CENAS TIJUCANAS

Já vi de tudo – ou quase tudo – aqui na Tijuca, de longe o melhor bairro da cidade. Vira-e-mexe alguém me pergunta sobre a Tijuca, sobre esse profundo amor que nutro pelo chão desse bairro que me viu nascer e crescer, quase sempre sem entender o que há na Tijuca e que seja capaz de tanto me magnetizar. Não cabe explicação, diria o poeta. Mas eu me atrevo a, numa brevíssima digressão, explicar a você, leitor de longe (alô Daniel, alô Camila!), o que é que há aqui nesse bairro onde nasceu Tom Jobim, onde vive o estupendo compositor Aldir Blanc e os imprescindíveis Felipinho Cereal e Luiz Antonio Simas, onde fica o morro da Formiga, do Borel e do Salgueiro, bairro vizinho do Estácio e de Vila Isabel, onde fica o Maracanã, o América, a Praça Afonso Pena, grandes botequins, quitandas antiquíssimas, ruas portentosas como a Matoso, a Conde de Bonfim, a São Francisco Xavier que passa pela Mangueira, onde vivem meus pais desde que nasceram, onde viveu o poeta Paulo Emílio da Costa Leite, onde fica a secular igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho, bairro mágico que só se desvenda ao homem com olhos de ver e ouvidos de ouvir.

Hoje mesmo, voltando pra casa (voltando à primeira frase deste texto), tropecei numa macumba na esquina da Caruso com a Haddock Lobo que eu vou lhes contar! A assistência que bebia de pé, diante do balcão do Bar do Marreco, tecia os mais estapafúrdios comentários sobre o troço. Despachado na esquina, um prato de barro gigantesco, comidas que não identifiquei, quatro velas acesas em volta da coisa, uma garrafa de marafo e, deitada sobre um leito de farofa amarela, uma boneca horrorosa e desfigurada (tinha os olhos arrancados e portanto vazados) que me pareceu a Barbie (sem negrito, evidentemente, que boneca não é gente), com os cabelos desgrenhados e sem uma das pernas.

Um cabeça branca (parei pra ouvir a discussão) deu a sentença:

– Deve ter sido o Pinóquio…

– O Pinóquio? – disse um careca barrigudo sem camisa.

– O Pinóquio… – e cofiou a barba, o coroa.

Deu um gole na cerveja, tragou fundo o filtro amarelo que pendia da boca, e arrematou:

– Dizem que o filho dele, o…, o…

– O Maurício! – foi a ajuda que deu o balofo.

– Isso! O Mauricinho… – e riu.

– O que é que tem a bichinha? – emendou o Marreco, de dentro do balcão.

– Pois é, dizem que o moleque pediu uma boneca Barbie de presente de aniversário pro pobre do Pinóquio!

Neguinho explodiu de rir na esquina.

Continuou:

– Parece que ele foi se consultar com a dona Catarina, aquela macumbeira lá da Praça da Bandeira, que recomendou expressamente esse troço aí.

Apertei o passo pra casa.

Fiquei rindo de mais essa cena, tijucaníssima, e agradeci a Deus o fato de ter nascido aqui, de ter escolhido viver aqui. Em nenhum outro lugar há mais autenticidade. Lembrei-me de Santa Teresa, por exemplo. O aprazível bairro tem um troço que me intriga. Ele modifica as pessoas de uma forma aguda, ele molda as pessoas, ele dita moda e a moda é incorpoada pelo visitante, como se este último fosse um médium sem controle sobre a entidade. Explico.

O casalzinho jovem mora em Ipanema e resolve ir à Santa Teresa no sábado pela manhã. Tomam um táxi e saltam no Largo da Carioca a fim de tomarem o bonde pra Santa (o habituè adora chamar Santa Teresa de Santa). Entram no bonde. O bonde parte. Atravessa os Arcos da Lapa e na primeira curva, já dentro do bairro, começa o espetáculo. Ela abre a mochila. Saca uma touquinha de crochê, tira o All Star e veste uma sandália de couro, coloca uma bata colorida sobre a camisa de malha, põe uns 6, 7 anéis nos dedos da mão, estende o anel de osso preto pro namorado, que o atarraca no polegar da mão direita. Ele rasga a bermuda jeans, como um possesso. Joga o par de tênis dentro da mochila da namorada, veste um par de havaianas surradas, despenteia o cabelo, coça a cabeça como um menino cheio de lêndeas e saca do bolso da frente o cigarrinho de maconha piscando o olho em direção à namorada:

– Máum? – é assim que essa gente fala “vamos fumar um?”.

E passam a tarde felizes zanzando pelas ruas do bairro alternativo.

Semelhante fenômeno – o da transformação, o da mimetização entre bairro e visitante – dá-se com a Lapa.

A Lapa de outrora, que eu não conheci, era muito, muito, mas muito diferente dessa mentira que contam hoje. Ontem à noite mesmo, de papo com um amigo querido da velha-guarda, disse-me ele, revoltado com essa Lapa bacana que toda hora é manchete dos caderninhos de cultura dos jornalecos cariocas:

– Ninguém mais pega gonorréia na Lapa, porra!

Pausa: esse sujeito, esse grande sujeito, será o próximo entrevistado do Buteco, aguardem.

