TAMARINDOS NOS JARDINS DA RÚSSIA

(para Helion Póvoa Neto)

O menino, filho de pai e mãe russos fugidos da guerra civil num navio que partiu de Odessa, cidade situada na costa da Ucrânia às margens do Mar Negro – isso nos tempos da União Soviética, no qual Odessa era o porto de comércio mais importante do país – , chegados ao Brasil com “uma mão na frente e a outra atrás”, como se dizia, nasceu no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro, e ainda mais precisamente no bairro do Rio Comprido, na década de 40. O Rio de Janeiro era, portanto, ainda, a capital da República. Era a capital da República e era sensivelmente mais tranqüila, se pensarmos na violência que, hoje, amedronta e aprisiona homens, mulheres e crianças, todos vítimas do medo que parece uma epidemia. Com pouco mais de doze anos, o menino já dominava a região do Rio Comprido, estudava na Tijuca, conhecia, e bem, o Largo do Estácio, a Tijuca quase que toda, e era, pode-se dizer, um menino de rua, de pé no chão, de bola, búlica, de selo, carimbo, estampilha, de muitos sonhos, muitos desejos, muita paixão.

Tinha paixão, por exemplo, por bondes. Dava sempre um jeito de tomar um bonde pelo simples prazer de passear, de ver gente, de ver as moças, de ver as ruas, o movimento, ele que tinha, sem saber dizer exatamente o por quê, verdadeira adoração pela terra que conhecia só de nome… Rússia, berço de seus pais.

Deu-se que um dia tomou um bonde da Companhia Vila Isabel e foi parar na altura da rua Uruguai, no alto da Tijuca (naquele tempo, sim, a rua Uruguai era muito longe do centro do bairro), onde desceu para não ter que pagar mais, o que era imperativo a partir daquele ponto. Tinha o dinheiro sempre contado, já que a mãe tomava conta de casa, dele e de seu irmão mais velho, e do pai, um trabalhador incansável que vivia de revender roupas na rua Campos da Paz, próximo ao Rio Comprido mesmo.

Nesse dia viu, na esquina da Uruguai com a Conde de Bonfim, uma casa belíssima, da qual se aproximou, de muro alto, cercada de árvores e também cheia de árvores nos jardins da casa, as copas vistosas para o alto e para fora, e diante dela duas mulheres altas, louras, de olhos claríssimos e falando uma língua que não compreendia. Ficou ali, atento, os olhos pregados no olhos azuis das moças, azuis como os olhos de seu pai.

As moças acharam graça – ele percebeu – e ele teve um bocado de vergonha diante dos risos entremeados por palavras incompreensíveis. As moças entraram pelo portão imenso de madeira que dava pra rua e o menino aproximou-se do guarda que abrira o portão e que dava, naquele instante, uma espiada para o entorno da casa, gigantesca.

– O que é aí, moço? – perguntou o menino.

O vigia, um senhor na casa dos cinqüenta anos, abanando-se com o quepe, disse:

– É a Embaixada da União Soviética…

Os olhos do garoto se encheram diante do homem:

– Da Rússia?! – e ele sentia o coração pulsando quase que na boca.

– Isso, menino! Também, digamos que também…

– E o que quer dizer embaixada?! – e fez o gesto de uma embaixadinha com os pés e uma bola imaginária.

O vigia riu. E disse:

– É como se isso aqui fosse um pedaço da União Soviética no Brasil, entendeu?!

– Meu pai e minha mãe são de lá, ou daí… – e ele falava com os olhos percrustando tudo à sua volta.

– É?! Um minutinho, só! – disse o vigia quando foi chamado por uma voz de mulher, que o menino também ouvira.

Pediu licença, o guarda, e tornou a abrir a porta uns minutos depois com as mãos em concha, cheias de tamarindo. E disse ao menino:

– Gosta de tamarindo?

– Gosto! – respondeu num sem-pulo.

E o senhor – Vladimir, como ele mesmo anunciou antes de dizer adeus ao menino – pôs nas mãos do menino os tamarindos, dizendo ainda:

– Há muitos pés de tamarindo aqui dentro… Dona Dmitri mandou lhe entregar… – piscando o olho pro garoto – Como você se chama?

