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OS PSICOTRÓPICOS

Já lhes contei, em mais de uma oportunidade, sobre os métodos dos quais meu pai se valeu durante minha infância e adolescência para manter-me afastado da maconha e de outras drogas ilícitas (aqui, em A Marcha da Maconha e aqui, em A pedagogia do meu pai). Teve, é preciso que seja feito o registro, êxito integral em sua empreitada. Nunca, nunca!, pus a boca naquela guimba nojenta, mesmo sofrendo, principalmente durante a adolescência, preconceitos brutais por parte da turma – a turma toda fazia fumaça. Pus, é verdade – sou preciso do início ao fim -, sim… algumas poucas vezes, já depois de velho, e tive sempre a pior das relações com o psicotrópico. Bastava um trago – que eles chamam de tapa ou pauzinho, vão vendo o nojo que é isso! – e eu dormia coisa de doze, quatorze, dezesseis horas. De certa forma eu invejava aquelas pessoas que, sob o efeito da aliamba, viam discos voadores, conversavam com objetos os mais variados, gargalhavam por qualquer razão ou assumiam personalidades absolutamente díspares das que apresentavam de cara limpa. Eu, quando experimentei o umbaru pela primeira vez, tive um surto psicótico tão intenso – seguido de profundo sono – que a cara que me estendeu o psicotrópico jurou, dezoito horas depois, que nunca mais sequer fumaria diante de mim.

Mas não é disso que quero lhes falar. Quero lhes falar do PSOL.

O PSOL tem, entre suas bandeiras, a organização da tal Marcha da Maconha. E dia desses, bebendo meu café diante do balcão do Café Gaúcho, avistei três jovens (que mais pareciam, pela aparência, mendigos arados há muitos dias) panfletando (e como conjuga, o PSOL, o verbo panfletar) em prol da tal marcha. Sabe-se lá por qual razão, vieram os três andrajos em minha direção. Estenderam-me um panfleto:

– Obrigado. – e virei de costas.

Uma mocinha (eram dois rapazes e uma moça) pôs as duas mãos sobre o balcão, ao meu lado, e eu tive um misto de piedade e nojo. Suas unhas pareciam garras, e era visível a lama, a crosta, a sujeira por baixo do que um dia foi unha. Disse-me:

– Tu não pode nem ler essa parada? É pra conscientizar a burguesia a respeito da liberação da maconha…

Pedi outro café e pus a mão no nariz em sinal de asco.

Disse um dos militantes:

– Deixa ele, gata. Tu não vê que é um caretão?

Cresci. Diante daquele elogio – sou um careta, sou uma múmia, sou o anti-militante-do-PSOL – sorri (sem, entretanto, destampar o nariz). Sorri e tomei o rumo do meu escritório, a poucos metros do Café Gaúcho.

Saíram, os três, e saíram gritando “Eu sou maconheiro com muito orgulho, com muito amor” (e se você acha que isso é impossível, que nenhum idiota diria isso em público, veja isso aqui).

O que sabem, esses meninos e meninas do PSOL, sobre o amor para declarar amor à condição miserável de maconheiro? Porque não são, esses militantes do PSOL, usuários da maconha (conheço vários, conheço muitos, e nenhum deles, do meu círculo, vale-se dessa denominação degradante e reles). Deu-me, aquela cena (plasticamente suja, sonoramente repugnante), novamente, um misto e piedade e nojo. Não, não. Não me deu nojo. Deu-me apenas pena. Uma pena infinita. Santa, eu diria. Quem são os pais – era o que eu me perguntava, lembrando da pedagogia de meu pai – daqueles meninos e meninas?

Até.

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NO DIVÃ

Quem me lê sabe: há anos – anos! – eu esculhambo, com fulcro na visão rodrigueana que me acompanha, a figura do psicanalista, do psicólogo, do psiquiatra (pus as nobilíssimas profissões em ordem alfabética para não ferir suscetibilidades). Vejam vocês – e é só um exemplo – o que disse, sobre estes profissionais, o inigualável Nelson Rodrigues, em A vida como ela é… O homem fiel e outros contos:

“A mãe de Bebeto e as tias benziam-se só de ouvir falar em psiquiatria. D. Detinha interpelou o marido: “Você quer que o Bebeto vá tratar de malucos?”. Acrescentava, para os lados: “Deus me livre!”. No fundo o que a assustava era a possibilidade de que um dos futuros clientes do filho o esganasse, num acesso homicida. Dr. Sinval teve que esclarecer:

— O Bebeto pode fazer psicanálise.

Explicou que a psicanálise não oferecia o menor perigo, nem para o médico, nem para o doente. Aventurou uma blague segundo a qual o mais perigoso dos dois era, ainda, o psicanalista. Impressionada, d. Detinha pediu outras explicações. Então, o dr. Sinval, mascando o charuto, afirmou:

— Sabe o que é a psicanálise, para encurtar conversa? Um bate-papo.

— Como assim?

