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DESASSOSSEGO

(pra F. E. H.)

“Suponhamos que vejo diante de nós uma rapariga de modos masculinos. Um ente humano vulgar dirá dela, “Aquela rapariga parece um rapaz”. Um outro ente humano vulgar, já mais próximo da consciência de que falar é dizer, dirá dela, “Aquela rapariga é um rapaz”. Outro ainda, igualmente consciente dos deveres da expressão, mas mais animado do afeto pela concisão, que é a luxúria do pensamento, dirá dela, “Aquele rapaz”. Eu direi, “Aquela rapaz “, violando a mais elementar das regras da gramática, que manda que haja concordância de gênero, como de número, entre a voz substantiva e a adjetiva. E terei dito bem; terei falado em absoluto, fotograficamente, fora da chateza, da norma, e da quotidianidade. Não terei falado: terei dito.” – Fernando Pessoa, página 362, Livro do Desassossego, editora Brasiliense, 2a. edição

Antes de pedirem a segunda garrafa de cerveja, e quando eu já estava embriagado diante de seus olhos – não por conta da cerveja, parece-me desinfluente dizê-lo, eu bebia no mesmo ritmo que eles – ela deu de citar Fernando Pessoa. Estavam, os dois, em uma mesa na calçada e eu, como de praxe, bebendo de pé, diante do balcão de mármore daquele tradicional bar de pé-direito altíssimo. Era manhã de sábado, de um sábado cinzento, eu estava absolutamente só, pedira uma almôndega acebolada, um dos petiscos mais festejados da casa, e me flagrei, à certa altura, absolutamente absorvido pela conversa daquele casal.

Desde que deixei de fumar que ir-ao-bar passou a ser uma tarefa que me exige certas manobras que visam desviar minha atenção da fissura que, sim, ainda me assalta. Estou já há pouco mais de dois meses longe dos cigarros, mas o problema é que os cigarros não estão longe de mim, estão à minha volta, e todas as fumaças de todos os cigarros parecem gueixas de formas tênues vindo em minha direção, serpentando o ar, sensualmente, em busca de minhas mãos, em busca de meus braços, em busca de meu pescoço, de minha boca, de minha língua… Por isso passei a prestar atenção ao casal diante de mim.

Ele – justificadamente – aturdido diante dos olhos dela (que, mesmo à distância, também me embriagavam). Ela, soberana e evidentemente ciosa da perturbação do companheiro de mesa (não sei, confesso, se ela me percebia – achei, à certa altura, que sim). Ela usava sandálias que deixavam os pés à mostra, as unhas pintadas de branco, as mesmas cores das unhas das mãos, tão lindas quanto os pés, cabelos ora soltos e ora postos num rabo-de-cavalo que ela montava e desmontava (isso também me causou a impressão de certo desconforto) seguidas vezes, e acompanhar os movimento de seus cabelos também me aturdia.

Pedi a terceira garrafa de cerveja no instante em que ele pedia água sem gás, e dois copos, ao mesmo garçom que me atendera.

Estávamos tão próximos, a mesa era tão perto do balcão, que eu ouvia tudo, e eu punha, ali, no ato de ouvir, toda minha atenção. Mas nada – nada! – me chamava mais a atenção do que os olhos dela. Havia um fogo em seus olhos, um fogo de não se apagar, e justamente quando este samba do Gonzaguinha ecoou no interior do bar foi que me dei conta do quão intensos eram seus olhos. Tristes, profundamente tristes, dotados de um brilho que, apesar de ser dia, reluzia como se fosse noite. Ele falava, o pobre-coitado (senti pena daquele homem e não sei lhes dizer o porquê), e ela sempre punha os próprios olhos num horizonte imaginário antes de responder. Eu me embriagava mais – de seus olhos.

Em determinado momento, pedindo outra cerveja, ele pediu também uma almôndega, e eu pensei que me imitava (eu e minha sensação que não cessa de que sou o centro das atenções). Ele serviu-se e depois estendeu a ela, gentilmente, o garfo já servido, e ela mordeu aquele pedaço, fechou os olhos, elogiou, e eu quis imitá-lo. Não podia, por óbvio.

Suas mãos não se encontraram em momento algum – notei também.

Seus olhos, entretanto, os quatro, os olhos dos dois (estou sendo detalhista para lhes dizer de minha aguda atenção), não se perderam um só momento. Eu, ali, era um voyeur clandestino, subversivo, que sorvia com uma ansiedade de adolescente aquela tensão visível que havia entre os dois.

Ele levantou-se, veio até o balcão, postou-se a meu lado e pediu a conta (pensei, num primeiro momento, que vinha tomar satisfações comigo). Enquanto a conta era feita, enquanto ele pagava, ela pegou uma caneta de dentro da bolsa e escreveu qualquer coisa num guardanapo, amassou, jogou no chão – foi a primeira vez que ela me olhou nos olhos.

Quando eles saíram, claro, fui em direção ao bilhete (pensei ser um bilhete, um número de telefone, um endereço de e-mail).

Não era nada disso.

Estava escrito apenas “desassossego”.

Sua letra era linda. Não tanto, entretanto, quanto ela.

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O ASCÂNIO

O Ascânio sofre – é como ele sente o troço – desde que se entende por gente. Desde o colégio que é sempre a mesma lenha. Basta ele dizer o nome – “Meu nome é Ascânio” – e dá-se, até hoje, uma cena: o interlocutor ri, faz uma máscara de espanto, repete o nome em tom de indagação, e isso – é ele mesmo que conta – fez dele um homem reprimidíssimo, vá entender. Ascânio tem 52 anos de idade e herdou do pai a tinturaria que mantém a pleno vapor na região da Praça da Bandeira. Tem seis funcionários, sendo que dois fazem o serviço de coleta e entrega do material a ser lavado. É casado com a Dorotéia, e ele acha, quando pensa no assunto, que escolheu a mulher pelo nome. Queria, vá entender, uma mulher com um nome tão estranho quanto o dele. E o que faz a Dorotéia?

