>OS TIRONE

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Do alto dos meus 40 anos posso dizer, sem medo do erro, que a vida me pregou muitas peças. Apresentou-se doce e mansa por vezes e noutras tantas amarga e tormentosa. Tive muita tristeza e muita decepção mas também intensas alegrias e incontáveis surpresas. Cultivei um poço artesiano de ternura e encontrei lodo e lama no fundo. Fui irmão dos meus irmãos e houve quem dissesse que jamais o fui. Por outro lado a terra, arada permanentemente por minhas mãos ávidas por coisa boa, mostrou-se fértil. Posso dizer, por mais que eu tenha a alma machucada por estar vivo (o que se diz imaculado é um mentiroso), que sou um homem de sorte. Vim de uma família da qual me orgulho, nasci e cresci num bairro que amo, tenho os amigos que quero e dos quais preciso, vivo com a mulher que amo, e amealhei, e venho amealhando, e que os deuses permitam seja assim pra sempre, fraternos amigos que dão mais sentido a essa aventura fabulosa que é viver.

Vocês estão carecas de saber que Fernando José Szegeri (e escrevo seu nome todo a pedido do próprio) é um sujeito fundamental pra mim. Dentre tantos feitos capazes de me tornar um homem melhor, Fernando José Szegeri foi o autor de um que serve como mote para o que quero lhes contar hoje.

Fernando José Szegeri apresentou-me a Arthur Tirone, o Favela. Foi no CUCA, em São Paulo, durante um dos aniversários da AGENDA DO SAMBA & CHORO (não consigo me lembrar em que ano, nem à fórceps). Fomos costurando, eu e o Favela, ao longo do tempo, uma relação sólida que a mim só trouxe coisa boa, amalgamada à base de cerveja, cotovelos no balcão, limão da casa, doses de Cynar, porções de torresmo e muito samba. Relação iniciada, é preciso que se diga, com o aval que foi dado pelo homem da barba amazônica. Esse troço do aval, entre os homens, é de suma importância. Não por outra razão formamos um time de primeira, hoje em dia: não é nada incomum estarmos à mesma mesa eu, Arthur Favela Tirone, Bruno Ribeiro, Felipinho Cereal, Fernando Szegeri, José Sergio Rocha, Luiz Antonio Simas, tantos outros (todos em ordem alfabética para não ferir suscetibilidades), e sempre sob as bençãos desse filho de Xangô, homem bom e justo a quem fui visitar neste último final de semana, mais uma vez (fui tomar-lhe a benção, eis a verdade).

Fui visitá-lo e ele havia programado um furdunço no sábado.

Na sexta-feira, pouco antes de sair do Rio, recebi o chamado szegeriano. Disse-me ele:

– O Favela também vem!

E disse mais:

– O Bruno também!

Nem bem eu festejava a notícia e ele emendou:

– Mimi e Denize também, Edu! Você vai conhecer o Mimi!

O Felipinho Cereal, que recentemente teve o prazer de conhecer Vladimir Tirone, o legendário Mimi, (leiam aqui o relato do Felipinho e aqui dois relatos de seu próprio filho), já havia me dito:

– Você precisa conhecer o Mimi, uma lenda viva, uma lenda!

Pequena pausa.

O Favela nutre, pelo pai, um amor e uma devoção que muito se assemelha ao amor e à devoção que nutro por meu pai. Como nutre, pela Barra Funda, um amor assemelhado ao amor que me liga, umbilicalmente, à Tijuca. E seus olhos, quando miram a mulher amada, têm o mesmo brilho que embeleza meus olhos feios quando eles encontram os luminosos olhos da mulher que me ensinou a sorrir. São pequenos exemplos, pequenos sinais que nos fazem irmãos das mesmas crenças e da mesma fé.

Pois conhecer Vladimir Tirone e Denize (a menina do Mimi), beber com eles todos (eram três varões Tirone sob o mesmo teto), beber com José Szegeri, e eu com uma aguda saudade de meu pai, que fez forfait e não apareceu, foi mais um grande prêmio que a vida me deu.

Osvaldo Tirone (leiam aqui um emocionado relato do neto) pintou na área, depois de devidamente evocado. E pensando bem, meus poucos mas fiéis leitores, papai também bebeu conosco.

