A ÚLTIMA FOTO DO ÚLTIMO RÉVEILLON

A Dani não concebia passar o réveillon longe de Copacabana. Durante as doze passagens de ano em que estivemos juntos, isso só aconteceu três vezes (e mesmo assim, faço a confissão pública, nas três ocasiões, eu levei um garrafão de cinco litros de água do mar, colhidos nas manhãs daqueles 31 de dezembro de 2007 [em Santa Teresa, na casa de meu irmão], de 2008 [na Barra da Tijuca, na casa de sua irmã] e de 2009 [em Cabo Frio]).

No último réveillon, o de 2010, mesmo não estando bem, ela bateu pé e fez questão de passar em Copacabana (será que ela sabia que seria o último???… isso me atormenta).

Armamos, então, eu, ela, seus irmãos Marcelo (com a Thaís) e Magali (com Ricardo e as meninas, Maria Helena e Ana Clara), uma ceia no apartamento da Santa Clara, onde ela morou por alguns anos quando veio estudar no Rio de Janeiro e onde mora, até hoje, seu irmão caçula – o Marcelo, o Neném, como ela o chamava. Acordamos cedíssimo naquela sexta-feira, eu preparei a lentilha que faço todos os anos, e partimos em direção à Princesinha do Mar.

Ela já muito cansada, almoçamos no tradicionalíssimo Rian e fomos pra casa descansar. Ceamos por volta das nove da noite e já às 22h estávamos aboletados nas areias de Copacabana, onde nos encontrou o Rafael, amigo de infância da minha menina, uma das mais constantes presenças em sua vida. Levamos toalhas, cangas, cadeiras, e estávamos todos, ali, vivendo um 31 de dezembro no ritmo dela, quietos, comovidos, na esperança de um 2011 auspicioso.

Dani só levantou, mesmo, perto da meia-noite, para ver os fogos, um espetáculo que ela amava, amava!, e nem que eu viva mais duzentos anos me esquecerei de suas mãos apertando as minhas, durante o espocar nos céus de Copacabana. Nem que eu viva mais duzentos anos me esquecerei do brilho de seus olhos reluzindo esperança, emoldurados pelo medo e pela insegurança que minhas mãos, naquele instante, também, tentavam diminuir (será que eu consegui???… isso também me atormenta).

Fim dos fogos, Dani sentou-se. Bebemos champagne, que ela amava tanto quanto amava os fogos, e ficamos ali o quanto ela pode. Nós, que sempre varamos a primeira madrugada do ano juntos, pouco antes de uma da manhã estávamos de volta (as fotos não me deixam mentir).

Essa próxima foto, a última que a registra na praia, foi tirada exatamente a 0h23min.

Que olhar e que sorriso, o da minha menina!

Com dor, seguramente com medo, foi esse sorriso – como sempre! – que ganhei de presente durante a noite daquele 31 de dezembro de 2010, que ganhei de presente nos primeiros minutos de 2011.

E me dói, de uma maneira absolutamente indizível, saber que não o verei mais diante dos meus olhos, ao alcance dos meus dedos e da minha boca, oca e triste sem ela.

Até.

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11 Comentários

Arquivado em confissões

11 Respostas para “A ÚLTIMA FOTO DO ÚLTIMO RÉVEILLON

  1. Bruno Quintella

    Lindo texto, Edu. Ela certamente vai segurar sua mão. Nesta passagem de ano – e de todas as outras que virão.
    Beijo grande, amigo. Saudades.

  2. Sonia

    A lembrança do sorriso, da alegria dela sempre estará por aqui…

    A nossa tristeza vai acabando, acabando, acabando…

    ” A vida segue, sempre…

    Bjs,querido.

  3. Danilo Gallo

    Edu, pode me chamar do que vc preferir, mas vc escreve coisas tão lindas, que hoje posso lhe garantir que senti este aperto de mão e , de alguma forma que suas palavras proporcionam, senti a alegria desse sorriso. Só vc para fazer verter lágrimas deste cansado trabalhador aqui no começo do expediente. Seja sempre assim, o mundo precisa de pessoas assim. Parabéns e quem me dera escrever desta maneira.

  4. Lucia

    Que lindo,vc é fantastico,leio sempre o que vc escreve vc recebeu de Deus este dom , pois consegue passar sentimentos verdadeiros, imagino o quanto esta sua menina foi amada, que maravilha.mas a vida é assim, tudo passa, ficam as lembranças.que Deus te abençôe sempre e te proteja.

  5. Ela sempre sorrindo, por mais adversa que seja a situação. Um exemplo a ser seguido. #ForçaEdu

  6. Dyó Menezes

    Estas palavras renovam a certeza do que o a amor e a fé são o caminho.
    Viva a vida, a paz, os sorrisos e aqueles que tão bem cifram emoções.
    Do – sim – seu amigo! E que nos conheçamos em breve!
    Dyó

  7. Bernardo Villano

    Cheguei ao seu blog para ler o texto sobre nossa querida Katia, a qual você chamou de Estrela de Luz. E esta estrela me conduziu ao belo texto que acabo de ler e que me emocionou profundamente. Parabéns pelas palavras e pelos sentimentos expressados!
    Que esta dor física se transforme em mera miudeza diante do amor que jamais acaba.
    Paz e felicidade!

  8. Zezé

    Edu, que texto emocionante, amigo. Aproveito para lhe dizer que sempre leio o seu blog e fico encantada com as suas receitas. Abraços e desejo um feliz Natal e um ano novo com tudo o que for importante pra vc.

  9. Alfredo

    Salve, Edu.
    Os índios tinham medo das fotos por acreditarem que elas tinham o poder de aprisionar ou roubar suas almas. Acho que estavam certos. Sendo assim, de certa forma você aprisionou no seu coração aquele momento, eternizando-o.
    Grande abraço,

    Alfredo

  10. Pedro Paulo Bastos

    Edu,
    Lindo e tocante o texto. Sem mais comentários.
    Um abraço, e que 2012 te dê muitos bons momentos.

  11. Roberta parreira

    Um beijo grande e cheio de emoção e saudade!!! Roberta.

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