A ASSINATURA NO GESSO

Quando ele leu, durante o café da manhã tomado sem pressa por recomendação médica, folheando os jornais, a página do obituário e viu, ali, o nome daquela mulher, tomou um susto capaz de lhe fazer golfar o café com leite e engasgar, e tossir, e tossir mais forte, a ponto de fazer a mulher, com quem é casado há de mais de quarenta anos, sair do quarto enrolada num roupão, a toalha sobre a cabeça, preocupadíssima:

– O que houve, meu bem?!

Ele fez um gesto com a mão, estava de costas para a porta do corredor, e disse que não havia nada, que fora apenas um mal jeito ao engolir uma das fatias de torrada que eram sempre postas à mesa, religiosamente, às sete da manhã, pela empregada de muitos anos também.

A mulher foi até ele, pôs as duas mãos sobre o peito do marido, deu-lhe um beijo no alto da cabeça, um em cada lado do rosto, e disse apenas que voltaria para o quarto por conta de uma enxaqueca.

Ele fechou os olhos e lembrou-se dela, morta…

Deveria estar com o quê – pensou alto – uns 70 anos? Nunca mais a vira, desde a mudança de sua família daquele prédio na Tijuca, na rua Campos Sales, diante da pracinha. Nunca mais a vira mas também nunca mais a esquecera.

Ele, com doze anos de idade, tinha vertigens quando a via passar pelo jardim da portaria do prédio, do alto de seus dezoito anos – seis anos que faziam uma tremenda diferença naquele momento da vida – vestindo a saia plissada de normalista, as coxas morenas com a penugem dourada visível, grossas, uma batata de perna alvíssima graças às meias 3/4 do uniforme, a blusa branca estufada pelos seios em flor com bicos insistentemente presentes e proeminentes, e aquela pasta permanentemente colada ao corpo, que ela levava abraçada.

Jamais, e como ele se ressentia disso, ela lhe lançara um único olhar. A esperavam diante do portão, de segunda a sexta-feira, quatro colegas de Instituto de Educação, e iam as cinco, a pé, em direção às aulas, deixando o menino ali, com a sede do pecado lhe secando a boca e contando as horas para que pudesse acompanhar a chegada da mulher que lhe tirava o sono.

Houve um dia – um dos que marcariam para sempre sua memória e sua vida – em que ela chegou, por volta das cinco da tarde, amparada por duas colegas e por uma mulher que, soube depois, era uma das inspetoras do colégio. Estava com a perna direita engessada, do tornozelo até a altura do joelho. Condoeu-se com aquela cena e reparou que havia várias assinaturas no gesso, e não se conteve quando ela passou por ele:

– Está precisando de ajuda, Manoela?

Ela, que jamais o olhara, virou o rosto para o menino sentado num dos bancos do pátio interno do prédio – e esse girar do rosto levou, para ele, uma eternidade… – e disse, docemente e com um sorriso que a tornava ainda mais bonita:

– Não, obrigada, Artur, muito gentil da sua parte. Muito obrigada! – e seguiu em direção ao elevador.

Como ela sabia seu nome? – eis a pergunta que se fazia enquanto punha as mãos na boca para impedir o salto do coração, sensação efetiva que experimentava. Fantasiava com isso, com essa besteira, quem não haveria de saber o nome do menino que nascera ali, naquele prédio?

O começo da noite, ao deitar-se, como tantas outras – essa mais que as outras, é verdade -, foi dedicada a ataques de onanismo, depois do ataque priáprico que sofrera quando ouviu seu nome ser pronunciado por aquela boca que ele tanto queria para si.

E foi o dia seguinte que entrou, definitivamente, para a história de sua vida. Lá estava ele, esperando a condução para o colégio, quando Manoela abriu a porta do elevador amparada pela mãe. Sentou-se ali, no banco à sua frente. Sorriu pra ele. Lhe deu bom dia. A mãe de Manoela lhe perguntou por seus pais, e ele não respondeu nada que não fosse um aceno com a cabeça, vidrado que estava na mulher com quem dormira, de certo modo.

Ele nem sabe de onde veio a idéia, o ímpeto, mas ele tomou coragem e disse:

– Manoela, posso assinar no gesso também?!

