É DEMAIS PARA O MEU CORAÇÃO

Como eu já lhes contei aqui, no texto Dani, escrito na minha primeira madrugada sem ela, e aqui, no texto A mulher que me ensinou a sorrir, de outubro de 2005, reencontrei Dani em outubro de 1999 na festa de um amigo em comum, o Alfredinho, do Bip Bip, lá fiz meu cortejo – muitíssimo bem sucedido! -, de lá partimos para a quadra do Salgueiro e da quadra do Salgueiro para a praia de Ipanema – direto! Na praia deu-se o seguinte (trecho do segundo texto acima indicado):

“Lá se vão seis anos, quando dançamos nus, na primeira noite, no calçadão de Ipanema, ao som de “Canção da Manhã Feliz” (eu sei que parece exagero de novo, mas dessa vez é o Mineiro, barraqueiro entre a Vinicius de Moraes e a Farme de Amoedo, quem pode dizer que estou sendo preciso do início ao fim).”

Antes de seguir, brevíssima digressão.

Tenho cumprido, já lhes contei aqui, o dever de vivenciar o luto da forma mais bonita possível. E tenho ido, com quase-religiosa postura, a todos os lugares que marcaram nossa trajetória, minha e dela, de quase doze anos juntos:

“Tem sido especialmente difícil fazer pela primeira vez, sozinho, o que tantas vezes fiz com ela. Foi assim minha primeira ida à praia, minha primeira ida à quadra do Salgueiro, minha primeira ida a tantos lugares…”

Prossigo com a digressão, porque o que quero mesmo, hoje, é lhes contar sobre esse nosso primeiro desvario, na praia: além da quadra do Salgueiro que, se já era território sagrado por conta do peso da vermelho-e-branco da Tijuca, ganhou ares ainda mais mágicos por ter sido lá, em outubro de 1999, mais precisamente no dia 18, o primeiro beijo que demos, também foi constante nossa presença na quadra da Unidos de Vila Isabel, a azul-e-branco da terra de Noel Rosa, onde estive no último sábado. E faço pausa dentro da pausa: cheguei à Vila Isabel, no boulevard 28 de Setembro, e bastou pôr os pés no interior da quadra para que um filme corresse dentro de mim. Um filme corria dentro de mim e muitas lágrimas me corriam dos olhos embaçados quando me estenderam uma garrafa de Smirnoff Ice e fizeram, de leve, festinha no meu rosto – eu não estava ali, exatamente, e aquele estender da bebida, e aquele afagar de leve me acalmaram de uma maneira que só eu sei. Tanto que disse a ela, amiga nossa, o que agora eu repito: nunca (com a ênfase szegeriana) vou me esquecer desse gesto. Nunca! Como nunca me esquecerei do gesto do Wallan, no comando da bateria da Vila Isabel, que me chamou quando me viu, perguntou pela Dani, eu então lhe contei, e ele, visivelmente surpreso com a notícia, fez questão de reduzir o compasso da bateria, chamou Mestre-Sala e Porta-Bandeira, estendeu-me o pavilhão da azul-e-branco e me disse no ouvido:

– Dois beijos, Edu! Um teu, outro dela.

Só quem conhece a liturgia das Escolas de Samba é que sabe a importância do gesto do Wallan, a quem conhecemos, eu e Dani, desde 1999. Mas vamos à praia, vamos a 1999.

Saímos da quadra do Salgueiro e já quase amanhecia. Tomamos a direção da praia de Ipanema e no CD do carro, Maria Bethânia ao vivo, show Imitação da Vida. Fui ouvindo aqueles versos – eu estava saindo de uma separação… – e me comovendo intensamente: “Luminosa manhã, pra que tanta luz, dá-me um pouco de céu mas não tanto azul, dá-me um pouco de festa, não esta, que é demais pros meus anseios…”. Dani também se comovia e havia ali, naquele (re)encontro, uma certeza de que estava começando uma história que tinha tudo pra ser incrível – como de fato foi, interrompida estupidamente pela morte.

Chegamos à praia de Ipanema antes das seis da manhã. Na areia, o Mineiro montava sua barraca, o sol nascia por trás do Arpoador e trocamos de roupa no calçadão mesmo, Canção da Manhã Feliz no máximo volume, e nós dois dançando abraçados, cantando, chorando, e quando eu voltei à praia pela primeira vez sem ela, quando aproximei-me do Mineiro – que já sabia da Dani por terceiros – ele me disse, me dando um puta abraço:

– Sabe que eu lembro como se fosse hoje de vocês dois, malucos, dançando no calçadão naquele dia?

Eu ia pôr, aqui, a gravação que ouvimos naquela manhã, com a Maria Bethânia. Ocorre que a EMI, detentora dos direitos sobre a obra da cantora, simplesmente não permite o upload da canção. Fica, porém, como registro – e um belo registro, diga-se! – esta gravação com Nana Caymmi e Miltinho.

Até.

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