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ERNESTO E RAUL

Em 24de julho do ano passado eu lhes contei sobre o que senti quando soube da aposentadoria do seu Ernesto, dono do Salão América, na Praça Afonso Pena – aqui. Em 03 de junho de 2011 já havia lhes contado sobre meu arremesso em direção ao passado quando descobri, por ocasião dos meus 40 anos, que no dia 21 de março de 1970 eu cortei o cabelo pela primeira vez, com o Raul, que até hoje faz minha barba e corta meu cabelo  – aqui.

Tenho, por isso, vê-se, profundas ligações com o Salão América, com o seu Ernesto, com o Raul.

Faço, aqui, pequena pausa para breve digressão.

Chorei quando soube da aposentadoria do velho Ernesto. E chorei de susto há umas semanas, e explico.

Cheguei no Salão América e não encontrei o Raul.

No buteco da esquina, a explicação:

– Raul está doente. Em casa. Ordens médicas.

Trêmulo, bati o telefone pro Raul. E do outro lado da linha, a voz rouca talhada depois de muitos anos de muito cigarro:

– Quinze dias em casa, Edu, de molho.

Passado o susto, a frase que me comoveu:

– Mas venha aqui em casa que eu faço sua barba…

Não fui, é claro – por respeito ao descanso do bravo filho de Xangô.

Volto ao que quero lhes dizer hoje.

No dia 19 de março de 2014, quase 44 anos depois do meu primeiro corte de cabelo, pois, estava passando em frente ao Salão América, voltando dos meus (creiam) exercícios matinais, quando dei de cara com o seu Ernesto, à paisana. Era a primeira vez que eu o via desde a aposentadoria e de sua viagem de meses para Portugal. Arremessei-me em direção a ele que, sempre generoso, acolheu-me com um abraço. Gemendo, eu pedia:

– Volta, Ernesto! Volta!

E ele gargalhava (só quem já viu e ouviu seu Ernesto gargalhando saberá do que falo) fazendo que não com a cabeça. Disse que estava cansado, que as pernas não mais agüentavam o dia-a-dia de um barbeiro, até que eu, comovido feito o diabo, implorei:

– Sente-se na cadeira do Raul, então! Apare o cabelo, apare o cabelo! Quero ver os dois craques juntos! Por favor!

raul e ernesto

Ernesto, generoso, português boa-praça, sentou-se na mesma cadeira em que me sentei em 1970. Raul, em êxtase, passou a dar um trato no cabelo do ex-patrão (que lhe passou a sociedade a custo zero!!!!!) e eu ali, diante dos dois monstros, de olhos marejados, fotografando o momento histórico, sofrendo violentos e intensos arrancos em direção ao passado (cheguei  a ver meu avô Oizer jogando carteado na Afonso Pena), bebendo de leve uma cerveja do buteco ao lado pra acalmar o coração.

A Tijuca é minha aldeia e ela sempre me salvará.

Até.

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APOSENTOU-SE, O BIGODE – PEQUENAS DIGRESSÕES

Dia desses, minha Morena é testemunha, fui ao Salão América fazer a barba e saí de lá com a cara lavada de tanto que eu chorava. Explico: eu freqüento a Barbearia Salão América desde o dia 21 de março de 1970, quando eu tinha pouco mais de 10 meses de idade, (e se você duvidar de mim, basta ver as provas inequívocas aqui), portanto há mais de 43 anos, e naquela manhã, depois de ter dado por falta do seu Ernesto no comando da cadeira do fundo, perguntei por ele ao Raul, que me respondeu com a voz embargada:

– Tá em Portugal. Aposentou. Nem sei quando volta…

Essa resposta, o tom da voz do velho Raul (que foi quem cortou meu cabelo em 1970), essa permanente dificuldade para lidar com a perda, a certeza de não mais ver e ouvir a gargalhada daquele português naquele salão que faz parte dos meus cenários há mais de quatro décadas, me fez sair de lá chorando como criança de 10 meses sem colo de mãe.

Hoje soube pelo Gabriel Cavalcante, tijucano de escol, que outra grande figura do bairro, uma lenda-viva para os freqüentadores do Bode Cheiroso, glorioso botequim na rua General Canabarro, também acaba de se aposentar: o Bigode, que aparece na foto abaixo, de autoria do próprio Gabriel.

Bigode do Bode Cheiroso

Sobre o Bigode, escreveu meu irmão e meu compadre Luiz Antonio Simas:

“(…) A começar pelo Bigode, que controla o balcão feito Domingos da Guia dominava a grande área e abre cerveja atrás de cerveja como Garrincha enfileirava os marcadores. É craque.

Eu só acredito em garçons que pareçam egressos do cangaço. São cada vez mais raros diante da profusão dos garotões de aventalzinho, das moças moderninhas e dos descolados que pululam feito mato nos bares de grife. A  destreza com que Bigode abre uma ampola cu de foca – como se fizesse isso desde que o primeiro hominídeo caminhou ereto na Serra da Capivara – é a mesma com que Lampião manuseava o fuzil parabelo.”

E era assim mesmo.

O Bigode, assim como o seu Ernesto, habita o meu imaginário (e 0 meu dia-a-dia!) desde há muito.

Eu era um moleque e a rotina das manhãs era a mesma: papai ia nos deixar muito cedo no colégio, a caminho do trabalho. Parava todo santo dia, de 2ª a 6ª, no número 218 da General Canabarro, Bar Macaense pra turista, Bode Cheiroso pros íntimos. E todos os dias pedia seus 4 maços de Shelton Light e sua garrafa de água com gás, Caxambu, quando as garrafas d´água eram de vidro.

E lá estava ele, todos os dias – o Bigode.

Mudamo-nos dali, a rotina matinal deixou de ser cumprida mas eu jamais deixei de ir ao Bode Cheiroso.

Aqui, em março de 2007, o relato de um dia que terminou na calçada em frente ao bar. Aqui, em maio de 2009, um encontro antes e depois de um jogo no Maracanã. Aqui, em texto do mesmo 2009, uma das clássicas fotografias, de minha autoria, tirada no Bode Cheiroso, de Luiz Antonio Simas. Aqui, em junho de 2011, na concentração para a final da Copa do Brasil, Coritiba e Vasco.

Não são muitos os registros – escritos ou fotográficos – que tenho do bar e do Bigode.

Mas são incontáveis as referências dentro de mim.

Com o seu Ernesto e com o Bigode aposentados – merecido descanso depois de anos de bons serviços prestados – a Tijuca fica um pouco mais sem graça.

Até.

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