Ela, luminosa, já esticando a perna e ajeitando a saia, disse:

– Claro! Você tem caneta?

E ele já abria, afoito, o estojo em busca de uma esferográfica. Escolheu a de cor preta e foi, sôfrego, em direção a ela.

Ele ajoelhou-se diante de Manoela. Manoela pousou seu pé direito, de chinelo, sobre sua coxa esquerda. Ele pôs a mão esquerda por baixo do gesso, afagou o gesso como se afagasse as pernas da moça, os olhos mal disfarçavam que buscavam, tensos e úmidos, a parte interna das coxas morenas e douradas de Manoela que – é de propósito!, ele pensou – abria, de leve, as pernas, para que o menino visse o que mais queria. O menino Artur suava, respirava como um asmático em plena crise, sentia tremer a mão que segurava a caneta, até que pousou a ponta da caneta sobre o gesso:

– Posso?! – ele tentava ganhar tempo.

– Pode o quê? – pareceu a ele que ela estava gostando daquilo.

– Assinar meu nome.

– Claro! Assine, sim…

Ele continuava a fazer carinho sobre o gesso, como se gesso não houvesse, arriscou um toque, mesmo de leve, sob a coxa da mulher que alucinava seus sonhos de menino, e olhava fixamente para seus olhos que expressavam uma certa satisfação enquanto mantinha a caneta pousada num certo ponto em branco do curativo. Escreveu seu nome, pôs a data, e ela puxou-o pelas mãos, deu-lhe um beijo em cada lado do rosto, agradeceu, e ele mal pode acreditar quando teve a visão dos seios empinados de Manoela sob a blusa alvíssima do colégio quando recebia os beijos de olhos semi-cerrados, que se abriram num instante! A mãe da menina nem estava mais ali, havia ido conversar com uma vizinha no banco em frente, quando ele notou que ela sorria um sorriso que ele conhecia só de ouvir falar, de malícia, de sensualidade, de prazer, e continuou sem acreditar, já ardendo em febre, quando ela pousou suas duas mãos suadas sobre suas coxas, dizendo em seu ouvido, depois de uma mordida de leve no lóbulo esquerdo:

– Artur, seu safado…

Nunca mais houve nada parecido entre eles.

Mas aquela cena foi recorrente durante toda a juventude de Artur, à noite, principalmente, e recorrente de novo, quando seus olhos cansados deram com o nome dela num anúncio retangular do jornal daquele dia.

Uma semana depois era o nome dele, Artur, que aparecia na mesmíssima sessão de obituário, do mesmíssimo jornal.

Tivera um ataque de coração, fulminante, antes mesmo que a mulher acordasse ou que a empregada tivesse chegado da rua com o cachorro do casal.

Até.

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10 Comentários

Arquivado em ficção

10 Respostas para “A ASSINATURA NO GESSO

  1. >Edu, Nelson Rodrigues teria adorado…Abç

  2. >grande crônica, edu. muito legal.abraço.

  3. >Fraga Jr.: ele teria achado risível, meu caro, risível. De toda forma, obrigado pelo exageradíssimo elogio.Eugenia: ou não… Quem saberá?Caíque: bom sabê-lo de volta! Fico satisfeito que você tenha gostado. Abração.

  4. >Fantásticos, Edu, teus últimos contos. Tá de prima, mesmo, este buteco.

  5. >Edu, Acabei tendo boas recordações dos meus 10 anos (1978), época em que eu ficava escondido dentro do cesto de vime do banheiro da minha avó aguardando a hora da empregada tomar banho. Era um momento mágico em que o tempo parecia parar. Um forte abraço!

  6. >Aos 57, que já tenho, voltei aos tempos de criança, também. Que sensação agradável você me proporcionou, Edu.

  7. >Se isto aqui não é literatura, eu não sei o que é.

  8. >Szegeri, maninho: eu também não sei o que é, apenas devaneios desse seu irmãozinho. Sei, isso eu sei, que você é um exagerado olímpico! Beijo.

  9. >Belíssima crônica!Se isso é literatura?…e isso interessa?Abraços.

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