RIO DE JANEIRO, 447 ANOS

Uma das primeiras coisas que fiz hoje cedo ao acordar foi ler o sempre imprescindível Histórias Brasileiras, desse brasileiro máximo, meu mano Luiz Antonio Simas. E com o texto Os mais velhos do Rio nosso ilustre professor – o Simas dá aulas impressionantes até quando dá um simples bom-dia – relembra o pega pra capar que foi a conquista das terras da Guanabara e a conseqüente fundação da cidade, que deu-se quando os portugueses, através de Mem de Sá (cuja ossada fica guardada na rua onde moro, na Igreja dos Capuchinhos), mandaram criar um arraial no sopé do Pão de Açúcar, em primeiro de março de 1565 (leiam aqui).

Faz hoje, portanto, 447 anos, a minha cidade.

Não tenho sequer uma mísera partícula do conhecimento que tem, da visão histórica da fundação e do desenvolvimento da cidade, o bravo tupinambá de olhos claros que é Luiz Antonio Simas, bugre indomado, hoje mais manso por conta do nascimento de meu afilhado-de-rua, o pequeno tupinambá Benjamin, que chegou ao mundo e a estas terras de São Sebastião do Rio de Janeiro 446 anos e 20 dias depois do marco de fundação de nossa aldeia. Mas quero lhes falar de meus encantos, de olhos cheios d´água, por essa cidade-mulher que me encanta e me assombra desde que nasci, 403 anos e 361 dias depois do marco de fundação da mesma aldeia que acolheu, anos depois, o menino Benjamin.

Sou – quem me lê sabe – um apaixonado pelo lugar em que vivo. Pela cidade de amor e ternura que tem mais doçura que uma ilusão, mais bela que o sorriso, maior que o paraíso, maior que a tentação, cidade notável, inimitável, maior e mais bela que outra qualquer, cidade sensível, irresistível, cidade do amor, cidade-mulher, e salve Noel Rosa e Vadico, autores dessa maravilha que ilustra este texto!

Cidade que apalpo e farejo, desde menino, com a sede e com a curiosidade do menino que pela primeira vez ancora no corpo da mulher amada. Cidade que faz da permanente subversão um modo de vida. Cidade das camisas abertas, peito ao vento, dos pés descalços, da Praça XV e das pedras pisadas do cais, do Maracanã (derrubem o Maracanã, remodelem o Maracanã quinhentas vezes e o Espírito do Maracanã permanecerá ali, enterrado como sapo de macumba – salve, Nelson Rodrigues!), do Clube Pau-Ferro e dos sambas do Irajá, de Madureira, do Mercadão, da Portela e do Império Serrano, de Oswaldo Cruz, do Cafofo da Surica, da ilha de Paquetá, do morro do Salgueiro, regado a cada chuva pra dar alento à zona norte, do bairro de Vila Isabel, do boulevard 28 de Setembro, da fábrica de tecidos, de suas feiras, seus mercados a céu aberto, da zona portuária, da Gamboa, da Praça Onze, dos morros que nos cercam, das muretas da Urca, do Dois Irmãos e do pôr-do-sol mais bonito do planeta, do velho Centro do Rio, da rua do Carmo, Uruguaiana, Ouvidor, pontes de safena pra tamanho amor, salve Aldir Blanc! Da Tijuca, minha aldeia, da floresta da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo, das calçadas cheias de gente, de muitas esquinas, muitos bares, muitas mesas nas ruas, da rua Bariri, de Olaria, do velho estádio de arquibancadas inimagináveis, geometricamente improvável, de Bangu, de Ramos, do Catumbi, do Cacique de Ramos e do Bafo da Onça, de São Cristóvão, da Quinta da Boa Vista, do glorioso Figueira de Melo, do bairro do Lins, onde viveram, durante uns anos, meus avós, suas vilas, suas casas, seus terreiros de macumba, do Grajaú, da Grajaú-Jacarepaguá, da Mesa do Imperador, da Vista Chinesa, de São Conrado, da Estrada Velha, do Alto da Boa Vista, da Barra da Tijuca (que vista de cima é belíssima, a antítese de seu chão anti-carioca), de seus paralelepípedos, do Morro da Conceição, da Pedra do Sal, da pedra do Arpoador, do costão do Leme, das praias do posto 1 ao Pontal, da Baía de Guanabara, e são tantos, meus poucos mas fiéis leitores, são tantos pontos de luz, são tantos encantos, tantos… que eu teria de passar sei lá eu quanto anos aqui, diante do monitor, lhes contando sobre os encantos dessa cidade-mulher que, à moda de uma mulher, tem segredos inescrutáveis.

Por isso, e por tudo, salve o poeta Paulo Emílio da Costa Leite que, quando compôs Lápis de Cor, fechou o samba com este verso: “Amor, eu queria te dar a Tijuca e o Rio de Janeiro”. Desejar o Rio de Janeiro pra alguém, eis aí a maior declaração de amor que pode haver.

