OS METÓDICOS

Recentemente lancei luzes sobre os piadistas de elevador, um tipo que se multiplica assombrosamente, que se repete cansativamente e com o qual esbarramos, invariavelmente, no dia-a-dia. Pois Vidal, a Lenda, dia desses, chamou-me a atenção para outro tipão que também invadiu as cidades como os ratos e as baratas: o consumidor dos hortifutis. Um chato bolorento. Um solitário, tal qual o piadista de elevador. Puxa conversa desbragadamente, distribui “obas” e “olás” a granel e dá palpites, e faz comentários, e cutuca o alheio sem nenhuma cerimônia. Um metódico que beira o insuportável.

E já que falei em métodos insuportáveis, antes mesmo de adentrar nesse universo peculiar dos consumidores de hortifrutis, quero falar sobre uns metódicos sem lhes dar nome e sobrenome.

Tenho três amigos que decidiram viajar nesse último feriadão, 21 de abril (Tiradentes), quinta-feira, que emendou com a sexta-feira, com o sábado e com o domingo. Foram pra Araçatiba, na Ilha Grande, numa espécie de excursão que começou a ser organizada por duas moças em meados de 2003, e que contou com 25 cabeças. As duas moças, que para efeitos práticos chamarei de Vovó, uma, e de Stella, a outra, deliram quando conseguem formar o que chamam de um “Grupo”. E o “Grupo” estava fechado desde janeiro desse ano. E de janeiro pra cá, até às vésperas da viagem, foram realizadas dezenas de assembléias, ordinárias e extraordinárias, para que se decidisse tudo, nos mínimos detalhes, mediante votação nominal por maioria simples. Decidiu-se que o “Grupo” ficaria numa casa alugada com 10 quartos. Decidiu-se a forma de distribuição dos quartos. Decidiu-se as cores dos lençóis que seriam levados, das toalhas, a marca do papel higiênico, a marca do carvão para os churrascos (que seriam apenas dois, um na sexta-feira e outro no domingo), esse detalhes fundamentais para o êxito do passeio do “Grupo” (elas quase gozam quando enchem a boca para dizer “O Grupo”…, uma coisa). Pois bem. Um de meus amigos ficou responsável por levar o kit-anti-mosquito, composto por espirais verdes daqueles de acender e 5 vidros de “Off” spray. O outro, por levar o kit-churrasco A (12 peças de picanha e lingüiças “Seara” de carne suína) – o kit-churrasco B era composto de carvão vegetal e fósforos “Olho” tamanho gigante – e outro por levar 5 baralhos “Copag” para jogos variados (uma das assembléias vetou o pôquer). E vejam que barbaridade…

No dia do embarque, quinta-feira, cuja partida estava marcada para o cais número 19 do Pier de Angra dos Reis às 11h, às 7h da manhã as duas moças já estavam a postos, na entrada do Pier, munidas de pranchetas, canetas e uma espécie de mesinha improvisada com caixotes de madeira para a verificação das bagagens e câmeras digitais para fotos que serviriam como prova do cumprimento de todos os itens por parte dos membros do “Grupo”. Pois bem. Um de meus amigos levou “Autan” em vez de “Off”; o outro, como achou a picanha meio cara, optou por levar peças de maminha, cupim, alcatra e lingüiças de carne suína da marca “Perdigão”; e o terceiro levou 5 baralhos importados, plásticos, da marca “Ken”. Foram impiedosamente barrados, tiveram suas compras confiscadas como castigo (essa cláusula constava de uma das atas de uma das assembléias) e passaram o feriadão em Mangaratiba. É verdade e há testemunhas.

Esse agir implacável, esse detalhismo insuportável, também acomete o consumidor de hortifruti. Vidal contou-me dois episódios.

Episódio A) Vidal está, 6h da manhã, de bermudão, chinelo e camiseta, no Hortifruti da rua Uruguai para comprar tomate, cebola e manjericão. Estaca diante da gôndola de tomates. Mal chega a se aproximar, um senhor crava os dedos em seu punho e grita: “Isso é tomate que se apresente?” Vidal sorri, dá-lhe um “bom dia” e põe o primeiro tomate no saquinho plástico azul. O velho arranca o saquinho das mãos do Vidal: “O senhor ouviu o que eu disse? – e espreme o tomate sujando a branca camiseta da Lenda – “Veja. Esse tomate está uma porcaria!”. Vidal disfarça e vai ao manjericão. Diante dos maços da erva, agora é uma senhora, dessas de cabelo azul: “Murcho! Todos murchos! Não vá comprar isso!”. Vidalzinho desiste e faz as compras num supermercado.

Episódio B) Vidal já está na fila com os saquinhos de tomate, banana-prata, berinjela, cebola e morangos silvestres. Chega sua vez e ele pousa os morangos na balança. Uma mão surge por trás e arranca o saquinho: “Deixa eu ver esses morangos… (ele sente que alguém funga forte o saquinho da fruta)… passados! Eu sabia! Estão passados!”. Pacientemente Vidal vira-se e faz que vai pegá-los. “Meu filho… você não tem experiência… veja a cor desses morangos (come um)… e estão azedos!”. Vidal nunca mais entrou num hortifruti.

Vai daí que eu, atento observador do ser humano, passei a entrar em hortifrutis para checar-lhe a tese. Impressionante como é verdadeira. Aposentados, desocupados, velhinhos e velhinhas, perambulam entre as gôndolas dos hortifrutis apalpando, apertando, cheirando, mordiscando as frutas, as ervas, os legumes e as verduras, tecendo comentários sobre as safras, sobre a meteorologia, sobre os preços, sobre a qualidade e o sabor dos produtos, palpitando sobre as compras alheias, recomendando coisas jamais solicitadas, fornecendo receitas que não são pedidas, um troço rigorosamente insuportável.

Até.

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3 Comentários

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3 Respostas para “OS METÓDICOS

  1. >Confesso que abateu-se sobre meu pobre espírito uma sensação pouco definível ao constatar que, inapelavelmente, vou virar um velhinho de hortifrúti. Munido da minha bata branca sem cueca, apalparei tomates e berinjelas e darei conselhos à Mocidade. Isso, é claro, se eu não continuar bebendo desse jeito…

  2. >Esse negócio de barrar amigos no pier é a prova de como o ser humano pode ser baixo. Ainda mais se a cota de cerveja estiver completa.É como já dizia o Francis: “O comportamento de manada é a forma mais rápida de suicídio”.

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