AINDA O RIO DE JANEIRO

Escrevi ontem uma humílima homenagem aos 447 anos da minha mui amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, aqui. Alguns comentários me deixaram profundamente emocionado – todos deixando muito explícita a paixão que desperta, naquele que aqui vive ou que aqui chega, a cidade-mulher. E quero, hoje, nesta sexta-feira que se anuncia esplendorosa – há, no céu, como diria Luiz Carlos da Vila, um azul do próprio céu se admirar – debruçar-me um pouco mais nos encantos do Rio de Janeiro.

Eu costumo dizer, com alguma freqüência, que o sujeito que não nutre desmedido amor pela terra em que vive, pela terra em que nasceu, é um sujeito no mínimo estranho. Ocorre que esse amor é atávico – eu diria obrigatório, prova de caráter e de gratidão. Há, de fato, lugares tão inóspitos, tão hostis, tão anti-lugares, que exigir do residente ou do domiciliado esse sentimento representaria crueldade elevada à categoria de tortura.

Já o Rio de Janeiro, meus poucos mas fiéis leitores…, o Rio de Janeiro é um caso à parte. O Rio de Janeiro é – como dizer? – a pátria-mãe (escrevi mãe e lembrei-me das minhas sessões de psicanálise). Na mais ampla acepção da palavra: o Rio acolhe, recolhe, o Rio adota, o Rio encanta, o Rio dá de mamar, o Rio nina, faz dormir, o Rio é. Isso. O Rio é e isso basta. Vamos a algumas digressões (e me perdoem, desde já, os clichês inevitáveis).

Quantas vezes já se falou sobre o arroubo que causa chegar de avião nessa terra? Muitas. E serão sempre poucas. Quem pode cansar de avistar, de cima e de longe, o Corcovado de braços abertos sobre a Guanabara? As praias, o verde, a zona norte, o Maracanã, o Pão de Açúcar, o Cara de Cão, os Dois Irmãos? Desde o alto, como se descêssemos dos braços estendidos do pai em direção ao colo da mãe, a cidade nos promete um aconchego que só conhece quem passa por aqui. E é preciso, para que tenha ares de absoluta autenticidade – de precisão do início ao fim – o que estou a lhes dizer, que eu fale de mim – e assim você que me lê poderá dimensionar o amor e a paixão que me unem, de forma fusionada, à cidade do Rio de Janeiro.

Breve pausa, antes.

Escreveu, a Olga, nos comentários deixados ontem:

“Eu tenho tanto orgulho dela, Edu, que, quando fora do Rio, encho a boca pra dizer que sou carioca. Um orgulho besta mesmo, quase infantil. Sabe aquela historinha de “eu tento ser humilde, mas a cidade não deixa” …”

Rigorosa verdade (e acho graça dela ter se valido da expressão “quase infantil”, que me remete de primeira à mãe, que comparei à cidade). Não há carioca, vivo ou morto, que não tenha, nos bolsos, permanentemente, esse orgulho besta e essa sensação de que é impossível ser humilde diante da condição que temos todos os que vivemos aqui. Há, em todo carioca, vivo ou morto, esse sentimento agudo do pertencimento – e que se confunde a ponto de inebriar o carioca. Somos felizes porque vivemos aqui, porque nos sentimos donos de uma gleba no litoral, porque temos a impressão de que ajudamos a moldar nosso relevo, a erguer nossas montanhas, porque as ruas são nossas, as praças são nossas, as calçadas são nossas, e essa confusão de sentimentos entra em ebulição e o que evapora (que é o que respiramos, aspiramos) é justamente esse orgulho. Voltemos.

