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CENAS TIJUCANAS

O tijucano é, por excelência, um fanático por seu pedaço de terra. Não vou aqui repetir aquele raciocínio modorrento que diz que o tijucano é o único, dentre todos os moradores de todos os bairros do Rio de Janeiro, que se denomina, se apresenta, se exalta, pelo nome do bairro. O que é fato inconteste é que o tijucano até enxerga vida além do túnel, mas uma vida que precisa ser vivida muito rapidamente e mesmo assim dentro de certas inflexíveis regras, e explico. O tijucano quer ir à praia; é evidente que ele precisa atravessar o túnel para sentar-se na areia diante do mar. Mas ele, sobretudo, só vai à praia no local onde há evidente concentração de tijucanos. E anseia, a cada mergulho, pela cervejinha no buteco ao lado de casa, depois da praia. Eu, por exemplo, a vida inteira, fui à praia em apenas dois lugares: quando eu namorava uma moça que morava na Barra, nos idos dos anos 80, ia à praia da Barra diante do “três e cem”, que é como era conhecido aquele trecho da areia em frente ao número 3.100 da avenida Sernambetiba, hoje avenida Lúcio Costa. Eu tomava o 233, ou o 234, na Tijuca, e subia o Alto da Boa Vista para encontrar exilados como eu – tijucanos, quase todos. Eu me sentia, confesso, num leprosário. As pessoas passavam – os novos-ricos da Barra, sobretudo – e nos olhavam com cara de nojo, que a Tijuca e seus moradores sempre sofreram hediondo preconceito por parte dos demais. Depois, quando passei a ir à Ipanema, fincava meus pés diante da barraca do Mineiro, o bom e doce Miguel, onde encontrava vizinhos, moradores do bairro, tijucanos – quase todos.

Tudo isso para lhes dizer que o tijucano é um radical. Essa segregação que sofremos desde o berço faz de nós uma espécie de exército da auto-salvação, como modus operandi necessário à preservação de nossa espécie. Somos radicais, e é sobre um radical – seu Brasil – que quero lhes falar hoje.

O seu Brasil, de quem já lhes falei algumas vezes, mora desde o final da década de 60 num prédio que fica na esquina da Haddock Lobo com a Caruso, que é a rua com a maior concentração por metro quadrado de construções art déco, o que nunca chamou a atenção da preconceituosa imprensa carioca. Em razão da geografia, o seu Brasil freqüenta o bar da esquina – hoje é o bar do Marreco – diariamente. E desde a década de 60. Homem de hábitos simples, grosso como poucos, não foram poucas as vezes que ouvi o seu Brasil esbravejando diante do balcão:

– Freqüento esse bar há mais de 50 anos. Nunca houve um dono tão ruim, tão estúpido, tão burro como esse Marreco! – e gritava isso com o polegar apontado em direção ao pobre-diabo.

O mais hilariante, após a agressão, sempre foi a reação dos demais cabeças-branca:

– O Brasil fala isso há mais de 50 anos, pra todos os donos dessa espelunca!

Vamos ao que quero lhes contar – envolvendo radicalismo.

Dia desses houve rodada do Brasileirão numa quarta-feira à noite. Antes de prosseguir, me permitam a construção do cenário.

O bar do Marreco tem duas televisões. Uma, grande, de 29 polegadas, que fica bem diante do balcão, no alto. Outra, pequena, de 14 polegadas, que fica nos fundos do bar, ao lado da entrada do banheiro. Sempre que há dois jogos envolvendo times cariocas, cada TV passa um jogo diferente. Já houve, ali, assembléias capazes de transformar a tribuna do Senado Federal em brincadeira de criança, sempre para decidir o método a ser empregado em dias de jogo.

– A TV maior passará o jogo do time que contar com o maior número de torcedores presentes no bar, contados 10 minutos antes da partida!

– A TV maior passará o jogo do time que melhor colocado estiver na tabela!

– A TV maior passará o jogo do time que contar com o maior número de torcedores presentes no bar, contados uma hora antes do apito inicial!

E o troço ganhava proporções de reunião do Conselho de Segurança da ONU. Nunca chegou-se à conclusão alguma, é essa a verdade. Mas é verdade, também, que é sempre o jogo do Flamengo que passa na TV maior. Ou porque é sempre a maior torcida presente, ou porque o Marreco é Flamengo, por aí.

Ocorre que, dia desses, lá estava o Brasil, diante do balcão, horas antes do jogo. Estava visivelmente de mau-humor. E deu de fazer a ameaça:

– Hoje vai passar o jogo do Vasco na TV maior e não se fala mais nisso. Eu venho nessa merda há mais de 50 anos, pô! Hoje eu não abro mão disso!

Houve vaia, apupo de auditório, o Marreco riu, o seu Brasil fechou a cara:

– Tô falando sério. Quem paga essa bosta de pacote da NET sou eu. Confessa aí, Marreco, safado! Hoje é o Vasco na TV grande!

