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DO DOSADOR

  • Luiz Antonio Simas, meu amigo há mais de 10 anos, meu irmão, meu compadre e o homem que cuida de mim com a competência de sacerdote mais-velho, é um tímido e um modesto, embora os movimentos em torno dele façam parecer o contrário, razão pela qual não viria (e não virá) a público dizer o que eu disse a ele, a pedidos. Aldir Blanc, um de meus orixás vivos, com quem falo com freqüência (os assuntos vão do futebol à política internacional, dos livros à música, das mulheres aos escrotos da vida pública), mandou-me e-mail e pediu que repassasse o recado ao Simas, o que fiz prontamente. Eis o e-mail do Bardo da Muda: “Viu esse? Por favor, mande um tremendo abraço pro Simas. Ninguém está escrevendo como ele. Bj, Aldir.”. Referia-se, o Aldir, ao texto Brasil, um tremendo sucesso, publicado pelo Simas no Facebook. O portentoso texto – brilhante! – pode ser lido aqui. Era o que eu queria lhes dizer;
  • Ainda sobre Luiz Antonio Simas (ele, se quiser, que confirme): há mais de 10 anos, logo que eu o conheci, ainda não éramos íntimos, eu ainda não tinha recebido a honraria de ser nomeado padrinho-de-rua do seu Benjamin, disse a ele e à minha comadre, Candida: “Luiz Antonio Simas, com as proporções e as individualidades devidas e preservadas [tenho horror dessa coisa de sucessor, substituto e outros bichos], vai ser o Suassuna do Sudeste. Vai correr Brasil, de camisolão, cantando e encantando toda a gente que com ele esbarrar.”. Quando Sérgio Cabral (o pai, por favor) apresentou Aldir Blanc e João Bosco em 1972 na série Disco de Bolso, d´O Pasquim, disse algo assim: “Quando o Brasil inteiro reconhecer a genialidade de Bosco e Blanc como a maior dupla de parceiros da música brasileira quero esse mérito, o de ter dito primeiro.”. Cito de cabeça, mas foi algo assim. Com o Simas, podem apostar, vou querer o mesmo mérito;
  • Eis que tem início, hoje, a Semana Santa. Hoje, a Missa do Lava-Pés. Amanhã, a Procissão do Senhor Morto, no Sábado de Aleluia a missa do Fogo Pascal, e no domingo de Páscoa serei um sobrevivente renascido depois da Quaresma, 40 longos dias de holocausto. Não sou católico, quem me acompanha sabe. Mas mora em mim, eternizada, as Semanas Santas da minha infância que, com a graça dos deuses, foi uma zorra na matéria: minha bisavó e minha tia Hidinha, católicas fervorosas, cumpriam a Quaresma, vestiam preto na Sexta-Feira Santa, a casa de meus avós (com quem as duas moravam) era um silêncio agudíssimo em respeito à data. Meu avô dizia-se católico, respeitava o silêncio das duas mas não me recordo dele tão envolvido com a data. Vovó, por sua vez, espírita fanática, tinha certa dó de ver a mãe e a tia ainda tão presas aos rituais da Santa Igreja Católica. Meu tio Carlos Henrique, irmão de vovó, também respeitava a liturgia da mãe e da tia mas gostava mesmo era da umbanda, vestia branco às sextas-feiras (incluindo a Sexta-Feira Santa, o que gerava leve reprimendas de minha bisavó consubstanciadas num balançar de cabeça com os olhos fechados), recebia o Caboclo Tupiara com quem eu trocava altos papos, meu pai depois deu de ser cavalo do Caboclo Tupinambá, minha avó não dispensava um passe do caboclo – qualquer um deles – com um dos livros do Kardec debaixo do braço, meu avô não dizia nada (era um calado) mas fazia o sinal de cruz sempre que passava por uma igreja. Ah, sim, a Penha, que trabalhava na casa de meus avós, tinha um cabelo que ia até a altura dos joelhos e é a primeira e mais remota lembrança de tenho de uma pentecostal fanática;
  • Isso pra não falar da banda paterna. Avós judeus. Minha avó freqüentava, escondida de meu avô, um centro espírita na Praça da Bandeira (moravam na Tijuca). O Clube Monte Sinai era quase que o playground de minha casa, o que significa dizer que a imensa maioria dos meus amigos de infância era judia, que fui a dezenas de Bar-Mitzva em praticamente todas as sinagogas da cidade (o que fez com que, até hoje, eu recite trechos da Torá num ídiche de causar inveja em israelense nativo) e sempre com aquele drama que me acompanha, de certa forma, até hoje: “Eduardo Goldenberg? Judeu, né?”. Daí eu conto toda a ladainha numa tentativa que não cessa de fazer com que eu mesmo compreenda quem sou e que fruto deu esse caldo todo, uma vez que eu me comovo feito o diabo na Semana Santa, choro às escâncaras no Círio de Nazaré, bato cabeça pra Ogum, meu pai, faço ebó quando Ifá manda, converso com minha avó à noite, rezo de mãos dadas com a Morena e vou assim, por aí, eternamente assustado e assombrado como o menino de calças curtas e camisa listrada que renega meus 48 anos de idade.
  • Até.