– Porra nenhuma! – é a resposta de sempre, dada a quem pergunta.

Semana passada, voltando da tinturaria, deparou-se com a seguinte cena: a mulher desmaiada no chão. Era, além de tudo, epiléptica. Pensou alto:

– Daqui a pouco a vaca levanta.

Verificou, com nojo, abrindo sem cuidado a boca da coitada, a língua da mulher. Normal. Havia um pouco de baba no tapete, e ele pensou, alto de novo:

– Que nojo.Foi ao banho. Ligou o radinho de pilha, ouviu a resenha esportiva, vestiu o pijama e voltou à sala. Dorotéia na mesma posição.

– Será que morreu? – perguntou em direção ao espelho sobre o bufê.

Deu um chute, de leve, nas pernas da mulher.

Ela grunhiu.

– Levanta, mulher. Tô com fome.

Era mentira que ela não fazia “porra nenhuma”, como ele espalhava aos quatro ventos nas dezenas de bares que freqüentava, todos ali na região. Dorotéia cozinhava bem pra burro. E mantinha uma rotina, com a intenção de agradar o marido por quem tinha – eis a verdade que o sujeito jamais reconhecera – verdadeira adoração: assistia a todos os programas de culinária ao longo da manhã e da tarde a fim de escolher o cardápio do marido, que almoçava e jantava em casa todo santo dia.

Ela grunhiu de novo.

Sobre a mesa ele viu o caderno de receitas mantido pela mulher – um deles – e os ingredientes do suflê de bacalhau que, foi o que ele imaginou, seria feito para o jantar. Foi à cozinha, mandou o louro calar-se – tinham um louro – e viu, sobre a pia, a peça de bacalhau dessalgando. Ficou com a boca cheia d´água. Espiou pela porta, a mulher na mesma posição.

– Chamo ou não chamo a ambulância, louro? – em tom de blague.

O louro, mudo.

Pôs o dedo indicador na água e lambeu o dedo. Pensou no quanto de ódio sentia pela vida modorrenta que levava. Transtornou-se, e nem ele mesmo entendia o porquê de sua inércia diante do corpo inerte da mulher. Foi ao quarto dos fundos. Pegou um do cabides de arame, dos antigos, antes da aquisição das centenas de cabides plásticos, mais modernos, para o próprio negócio. Foi à sala. Olhou bem nos olhos da mulher, abertos, e ela arfava e gemia o nome do marido provocando nele uma sensação inacreditável, entre o prazer e o medo, entre o ódio e a piedade, entre o trauma e a superação. Enforcou a mulher com o arame do cabide e a viu enrubescendo, esbugalhando os olhos, mordendo a própria língua, que foi inchando, e deu tantas voltas no arame do cabide que sentiu ficar por um fio o ato de cortar-lhe o pescoço. Dorotéia morta.

Foi ao quarto. Tirou o pijama e escolher a melhor roupa. Vestido, procurou na gaveta a fotografia que mantinha guardada, de seus pais. Sempre ouvira do pai:

– Tua mãe que escolheu teu nome, Ascânio.

Sentou-se no sofá diante do corpo da mulher. Ficou ali, uns bons minutos, olhando para os pais. Rasgou a fotografia ao meio, a mãe separada do pai depois do gesto do filho. Fez um cone com a metade que trazia o pai. Enterrou a fotografia, enrolada, na boca babada da mulher morta. Achou graça. Gargalhou.

Foi à cozinha. Abriu a geladeira. Serviu-se de uma dose de vinho tinto, desses de garrafão, bebida de todas as refeições, recomendações médicas. Arrotou, foi à sala e arrancou uma folha em branco do caderno de receitas da mulher. Escreveu, sem pressa: “Ascânio é a puta que te pariu”, e meteu o papel no bolso do paletó (estava de paletó).

Voltou à sala e atirou-se, sem titubear, da janela do sexto andar.

Morreu, é evidente.

Mas morreu nos garfos do portão de ferro da portaria. Caiu de bruços, rasgado por quatro dos garfos do portão, perfurado – Ascânio foi ao chão.

Bombeiros serraram o portão, e foi varado por quatro barras de ferro que Ascânio foi pro IML.

A primeira coisa que o legista fez foi verificar os bolsos do infeliz. Leu, em voz alta, o que nem poderia ser chamado de bilhete que estava sujo de sangue no bolso do paletó. Quando leu “Ascânio é a puta que te pariu” teve a impressão, nítida, de que vira o cadáver sorrir.

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A CADA TRISTEZA, ERGUER NOSSO COPO AO HUMOR

O título de hoje – a cada tristeza, erguer nosso copo ao humor – é um de meus orikis preferidos. Da lavra de Aldir Blanc, para música de Moacyr Luz, se aplicado diuturnamente representa remédio valoroso contra as dores que nos assolam, a todos, dia após dia. Dito isso, parece-me desnecessário dizer que é evidente que a tragédia que se abateu sobre a população da região serrana do Rio de Janeiro – com mais de 600 mortos (por enquanto) – não merece piada. Mas no seu entorno, soube de uma, realíssima. Preservando a identidade dos elementos envolvidos – e eu soube do ocorrido na noite de quarta-feira – vamos aos fatos.