– Isaac. Tchau, moço!

E partiu, o menino Isaac, pra tomar o bonde que o levaria de volta. Partiu, é preciso que se diga, excitadíssimo. Nunca imaginara chegar tão perto da terra dos pais, da qual pouco ouvia falar. Foi, pelo caminho, saboreando os tamarindos e com a cabeça voando, imaginando coisas, pensando nos olhos das moças de olhos claros, – “qual das duas será a Dmitri?” – traçando planos, como se o mundo fosse acabar antes do ponto final do bonde!

Ao chegar em casa, deu com a mãe, com o pai e com o irmão mais velho diante da TV em preto e branco, e disse, assim que lhe abriram a porta:

– Hoje cheguei pertinho da Rússia, meu pai! Ouviu, mãe? Sabia, mano?

Nenhum dos três desgrudou da tela, e o menino Isaac foi pro banho, do banho à mesa de jantar, à cama, aos sonhos e acordou no dia seguinte com uma obsessão encravada na alma: precisava entrar naquela casa.

Coisa de duas semanas depois, tornou àquela esquina. Sentou-se diante de uma amendoeira frondosa em frente à casa e esperou, pacientemente, alguém entrar ou sair dali. Esperou quase uma hora, quando um homem, na casa dos trinta e cinco, quarenta anos, uniformizado como o Seu Vladimir, abriu um portão lateral para dar passagem a um automóvel, dirigido por um motorista todo paramentado, que levava um casal no banco de trás. Foi o carro tomar a direção da rua Uruguai, o homem começar a fechar o portão e o garoto disse, diante do homem:

– Boa tarde. O Seu Vladimir está?

– Você, quem é? – tinha cara de poucos amigos e respondeu isso já fechando o portão.

Reapareceu segundos depois no portão principal.

– Isaac. Amigo dele.

– Amigo dele? – acendeu um cigarro, tragou forte, expeliu a fumaça e ficou mirando o menino.

– É. Nos conhecemos aqui mesmo, há uns dias. Ele me deu tamarindo de presente, ficamos conversando…

– Seu Vladimir morreu, menino. Coração. Sinto informá-lo. Posso ajudá-lo com alguma coisa?

Isaac ficou, a seu modo, triste com a notícia. Cravou os olhos no chão e depois olhou fixamente para o homem.

– Qual o seu nome?

– Ivan. Posso ajudá-lo com mais alguma coisa?

– Eu queria conhecer a Embaixada e…

– Ora, dá licença, moleque! – e fechou o portão sem mais conversa.

A volta pra casa foi doída, e Isaac, que não teve coragem de perguntar por Dmitri, não sabia bem explicar por quê sentia aquele aperto por dentro. Vira Vladimir uma vez, apenas, mas havia estabelecido com o velho uma relação de simpatia sem grandes explicações. Chegou em casa cabisbaixo, mudo, a família via TV, como de hábito, e ele foi se deitar, depois do jantar em silêncio, mirando a pedreira iluminada pela lua que avistava da janela de seu quarto, com a obsessão ainda a cutucar-lhe a alma.

Coisa de um mês depois voltou à casa.

Viu, incrível coincidência, as duas mulheres lindíssimas que havia visto quando descobrira a casa, conversando sob a sombra da amendoeira da esquina. Aproximou-se. Elas conversavam em russo mas ele tomou coragem:

– Com licença?

As duas olharam pro menino, se entreolharam, e uma delas disse:

– Pois não…

Ele contou a história que queria contar, num ritmo alucinado. Disse que os pais eram russos, estendeu a carteira de identidade do pai, que levara escondido para dar ares de verdade ao que diria, que conhecera Vladimir no mesmo dia em que as vira pela primeira vez, que tinha alucinada vontade de “pisar na União Soviética” – e elas riram – e de comer de novo os tamarindos do jardim, que Vladimir lhe dera.

