Arquivo da tag: Rua do Matoso

RUA DO MATOSO – A SÉRIE – PARTE X

Quando saímos da CASA ELIZABETH (de 1958, o mais antigo comércio da rua do Matoso, não é demais repetir) sabíamos que faltava apenas um objetivo, já traçado. Seguimos, por conta disso, pela calçada da direita mesmo, atravessamos a Haddock Lobo e chegamos ao último quarteirão da rua.

Atravessamos a Matoso e andamos um bocadinho de nada até o número 219.

Chegamos, então, ao ARMAZÉM MATOSO.

Na porta, sentado, recebeu-nos o seu Manoel. No balcão, dona Alzira desejou-nos bom dia.

Vocês vejam se o seu Manoel não é bom de papo! Percebam a expressão de papai ouvindo as histórias contadas por ele!

Isaac Goldenberg, ARMAZÉM MATOSO, rua do Matoso, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg
Seu Manoel, ARMAZÉM MATOSO, rua do Matoso, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg

 

Seu Manoel e dona Alzira estão há 32 anos no mesmo endereço – eles moram no sobrado em cima do armazém, que foi inaugurado em outubro de 1976. Ambos são portugueses, de Trás-os-Montes.

Seu Manoel chegou ao Brasil em 1947 e, três anos depois, em 50, foi a vez da dona Alzira. Estão casados há 53 e dona Alzira disse com orgulho:

– Só tivemos três endereços no Brasil. Moramos na Barão de Mesquita, mudamos para o Catumbi e depois viemos pra cá, pra melhor rua da cidade!

ARMAZÉM MATOSO, rua do Matoso, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg
Dona Alzira, ARMAZÉM MATOSO, na rua do Matoso, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg
detalhe do piso do ARMAZÉM MATOSO, na rua do Matoso, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg

 

Bebemos cerveja em lata, a R$ 2,00 cada uma. Dona Alzira contou-nos que na véspera um grupo grande esteve lá, fazendo um churrasco, e acabou com toda a cerveja em garrafa da casa.

Conhecemos, durante nossa visita, um grande sujeito chamado seu Vavá. Ele nos foi apresentado por um eufórico seu Manoel:

– Eis aí um grande homem! Sabe tudo sobre a Matoso!

Seu Vavá nasceu no morro do Turano, em 05 de abril de 1933. Trabalha na rua do Matoso há 53 anos, desde o dia – foi comovente vê-lo dizer isso – 20 de junho de 1955. Já está aposentado, mas não quer parar de trabalhar. Hoje, mora em Nilópolis, trabalha numa loja de móveis na Haddock Lobo, e mesmo durante os finais se semana vai à rua do Matoso para beber com os amigos que fez ao longo de mais de meio século.

Perguntou-me, o seu Vavá, com um copo de cachaça na mão:

– Onde você mora, menino?

Eu disse.

– Eu vi construir o seu prédio!

– Viu?

– Vi! E pensei que fosse cair! – morrendo de rir.

Disse, mais, que viu muita coisa acontecer na região…

Até.

11 Comentários

Arquivado em Tijuca

O EMAIL DA OLGA

É como eu disse, há pouco, pro Felipinho Cereal, por telefone: o BUTECO recebeu, hoje, um email muito, mas muito bacana mesmo!!! A Olga, leitora fidelíssima e a quem eu não conheço (troço que dá ainda contornos mais bacanas a tudo), mandou-me a mensagem que reproduzo abaixo, devidamente autorizado a fazê-lo:

“Edu: você nem pode calcular como estou emocionada. Vim pro trabalho chorando pela rua. Essa série, esses encontros, hoje, pela manhã, mexeram com muitas coisas em mim.

Cumpri com muito prazer a tarefa de entregar a série impressa pro Zé, da Quitanda Abronhense e pro Tuninho, da Tinturaria Mascote.

Edu, precisava ver a carinha do Zé identificando a quitanda e a foto dele ao telefone. Expliquei a ele sobre a série e ele falou, com um entusiasmo incomum, diga-se, que você era seu freguês! Pra minha surpresa, ele pediu o endereço pra entrar no blog. Achei tão inusitado! E adorei! Recomendei que ele não deixasse de ler os comentários, tão bons quanto os textos.

Agora, Edu, na tinturaria foi emoção pura! O seu Antônio não estava. Entreguei pros irmãos Rosa e Tuninho, duas adoráveis criaturas. Em poucos minutos mergulhamos no passado, lembrando de histórias de quando éramos mais jovens e ficamos bestas por nos conhecermos há tanto tempo. A vida doida da gente faz com que esqueçamos desses detalhes tão importantes, e banalizamos, às vezes, o que é essencial. Foi boa pacas a conversa. Serei sempre grata a você por isso, Edu.