E ele, convicto: “O médico senta e o cliente deita. Os dois se põem a conversar e pronto. Isso é a psicanálise”. Houve, em torno, uma impressão profunda, que tocou o próprio Bebeto. D. Detinha engoliu em seco: “Só?”. Confirmou: “Só”. E foi acrescentando:

— Ainda por cima, o seguinte: o analisado não é doente nem aqui, nem na Cochinchina. Na maioria das vezes, tem uma saúde de ferro e vai lá porque não tem o que fazer e pode pagar duas mil pratas por sessão.”

Vai daí que eu, premido por várias questões (não vêm ao caso, quais), fui parar no colo (ou melhor, no divã) de uma psicanalista. Escrevi no divã e já me corrijo: eu jamais deitei-me, ou mesmo sentei-me, no tal divã (tenho, do divã, uma paúra pânica). Passo as sessões sentado na cadeira de palha diante da médica (é uma médica) com os pés – apenas os pés – apoiados no divã. Isso  – essa minha obsessão pela mesma posição na mesma cadeira e com os pés, sempre, sessão após sessão, sobre o divã – já deve ser um prato cheio para a doutora (é o que imagino).

Vivo – é o que quero lhes contar -, por conta disso, desde a primeira sessão, uma sensação de fracasso absoluto. Eu, 42 anos e alguns meses de vida, desde o berço, desde antes de aprender a ler (e antes, portanto, de ler Nelson Rodrigues, e eu só leio Nelson Rodrigues), já tinha uma aversão agudíssima aos psicanalistas, aos psicólogos, aos psiquiatras. E de repente, não mais que de repente, lá estava eu diante da psicanalista rasgando minha pequena biografia íntima, pisoteando minhas convicções, estuprando, como uma fera possessa, as frases que repeti a vida inteira com denodado orgulho.

E desde ontem – desde anteontem, a bem da verdade – uma coisa me perturba a ponto de me tirar o sono (não preguei o olho a noite passada). Tenho, ainda, e cada vez mais viva, a mesma aversão que eu tinha (esse verbo no pretérito imperfeito é como um punhal no meu peito) aos médicos da alma ao cinema iraniano e ao partido do sol e da liberdade. Pois passei a me perguntar enquanto fumava pela sala escura de minha casa:

– Estarei, um dia, no Buraco do Lume, festejando o bigode ou o não-bigode do Milton Temer?

– Flagrar-me-ei, numa manhã de domingo, dançando ciranda de mãos dadas com o Chico Alencar em Copacabana?

– Será que um dia serei um fanático pelo cinema persa?

E essa possibilidade de novas violações às minhas convicções foi capaz (foi ela!) de me fazer atravessar a noite em vigília.

Bastou, entretanto, nascer o sol para tudo se esvair.

Donde se conclui que a noite é minha senhora, uma espécie de feitor impiedoso a me trazer lembranças assustadoras e possibilidades trágicas. Ontem, por exemplo (e é por isso que lhes escrevo hoje sobre este tema), lembrei-me da Núbia, colega de faculdade, e a imagem da Núbia parecia gargalhar de mim, submetido, hoje, ao tratamento psicanalítico. Vou lhes contar sobre a Núbia.

A Núbia estudava na PUC, era minha contemporânea. Eu fazia Direito, a Núbia psicologia. Estamos em 1989, ano da primeira eleição presidencial depois dos anos de chumbo. Eu era Brizola, a Núbia era Roberto Freire (na ausência do PSOL, o PCB quebrava o galho dessa gente). E a Núbia achava que pra tudo, tudo, tudo!, a terapia era a solução. Vejamos.

Lembro-me de uma sexta-feira. Na vila dos diretórios, onde fumava-se maconha com a mesma liberdade que sonha o Renato Cinco. Todos (penso que até o Reitor) davam seus tapas, todos. Menos eu. E a Núbia chegou-se a mim, determinado dia. Tinha, entre o polegar e o indicador, aquela guimba nojenta, babada, entre o verde e o marrom. Diante de mim, aspirou, tampou o nariz (era lindo, o nariz da Núbia) e estendeu-me o psicotrópico. Recusei. Ela:

– Há tempos percebo que você nunca fuma…

Sempre tive, de fato, horror à maconha. Respondi:

– É. Não gosto.

 E ela, cravando os olhos vermelhos nos meus:

– Já tentou terapia?

E essa sugestão – já tentou terapia? – era um bordão na boca carnuda da Núbia (era linda, e carnuda, a boca da Núbia). Servia pra tudo. Você se irritava diante da fila do elevador e ela fazia a sugestão. Você reclamava da qualidade sofrível da comida do bandejão, ela fazia a sugestão. Eu, que sempre fui um feio, tentei beijá-la não me lembro quando. Ela empurrou-me com nojo e disse:

– Você já tentou terapia?

E esse acúmulo de sugestões foi solidificando em mim esse horror que eu tinha – tinha – à idéia da terapia.

Quero voltar a falar do bigode do Milton Temer, vocês vão entender porquê.