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FAZ 93 ANOS, HOJE, MINHA AVÓ

Acordei, como de praxe no 07 de abril, já pensando nela. Já é o sétimo aniversário sem que eu possa tocá-la, abraçá-la, sem que eu possa sentir-lhe o cheiro da lavanda, a maciez da pele tratada ao longo de toda a vida com zelo de quem se sabia majestosa. Tratei de levantar cedo e preparar seu café, a banana fatiada com perfeição para ser comida com garfo, em fatias retiradas de dentro da casca, a ameixa, o damasco, o pão com requeijão, amêndoas, nozes, castanhas. Sentei-me numa das laterais da mesa – seu café foi posto na cabeceira -, rezei em voz alta minha saudade valendo-me da necessária e salutar força do verbo que sai da boca de um neto com saudade, seu neto mais velho, ri me lembrando de incontáveis histórias vividas com ela e deixei seu café guardado para que, no final do dia, eu comungue de sua energia – e minha avó tem me dado provas impressionantes (e que não vêm ao caso) da sua presença e de sua comunhão conosco.

Lembro-me como se fosse hoje. Vovô morreu em 2002 e havia uma espécie de aposta unânime, eu colhia as frases como se fossem cravos no hospital e depois no cemitério:

– Ah, a Tidoca não dura muito… – uma amiga de antanhos.

– Já, já, aposto, vai estar junto do Milton… – uma amiga do salão (vovó freqüentou o mesmo salão, na Tijuca, por mais de 50 anos).

– Olha lá, espia! Tristinha, coitada, não passa de dezembro… – essa eu não sabia quem era, vovô morreu em fevereiro e a pessimista foi implacável.

Mathilde Eugênia Monteiro de Barros Braga, em 25 de janeiro de 2009

Fato concreto é que deu-se o oposto. Depois de anos a fio cuidando do velho Milton, seu companheiro por mais de 50 anos (como o salão), diabético, um gênio daqueles, vovó sendo um anjo-de-guarda pra ele – mais moça, minha avó confessara o sonho de um dia tornar-se enfermeira -, dona Mathilde remoçou. Com a pensão do meu avô, que não era desprezível (e vovó, como as mulher de antigamente, não fazia idéia do quanto ganhava o marido), vovó foi só festa.

Às segundas-feiras ia de ônibus pro Andaraí para a sessão do Centro Espírita Bezerra de Menezes. Às terças-feiras era o sagrado dia de ir ao salão da Zizi – e lá passava o dia quase que todo. Às quartas seu destino era o Méier. Na casa de minha tia Noêmia, sua cunhada – Noêmia ainda é viva e está com 100 anos -, ia jogar o carteado e se divertia sempre quando me contava que era a caçula da mesa. Às quintas-feiras vovó ia jantar comigo – eu a buscava e a levava de volta, sempre. E ela sempre chegava com um presente, isso quando não saíamos para jantar e ela fazia questão de pagar, rindo, sempre rindo, dizendo que ganhava muito bem! Sexta-feira? Teatro. Vovó era daquelas que arregimentava velhinhos e velhinhas dentro de uma van e rodava a cidade vendo shows, peças de teatro, às vezes indo até São Paulo, e sempre de van – vovó viveu 86 anos sem nunca ter pisado num avião, tamanho o pânico.

Era a festa em pessoa. Continua sendo, pelo que tenho percebido.

Como festa foi seu próprio velório, como já contei:

“E foi, meus poucos mas fiéis leitores, um velório tijucano e rodrigueano.