Eu e o Tuninho lembramos de quando o Zico morou na rua. Foi assim que ele se casou. Morou no nº 175, cobertura, você pode imaginar o que foi isso? Sempre educado e simples. Descia pra comprar jornal e cumprimentava todos os porteiros. Depois ficou difícil, as pessoas o interpelavam demais e ele teve que dar um tempo nas andanças matinais. Ficou pouco tempo, foi só uma passagem, mas inesquecível pros moradores.

Eu e a Rosa lembramos que a família do apresentador Silvio Santos (pais, irmã e sobrinhos) morava no nº 181, edifício Alcazar (o mais chique na época, com apartamentos enormes…). Nos anos 1970, a filha dele, Cíntia, uma criança como nós, veio passar uns dias com os avós. Brincava com a gente na rua. Lembramos que fechávamos a rua (você pode imaginar o que seria hoje fechar a Matoso?) pra brincar de queimado. Nossa! Quantas lembranças boas!

Edu, você lembra do casarão dos Peixoto de Castro? Onde ficam agora aqueles vários prédios? O casarão era um pequeno oásis em plena Matoso com a Santa Amélia. Tinha vários pássaros, cachorros e carros maravilhosos estacionados. Ficávamos espiando aqueles tão nobres moradores. Senti demais sua demolição…

Acho que me alonguei.

Beijos,

Olga

PS: Esqueci de dizer que no Madri ainda moram alguns familiares do Tim Maia (cunhada e filhas do irmão do Tim). Pessoas doces e muito queridas, mesmo.

O Felipinho Cereal, um sábio, me disse antes de sugerir uma cerveja, rápida, hoje, no comecinho da noite:

– Só esse email, e já valeria termos feito a série, né, Edu?

Seguramente, seguramente.

Até.

6 Comentários

Arquivado em confissões, gente, Tijuca

RUA DO MATOSO – A SÉRIE – V

O segundo passeio aconteceu também em um sábado, véspera do feriado de 7 de setembro. Às 8h da manhã, eu, Felipinho Cereal, Isaac Goldenberg (meu pai) e Luiz Antonio Simas encontramo-nos na PADARIA MILU, na esquina da Matoso com a Haddock Lobo, e decidimos que começaríamos a marcha do ponto em que havíamos parado, ou seja, do TRÁS-OS-MONTES.

Fomos recebidos pelo seu Amadeu, que nos sugeriu como tira-gosto a batata calabresa da casa. Eis o diálogo e vejam se isso é possível por aí:

– Quanto é a porção, seu Amadeu?

– Vocês é que decidem. Querem um real em batatinha?

– Pode ser!

E veio ao balcão, acompanhando a geladíssima Brahma (a R$2,30 a garrafa), esse pratinho lotado de batata calabresa com bastante cebola.

TRÁS-OS-MONTES, rua do Matoso, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg

Bebemos duas garrafas, afinal era cedíssimo (esta foto aí de cima foi tirada às 8h36min!), pagamos a conta de R$ 5,60 e partimos.

Demos um pulo, rápido, na FARMÁCIA HOMEOPÁTICA SIMÕES apenas para mostrá-la ao Simas, que já a conhecia mas que topou revê-la.

Tornamos à Matoso e demos de cara com esse quadro de subúrbio. Eram 8h58min da manhã e o vendedor de pipas com os escudos do Flamengo e do Vasco, apenas, posou pra fotografia, chamado por nós.

vendedor de pipa na rua do Matoso, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg

Bacana, mesmo, foi perceber, ao longo da manhã, a quantidade de criança que passou pela gente segurando uma dessas pipas!

Seguimos na direção da mão da rua, passamos pela Alameda Santo Antônio, uma vila que fica do lado esquerdo da rua, colada à FARMÁCIA VITA, e fizemos uma fotografia. Eis aí uma das vantagens – eu falo sempre sobre isso… – de caminhar a pé. De carro ou de ônibus é impossível atentar para esses recantos escondidos pelas ruas da cidade…

Alameda Santo Antônio, rua do Matoso, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg

Um pouco mais à frente, do lado direito da rua, um belíssimo casarão na esquina do Beco do Mota, outro recanto magnífico da rua do Matoso, uma rua sem saída, com um buteco na outra esquina (que não merece maiores destaques) e o calçadão da Matoso exatamente em frente.

