da Sônia.

Vai ver que foi tudo mentira mesmo.

Mais uma peça pregada pela cidade-mulher, da qual sou, como diria Paulo da Portela, grande admirador.

Eu pensei – juro! – à certa altura, que eu estava de fato delirando… que eu abrira um livro qualquer, numa qualquer prateleira daquela portentosa livraria, e entrara, literalmente, dentro de um enredo encantado, para viver, de verdade, uma das mais bonitas histórias já escritas.

Até.

P.S.: depois não digam que eu não avisei. No sábado, amanhã, a partir das 13h, acontece a festa de 3 anos de vida da livraria Folha Seca que embarca nas comemorações do dia do padroeiro, São Sebastião do Rio de Janeiro, como já anunciei aqui. Não me venham dizer, na semana que vem, quando eu contar sobre a festa – que se anuncia antológica – que é tudo exagero meu, mentira minha, delírio.

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