O tempo foi passando, o bar foi enchendo, e deu-se o banzé. Minutos antes da partida o Marreco sintonizou a TV grande no jogo do Flamengo e pôs o jogo do Vasco pra passar na pequenina. O seu Brasil recebeu um Exu e saiu rodopiando pelo bar, cuspindo cachaça na direção da assistência. O Jair, rubro-negro, um poltrão olímpico, ainda fez o apelo:

– Marreco, troca aí. Só hoje…

Foi vaiado.

Os jogos rolando e seu Brasil fumando desbragadamente de olhos fechados, as mãos pra trás, dando consulta a quem recorria ao seu Tranca-Rua. Uma enfermeira do Salgado Filho, que sempre bate ponto no Marreco, deu a sentença:

– É seu Tranca-Rua, não tenho dúvida!

Veio o intervalo e seu Brasil, ainda incorporado, postou-se diante do balcão. Chamou o Marreco pra perto e soltou uma pesada baforada na fuça do caboclo. Bateu palma alto, as mãos em concha, aquele som seco pedindo silêncio. E mandou, na lata:

– Meu filho… Meu cavalo, o seu Brasil, nunca mais!, nunca mais!, tá ouvindo?, nunca mais põe os pés nesse terreiro! Nunca mais! – e era um grito de trovão, de dar medo.

Riscou no chão, com os pés no papel de pemba, seu ponto e gritou:

– Tá ouvindo, filho da puta?

O Marreco, branco como eu nunca vira, os olhos saltados pra fora como duas bolas de gude opacas, disse, trêmulo:

– Eu ponho o jogo do Vasco pra passar na maior, moço, no segundo tempo…

– Moço? Moço, não! Moço, não! – e deu de rir feito Exu-Caveira.

Seu Brasil, ainda no papel de cavalo, deu de rir e saiu dançando do bar, tomou a direção de casa e sumiu.

E é o seguinte, meus poucos mas fiéis leitores: isso já tem mais de dois meses. Seu Brasil passa por ali – caminho inevitável – todos os dias. Nem olha pra dentro do bar. Eu mesmo já vi o Marreco fazendo os mais patéticos apelos. Jurou comprar uma LCD gigantesca só pro velho, assinar o pacote da NET em HD, prometeu cerveja de graça durante seis meses, e nada de dobrar o bom Brasil que, é claro, cancelou o pagamento da mensalidade da NET – vivemos da vaquinha que fazemos entre os freqüentadores – e diz, pra quem quiser ouvir:

– Nunca mais ponho os pés naquele terreiro. Nunca mais!

Tijuca, meus caros, em estado bruto!

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FELIPINHO É BOTAFOGO

Eu não sei como é que meu irmão Luiz Antonio Simas (e o Marechal, e o Carlinhos, e o Molica, e o Rodrigo Pian, e o Zé Sergio Rocha, esses botafoguenses fundamentais) vai encarar o troço. Sei que eu, rubro-negro em estado de alerta nesta semana decisiva, choquei-me profundamente com a visão da coisa.

Antes, um breve esclarecimento.

Felipe Quintans, nosso Felipinho Cereal, que se declara torcedor fanático do America (vejam aqui uma pequena demonstração de seu fanatismo), sempre que vê chegar sua irmã caçula, onde quer que seja, tem arrepios horripilantes. Eu mesmo já testemunhei a cena diversas vezes. Corre a tarde, corre a cerveja, corre o assunto futebol e eis que a caçula dos Quintans, sempre que está presente, diz, com sorriso aberto e olhar ferino:

– Vocês são bestas de acreditarem no Felipe. Até 2005, 2006, por aí, ele era Vasco da Gama, e roxo!

O Felipe, que tem metade do tamanho da irmã, nunca negou. Mergulha os olhos e o nariz dentro do copo e faz, no máximo, um discreto não com o indicador.

Eu, confesso, nunca levei muita fé na pequena (maior, entretanto, que o Felipinho).

Só que ontem, voltando do trabalho, depois de saltar do 239 na Doutor Satamini, passei no Bar do Marreco para comprar cigarro e para beber uma cerveja, que às oito da noite, na Tijuca, a temperatura estava nas alturas.

E deparei-me, vejam vocês, com a cena abaixo.

Com a camisa de uma torcida do America no corpo e com um copo com o escudo do Botafogo na mão, Felipinho, aos gritos, dizia à assistência confiar na vitória do time de General Severiano, no domingo, contra o Palmeiras.

Estaquei diante do pequeno grande homem.

Antes que eu dissesse qualquer coisa (minha expressão era de assombro), antes que ele mesmo tentasse uma explicação, o Danilo gritou, de trás do balcão:

– É, Edu! É isso mesmo! O Felipe chegou ainda agora com esse copo e disse que a partir de hoje só beberia nele, só nele e só ele.

Seu Brasil – autoridade máxima da área – confirmou, fiz a foto sem que o Felipinho visse e eu já não entendo mais nada sobre a cabeça e o coração futebolístico do malandro.

Até.

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