Antonio estava preocupadíssimo com a situação na serra fluminense. Até que, ouvindo os noticiários, lembrou-se de que dona Iaiá, mãe de sua madrasta, dona Yoyô, morava em Nova Friburgo. Abateu-se sobre ele – um poltrão meteorológico – um terror de proporções de tromba d´água. Não que ele morresse de amores por dona Iaiá, com quem trocara – o quê?! – duas ou três palavras ao longo da vida. Não que ele morressse de amores por dona Yoyô, com quem mantinha a clássica relação de implicância entre enteados e madrastas. Ocorre que, instigado pelos apelos de solidariedade, aterrado diante das imagens da tragédia, ele decidiu “fazer um bonito” – foi o que pensou em voz alta antes de tirar o telefone do gancho:

– Alô? Yolanda? É o Toninho! – e ajeitava o próprio cabelo diante do espelho, sentindo-se o mais solidário dos parentes.

A madrasta derreteu-se. Não falava com o enteado havia muitos meses. Ela e o pai moram em Niterói, Antonio no Grajaú (onde, inclusive, trabalha) e o lufa-lufa do dia-a-dia fazia com que os encontros fossem raríssimos, escassos. Ela foi – como sempre – dramática:

– Oh, Toninho! Que saudade! Hoje mesmo comentei sobre você com seu pai! Como estão as coisas? – mentiu.

E ele, mudando o tom de voz:

– Mal, Yolanda… – e deu uma fungada sonora, artificial, para dar cores de choro à fala.

Do outro lado da Baía de Guanabara, do outro lado da linha, o tom de preocupação:

– Mas o que houve, meu filho? – e quando ela disse “meu filho” ele estendeu o dedo médio, esticado ao lado dos dobrados indicador e anelar, em direção ao bocal do telefone, ele odiava essa intimidade.

– Como o que houve, Yolanda?! Mais de seiscentos mortos e você me pergunta o que houve?! – fingiu que se assoava.

Ela muxoxou do outro lado:

– Tsc. É verdade… E fora isso, Toninho? – despreocupadíssima.

Aquela frieza da madrasta que punha por terra seu plano de fingir-se solidário começou a irritá-lo:

– Fora isso?! Yolanda… – assoou o nariz mais forte.

– Você está chorando, Toninho? Desembucha, menino! O que aconteceu?

Ele achou que era a hora:

– É que… ah, Yolanda, nem sei como fazer a indagação… Como está dona Iaiá depois dos temporais? – sentou no banquinho ao lado do criado-mudo e abriu um sorriso de dever cumprido.

Um silêncio terrível do outro lado da linha angustiou o sujeito. Ele insistiu:

– Yoyô? – foi dengoso.

– Sim, Antonio. – ela foi fria.

– Notícias de dona Iaiá?

Deu-se um suspiro e veio a resposta:

– Antonio, mamãe morreu em 2008.

Ele, um homem de raciocínio rápido, ergueu-se novamente. E diante do espelho, mandou de voleio:

– Morreu?! Morreu?!

E ela:

– Morreu.

Ele, aos gritos:

– Morreu pra você, filha ingrata! Morreu pra você! Pra mim, Yolanda, saiba disso, dona Iaiá está viva, está presente, dona Iaiá é imortal, Yolanda! Imortal!

E desligou com fúria, batendo o telefone no gancho e do gancho o tirando novamente, segundos depois. A pobre da madrasta ainda insistiu, por uma meia-hora, mas só deu sinal de ocupado. Encontraria com o pai, e com a madrasta, sabe-se lá quando. Foi o que decidiu, entre envergonhado e orgulhoso de si mesmo.

Até.       

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A SESSÃO DE DESCARREGO DE MARIA DE LOURDES – II

Menos de seis meses depois da morte de Otília e Alonso, o delegado da 18a. Delegacia Policial, da Praça da Bandeira, deu o caso por encerrado. Suícidio. A vizinhança, é verdade, custou a crer. Afinal, aquele casal religioso, temente a Deus, de formação moral sólida, não combinava com a mais romântica das despedidas. E deu-se, de fato, por conta da suspeita de suicídio, um fuzuê danado na Pardal Mallet na manhã da tragédia. O IML recolheu os corpos, peritos vasculharam o apartamento, e a morte por conta do vazamento do gás não podia mesmo ser atribuída àquela menina, 21 anos de idade, pacatíssima, a única que vivia naquele apertado dois quartos na Tijuca. Atônita, Maria de Lourdes acompanhou, aos prantos, o recolhimento dos cadávares e deu, na medida do possível, seu depoimento (fora chamada outras duas vezes à delegacia) comovido e convincente. Depuseram também o porteiro do edifício, o pastor da igreja freqüentada pelo casal, os vizinhos do segundo andar, a diretora do colégio da órfã, alguns funcionários das padarias de propriedade de Alonso e a batata já estava mais que assada quando decretou-se: foi, mesmo, suicídio.

Um tio de Maria de Lourdes, irmão mais velho de Otília, Reginaldo, viúvo e advogado aposentado, que vivia em Mar de Espanha, em Minas, chegou para o enterro e passou exatos seis meses com a sobrinha no Rio de Janeiro cuidando da papelada. Filha única, herdeira universal, Maria de Lourdes herdou as três padarias do pai (mantidas em sociedade com Otília), vendidas por um bom dinheiro para um consórcio que se formou entre os gerentes das três unidades, coisa de quase um milhão de reais. Herdou, ainda, o apartamento da Pardal Mallet, uma casa de veraneio na Ilha do Governador (também vendida) e o saldo bancário, polpudo, do suicida (que não mantinha conta conjunta com a esposa). Ultimado o inventário, que tramitou rapidíssimo em razão da simplicidade da sucessão, Reginaldo voltou para Mar de Espanha deixando a sobrinha à vontade para procurá-lo sempre que precisasse. Voltou, diga-se, extasiado com a beleza da menina (e sentindo-se ligeiramente incomodado com seus próprios pensamentos). Passou a ter uma frase-padrão com os amigos no botequim:

– Minha sobrinha carioca… vou lhes contar… uma coisa! Uma coisa! – e dava-se a masturbação mental coletiva naquela cidade de moças sem-jeito.