Falaremos amanhã sobre o calçadão da rua do Matoso, seus bares e seu mais legal personagem.

casarão na rua do Matoso 110, esquina com o Beco do Mota, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg
Beco do Mota, na rua do Matoso, na Tijuca, foto de Eduardo Goldenberg

Vocês vão conhecer uma loja chamada PRODUTOS NATURAIS que é, na verdade, um buteco vagabundo, o XODÓ DA VOVÓ, o melhor buteco do calçadão da Matoso (o Chico, do BAR DO CHICO, tem participação no negócio!), a casa CARDAL , uma loja especializada em enceradeiras (!!!!!) e o ESCONDIDINHO DA MATOSO.

Até.

3 Comentários

Arquivado em Rio de Janeiro, Tijuca

RUA DO MATOSO – A SÉRIE – PARTE I

Vamos dar início, hoje, à publicação da série RUA DO MATOSO, escrita – vamos dizer assim – a oito mãos. Preparamos a série – que deverá ser publicada em 10 partes, segundo nossas previsões – eu, Felipinho Cereal, Isaac Goldenberg (meu velho e amado pai) e Luiz Antonio Simas. Foram três passeios, realizados nos dias 30 de agosto, 06 e 30 de setembro de 2008. Eu, Felipinho Cereal e meu pai fomos aos três; o Simas foi apenas ao segundo, mas “apenas” é uma palavra que não cabe no perfil do malandro – sei que me faço entender. Com vocês, então, RUA DO MATOSO – A SÉRIE – PARTE I. Divirtam-se.

Antes, porém, um intróito.

A rua do Matoso não é a rua Dias Ferreira, no Leblon. E digo isso, apenas, porque fui alertado, dia desses, por um amigo (não digo seu nome nem a fórceps):

– Edu… As pessoas acreditam demais em você. Com a publicação dessa série, serão organizados passeios à rua do Matoso que, convenhamos, é feia pacas. É preciso ter o espírito pronto pra encarar…

E é isso mesmo.

A rua do Matoso não tem os atrativos (que não me atraem) da rua Dias Ferreira, incensada pela imprensa como a mais charmosa rua da cidade (e não é). A rua do Matoso é a Tijuca e o Brasil em estado bruto. Há, na rua do Matoso, um desprezar absoluto pelo marketing e pela mera aparência. Ali você vai encontrar um relojoeiro parado no tempo, uma farmácia secular, butecos pé-sujo, alguns imundos de verdade, intragáveis, sapatarias que resistem sabe-se lá de quê jeito, óticas aparentemente abandonadas, uma loja só de enceradeiras, casas de ferragens que têm rigorosamente de tudo, vilas impressionantemente bonitas e sossegadas, uma oficina mecânica a céu aberto, um calçadão cultuado por seus freqüentadores, uma parreira que dá uva!, um exército de gente simples.

Estejam à vontade.

Espero que vocês gostem do passeio!

A rua do Matoso nasce na praça da Bandeira.

esquina da praça da Bandeira com a rua do Matoso, 30 de agosto de 2008, 9h11min, foto de Eduardo Goldenberg

Começamos o primeiro passeio às 8h30min do dia 30 de agosto de 2008, partindo da PADARIA MILU, na esquina da Haddock Lobo com a rua do Matoso. De lá, depois do café preto com pão manteiga, rumamos para a nascente da rua.

Nossa primeira parada foi num relojoeiro, que tem como endereço oficial a praça da Bandeira mas que fica, na verdade, na altura do que seria o número 1 da rua do Matoso. O dono, estranhando três homens com câmeras fotográficas e blocos a tiracolo àquela hora da manhã, foi reticente. Não nos disse nada, com visível medo de uma fiscalização, algo assim. Mas gostamos do que vimos e ouvimos. Uma quantidade enorme de relógio antigos, antiqüíssimos, pendurados pelas paredes e pelo chão, e Nelson Gonçalves no volume máximo cantando VERMELHO VINTE E SETE, de Herivelto Martins e David Nasser. Despedimo-nos do homem que mal nos cumprimentou cantando:

“Vermelho vinte e sete!

Quando a sorte caprichosa o abandonou…

Vermelho vinte e sete!

Cada amigo num estranho se tornou”

Tropeçamos no BAR DO MATOSINHO – mais conhecido como BAR MATOSINHO – e pedimos a primeira Brahma do dia.

