O BUTECO EM LISBOA

Dia desses eu publiquei O Buteco em Copenhagen (leiam aqui), transcrevendo o e-mail que recebera de uma leitora brasileira residente na Dinamarca.

Domingo passado, assim que cheguei de São Paulo, dei de cara com o e-mail que abaixo transcrevo, de autoria de Sérgio Reis, brasileiro (tijucano, tijucano, tijucano!!!!!) hoje residindo em Lisboa, Portugal.

Comecei a lê-lo em voz alta pra minha menina. E a voz começou a embargar. O emocionado relato do meu chapa tijucano é só mais uma prova (definitiva) de que o sujeito pode sair da Tijuca. O bairro – é uma verdade acachapante – jamais sairá de dentro do sujeito.

“Caro Eduardo,

Nasci no Maracanã, ali na rua Dona Luísa (aquela que, com a Dona Zulmira, se fez famosa pelas batalhas de confete dos anos vinte do – vá lá – século passado). O ano era 1968 (boa safra). A vida depois me levou a outros cantos: estive alguns anos em Botafogo, depois fui para Minas Gerais. Mais tarde, um pouquinho mais longe: Barcelona, Valencia e agora, definitivamente (como dizem, esta palavra vale o que vale ‘permanente’ como penteado feminino), Lisboa.

Demorei muito (muitos anos, mesmo) a perceber a marca que meus primeiros anos de Tijuca e arredores havia deixado na minha alma, no modo de ser, gostos, preferências, identificações e afinidades. Passei tempo a me perguntar porque buscava e gostava tanto de um determinado tipo de ambiente, música e histórias. Por exemplo, que diabo me enlouquecia tanto em tudo que o Aldir Blanc fazia (para piorar, meu pai é de Ponte Nova, terra do João Bosco), que ‘estranho fascínio’ exercia em mim tudo que dizia respeito às histórias da Tijuca, os butiquins, bem, penso que me explico.

Curioso como possa parecer, algo que realmente me fez fechar a questão foi, já ‘velho’, o encontro do teu blog (fará um ano). Comecei a ler estas coisas tuas, do teu amigo Simas e me invadiu uma sensação tão estranha, de, de repente, não sei, ter visto diante de mim o meu berço, o que teria sido a minha vida sem tanta andança, e mais, o porquê da minha atração por todos estes aspectos, atração que sempre me acompanhou mas, talvez estupidamente, nunca me pareceu óbvia.

Desde então, desnecessário dizer, a frequência com que sigo as histórias destes blogs até já irrita (só um pouquinho) a minha mulher. É troço para Freud explicar, ou talvez não seja tão difícil: sinto-me tão bem, aconchegado, como que visitando a casa dos primos, quando leio o que os dois escrevem (não preciso nem concordar com tudo, coisa que, naturalmente, não acontece). É-me sempre prazeroso ler as postagens, tanta picardia, ternura/ira (na dose certa), tanta sinceridade, de gente que tem a mesma bagagem que eu.

Bem, era só isso. Pensei que gostaria de saber que ajudaste no resgate do background (o anglicismo é só para provocar) de um tijucano que anda longe há décadas.

Obrigado e um abraço,

Sérgio”

Daqui, do Brasil, sob esse céu azul-de-maio que desenha-se no Rio de Janeiro nesse começo de manhã, mando um abraço do tamanho da Tijuca pro Sérgio.

Até.

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9 Comentários

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9 Respostas para “O BUTECO EM LISBOA

  1. >Coisa linda (!) de se ler. De verdade!

  2. >É mesmo, Bezerra, uma tremenda declaração de amor ao Brasil, ao Rio de Janeiro, à Tijuca! Um abraço.

  3. >Muito bacana! Aliás, todos os últimos, excelentes. Grande abraço,

  4. >Valeu, Daniel. Bom sabê-lo de volta ao balcão! Abraço.

  5. >Muito, bacana, Edu! Belos textos publicados aqui.Senti falta deles. E quero falar pro Sérgio que a minha mãe nasceu perto de Ponte Nova também. Já andei bastante por lá, Sérgio! E de saber que o João nasceu por lá, é um motivo a mais para gostar de lá. Abraço, Edu! PS: Estou relendo novamente o teu livro, que por sinal é bacana pra cacete.

  6. >Rodrigo: leia então a entrevista que fizemos com o João Bosco, está num dos links aí à direita! Ele fala sobre Ponte Nova e sobre muita coisa bacana. Um forte abraço.

  7. >Edu: Já li a entrevista, Edu! Que por sinal é bacana pra cacete. Foi através dessa entrevista que conheci o blog. E através do blog que conheci o Fausto Wolff.Abraço

  8. >Lindo e emocionante o e-mail do Sérgio. Não consigo imaginar o que você sente quando lê um troco desses! Imagine poder causar em alguém (ainda por cima desconhecido!) a emoção que você causou (e causa) ao Sérgio! Muito bacana!!!Beijos com saudade.

  9. Pingback: DIGRESSÕES | BUTECO DO EDU

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