Logo na entrada da capelinha, uma coroa de flores gigantesca enviada por Gilberto Braga, sua irmã Rosa Maria e seu irmão Ronaldo. Vovó era amicíssima da Ieda, mãe dos três. Sua melhor amiga, contam. Os três a chamavam “tia Tida” e por ela tinham um carinho sem tamanho. Pois vamos à cena no melhor estilo Tijuca. As velhotas que se acotovelavam em volta do caixão vez por outra apontavam na direção da tal coroa de flores. Havia um alarido (apud Nelson Rodrigues) de vozes acompanhando aquele apontar de dedos. Até que deu-se a cena de cinema.

Uma das velhas tomou a direção da coroa de flores arrastando outra velhota pela mão. Estacou diante da coroa equilibrada no cavalete, pouco depois de estender uma câmera fotográfica para sua amiga. Postou-se ao lado da bóia de flores, esticou a faixa com os dizeres “saudades eternas”, apontou pro nome do autor de novelas e disse pra outra:

– Tira! Tira! Vai!

Foi então que formou-se uma pequena fila para a mesmíssima fotografia.

Mas não ficou aí, apenas, o tijucanismo do momento.

À certa altura adentra a capelinha Dayse Lúcidi, prima da vovó. A radialista e atriz, hoje fazendo o papel de uma avó e cafetina na novela das oito, causou um furor de velhas no salão. Cochichos, fotografias, explosão de flashes, autógrafos.

E lá estava vovó vivendo o drama tantas vezes retratado por Nelson Rodrigues.

“A dor tem, ao fundo, um alarido de xícaras e de pires”, disse o mestre.

Ontem, diante da ausência do bar da capela e da presença da modernidade, o alarido foi de flashes e do automático das câmeras portáteis.”

Minha saudade e meu amor eterno, minha vó. Fique com meu beijo e com o da Morena, que você acha tão bonita…

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ABRIL, UMA ALEGRIA INFERNAL

Em todos os abris dá-se o mesmo (e dá-se ainda mais forte depois de 2011 quando, no 07 de abril de cada ano dali em diante, passei a não mais ver a minha avó): tenho febres, febrículas, suadouros, tremores de mão e arremessos violentíssimos em direção ao passado. Tudo, claro, e ainda bem, de forma discreta a fim de não despertar o pânico em quem me cerca. De uns meses pra cá, e estou apenas digressionando de propósito porque se for lhes contar a verdade a fundo é bem capaz de eu perder a credibilidade que conquistei ao longo de quase 48 anos, até que tenho efetivamente estado com minha avó, que aparece na foto abaixo no canto à direita, vestidinho branco de bolinhas pretas. A foto, pelo que apurei nos arquivos que mantenho comigo, é de aproximadamente 1933 – vovó tinha entre 8 e 9 anos. Foi tirada no jardim da casa de meus bisavós, na rua Marquês de São Vicente nº 184, na Gávea – de onde, sabiamente, mudaram-se para a rua Gonçalves Crespo, na Tijuca, evidentemente.

Minha bisavó, Mathilde Veloso, a mais impressionante mulher que conheci, matriarca na exata e pesada acepção da palavra, está ao centro, de preto, pés elegantemente cruzados, e meu bisavô, Eugênio Augusto, no alto e no centro, bem na direção de minha bisavó, o cabelo levemente desgrenhado (em aguda oposição à rigidez do penteado de minha bisavó). Reconheço, ainda – com os olhos embaçados, porque eles estão quase sempre assim nos abris – minha tia Linda (à esquerda, de vestido branco, sorrindo, as mãos postas), meu tio Procter (ou seria Proter?) (no alto, à esquerda, com duas crianças no colo, ele (inglês) que foi casado com minha tia Alzira, minha tia Zirota, que não reconheço na fotografia – se é que nela está), mas são as figuras de minha bisavó (Mathilde) e de minha avó (Mathilde) as que mais me chamam a atenção.

A pouco mais de 20 dias de mais um aniversário, rumo à quadragésima oitava volta do ponteiro, dá-me especial prazer esse exercício arqueológico em busca de registros dos meu antepassados. Há quem prefira desfazer-se desses registros físicos (um crime, um estelionato afetivo), não eu.

