VOVÓ FAZ ANOS AMANHÃ – II

No dia 06 de abril de 2011, véspera do aniversário de minha avó – e em 2011 foi seu primeiro aniversário depois que ela foi oló, em dezembro de 2010 – escrevi Vovó faz anos amanhã, texto que pode ser lido aqui. Hoje, novamente 06 de abril, novamente véspera de seu aniversário de 92 anos, torno a render homenagens à sua memória, inabalável em mim. É inevitável que eu me valha de linguagem muito semelhante à que usei em 2011: a saudade esmaece mas permanece, e quando trazida à tona vem com as mesmas cores, a mesma forma, a mesma boniteza.

Amanhã, portanto, 07 de abril, a 20 dias dos meus 47 anos, minha avó faz anos, mais precisamente 92 anos. Dirão os céticos- que não sabem nada – que se vovó não há que se falar em aniversário. E eu, uma vez mais, negarei com veemência diante dos devaneios que esta foto, que tantos textos já ilustrou por aqui (é, de fato, uma de minhas preferidas e ilustrou também o texto de 2011), me provoca. Cá estou eu, de calças curtas e camisa listrada, tendo à minha direita minha mãe, à minha esquerda minha avó e à minha extrema esquerda, minha bisavó – mãe de vovó, a mais bonita das saudades que guardo. Estamos todos diante da mureta que havia na casa da vila onde moravam meus avós (minha bisavó junto, sempre), na Professor Gabizo, bem próximo à Heitor Beltrão, na Tijuca evidentemente, e hoje ainda mais perto de onde moro.

Amanhã será dia, então, de fazer seu café-da-manhã, servir-lhe uma xícara de café com leite, como ela gostava, torradas e uma ameixa, um damasco, uma castanha-do-pará e algumas fatias de queijo. E estarei, eis as mágicas do Tempo, com a mesma calça curta, com a mesma camisa listrada e com esses olhos de nem-sei. Será dia de sentar-me à mesa, rezar baixinho à minha moda, e contar a ela as novidades. São muitas, afinal são seis anos sem ela por perto pra me ouvir: algumas nada boas, mas vovó, que foi a mulher mais otimista que jamais conheci, vai tirar de letra – e vai ser capaz de rir de muita delas! Outras incríveis, e dentre elas a que me mais me compunge… sobre a Morena. Como eu queria, por um minuto que fosse, que minha Morena conhecesse minha avó. Minha avó que, sem medo do erro, passou os últimos 10 anos de vida indo jantar comigo, em casa, religiosamente, todas as quartas-feiras. E não havia quarta-feira em que ela não chegasse trazendo nas mãos algum presente, por mais simples que fosse. Ela vinha de táxi (e por isso mantenho no final do texto o que escrevi em 2011) e eu a levava de volta. Pedia que eu pegasse o violão, cantava (aqui, vovó cantando, afinadíssima, como sempre), contava histórias – era uma exímia contadoras de histórias, herança direta de sua mãe – , ria muito, jantava sempre tomando vinho e não dispensava o vinho do Porto antes de ir embora.

O que eu quero amanhã, portanto, é festa, eu quero é me emocionar. Por isso amanhã vou preparar o café-da-manhã como lhes disse, vou enfeitar a casa com rosas brancas, vou chamá-la pra contar a ela as novidades, espalhar água de cheiro pela casa, pôr Orlando Silva pra cantar, e se me der na telha ainda compro bolo de aniversário pra comer de sobremesa à noite, depois do jantar. Devidamente encerrado com uma dose de vinho do Porto.

Era o que eu queria lhes contar. Chama, dona Mathilde, chama!

Até.

pós-escrito às 16h55min do dia 06 de abril de 2011:

Impossível não fazer o adendo. Estava eu em Copacabana, por volta das 15h50min, saindo de um compromisso profissional, caminhando pela Nossa Senhora de Copacabana à espera de um táxi. Sinal fechado, fiz o sinal. Parou um Palio Weekend, entrei. No painel, um adesivo da cooperativa Táxi Garibaldi. Vamos ao contexto. A Táxi Garibaldi tem ponto justamente na rua Garibaldi, na Tijuca. Uma transversal da rua General Espírito Santo Cardoso, onde residia minha avó. Achei graça daquilo e fiz a blague:

– A cooperativa que minha avó mais usava…

O motorista:

– É?

– Morreu em dezembro, fará 87 anos amanhã…

Ele virou-se pra mim e disse:

– Dona Mathilde? A baixinha e cheirosa? Morreu?

Nem consegui responder. Eu já guinchava no banco do carona de tanto que chorava. Liguei pra mamãe, contei a história. Liguei pra minha menina, contei a história. O motorista – seu José – já fungava ouvindo tudo. Era, pra mim, sinal evidente de que vovó se fazia presente.

E pra não perder o fio da meada do texto que escrevi hoje pela manhã, vamos lá.

Dirão os céticos: trata-se de apenas uma coincidência. Pois sim! São mais de 35 mil táxis circulando no Rio de Janeiro, e cerca de 5 mil irregulares, num total de 40 mil veículos amarelinhos rodando por aí. E aí, no dia de hoje, véspera do aniversário da dona Mathilde, na tarde do dia em que escrevi, pela manhã, verdadeiro chamamento e prece quase pagã em sua intenção, um táxi justo da cooperativa da qual ela fazia uso freqüente, conduzido por um motorista que a conhecia (“baixinha”, “cheirosa”, “vaidosa”, “serelepe”, “elegante”…) e que mora na esquina da rua de vovó dá de me resgatar em Copacabana rumo ao Centro. Tá bom, então.

Eu quero é me emocionar, pombas!

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10 Comentários

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10 Respostas para “VOVÓ FAZ ANOS AMANHÃ – II

  1. Vera Mello

    Concordo com você, que coincidência que nada! Era cheirosíssima mesmo e só reclamava de palavrões! Que saudade tenho dela e do tempo em que compartilhávamos poesias lá na lojinha. Beijo, querido, maravilha ter um neto como você que preserva tão lindas memórias. Fique com meu beijo carinhoso. Parabéns, Mathilde! Verinha.

  2. sonia monteiro de barros

    Céus, Edu, que foto emocionante. Minha prima Mariazinha e o filho, tia Tida e vovó.
    Quanta saudade… Obrigada por, sem saber, afagar meu coração.

  3. Cristiane Beatriz Tischer

    Edu que lindo texto… sua vovó deve estar orgulhosa!!! Imagine, conheci seu blog hoje… estava atras de uma receita diferente de feijoada. Encontrei a sua… e fui lendo outra receita, e outra, e outra… até chegar a este texto, por coincidência meu bebê faz seis meses amanhã… parabéns a sua vovó!!! Sejamos sempre feliz.

  4. Marianna

    parabéns, dona mathilde! (como sempre, o texto é maravilhoso)

  5. Vicente Ferreira da Silva Filho

    Edu, dá um beijo nela por mim. Abração!

  6. Rachel

    Quem dera minha neta se lembre de mim assim. Não por mim , mas para que ela possa seguir em frente tendo memórias felizes, amorosas.

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