Salve, São Sebastião do Rio de Janeiro. Salve!

Até.

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11 Comentários

Arquivado em Rio de Janeiro

11 Respostas para “RIO DE JANEIRO, 447 ANOS

  1. fernando bueno

    Edu: eu sou argentino, mas desde que pisei no chão do Rio de Janeiro, fiz dela a minha cidade, morei seis anos na Arthur Menezes número 15, infelizmente hoje não moro mais no Rio, mas chego até aí cada vez que me é possível, e não tem dia que passe sem que eu lembre dos melhores momentos da minha vida, que foram na sua (e minha) cidade. Com cada relato teu, eu sinto que você me traz o Rio (e principalmente a Tijuca) pra perto de mim. No Rio casei, no Rio fiz Xangô, no Rio saí dois anos na bateria do Salgueiro (você leu bem, NA BATERIA DO SALGUEIRO, tocando tamborim), no Rio tenho enterrada uma filhinha no Caju, e tem dez anos que eu não vou a Buenos Aires, mas de dois em dois anos vou matar a saudade no Rio. Obrigado, Edu, por me trazer pra minha vida a cidade maravilhosa quase todo dia!!!!!!!

  2. fernando bueno

    Moro em Assunção, no Paraguai, e nesse janeiro fui ao Rio e a Arraial do Cabo, as fotos estão no meu Facebook, e é uma puta depressão que me dá cada vez que eu tenho que voltar do Rio (já passou um mês e ainda não consigo melhorar, juro que voltei depois de dois anos à minha terapeuta!).

  3. Olga

    Edu, dá até vontade de chorar, de tão bonita descrição!
    Bem sei que não sou capaz de senti-la e descrevê-la assim tão profundamente como você. Mas não tenho a menor dúvida de que somos abençoados. Um baita privilégio poder viver numa cidade tão linda, pra lá de especial. Eu tenho tanto orgulho dela, Edu, que, quando fora do Rio, encho a boca pra dizer que sou carioca. Um orgulho besta mesmo, quase infantil. Sabe aquela historinha de “eu tento ser humilde, mas a cidade não deixa” …

    E comovente o comentário do Fernando.

  4. Elesbão

    Um escriba intenso para essa nossa dama rochosa que vocifera em natureza esplêndida. Belo texto. Mais um, naturalmente. Deu até vontade de um chope.

    Saravá.

  5. Vanessa Domingues

    Oi Edu…
    Muito lindo teu texto…
    visitei o Rio pela primeira vez no final de janeiro deste ano… E estou encantada!!! Na verdade sempre soube que quando fosse ao Rio não ia querer mais voltar… (acho q por isso demorei a ir) Dito e feito… Chorei desde o momento em que entrei no avião de volta… como falou o Fernando Bueno, bate a maior deprê…
    O Rio encanta pela beleza integral… lugares, natureza, história, e principalmente por sua gente… generosa que compartilha sua cidade com todos… e sabe que ali é o melhor lugar do mundo… No Rio nos sentimos Brasileiros como nunca… e isto nos emociona…
    Hj tenho como objetivo ir morar no Rio… e logo! Porque no rio, a vida é mais bela…

    PS. Ah, quando estava no Rio, a minha mãe que te acompanha no twitter entrou em contato contigo pra saber o endereço do teu antigo bar para eu visitar… Daí vc explicou q n tinha mais o bar e indicou alguns lugares…

    • fernando bueno

      Vá morar no Rio se puder, Vanessa, é o conselho de um arrependido por ter saído de lá. Até hoje, quando vou ao Rio, tenho meus rituais, botecos na Tijuca, almoço de domingo no Siri (na Tijuca, lógico!), quibe e esfirra no Saara, café da manhã (e veja que maluquice!) numa padaria na São Francisco Xavier (mesmo tendo café da manhã na diária do hotel), ir ao Rei do Bacalhau do Encantado, praia em Arraial do Cabo, não piso na zona sul. Como não ter rituais num lugar tão cheio de magia?

      • Vanessa Domingues

        Pois é Fernando… O Rio é pura magia mesmo… E vou seguir os su conselho… e já estou me organizando para isto… Abraços

  6. Arthur Chrispin

    Para um carioca exilado, fica difícil segurar as lágrimas lendo isso. Faz 8 anos que moro longe do meu Rio, mas ele continua e continuará sempre morando dentro de mim, passando pelos mesmos caminhos que você descreveu, adicionando ainda a quadra da Imperatriz Leopoldinense e a arquibancada verde do Maracanã, comendo uma sardinha frita em qualquer bar do subúrbio com uma cerveja gelada. Eu não sei como alguém pode desgostar do Rio, mas entendo, posto que o mundo anda cheio de desamor. Parabéns pelo texto, fantástico.

  7. Pingback: AINDA O RIO DE JANEIRO | BUTECO DO EDU

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