Meu bisavô, Eugênio Augusto Monteiro de Barros, nasceu a 22 de novembro de 1893. Exerceu durante muitos anos o cargo de contador da Companhia de Navegação Costeira, foi presidente da União dos Empregados no Comércio do Rio de Janeiro, deputado federal classista (assinou a Constituição de 1934) e casou-se a 17 de maio de 1913 com Mathilde Veloso, que passou a assinar Mathilde Veloso Monteiro de Barros, minha bisavó!, ela filha de Francisco Veloso, português, e de Julia Pinheiro Veloso, de família de São João da Barra.

Tiveram muitos filhos: Maria Florinda, que morreu de tétano aos 15 anos (um dia lhes conto sobre meu pânico, na infância, de morrer de tétano aos 15 anos, como ela); Francisco de Paula Monteiro de Barros, meu tio Chico; Sílvio Augusto Monteiro de Barros; Mathilde Eugênia Monteiro de Barros; Carlos Henrique Monteiro de Barros e Pedro Paulo Monteiro de Barros. À exceção do Pedro Paulo, meu tio Pedrinho – cujo paradeiro há pouco descobri -, estão todos mortos. Mas não estão.

Fará anos depois de amanhã, 07 de abril, 93 anos mais precisamente, minha avó Mathilde, herdeira do matriarcado exercido durante 89 anos por sua mãe, minha bisavó. Lá em casa, como desde 2011, o café-da-manhã será preparado para ela, à sua moda, com torrada, manteiga, geléia, café com leite, bolo, castanhas, damasco, nozes, a ela será oferecido e dele me servirei no final do dia, quando chegar do trabalho. Estarão todos eles, os meus fantasmas, conosco, em homenagem a ela, uma mulher que foi desaparecer, aos 86 anos, credora do afeto e do carinho de todos os que com ela conviveram. Incapaz de um gesto capaz (é de propósito) de romper laços, laços, laços, laços, que sem eles, os laços, não somos nada.

Vovó, que acha a Morena lindíssima (embora não a tenha conhecido em vida), há de estar, de novo, junto de nós, comungando conosco, mais de perto, dos nossos sonhos mais especiais nesse 2017.

Falo mais sobre os meus fantasmas, tão queridos, amanhã.

Até.

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VOVÓ FAZ ANOS AMANHÃ – II

No dia 06 de abril de 2011, véspera do aniversário de minha avó – e em 2011 foi seu primeiro aniversário depois que ela foi oló, em dezembro de 2010 – escrevi Vovó faz anos amanhã, texto que pode ser lido aqui. Hoje, novamente 06 de abril, novamente véspera de seu aniversário de 92 anos, torno a render homenagens à sua memória, inabalável em mim. É inevitável que eu me valha de linguagem muito semelhante à que usei em 2011: a saudade esmaece mas permanece, e quando trazida à tona vem com as mesmas cores, a mesma forma, a mesma boniteza.

Amanhã, portanto, 07 de abril, a 20 dias dos meus 47 anos, minha avó faz anos, mais precisamente 92 anos. Dirão os céticos- que não sabem nada – que se vovó não há que se falar em aniversário. E eu, uma vez mais, negarei com veemência diante dos devaneios que esta foto, que tantos textos já ilustrou por aqui (é, de fato, uma de minhas preferidas e ilustrou também o texto de 2011), me provoca. Cá estou eu, de calças curtas e camisa listrada, tendo à minha direita minha mãe, à minha esquerda minha avó e à minha extrema esquerda, minha bisavó – mãe de vovó, a mais bonita das saudades que guardo. Estamos todos diante da mureta que havia na casa da vila onde moravam meus avós (minha bisavó junto, sempre), na Professor Gabizo, bem próximo à Heitor Beltrão, na Tijuca evidentemente, e hoje ainda mais perto de onde moro.

