O PIADISTA DE ELEVADOR

O mau humor mora em mim, ora tímido e humilde, como um morador numa palhoça, ora arrogante e pernóstico como um nababesco proprietário de um palacete. Dão as caras alternadamente, e quero explicar melhor.

Quando é o morador da palhoça, o mau humor manifesta-se apenas internamente, quando meus pensamentos são cáusticos mas incapazes de virarem verbo.

Quando é o dono do palacete, jorra em torrentes derrubando tudo à frente.

E há um tipo que, invariavelmente, cutuca o meu hóspede: o piadista de elevador. Nada mais irritante, nada mais desagradável, nada mais repulsivo que o piadista de elevador. Tenho para mim que é um solitário. Um desprezado pela família – se é que a tem, um enxotado pelos amigos, um posto a escanteio pelos vizinhos, companheiros de bar, pelas amigas da igreja e mais que tais.

Tomo elevador, diariamente, pencas de vezes. Trabalho no décimo-segundo e último andar de um prédio no Largo do Machado. Subo quando chego, desço quando almoço, subo quando volto do almoço, desço para ir ao Centro da cidade, subo quando volto, desço quando vou embora. E em todas as viagens está lá, inexoravelmente, o piadista de elevador, que pode ser um homem ou pode ser uma mulher, não importa, mas é a encarnação desse tipinho, dessa espécie de “lennon do coletivo”, o piadista. Que tem, como têm todos os idiotas, seus seguidores, igualmente idiotas e que ajudam a compôr o quadro de horror da viagem.

Acompanhem. Eu aposto minhas fichas que cada um de vocês, leitores, já esbarrou dúzias, centenas, milhares de vezes com tipos como esses, com situações similares senão idênticas, já que os idiotas seguem uma espécie de cartilha-que-não-existe à risca.

Situação 01) o elevador está subindo ao décimo-segundo andar com cinco passageiros. Pára no quarto andar e ninguém de dentro se move. A figura “A” aparece no corredor em frente à porta e pergunta, “descendo?” (detalhe mecânico: só parou subindo porque a besta apertou o botão de subir no corredor). Quatro ocupantes (um deles serei sempre eu, mudo como uma escultura) em uníssono, “subindo!”. Aí a besta da figura “A” entra e diz sorrindo um sorriso que bate pino, tipo latido de cão faminto, “ah, deixa… não custa dar um passeiozinho”, e as outras figuras alternam, “é mesmo…”, “eu também sempre subo nessas situações…”, “não custa dar um passeiozinho”, “é bom mesmo dar uma voltinha de vez em quando” e todos relincham em côro.

Situação 02) essa eu vivi no edifício onde Vidal, a Lenda, tem consultório, décimo-terceiro andar. Entram 10 elementos, dentre eles, não é demais lembrar, eu. O décimo ser humano é um velho. Daqueles risonhos, corados, calvos. Diz: “Tá pesadinho o elevador, heim… todo mundo levantando uma perna pra aliviar o peso!”. Os outros oito passageiros – eu não, eu não! – rilham os dentes e esganiçam sorrisos forçados, e seis deles, rindo muito – de quê, Deus do céu? – levantam a perninha e ficam dando pequenos quiques dentro do elevador, como que para demonstrar ao velho a obediência e o “bom humor”.

Situação 03) essa é semelhante aos papos dos taxistas. O elevador lota para subir. Diz a figura “A”, “nossa… que calor…”, e os demais passam a se abanar com fúria, e ouvem-se “é mesmo”, “nossa, e esse verão que não passa?”, “e eu que estou cheia de brotoeja?”, “ah, mas agora eu vou pro meu ar-condicionado…”, e por aí vai. Dia desses uma velha mandou a seguinte pérola, numa variação do assunto meteorologia, para delírio dos idiotas que babaram à sua volta… “é, Deus deve estar fazendo um belo churrasco pra receber o Papa… esse calor é do carvão de lá de cima”. Guincharam todos. Tsc.

Nessas horas, o caipira da palhoça cala-se em mim. Só que numa dessas ocasiões o fausto morador do palacete não agüentou. Saquem a cena.

Estava subindo para o trabalho, elevador com lotação de dez. Entram dez e uma velha faz cara de pedinte na porta, diz aquele clássico “vamos dar um jeitinho aí, minha gente”, a escumalha se espreme e a velha entra dizendo, “que Deus nos acompanhe para que o elevador não caia”, e relinchou. Ganindo, os passageiros se espremiam para minha irritação. A porta não fecha. Apita o sinal e acende a luz vermelha de sobrecarga. A velha cara-de-pau vira-se pra trás como quem diz, “e aí?, tem que sair um”. As pessoas se entreolham sem ninguém dizer nada. Ao que eu urro: “Minha senhora, saia você e o Deus que nos acompanharia, porra! Ou, no mínimo, você. Deus eu não estou vendo, mas tu é gorda ao extremo. Chispa!”. A velhota, horrorizada, saiu acompanhada dos idiotas que se ofenderam com a verdade posta pra fora pelo meu fausto hóspede. Subi sozinho.

Até.

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em confissões

3 Respostas para “O PIADISTA DE ELEVADOR

  1. >QUE FASE… QUE FASE!!!

  2. Pingback: OS PIADISTAS DE ELEVADOR E O ARISTIDES | BUTECO DO EDU

  3. Ricardo

    Provável parente do piadista de elevador é o cara da fila do banco que sabe como resolver todos os problemas do Brasil! Tem que ter muito saco para aturar esse tipo de mala (como se já não bastasse a fila do banco).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s