Maria de Lourdes passou os seis meses subseqüentes à tragédia ao lado do tio. Trocou – o quê?! – uma meia-dúzia de palavras com um, com outro, com uma vizinha, com irmãos da igreja que foram fazer uma visitinha, e mesmo com Alexandre, o filho do porteiro, permitiu-se apenas um “obrigada” diante do protocolar “meus pêsames” no final daquela tarde. Saiu para fazer compras (mudou o guarda-roupas, antes recatadíssimo), para inteirar-se da rotina com os bancos, passeou bastante mostrando para o tio a cidade que, a bem da verdade, ela bem pouco conhecia também. Passou, entretanto, os seis meses, fervendo por dentro. Não esquecera, nem por um minuto, a volúpia insana daquela manhã fatídica. Guardou-se, porém, com a resignação e com a máscara que apreendera naqueles 21 anos de cultos e cultos e cultos e cultos. O tio fora embora num domingo à noite. Já na segunda-feira – as notícias na Tijuca correm como água rio abaixo – Maria de Lourdes recebeu a visita do pastor da igreja que freqüentava com seus pais. Queria, o canalha, convencer a menina a doar para a igreja o dízimo da herança. Foi posto pra correr por uma possessa. Disse atrocidades ao pastor enquanto o sujeito, de terno e gravata, pasta executiva na mão, aguardava o elevador. E bateu a porta com um ódio que os vizinhos, assombrados com o espetáculo, nunca tinham visto brotando daquela moça.

Na segunda à tarde, quase à noitinha, postou-se na janela. Esperou Alexandre aparecer e repetiu o “psiu” de seis meses antes. O rapaz subiu. Deu uma desculpa qualquer ao pai – “vai ver ela precisa de ajuda” – e já chegou em ponto de bala diante da porta do apartamento. Aquela potranca – e mais potranca que nunca, uma égua de haras paulista – já o aguardava apenas com um camisão. Fechou a porta e abriu os lábios, que sugaram Alexandre de uma maneira que só os seis meses de hiato poderiam explicar.

Poucos minutos depois, bate à porta uma das vizinhas de corredor. Maria de Lourdes abre apenas a portinhola, apenas o rosto à mostra:

– Tudo bem, filha? – disse a velha.

– Te chamei? O que é que tu quer? – e deu de rir, feito Exu-Caveira, batendo a portinhola com o mesmo ódio oferecido ao pastor.

A cena deu-se, dia após dia, sem tirar nem pôr. Houve, é evidente, evoluções. E revoluções. Maria de Lourdes disse, com todas as letras, “eu estou apaixonada pelo seu filho, algum problema?”, e fez com que o porteiro nunca mais perguntasse nada ao filho. Adestrando suas fantasias como quem adestra um cão, a menina passou a fazer uso de serviços delivery, para tudo: pizza aos domingos, galão de água duas vezes por semana, galeto, comida japonesa, comida chinesa, flores, e ela engolia, despudoradamente, os entregadores que satisfaziam seu apuro visual. “Só um boquetinho, coisa rápida”, ela dizia. Não se sentia traindo o namorado desse jeito, ajoelhada e com pressa. Diz-se até que na pizzaria da Doutor Satamini, aos domingos, havia grossa pancadaria entre os motoqueiros já que todos queriam servir a “boca do 201 da Pardal Mallet”.

Mas o pior deu-se quando Maria de Lourdes percebeu certo gosto pela dominação. Um dia pediu um tapa ao Alexandre. O surfista já curtia o troço e sentou a mão na carinha linda da potranca. Mais à frente, pediu que ele a xingasse. A princípio o repertório era o trivial. Um “piranha” pra cá, um “puta” pra lá, um “cachorra” com o som do estalo do bofetão por trás, um “vadia”, por aí.

A agressão verbal, o xingamento (e ela exigia o tom de ódio na voz do rapaz), a purificava. A submissão, a exposição voluntária para a agressão ainda que teatral, a sacralizava. E assim seguia a rotina daqueles dois.

Eis que no dia do primeiro aniversário de morte dos pais da menina, quando ela completaria 22 anos, quando sua fama de devassa subia e descia as escadas do edifício, ganhava as calçadas, as esquinas, o entorno, o bairro, deu-se o inesperado. Poder-se-ia dizer, até, que a vizinhança já estava habituada (ainda que horrorizada) com aquela trilha sonora, com aquela enxurrada de baixo calão. O choque maior, entretanto, veio naquele dia.

Alexandre subira para uma comemoração especial. A moça recusara o convite para um jantar – “faço questão que seja aqui”. Após os salamaleques, após o presente que o garoto comprara, após a garrafa de espumante que beberam juntos, foram para a cama, ela já entrelaçada no tronco do surfista, que sentia o calor úmido da parceira na altura do abdomen, ele já sem camisa, ela praticamente nua. Deitaram, e pela primeira vez, na cama mantida no quarto do casal suicida. Sobre a cômoda, diante do pé da cama, um porta-retrato fazia com com que ambos, pai e mãe, testemunhassem a cena. Apoiado, diga-se, numa Bíblia Sagrada, dessas com páginas espessas e douradas. O troço pegava fogo. As janelas, mantidas abertas de propósito por Maria de Lourdes, apenas a cortina impedindo o alcance dos olhos alheios. Começou o espetáculo:

– Sua vaca! – e explodia um tapa.