Amanhã será dia, então, de fazer seu café-da-manhã, servir-lhe uma xícara de café com leite, como ela gostava, torradas e uma ameixa, um damasco, uma castanha-do-pará e algumas fatias de queijo. E estarei, eis as mágicas do Tempo, com a mesma calça curta, com a mesma camisa listrada e com esses olhos de nem-sei. Será dia de sentar-me à mesa, rezar baixinho à minha moda, e contar a ela as novidades. São muitas, afinal são seis anos sem ela por perto pra me ouvir: algumas nada boas, mas vovó, que foi a mulher mais otimista que jamais conheci, vai tirar de letra – e vai ser capaz de rir de muita delas! Outras incríveis, e dentre elas a que me mais me compunge… sobre a Morena. Como eu queria, por um minuto que fosse, que minha Morena conhecesse minha avó. Minha avó que, sem medo do erro, passou os últimos 10 anos de vida indo jantar comigo, em casa, religiosamente, todas as quartas-feiras. E não havia quarta-feira em que ela não chegasse trazendo nas mãos algum presente, por mais simples que fosse. Ela vinha de táxi (e por isso mantenho no final do texto o que escrevi em 2011) e eu a levava de volta. Pedia que eu pegasse o violão, cantava (aqui, vovó cantando, afinadíssima, como sempre), contava histórias – era uma exímia contadoras de histórias, herança direta de sua mãe – , ria muito, jantava sempre tomando vinho e não dispensava o vinho do Porto antes de ir embora.

O que eu quero amanhã, portanto, é festa, eu quero é me emocionar. Por isso amanhã vou preparar o café-da-manhã como lhes disse, vou enfeitar a casa com rosas brancas, vou chamá-la pra contar a ela as novidades, espalhar água de cheiro pela casa, pôr Orlando Silva pra cantar, e se me der na telha ainda compro bolo de aniversário pra comer de sobremesa à noite, depois do jantar. Devidamente encerrado com uma dose de vinho do Porto.

Era o que eu queria lhes contar. Chama, dona Mathilde, chama!

Até.

pós-escrito às 16h55min do dia 06 de abril de 2011:

Impossível não fazer o adendo. Estava eu em Copacabana, por volta das 15h50min, saindo de um compromisso profissional, caminhando pela Nossa Senhora de Copacabana à espera de um táxi. Sinal fechado, fiz o sinal. Parou um Palio Weekend, entrei. No painel, um adesivo da cooperativa Táxi Garibaldi. Vamos ao contexto. A Táxi Garibaldi tem ponto justamente na rua Garibaldi, na Tijuca. Uma transversal da rua General Espírito Santo Cardoso, onde residia minha avó. Achei graça daquilo e fiz a blague:

– A cooperativa que minha avó mais usava…

O motorista:

– É?

– Morreu em dezembro, fará 87 anos amanhã…

Ele virou-se pra mim e disse:

– Dona Mathilde? A baixinha e cheirosa? Morreu?

Nem consegui responder. Eu já guinchava no banco do carona de tanto que chorava. Liguei pra mamãe, contei a história. Liguei pra minha menina, contei a história. O motorista – seu José – já fungava ouvindo tudo. Era, pra mim, sinal evidente de que vovó se fazia presente.

E pra não perder o fio da meada do texto que escrevi hoje pela manhã, vamos lá.

Dirão os céticos: trata-se de apenas uma coincidência. Pois sim! São mais de 35 mil táxis circulando no Rio de Janeiro, e cerca de 5 mil irregulares, num total de 40 mil veículos amarelinhos rodando por aí. E aí, no dia de hoje, véspera do aniversário da dona Mathilde, na tarde do dia em que escrevi, pela manhã, verdadeiro chamamento e prece quase pagã em sua intenção, um táxi justo da cooperativa da qual ela fazia uso freqüente, conduzido por um motorista que a conhecia (“baixinha”, “cheirosa”, “vaidosa”, “serelepe”, “elegante”…) e que mora na esquina da rua de vovó dá de me resgatar em Copacabana rumo ao Centro. Tá bom, então.

Eu quero é me emocionar, pombas!

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ARREMESSO AO PASSADO (ou UMA CANÇÃO DE NINAR)

Deu-se que no domingo passado resolvemos, eu e a Morena, à noite, subir a Conde de Bonfim em direção ao Alto da Boa Vista para um daqueles tradicionalíssimos (e tijucaníssimos) lanches de domingo em família. E minha mãe, inspiradíssima, não se contentou com um simples lanche: a mesa, farta, exibia camarões, pastéis de queijo (que mamãe prefere chamar de burreca, iguaria judaica “feita por uma moça que mora na Engenheiro Adel que é uma delícia!”), saladas, pão de miga e outros bichos. Fomos recebidos por minha cunhada, que também estava lá (meu irmão, não). Aliás, diga-se, nenhum de meus dois irmãos estava lá. Éramos, portanto, cinco à mesa.