Dmitri e Katierina riram de novo, simpatizaram com o menino (que reconheceram), que lhes contara a história visivelmente excitado, ofegante, e foi Dmitri que tirou da bolsa um guardanapo com algo dentro e estendeu ao garoto:

– Prove!

Isaac abriu o guardanapo e deu de cara com uma bela fatia de uma espécie de pastelão, que pôs na boca depois de pedir permissão com os olhos que miravam os olhos azuis das duas beldades à sua frente.

– Kulebiaka! De carne com repolho… Está bom?

De boca cheia, depois da última mordida, Isaac respondeu:

– Delicioso. Vou contar pros meus pais que comi comida russa… – mentiu.

O menino limpava a boca com o guardanapo quando Ivan, o vigia, abriu o portão. Surpreendeu-se com os três ali, diante da casa, Katierina piscou um olho em direção a ele e disse:

– Ivan! Com licença… – e voltou logo depois com as mãos cheias de tamarindo.

Estendeu-as ao menino, que agradeceu, despediu-se, e dobrou a esquina em direção ao alto da rua Uruguai. Comeu tamarindo por tamarindo e resolveu, decidido, que pularia o muro antes de escurecer, pra “pisar na Rússia” e roubar mais tamarindo.

Fez isso faltando pouco para as cinco e meia da tarde.

Ivan, da guarita próxima à entrada principal da casa, viu as mãos do menino no alto do muro. Viu quando Isaac saltou pra dentro do jardim, na ala lateral da casa dos empregados, viu o menino de olhos aparvalhados catando tamarindo no pé e enchendo os bolsos da calça e viu quando ele escalou o muro, de volta, caindo sem fazer barulho na calçada da rua Uruguai, depois de pôr no bolso da camisa um punhado de terra tirado do chão.

Isaac bateu no portão e Ivan, que fez força pra não ser flagrado vendo o menino, o abriu.

– Entrega pra Dona Dmitri, Seu Ivan, por favor. Esqueci comigo. – e estendeu o guardanapo de linho vermelho, com a foice e o martelo costurados em linha amarela.

Ivan riu, fez festinha nos cabelos encaracolados do moleque, e disse:

– Leva, menino. Leva e mostra pro teu pai. E diz a ele que é russo, como ele!

Isaac pulou, durante anos, aqueles muros.

Ivan sempre o via. Jamais disse isso a ele.

O que tornou a aventura de Isaac – eis aí a chave do encanto da criança – definitiva e eternamente inesquecível.

Até.

12 Comentários

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12 Respostas para “TAMARINDOS NOS JARDINS DA RÚSSIA

  1. ah, q lindo!acho q vou procurar um suco de tamarindo aqui pelo Centro…

  2. Lindo texto, adorei. Impressionante. Bem escrito. Me emocionei.

  3. Eu sabia que tinha mais em comum com você do que um cachorro. Avó, bisavó, russas. Rio de Janeiro, via Buenos Aires. Mazeltov!!!

  4. Muito bom !!! Depois de um dia estressante, nada melhor que um texto tão gostoso, quanto este !!!

  5. Por que “caraca”, meu pai amado? Você por acaso se reconheceu aqui? Beijo.

    Eugenia: obrigado pelo elogio. Aquele abraço.

    Betinha: ô, saudade… Beijo imenso.

    Veronica: seja bem chegada ao balcão do BUTECO!!!

    Kadu: obrigado pelos elogios, rapaz. Um forte abraço.

  6. Eu ?? nem um pouco……… tirando as louras…… tenho vaga lembrança !!! rs..rs..rs.r.

  7. Que coincidência eu entrar aqui no seu Blog sendo que a última coisa que fiz foi ler esse conto: http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=568&anteriores=1&anterior=42008

  8. Lindo texto!Tirando umas firulas, é tudo verdade!Bjks

  9. Maria fez, agora, como a Fó….

  10. Belíssimo, Edu. Agradeço a dedicatória em um texto que é, na verdade, de Isaac, Vladimir, Dmitri e Katierina. Foi uma honra ter sugerido o título para seu conto.Helion

  11. FELIPE QUINTANS

    Melhor texto do blog.

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