Trepavam, suavam, urravam, e ele mantendo a linha:

– Vagabunda! Cadela suja! – outro bofetão de cinema.

Prestes a gozar, olhos vidrados, unhas cravadas nas costas saradas do surfista, Maria de Lourdes pediu aos gritos:

– Me bate, Alexandre! Me bate! Na cara! Na cara!

Ele, fora de si, atendeu.

– Com mais força! Mais ódio! Me cospe! Me cospe! – tudo atendido.

Gozaram juntos. Ele uivava como um lobo dentro dela, e ela também. Tinha, é preciso que se diga, orgasmos múltiplos, a órfã. E enquanto gozava, gemia, mordia o bíceps de Alexandre, pediu com a voz mais rouca, transfigurada (ele quase não reconheceu):

– Me chama de assassina, Alexandre. De assassina! As-sas-si-na!

Ele livrou-se dela num sem-pulo. De pé, ao lado da cama, vendo Maria de Lourdesem estado de êxtase absoluto, os olhos revirados como os de uma boneca de pano em frangalhos, vestiu-se às pressas e pode perceber quando ela, de joelhos, sem parar de gritar, passou a olhar fixa e insanamente para o retrato dos pais. Foi descendo as escadas, aos atropelos, ouvindo “me chama de assassina!, de assassina!”, até que cederam os apelos inéditos, que deram vez às gargalhadas mais agudas que ele jamais ouvira – feito Exu-Caveira.

Não se falava noutro assunto naquele condomínio, na manhã seguinte.

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MENSAGEM DE LEONEL BRIZOLA

Estou, ainda, impactado. Acabo de receber de um de meus poucos mas fiéis leitores um arquivo MP3 que, franca e sinceramente, deixou-me de queixo (não tenho queixo) caído.

Diz o leitor, acobertado pelo benefício da dúvida, que teve acesso à mensagem abaixo, psicofonada por um médium de mesa branca que teria incorporado, vá saber!, meu eterno e saudoso governador, Leonel de Moura Brizola. O leitor, que disse ter enviado a mensagem por conta de meu interesse pelo assunto (sou, vocês sabem, até hoje, brizolista), mandou-me, também, a mensagem transcrita, como abaixo.

É impressionante, ouçam aqui.

“Povo do Rio de Janeiro: quantas vezes eu, Leonel Brizola, eu que venho de longe, e hoje de mais longe que nunca, alertei a vocês, meus irmãos e minhas irmãs, para o engodo que é este PSOL? Um partido que não é um partido, mas uma pinacoteca. Um partido que não tem candidatos, que não tem vereadores, não tem deputados, não tem senadores, só tem quadros, quadros e mais quadros. E hoje, francamente, lançando a candidatura deste Jean do BBB, esse lixo imposto pelo cogumelo de poder que é a Rede Globo, esse cogumelo que pertence à família Marinho, o PSOL mostra efetivamente sua cara, sua faceta, mostra ao que veio: veio para nos fazer rir! Vamos juntos dizer um não rotundo ao PSOL nas próximas eleições, um não rotundo a esse candidato, a esse quadro tosco que se apresenta.”

Até.

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EGO DO BUTECO

O inconcebível, inacreditável e insuperável (pelo que guarda de imbecilidades) site EGO, excrescência cibernética hospedada nos domínios da GLOBO.COM (onde mais?, onde mais?) publicou hoje uma notícia (notícia?) envolvendo a … (não sei o que ela faz…) Isis Valverde. O tal site conta que “Isis Valverde exibe tatuagem em evento de moda”. É ou não é uma tremenda e bombástica notícia? (vejam aqui).

O EGO DO BUTECO, mantendo seu compromisso de lançar luzes sobre gente (e tatuagens) infinitamente mais interessante que a gente exibida pelo tal site, também mostra, hoje, uma celebridade que, tal e qual Isis Valverde, também exibiu sua tatuagem em um evento foda (e não de moda).

26/04/09 – 12h46min

Flagrado conversando com convidados da festa de 40 anos de um de seus grandes amigos, em abril deste ano, Luiz Antonio Simas exibe a tatuagem que retrata um dos heróis da revolução cubana.

“Eu acho o Simas um charme, sabe? Carequinha linda, olhos claros, atarracadinho, e com esse gostoso tatuado na batata da perna, ai…”, suspirou uma das garçonetes que trabalhava durante a festa, enquanto brincava com a esposa do professor.

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500 EXIBIÇÕES!!!!!

O filme Reunião de cúpula do PSOL, o primeiro produzido pelo Buteco do Edu, sem contar as exibições diretamente do blog – veja aqui -, já atingiu a marca de 500 exibições em menos de um mês – o filme foi posto no ar em 16 de julho de 2009.

Clique na imagem abaixo, que registra a marca de 500 exibições, vá direto ao YouTube e engrosse a lista de espectadores!

filme REUNIÃO DE CÚPULA DO PSOL

Até.

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LÊNIN VAI AO SAMBA

Vladimir Ilitch Lênin tomou o metrô logo cedo, na estação Cantagalo, depois do café da manhã servido na pérgula do Copacabana Palace. Desceu no Estácio e tomou a linha 2, disposto a ter contato com o povo, que disseram a ele, durante o champagne com ovas de esturjão que lhe foi oferecido à beira da piscina do hotel, que o povo estaria lá pros lados da Pavuna. Era sábado. Lênin saltou na estação Pavuna, achou tudo muito feio – fez boquinha de nojo quando pôs os pés nas calçadas da avenida Martin Luther King – e decidiu, menos de – o quê?! – 15, 20 minutos depois, tomar o rumo de volta. Minto. Foram 25 minutos. Lênin ficou profundamente emocionado quando deu de cara com um Lada vermelho, em estado lastimável, estacionado na frente de uma oficina mecânica ao lado de um botequim, onde bebeu, para aplacar a emoção, num só gole, uma dose de Balalaika, a melhor vodka à venda no lugar.