Contei-lhes isso em nome da precisão que me é companheira.

Papai foi pouco efusivo quando nos viu e tirou, do bolso imaginário do imaginário paletó, uma de suas frases preferidas (meu pai, o homem que tem pânico de servir sorvete com medo de que o sorvete vire sopa, tem uma coleção de frases feitas, entenda aqui lendo Papai também é fóbico):

– Hoje acordei tarde.

Aqui você entende porque essa frase é uma das clássicas frases de meu velho pai.

Houve um muxoxo coletivo (todos já sabem que a frase virá) do qual apenas a Morena não participou por falta de experiência. Ela perguntou, interessada:

– É? A que horas?

E ele, de pé, em posição de sentido, respondeu altíssimo:

– Tarde, hoje foi tarde… Quatro e dez da manhã!

Mas não é disso que quero lhes falar.

Estou, como lhes contei aqui, sem beber cumprindo a Quaresma.

À certa altura do lanche, mamãe perguntou:

– Edu, bebe um vinho comigo?

Fiz que não e a lembrei da proibição. Ela levantou os braços em direção ao lustre de cristal que pende sobre a mesa e que foi de minha avó paterna e disse:

– Graças a Deus!

Meu pai, que repete tudo o que mamãe diz como um xipófago do verbo, complementou:

– Graças a Deus!

Seis olhos – os meus, os da Morena e os de minha cunhada – cravaram os dois. Mamãe sacou o movimento e disse:

– Bom saber que você está conseguindo… – suspirou.

Seguiu, arranhando o prato com os dentes do garfo:

– O DNA da nossa família é perigoso…

Não me contive e explodi de rir.

Vejam vocês…

Não está no meu DNA, como sugeriu mamãe, a propensão a beber de forma industrial. Temos, é claro, como quase todas as famílias, os alcoólatras de estimação que nos redimem, inclusive, da culpa por bebermos demais.

O fato – atribuo a isso a minha relação intensa com a bebida! – é que uma de minhas canções de ninar preferida era a que vinha do som das pedras de gelo tilintando nos copos de cristal nas mãos da família inteira – inteira, sem exceção.

Papai chegava do trabalho? Mamãe servia duas generosas doses de uísque e tome de barulho de gelo no meu ouvido. Eu ia pra casa de meus avós? Vovô e vovó jogavam carteado: ele bebendo Teacher´s, seu preferido (vão tomando nota!), o indicador da mão direita fazendo girarem as pedras no interior do copo e minha avó bebendo Brahma em lata – ambos fumando desbragadamente, ele Continental e ela Hollywood. Minha bisavó nunca (eu disse nunca!) dispensou o licor de menta depois das refeições. Se havia festa, então, a carraspana era certa.

Cresci, pois, vendo, ouvindo, cheirando o álcool das inúmeras bebidas que embalavam aquela gente.

Durante esse período da Quaresma, então – quero fazer o registro -, ouço o barulhinho das pedras de gelo com intensa freqüência.

Graças a ele – ao som – eu ainda não sucumbi.

Um último registro: demonstrando intensa sensibilidade com o evidente sofrimento de um sujeito como eu, privado do prazer de beber, mamãe disse, ao nos ver diante da porta, saindo (comprovando que, aí sim!, o DNA da olímpica implicância carimba a família há sei lá quantas gerações):

– Oh, filho! Espere aí, espere aí!

– O que foi, mãe?

E ela me estende duas (eu  disse duas) garrafas de Red Label fechadas, na caixa:

– São suas. Leve.

E sorri, assim, de canto-de-boca.

Até

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OS DENTES DE MINHA AVÓ

Vejam bem uma coisa, vocês que me lêem. Vira-e-mexe eu me valho da expressão “arremesso violento em direção ao passado”. Geralmente, quase sempre – sempre, eu diria – estou me referindo à sensação absurda, quase-mágica, que experimento quando dou com uma foto minha, bebê, criança, adolescente, já – eu, às vésperas de completar 43 anos de idade, tenho cada vez mais esses arremessos. Pode lhes parecer apenas uma brincadeira para definir o que muitos de vocês chamariam de saudade ou mesmo de nostalgia. Isso seria, se fosse de fato apenas isso, extremamente reducionista. Porque o arremesso violento em direção ao passado a que me refiro, meus poucos mas fiéis leitores, é mais que isso. Infinitamente mais que isso. Mais grave que isso. Mais intenso que isso. E muito mais bonito que isso. Vou às minhas digressões em busca de ser compreendido e a fim de prosseguir nessa batalha diária, nesse lufa-lufa incessante e doído que é o exercício de exorcizar os anjos e os demônios que moram em mim.