José Szegeri, Eduardo Goldenberg, Vladimir Tirone, Fernando Szegeri, Bruno Tirone e Arthur Tirone, 23 de maio de 2009, São Paulo
Bruno Tirone, Vladimir Tirone, Marcão Gramegna, Arthur Tirone e José Szegeri, 23 de maio de 2009, São Paulo

Dona Denize, antes de ir embora, já tarde da noite, ela que fez o papel de mãe-de-todos-nós, me disse uns troços tão bonitos, mas tão bonitos – e não há razão para reproduzir suas palavras aqui – que cravou-se em mim a certeza de que a Barra Funda e a Tijuca são co-irmãs, que os Goldenberg, os Szegeri e os Tirone (na mesmíssima alfabética ordem de alhures) são frutos do mesmo barro, do mesmo sagrado barro moldado pelas mãos de nossos antepassados que gargalhavam sobre as árvores daquela casa abençoada no bairro da Lapa, distrito da região oeste da cada vez mais sagrada cidade de São Paulo.

Até.

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8 Comentários

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8 Respostas para “>OS TIRONE

  1. >Que lindo post sobre a amizade e sua importância como fonte recarregadora de energias, tudo para podermos continuar tocando nossas vidas de uma forma harmoniosa e completa. Que seria de nós sem essas pessoas a nos fazer ri, chorar e ajudar decisivamente para tornar nossas vidas algo palatável.Copiei o primeiro parágrafo e posto qualquer dia desses (citando a fonte, viu!!!) no meu blog pessoal (www.mafuadohpa.blogspot.com), quando quero também retratar algo parecido com meus diletos parceiros aqui de Bauru SP.Um abracito bauruense a todos, inclusive ao meu amigo carioca, dono da livraria mais amigável do Rio, a Folha Seca.Henrique P. de Aquino – Bauru SP

  2. >Pois é, mano véio, eu não estive entre vocês por puro vacilo! Mas seu texto deu a ideia exata do que perdi. Conseguiu, ao mesmo tempo, me dar imundas saudades do meu pai, do teu pai e do pai do Favela – a quem ainda não conheço pessoalmente. Beijo grande!

  3. >Beleza de registro, Edu… E sempre os amigos – sempre!

  4. >Henrique: obrigado pelos imerecidos elogios. É evidente que você pode transcrever o que quiser vindo daqui, do balcão do BUTECO, sempre que quiser. Só não misture mais as estações, por favor. Aceito seu abraço, e o retribuo. O abraço para seu amigo carioca, se você me permite, mande você mesmo, por e-mail. Um abraço.Bruno: fizeste falta, querido, e foi um tremendo vacilo não pintar na área. Até a próxima, que há de ser breve!!!Obrigado, Andreazza, por mais essa presença. Salve a amizade, querido, sempre. Forte abraço.

  5. >O Mimi está no nivel máximo da espécie humana. O malandro é gente finíssima. Os Tirone formam uma família e tanto, foi um prazer enorme conhecê-los.

  6. >Beleza de texto cara. A literatura mostra como somos iguais, morando aqui ou na Rússia ou sendo velho ou jovem. Nos encontramos nas situações e emoções descritas por pessoas tão diferentes. Senti isto quando li este texto. Bateu uma puta saudade dos velhos (falecido avô e meu pai)e dos companheiros de outrora. Valeu!

  7. >Pois é…não podia deixar de comentar! Além da linda família do Artur – alguém de quem gosto muito – já tinha percebido isso há muito tempo, e pensei que fosse apenas eu, mas hoje você tocou nesse assunto Edu, os olhos dele quando olham para a Mi é uma coisa de outro mundo, você vê o infinito lá dentro e consegue perceber o tamanho do amor que existe entre os dois! É lindo, além do cuidado todo especial que ele tem com ela, uma coisa que muito me comove, e me fascina! Artur deixa transparecer em todos os minutos a que veio, e o ser humano extremamente carinhoso e sensível que é. O final de semana deve ter sido excelente! Beijos a todos!

  8. >Edu, meus pais tentaram comentar. Mas esse negócio de cadastrar e-mail no google, essas porras todas, somadas às suas limitações virtuais, não os deixou.Mesmo assim Dona Denize pediu pra que eu escrevesse aqui que adorou você e a Dani – achou a Dani lindíssima!. Aliás, segundo palavras dela, você é “um fofo”.Beijão, mano!

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