BAR DO MATOSINHO, praça da Bandeira 53-A, Tijuca, foto de Felipe Quintans
BAR DO MATOSINHO, praça da Bandeira 53-A, Tijuca, 9h18min, foto de Eduardo Goldenberg

A Brahma estava estupidamente gelada (R$ 2,50 a garrafa) e os copos foram servidos sobre uma tábua de madeira, sobre a estufa, para não esquentarem. “Tecnologia Matoso”, disse o gerente, Alexandre, que nos atendeu de forma fabulosa.

O BAR MATOSINHO também tem como endereço a praça da Bandeira (número 53-A). Pedimos, para acompanhar a cerveja, uma porção de jiló que havia acabado de sair da cozinha. Vendido a R$ 0,50 cada, o jiló estava delicioso e foi companhia perfeita para a cerveja.

Quando o Alexandre (que é bastante novo) nos disse que o buteco era da década de 70, um senhor, que bebia sossegado no canto do balcão, disse:

– É mais velho, é mais velho…

Também achamos que fosse, mesmo. Os azulejos são antiqüíssimos e tudo indica que seja mais antigo. Jamais conseguimos falar com um dos donos, por telefone. O telefone de lá, por sinal, carioquíssima saída, é o orelhão: 2520-0496. O BAR MATOSINHO abre às 6h e fecha após a saída do último cliente, que jamais é expulso ou mesmo convidado a se retirar, segundo o Alexandre.

Bebemos três garrafas de Brahma, uma mais gelada que a outra, pedimos seis jilós, pagamos R$ 10,50 pela conta e partimos para o BAR E LANCHONETE REX, meu galeto preferido!

BAR E LANCHONETE REX, rua do Matoso 7, Tijuca, foto de Felipe Quintans
a vitrine do BAR E LANCHONETE REX, rua do Matoso 7, na Tijuca, foto de Felipe Quintans

No REX, como é chamado por seus freqüentadores, o frango é preparado no carvão e no interior de uma vitrine enorme que dá vista pra rua.

Como chegamos lá pouco antes das 10h, flagramos uma quantidade absurda de frangos assando, garçons e entregadores almoçando, e um único freguês bebendo sozinho no balcão, cercado por coquinhos que guardam uma bebida cuja receita é guardada a sete chaves pelos donos de todos os butecos que servem o elixir na rua do Matoso! É um dos segredos da rua do Matoso, creiam em mim!

O telefone do REX, que fica ao lado do HOTEL SAIONARA, é 2273-0749.

Serve cerveja estupidamente gelada, também, e nesse dia, nesse sábado, uma belíssima rabada tornava a estufa ainda mais opulenta. Bebemos algumas garrafas ali, de papo, e a rabada particamente foi embora, tamanha a quantidade de pessoas que parou ali para levar o prato pra casa.

HOTEL SAIONARA, rua do Matoso, na Tijuca, foto de Felipe Quintans

Amanhã, o segundo capítulo da série, cabendo lembrar que não chegamos nem à metade do primeiro quarteirão da rua!!!

Até.

PS: o leitor Zé Sergio, meu dileto amigo, sugeriu uma ida ao BAR MATOSINHO, encantado que ele ficou com a tecnologia usada no local para manter a temperatura da cerveja mesmo sobre a estufa quente. Razão pela qual vou revelar um dos segredos da rua do Matoso: se você quiser um passeio guiado pela rua, escreva para o Sr. Euzébio Matoso, através do email ruadomatoso@gmail.com Você estará acompanhado do homem que sabe tudo sobre o pedaço, isso se ele topar levar você para o fabuloso e inesquecível passeio.

24 Comentários

Arquivado em Rio de Janeiro

EXTRA! EXTRA! EXTRA!

O projeto mora em mim há anos. Mas foi jogando conversa fora no balcão do Buteco hoje pela manhã, com meu queridíssimo Felipinho Cereal (vejam aqui), que o troço ganhou corpo. E vai virar realidade. No sábado, às oito e meia da manhã, encontro-me com o bardo da Barão de Sertório na Padaria Milu para dali seguirmos em direção à Praça da Bandeira. De lá, finalmente!, finalmente!, finalmente!, daremos início ao percurso, lento e sem pressa, de toda a extensão da rua do Matoso. Assim que chegarmos à rua Barão de Itapagipe, outro extremo da gloriosa rua, começo a publicar, aqui no Buteco, a série dedicada a essa grande rua tijucana. Antes, porém, vou lançando, por aqui, o making-off de nossa aventura. Rua do Matoso – a série, promete!

Até.

Deixe um comentário

Arquivado em gente, Rio de Janeiro, Tijuca