Se eu realmente sofro esses arremessos diante de uma foto minha, antiga, de um encontro com um parente, por exemplo, como aconteceu quando encontrei-me com o Alexandre um dia desses (relembrem aqui), se esse arremesso é capaz de produzir em mim, de forma muito nítida, os cheiros que me levam aos cenários para os quais me transporto, se ouço as vozes dos fantasmas com os quais convivi, vocês façam uma idéia do que sinto ao me deparar com uma fotografia de há séculos – como a que ilustra este texto.

A foto é da década de 40 (portanto, de mais de 30 anos antes de eu vir ao mundo). Nela estão, na casa em que viviam meus bisavós – Mathilde e Eugênio, e ele eu sequer conheci – à esquerda minha tinha Linda, Carlinda para ser mais preciso, e à direita minha avó Mathilde, tendo minha tia Linda sua filha Maria Vitória no colo (minha madrinha, a quem não vejo há mais de 30 anos) e minha avó, mamãe – Mariazinha.

A foto me dá febre (e se vocês duvidam de mim, lamento profundamente não poder lhes mostrar o mercúrio do termômetro na casa dos 37 graus). E na busca enlouquecedora da razão da febrícula, me perco: pode ser porque minha avó me dá uma saudade tremenda, ela que foi oló em dezembro de 2010, como lhes contei aqui em 07 de dezembro de 2010. Pode ser porque não vejo minha tia Linda há mais de 30 anos, porque sei que ela está ainda viva, porque sei que sofre de Alzheimer e que por conta disso, ainda que eu supere a aridez do caminho que eventualmente me levaria até ela, ela não lembraria de mim e isso me causaria uma dor profunda. Pode ser porque não vejo minha madrinha há mais de 30 anos, e nem mesmo sei se ela ainda é minha madrinha (não, não é), mas é uma hipótese a se considerar. Pode ser causada, a febre, por conta da imagem de minha mãe ainda bebê, vestindo um vestido branco belíssimo como o que nunca vestiu a filha que eu não tive, com laço de fita nos cabelos e com uns sapatinhos que – vejam vocês como sou parte de uma família de obsessivos pela memória – mamãe guarda até hoje numa das estantes da sala de sua casa, eles que receberam um banho de cobre para que ficassem preservados para todo o sempre. Pode ser porque vejo, atrás das duas irmãs, na fotografia, meu tio Beneval e meu avô Milton – também já mortos.

Olho, olho de novo, tiro a temperatura, ouço a voz das primas que nunca mais se falaram, ouço a gargalhada de minha avó, ouço a voz da tia Linda, e antes de prosseguir quero lhes contar um troço. Vamos a uma breve pausa.

Sábado passado, como lhes contei aqui, houve a festa em comemoração à memória do Estephanio´s, na casa de meu irmão. Pois bem. Estava eu sentado à mesa, era cedo ainda, quando vejo chegando duas mulheres e três adolescentes, descendo a ladeira que liga o portão ao jardim da casa. Disse-me o Fernando, meu irmão:

– Não sei quem são. Você sabe?

Ele estava de frente. Virei-me, senti o frêmito e disse:

– Ana Paula e Carla. As crianças não sei quem são.

Vejam: Ana Paula é filha da Maria Vitória, eu também não a via há mais de 30 anos. Carla é filha de meu tio Carlos Henrique, meu tio Hique, filho de minha bisavó Mathilde, irmão de minha avó, e os adolescentes eram filhos da Ana Paula. Daí eu, que já estava em transe por conta do arremesso que a simples realização da festa causava, deixei-me levar pelo turbilhão do tal arranco. Estranhíssimo, quero lhes dizer, ouvir aquele “oi, primo”. Não era exatamente a presença delas que me tirava dali em direção a sei-lá-pra-onde. Era minha bisavó, que pairava sobre nós, sabe-se lá se satisfeita com aquele reencontro, era minha avó, também presente, era aquele cheiro insuportável de hortelã, das pastilhas de minha bisa, misturado a um cheiro de talco, que me tiravam do eixo. Ana Paula bem que tentou um diálogo, e só eu sei a força que fazia, olhando para pontos distantes dali (disso bem me lembro), para não sair dizendo as frases desconexas que me vêm à boca numa hora como aquela. Era o que eu queria, por enquanto, lhes dizer. Voltemos à fotografia.