Quando embarcou de volta com intenção de ir à praia, em Copacabana, diante do hotel, não imaginou que fosse encontrar o vagão cheio. Dentro, um grupo de jovens (“estudantes”, ele pensou) distribuía um panfleto anunciando um evento na Praça XV com roda de samba na rua da Ouvidor. “Vou”, ele disse de si para si. E teve ainda mais certeza quando viu, entre os jovens, um senhor com admirável barriga, suspensórios, uma boina de lã, barbado como ele, ajudando na distribuição dos panfletos. Decidiu, ali, calado, pensando no sufoco que enfrentou na Sibéria (a boina de lã foi fundamental para que o arremesso ao passado fosse efetivado), que seguiria aquele animadíssimo grupo.

Saltaram todos na estação Carioca. Lênin encantou-se com os arranha-céus da avenida Rio Branco. Atravessou a avenida em obsequioso silêncio e achou curioso que aquele velho, velho como ele, fosse seguido por tantos jovens (não eram tantos assim, eram cinco).

Pararam todos numa praça. O velho – não ele, o outro, da boina de lã – foi saudado por um pequeno grupo (eram pouco mais de vinte) parado diante de uma caixa de som. Um rapaz mal vestido ligou o amplificador e estendeu o microfone em direção a ele, que foi anunciado como vereador. Lênin entendeu tudo. Era – ele, espertíssimo, sacou o troço todo em questão de segundos – um comício de um partido político. Só então tomou coragem e se dirigiu ao velho da boina de lã, no instante em que ia começar o discurso:

– Senhor, o que significa a sigla PSOL?

Sem reconhecer Lênin, o velho respondeu de mau humor e desferiu um safanão, de leve, no velho bolchevique.

Lênin, abismado com a descortesia do camarada (ele ia chamá-lo de camarada até que levou o safanão), abriu os braços, fez uma expressão-máscara de incompreendido e foi quando decepcionou-se agudamente. Ninguém ali, nenhum dos aguerridos partidários do PSOL o reconheceu. Ele então puxou do bolso do casaco o panfleto que recebera no metrô e seguiu o mapa em direção à rua do Ouvidor. Magoou-se de leve quando ouviu o velho da boina de lã muxoxar:

– Velho chato!

Lênin desceu a São José, entrou à esquerda na rua da Quitanda, desceu a Assembléia à direita e foi dar na Primeiro de Março. Admirou-se com a imponência da Assembléia Legislativa e lembrou de Moscou. Com medo de ser visto ou reconhecido daquele jeito, emocionado, enxugou as lágrimas de saudade que brotavam dos olhos com a manga do casaco e tomou a direção da Praça XV. Ainda seguindo o mapa, entrou pelo Arco do Teles e chegou, finalmente, à rua do Ouvidor.

Desde muito antes ele já ouvira o som do samba (pela primeira vez, diga-se a título de curiosidade). E não escondeu o susto com a rua cheia, tomada de gente bebendo cerveja e cantando. Encostou no balcão de um bar de esquina e pediu uma dose de vodka. Um único gole e o primeiro susto.

Lênin viu que uma mocinha o vira. Pela expressão da moça (sandália de couro cru, pulseirinhas de corda no tornozelo com pequenos búzios, saia de chita, blusinha branca e cabelos desgrenhados com lêndea), boquiaberta, ele disse para dentro:

– Fui reconhecido!

Acompanhou a moça com os olhos.

Deixou uma nota de cem dólares sobre o balcão, soltou um “fica com o troco” para o garçom e seguiu a mocinha. Encostou-se no portão da igreja Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores e viu quando ela cochichou alguma coisa no ouvido de um dos músicos da roda de samba (“que engraçado esse violão pequeno”), pensou olhando pro instrumento nas mãos do músico. Este, que tinha ares de dono da roda, deu um safanão na piolhenta mas virou-se em busca de alguma coisa.

– Está me procurando… – disse de si para si, esboçando um sorriso.

Seus olhos se cruzaram. O rapaz do cavaquinho cochichou alguma coisa no ouvido do rapaz do violão, que cochichou alguma coisa no ouvido do menino do pandeiro e deu-se a correr a notícia.

Lênin chegou a suar frio quando percebeu que quase todos os músicos usavam um bottom com sua imagem preso na camisa. Um deles, tocando reco-reco, vestia inclusive uma camisa preta onde se lia LÊNIN em vermelho, e ele foi, ali, um russo em estado de graça.

Em coisa de quinze minutos o terreiro grande ficou pequeno diante de tamanha balbúrdia. Até que veio o intervalo. E um músico pediu silêncio:

– Gente, gente, silêncio, silêncio…

Lênin se aprumou. Iria ser anunciado.

Continuou:

– É com imenso orgulho que recebemos aqui, hoje, na roda do Ouvidor…

Percebendo que havia conquistado a platéia, bebeu um gole da bebida (“uísque”, pensou Lênin) e depois do pigarro disse:

– Guilherme de Brito!

Lênin sentiu o peso do indicador do músico no peito, ainda que à distância. Todos os olhos em sua direção. Muito barulho. Muita confusão, e Lênin notou que os músicos discutiam.