Vivo na Tijuca, na zona norte – minha terra, minha aldeia, meu pago. Aqui nasci, na Ordem Terceira da Penitência, na rua Conde de Bonfim, bem em frente ao morro do Borel. Desceram, meus pais, a Conde de Bonfim, e minha primeira taba foi na rua Barão de Mesquita, quase na esquina da São Francisco Xavier, na lateral do tradicionalíssimo Colégio Militar (onde fui batizado depois de ter sido circuncisado por um rabino, vão tomando nota, no oitavo dia). Dali, mudamo-nos para a São Francisco Xavier, número 90, primeiro no sexto andar e depois no segundo – em frente ao Orsina da Fonseca, quase em frente à Igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho, às margens do rio Trapicheiro (foi quando conheci Tarcisa, a mulher de seios de mármore). Meus países eram as vilas nas quais moraram meus avós – sempre na Tijuca. Mudamo-nos, anos depois, para a Professor Gabizo, entre a Morais e Silva e a General Canabarro, a poucos metros do Maracanã. Foi quando casei-me pela primeira vez e – horror dos horrores! – exilei-me na Lagoa. Dirão vocês:

– Mas na Lagoa?! A Lagoa é linda!

É. De fato é. Mas eu me senti, durante quase cinco anos, como um desterrado, um apátrida, um triste longe da pátria-mãe.

Mudei-me de novo – e de vez! – para a Tijuca. E vivo, na Tijuca, o Rio de Janeiro em estado bruto (vou lhes contar).

Estou cercado de botequins. Vou a pé ao Maracanã. Muitos de meus amigos são meus vizinhos, todos muito por perto. Faço a feira dos domingos também a pé. Estou, tanto de metrô quanto de ônibus, a pouco mais de 20 minutos da praia de Ipanema, da Barraca do Mineiro, entre a Farme de Amoedo e a Vinícius de Moraes. Estou a menos de 15 minutos do Centro da cidade, da livraria do meu coração, do meu escritório, estou a 45 minutos, uma hora no máximo!, da agradável região serrana (Petrópolis, Teresópolis, Itaipava, Pedro do Rio…), chegar na Estação das Barcas é um pulo, Niterói e Paquetá ficam logo ali. Em 20 minutos estou na Floresta da Tijuca, em Santa Tereza, em pouco mais de meia-hora chego no subúrbio, e ainda dou-me ao luxo de poder dizer que estou quase na esquina da Haddock Lobo com a Matoso, onde toda a confusão começou, como cantou Tim Maia – aqui.

Definitivamente, eu vivo no melhor lugar do mundo.

Até.

Anúncios

6 Comentários

Arquivado em Rio de Janeiro, Tijuca

6 Respostas para “AINDA O RIO DE JANEIRO

  1. fernando bueno

    É verdade, Edu, o Rio adota e para sempre. E quanto ao comentário da Olga, é verdade, mesmo sendo argentino (meu português falado é bem melhor que quando escrevo), sentia um puto orgulho quando em Foz do Iguaçu me chamavam de carioca, por causa do sotaque, faço questão de exagerar o chiado.

  2. Edu,

    A pena sensível nos emociona, pois é impossível não se emocionar com o Rio de Janeiro, escrevi no meu blog minhas memórias afetivas e eletivas sobre a cidade mais linda do mundo. É covardia comparar com qualquer outra.

    Abraços,

    Arnobio

  3. Olga

    O poeta gaúcho Mario Quintana, uma vez foi perguntado, ao discorrer sobre a beleza do Rio, o que mais gostava na cidade, e respondeu: “os túneis”. Questionado, continuou: “é quando descanso de tanta beleza…”.
    Edu, a beleza é tanta, que eu não consigo me acostumar, tô sempre tomando susto. Tenho pelo Rio sempre o primeiro olhar.
    Um beijo!

  4. Andre

    Viva o Rio!
    Viva o Edu!

  5. Chicão (Francisco Fernandes)

    Parabéns pelo texto emocionante sobre a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Digo mais, serei desde já, frequentador do seu aconchegante Buteco.

  6. Pingback: ARREMESSO AO PASSADO (01) | BUTECO DO EDU

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s