Nada do que vislumbrei como sendo a causa do aumento abrupto da minha temperatura era, de fato, responsável pela febre. Eu tinha febre (ainda tenho, enquanto escrevo) por conta dos dentes de minha avó. Notem bem: são dentes horríveis, amarelos, enegrecidos. Vovó fumava. E eu não tenho essa imagem dos dentes de minha avó, em mim. Amarelos, em relação à minha avó, só os azulejos de seu banheiro, o mesmo que testemunhou minha descoberta do gozo com a Adele Fátima, meu primeiro contato com a quiromania (lhes contei sobre isso – inclusive sobre a cor dos azulejos  – aqui). Vovó, quando morreu, usava dentaduras (e era, confesso, uma dentadura belíssima, vovó tinha um sorriso belíssimo, vovó era doce como a mais doce das avós). E esse não conhecer seus dentes amarelos me causa arrepios absolutamente incompreensíveis.

Em apertada síntese, às vésperas de meus 43 anos, tenho aguda saudade de minha avó e de seus dentes amarelos. Amarelo me lembra também um girassol. E girassol me remete, de imediato, não a Van Gogh, como a grande maioria de vocês deve ter imaginado. Mas ao catavento que tem dentro o que há do lado de fora do meu girassol. Sou eu, meus poucos mas fiéis leitores, com saudade de minha avó, pedindo a ela um sustenido e me deparando com esse sorriso bemol, amarelado, que me dá essa febre incompatível com o momento que vivo, de febril saudade (me basta a febre da saudade, eu não preciso que minha temperatura suba). Mas é sempre assim, quando vem chegando abril.

Sou um sujeito entorpecido por cada um dos abris que já vivi. E enquanto tomo um analgésico pra afastar de vez essa febrícula inconveniente, tomo também meu chimarrão, que tem na cuia um risco também amarelo, pensando em quem me trouxe sol (amarelo) para amainar a sombra de tantas ausências.

Até.

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É MELHOR SE LEVANTAR!

Eu tinha pouco mais de dois anos de idade. Carnaval de 1972. Não sou capaz de lembrar de rigorosamente nada desse período. Mas sou capaz de jurar que lembro de mamãe cantando esse samba, do Império Serrano, pra me fazer dormir (e vocês tirem suas conclusões, se é possível que eu tenha crescido um homem 100% normal tendo sido ninado com samba-de-enredo!) – eu, aqui, em Uma noite imperiana, já contei um pouco dessa história pra vocês.

Tenho, do Carnaval, incontáveis lembranças. Fantasiava-me de índio, ia aos bailes infantis, e me é também, muito viva, a lembrança dos desfiles das escolas de samba pela TV. Papai e mamãe recebiam uma penca de amigos em casa, almofadas espalhadas pelo chão, o desfile ainda era na avenida Presidente Vargas e durava uma noite inteira, até a manhã do dia seguinte, e eu me lembro – lembro, lembro! – de ouvir mamãe cantando Carmen Miranda, o enredo do Império Serrano em 1972, escola do coração de meu velho pai.

Hoje, a quatro dias do sábado de Carnaval, ápice dos ápices da grande festa, acordei com esse samba ecoando na cabeça, samba que embalou o título da escola da Serrinha naquele longínquo 1972 (eu disse longínquo e no entanto 1972 está aqui, ao alcance das minhas mãos, à vista dos meus olhos que têm embaçado à toa).

Achei, há pouco, esses três registros que se seguem, todos de 1974. Eu, meu irmão, minha avó, minha mãe, meu pai – e se eu não estiver enganado as duas últimas fotos foram feitas durante um baile infantil no America, na Tijuca. É esse mesmo moleque que irá jogar-se nos braços do Cordão da Bola Preta, na manhã do sábado de Carnaval. Noutros braços, em busca de outros traços, com mais-que-trôpegos passos a fim de atingir a redenção sacrossanta que o Carnaval, a todos os que o compreendem, reserva.

E com vocês, meus poucos mas fiéis leitores, o samba do Império Serrano de 1972.

Até.

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