Uma outra mocinha, que não aquela primeira, saiu de uma livraria com um CD:

– Assina pra mim, seu Guilherme…

Lênin já estava chorando de tristeza, recusando o autógrafo, quando a azêmola emendou:

– Como vai a dona Nena?

Lênin apurou os ouvidos em direção à mesa dos músicos:

– Um bosta, cara! Popular demais! Um Luiz Carlos da Vila branco e mais velho!

Outro, exaltado (justamente o que vestia a camisa com seu retrato):

– Não vamos cantar porra nenhuma! Vamos de Candeia, pô! Candeia!

O do tamborim:

– Isso! Isso! E Picolino! E Colombo!

Lênin foi vaiado. Unanimemente vaiado, como nunca. Nem quando foi expulso da Universidade de Kazan, em 1887, o velho bolchevique conhecera tamanha agressividade sonora.

Saiu, pé-ante-pé, tornou ao balcão do bar da esquina e pediu outra dose de vodka ao garçom. Virou de uma só vez, deixou mais cem dólares (“fica com o troco”, ele repetiu) e tomou o rumo do metrô cantarolando a Internacional sozinho, triste, cabisbaixo, completamente destruído.

Ao vê-lo dobrando a esquina, disse um dos músicos erguendo a garrafa de uísque:

– Salve o samba de raiz! Salve o samba puro!

Um outro, visivelmente embriagado, exibindo ferozmente o bottom, berrou:

– Salve a revolução! Salve Lênin! Salve Trotsky! Viva! Viva a Cristina! Viva!

Outro:

– Salve o PSOL! Salve o PSTU! Salve a Cristina! Viva! Viva!

Foram aplaudidíssimos, os trombeteiros.

Até.

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A ASSINATURA NO GESSO

Quando ele leu, durante o café da manhã tomado sem pressa por recomendação médica, folheando os jornais, a página do obituário e viu, ali, o nome daquela mulher, tomou um susto capaz de lhe fazer golfar o café com leite e engasgar, e tossir, e tossir mais forte, a ponto de fazer a mulher, com quem é casado há de mais de quarenta anos, sair do quarto enrolada num roupão, a toalha sobre a cabeça, preocupadíssima:

– O que houve, meu bem?!

Ele fez um gesto com a mão, estava de costas para a porta do corredor, e disse que não havia nada, que fora apenas um mal jeito ao engolir uma das fatias de torrada que eram sempre postas à mesa, religiosamente, às sete da manhã, pela empregada de muitos anos também.

A mulher foi até ele, pôs as duas mãos sobre o peito do marido, deu-lhe um beijo no alto da cabeça, um em cada lado do rosto, e disse apenas que voltaria para o quarto por conta de uma enxaqueca.

Ele fechou os olhos e lembrou-se dela, morta…

Deveria estar com o quê – pensou alto – uns 70 anos? Nunca mais a vira, desde a mudança de sua família daquele prédio na Tijuca, na rua Campos Sales, diante da pracinha. Nunca mais a vira mas também nunca mais a esquecera.

Ele, com doze anos de idade, tinha vertigens quando a via passar pelo jardim da portaria do prédio, do alto de seus dezoito anos – seis anos que faziam uma tremenda diferença naquele momento da vida – vestindo a saia plissada de normalista, as coxas morenas com a penugem dourada visível, grossas, uma batata de perna alvíssima graças às meias 3/4 do uniforme, a blusa branca estufada pelos seios em flor com bicos insistentemente presentes e proeminentes, e aquela pasta permanentemente colada ao corpo, que ela levava abraçada.

Jamais, e como ele se ressentia disso, ela lhe lançara um único olhar. A esperavam diante do portão, de segunda a sexta-feira, quatro colegas de Instituto de Educação, e iam as cinco, a pé, em direção às aulas, deixando o menino ali, com a sede do pecado lhe secando a boca e contando as horas para que pudesse acompanhar a chegada da mulher que lhe tirava o sono.

Houve um dia – um dos que marcariam para sempre sua memória e sua vida – em que ela chegou, por volta das cinco da tarde, amparada por duas colegas e por uma mulher que, soube depois, era uma das inspetoras do colégio. Estava com a perna direita engessada, do tornozelo até a altura do joelho. Condoeu-se com aquela cena e reparou que havia várias assinaturas no gesso, e não se conteve quando ela passou por ele:

– Está precisando de ajuda, Manoela?

Ela, que jamais o olhara, virou o rosto para o menino sentado num dos bancos do pátio interno do prédio – e esse girar do rosto levou, para ele, uma eternidade… – e disse, docemente e com um sorriso que a tornava ainda mais bonita:

– Não, obrigada, Artur, muito gentil da sua parte. Muito obrigada! – e seguiu em direção ao elevador.

Como ela sabia seu nome? – eis a pergunta que se fazia enquanto punha as mãos na boca para impedir o salto do coração, sensação efetiva que experimentava. Fantasiava com isso, com essa besteira, quem não haveria de saber o nome do menino que nascera ali, naquele prédio?

O começo da noite, ao deitar-se, como tantas outras – essa mais que as outras, é verdade -, foi dedicada a ataques de onanismo, depois do ataque priáprico que sofrera quando ouviu seu nome ser pronunciado por aquela boca que ele tanto queria para si.

E foi o dia seguinte que entrou, definitivamente, para a história de sua vida. Lá estava ele, esperando a condução para o colégio, quando Manoela abriu a porta do elevador amparada pela mãe. Sentou-se ali, no banco à sua frente. Sorriu pra ele. Lhe deu bom dia. A mãe de Manoela lhe perguntou por seus pais, e ele não respondeu nada que não fosse um aceno com a cabeça, vidrado que estava na mulher com quem dormira, de certo modo.