Vejam vocês que dia desses a revistinha das sextas-feiras do lastimável jornal O Globo pôs na capa o sexagenário Caetano Veloso posando dentro do Capela (onde, suponho, ele jamais pisou), dizendo que a Lapa é a síntese do Rio.

Mentira.

A síntese do Rio – já disse Luiz Antonio Simas em brilhante entrevista que tenho gravada – está na zona norte, no subúrbio, nas biroscas da Baixada Fluminense, no coração do carioca que não está nem aí pra modas, modismos e mais que tais.

Vai-se à Lapa hoje e deixa-se as calças pra pagar as despesas cobradas naquelas mentiras que pululam a cada esquina.

E o que faz a playboyzada que vai beber na Lapa nos finais de semana?

Sai de lá com uma malemolência fabricada e mal feita dizendo:

– Brother, a Lapa é demais, mermão. Demais.

Não sabem nada.

Até.

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13 Comentários

Arquivado em confissões, Tijuca

13 Respostas para “CENAS TIJUCANAS

  1. >É, não sabem de nada mesmo…Um abraço do leitor tijucano e brizolista.

  2. >Concordo totalmente, e o que é pior Edu, entupido de gente, fede a urina, se ouve todos os ritmos de uma vez. Pra bater um papo com o amigo , o cabra tem que se esguelar. Parabéns Edu, os textos estão maravilhosos como sempre e a Tijuca é tudo de bom mesmo!

  3. >O bar do Marreco está cada dia melhor, pode perceber. O Estudantil, nem se fala. Sem nos darmos conta o bar entrou para nosso cotidiano. A Tijuca é aquilo ali.

  4. >Hilária a contação da macumba e, mais um vez, delícia sua poesia com a Tijuca. Não curto a Lapa, por isso, evito. Mas essa do casalzinho de “Santa” (sim, sou habitué*!), você só pode estar exagerando, tirando sarro… É possível?* habitué: no meu entendimento, frequentador de um lugar.

  5. >Edu, grande, este é, sem dúvida, um texto de formação. Deveria ser lido nas salas de aula!

  6. >É por isso que só saio daqui, quando não estou trabalhando, em caso de absoluta urgência. Vivo no bairro. Viva!

  7. >Valeu, Juliano, um grande prazer vê-lo de novo com o cotovelo no balcão daqui! Abraço.É isso, Monica, a Lapa virou ponto de encontro de gente que acha que está, ali, na velha Lapa. Não sabem nada… Beijo.Felipinho: você tem que ver o cartão que o Marreco mandou fazer pra distribuir! Vou escanear e colocar, já, já, aqui no BUTECO. Salve a nossa Tijuca! Beijão.Vanessa: a história da macumba com a bosta da boneca Barbie é verídica. Imagine o desespero do pai com o pedido esdrúxulo do filhote… E não, Vanessa, não estou tirando sarro, não. É exatamente isso o que se vê pelas ruas do descoladíssimo bairro de Santa Teresa. Pra você ter uma idéia, no dia da lamentável Marcha da Maconha, em Ipanema (sobre o assunto leia o que escreveu o imperiano Carlos Andreazza em seu excelente blog, aqui), não havia uma viva alma sapateando sobre os paralelepípedos do velho bairro. Passe a ter olhos de ver e ouvidos de ouvir. As “patricinhas” que sobem de bonde são como kongas-zona-sul. Vão se livrando dos clichês e incorporando as ripongas que povoam o imaginário do visitante. E como diz Luiz Antonio Simas, esse povo confunde “estilo de vida” com “falta de higiene”. Beijo.Andreazza, imperiano de fé: obrigado pela citação no seu TRIBUNEIROS! Forte abraço.Simão: salve a Tijuca, meu velho, e a espontaneidade comovente de sua gente. Beijo.

  8. >”Ninguém mais pega gonorréia na Lapa, porra!”. Eis, sem espaço para dúvida, a melhor frase do mês.

  9. >Segura as pontas, Moutinho, que eu já fechei entrevista com o caboclo autor da genialíssima (como ele) frase. Faça uma idéia do que vem por aí! Segura! Abraço forte.

  10. >Pois é, Edu. As poucas horas na Tijuca rendem histórias até hoje. Sábado ainda tentamos lembrar da receita da batata calabresa. Mas dada a altura em que nos encontrávamos no momento em que a receita nos foi passada, só lembramos da batata e da pimenta calabresa. Na próxima a gente anota. Vamos matando as saudades das mofadas aqui pelo seu Buteco.

  11. >O seu amor pela tijuca, tenho eu pela vila..rsssMorava na Tijuca, mas o que adiantava se vivia pelos bares de Vila Isabel, ai não teve jeito, me rendi aos encantos da vila.Eu criei um blog, que ainda está em construção, de utilidade publica para vila isabel, tijuca e adjacencias…depois dê uma olhada:www.eusoudavila.blogspot.comabraços

  12. >Grande blog. Ah, eu moro na Lapa. Na garagem do meu prédio, tem um restaurante que cobra R$ 25,00 o quilo. Mas, em frente, tem um prédio de 13 andares ocupado. He.

  13. Pingback: MAIS SOBRE SANTA | BUTECO DO EDU

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