Ele nem sabe de onde veio a idéia, o ímpeto, mas ele tomou coragem e disse:

– Manoela, posso assinar no gesso também?!

Ela, luminosa, já esticando a perna e ajeitando a saia, disse:

– Claro! Você tem caneta?

E ele já abria, afoito, o estojo em busca de uma esferográfica. Escolheu a de cor preta e foi, sôfrego, em direção a ela.

Ele ajoelhou-se diante de Manoela. Manoela pousou seu pé direito, de chinelo, sobre sua coxa esquerda. Ele pôs a mão esquerda por baixo do gesso, afagou o gesso como se afagasse as pernas da moça, os olhos mal disfarçavam que buscavam, tensos e úmidos, a parte interna das coxas morenas e douradas de Manoela que – é de propósito!, ele pensou – abria, de leve, as pernas, para que o menino visse o que mais queria. O menino Artur suava, respirava como um asmático em plena crise, sentia tremer a mão que segurava a caneta, até que pousou a ponta da caneta sobre o gesso:

– Posso?! – ele tentava ganhar tempo.

– Pode o quê? – pareceu a ele que ela estava gostando daquilo.

– Assinar meu nome.

– Claro! Assine, sim…

Ele continuava a fazer carinho sobre o gesso, como se gesso não houvesse, arriscou um toque, mesmo de leve, sob a coxa da mulher que alucinava seus sonhos de menino, e olhava fixamente para seus olhos que expressavam uma certa satisfação enquanto mantinha a caneta pousada num certo ponto em branco do curativo. Escreveu seu nome, pôs a data, e ela puxou-o pelas mãos, deu-lhe um beijo em cada lado do rosto, agradeceu, e ele mal pode acreditar quando teve a visão dos seios empinados de Manoela sob a blusa alvíssima do colégio quando recebia os beijos de olhos semi-cerrados, que se abriram num instante! A mãe da menina nem estava mais ali, havia ido conversar com uma vizinha no banco em frente, quando ele notou que ela sorria um sorriso que ele conhecia só de ouvir falar, de malícia, de sensualidade, de prazer, e continuou sem acreditar, já ardendo em febre, quando ela pousou suas duas mãos suadas sobre suas coxas, dizendo em seu ouvido, depois de uma mordida de leve no lóbulo esquerdo:

– Artur, seu safado…

Nunca mais houve nada parecido entre eles.

Mas aquela cena foi recorrente durante toda a juventude de Artur, à noite, principalmente, e recorrente de novo, quando seus olhos cansados deram com o nome dela num anúncio retangular do jornal daquele dia.

Uma semana depois era o nome dele, Artur, que aparecia na mesmíssima sessão de obituário, do mesmíssimo jornal.

Tivera um ataque de coração, fulminante, antes mesmo que a mulher acordasse ou que a empregada tivesse chegado da rua com o cachorro do casal.

Até.

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CANÇÃO DA MANHàFELIZ

“De repente em minha vida
já tão fria e sem desejos
estes festejos
esta emoção…”

(Haroldo Barbosa e Luiz Reis)

Eu sentia-me exatamente assim. Semi-morto. Um autômato. Quase um vegetal. Há exatos cinco anos. E o simples fato dessa memória da data, o simples uso da palavra “exatos” para contar os anos e pontuar a dor de meia década é capaz de deixar bem nítido o tamanho do rasgo na minha alma ou no que um dia pude chamar de alma (pude, não… no que um dia chamaram de alma por mim).

A dor do abandono deve doer. Eu digo deve doer porque o que me vitimou não foi abandono. Foi nem sei dizer o quê. Aquela vaca confessa numa manhã de sábado de carnaval que está saindo de casa e justo por causa daquele a quem eu considerava um grande amigo. “Vamos pra Paris”, foi só o que ela disse já de pé no centro da sala, duas malas enormes a seu lado, e nem um beijo, nem um abraço, nada.

E pior que isso.

Nem sinal de nada. Foi assim, de uma hora pra outra. Claro que de uma hora pra outra segundo a minha visão. “Estamos juntos há seis anos”, isso foi dito assim, fria e pausadamente, para responder meu monocórdio “desde quando?”.

Mas ontem, sei lá o que me deu, depois de exatos cinco anos (uso o exato de novo e percebo a cicatriz fechando), contratei a Leila (escolhi pelo nome, o mesmo), a quem encontrei numa dessas agências de acompanhantes (que é como as putas se denominam pela internet). Minha única exigência: dormir comigo.

Paguei o triplo do valor que me fora dito pela telefonista, educadíssima (como estão refinados os puteiros, os bordéis, os lupanares). “Dormindo fica mais caro”.

Não me importava.

Eu queria acordar dizendo “Leila, bom dia” novamente.

Mas ao acordar, vendo a Leila ali, dezoito anos (isso foi o que ela me disse, não tem mais de dezesseis), em posição fetal, nua, os pezinhos enroscados, uma manhã luminosa arrebentando a veneziana e frisando de luz o colchão, senti uma emoção que já desconhecia.

Os quarenta anos que nos separavam não tinham a menor importância.

E enquanto fotografava Leila, com um nó na garganta, um calor no peito e um tremor indisfarçável nas mãos, notei que só estava dizendo “exatos cinco anos” porque não havia me permitido, minimamente que fosse, uma oportunidade mínima de um esboço de emoção.

Quando eu disse a ela, assim que fez a primeira preguiça, “Vou tirá-la dessa vida, minha querida…”, ela gargalhou, perguntou por torradas e café bem forte. Acendeu um cigarro e disse brincando com a fumaça:

– Todos dizem isso.

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