Como lhes contei, em 1989, a Núbia fez campanha para o candidato do PCB, Roberto Freire (hoje, um pobre-diabo que não vale um tostão). Mas a Núbia tinha – disso me lembro com nitidez impressionante – fixação por um deputado estadual do PT: justamente o Milton Temer. E a Núbia, também é vivo na minha memória esse episódio, tinha verdadeiro fascínio pelo bigode do aguerrido deputado, então do PT (agora no PSOL).

Havia outra moça (não lembro seu nome nem a fórceps) que apoiava o Lula e que não era do PT, dizia ser de uma tal ala mais radical, da linha chinesa. Fanática (vejam vocês a força dos bigodes!) pelo bigode do Stalin. E me lembro das duas, durante o fumacê na vila dos diretórios, disputando pra ver quem tinha o bigode mais charmoso, se o Milton Temer ou o Stalin.

Sei que é o seguinte: vali-me de vários meios e achei, vejam vocês, o telefone da Núbia (e eu não falava com a Núbia desde 1992). Disquei e conversarmos por mais de meia-hora. Falamos da vida, das nossas carreiras (Núbia atende em casa, na Praça da Bandeira, está na miséria mas se declarou muito feliz), demos de falar sobre política (Núbia, é claro, é militante do PSOL) até que eu disse:

– E o Milton Temer?

Ouvi um suspiro que me sugeriu desolação. E ela disse:

– Tirou o bigode. Falamos depois.

É ou não, o PSOL, um partido incrível? Consegue, e só ele consegue, fazer da ausência de um bigode um assunto, um tema, uma pauta.

E no caso da Núbia, um trampolim para a depressão.

Até.

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UM BIGODE

Acabo de chegar da rua. Voltando do Tribunal de Justiça, encostei-me no balcão do Bar dos Advogados, na avenida Erasmo Braga. Ah, a avenida Erasmo Braga… Pacata rua só de pedestres, o trecho a que me refiro fica entre a Graça Aranha e a Presidente Antônio Carlos, ao lado do Edifício Garagem Menezes Cortes. Encostei-me no balcão do Bar dos Advogados e pedi, com fome, ao balconista:

– Duas torradas, sem nada, e um café, por favor… – estou em rigorosa dieta.

Estava eu dando a primeira mordida na primeira torrada quando percebi, ao meu lado, duas mocinhas. Vou descrevê-las.

A primeira vestia calça jeans rasgada (o rasgo ficava na altura do joelho, que estava sujo), blusa de crochê vermelha (estava sem sutiã), umas sandálias de couro cru com fecho (os pés, é preciso que eu diga, lindos), tinha – o quê?! – seus 21 anos, um tererê colorido pendendo dos cabelos ruivos e se coçava, a mocinha, feito um cão sarnento. A outra, um pouco mais velha (23 anos, talvez), vestia uma bermuda branca (encardida), uma mini-blusa amarela, usava um All Star também amarelo e pediram, as duas, fatias de pizza e suco de caju.

Bonitinhas, eu diria – nada mais que isso.

Lanchei – é o que quero lhes contar – aos atropelos.

Não consegui acreditar, até agora, no que eu ouvi.

A ruiva, excitadíssima, comendo de boca aberta, perguntou à amiga:

– ´cê tá sabendo do Milton?

A amiga:

– Não. O que houve?

– Radicalizou.

Quando ela disse radicalizou eu perdi a compostura e passei a prestar, de forma acintosa, atenção à conversa. Seguiram, ainda mais excitadas:

– Conta, amiga! Conta! Conta, conta, conta!

A ruiva, coçando a cabeça com a extremidade de um canudo (o mesmo usado para sorver o suco de caju):

– Voltou de férias sem o bigode!

Eu já era, a essa altura do campeonato, um curioso. Perguntava de mim para mim:

– Que Milton? Que Milton? Que Milton, e que bigode, podem ser tão importantes?

Prosseguiu, a ruiva:

– O Temer, véia, o Temer é radical.

Explodi numa gargalhada, engasguei com um pedaço da torrada, as duas me cravaram os olhos:

– O que foi, tio? – e esse tio, dito pela mocinha dos cabelos ruivos, me flechou o combalido coração.

Fiz que não era comigo.

A de bermuda encardida, fez a blague:

– De terno, cara. Só pode ser um capitalista nojento…

Terminei meu lanche sem lhes dirigir novo olhar. Ouvi a ruiva:

– Tu conhece o Temer? Milton Temer?

Virei-me:

– De outros carnavais… – e fui ao caixa.

E fui ao caixa aterrado. O PSOL, pensei, faz da ausência do bigode do Milton Temer um assunto, uma pauta! Paguei meu lanche. Disse à senhora:

– A senhora pague, por favor, duas torradas, um café, duas fatias de pizza e dois sucos de caju. – e estendi a nota de cinqüenta.

Passando pelas duas, disse:

– O lanche de vocês está pago. Boa tarde.

Vim até a portaria de meu prédio ouvindo impropérios. Até “abaixo o FMI” eu ouvi.

Sexta-feira, a próxima, vou ao Buraco do Lume para ver se encontro as moças. E pra ver – não vejo a hora! – o radical sem bigode.

Até.

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A SEPARAÇÃO

Caí na asneira, ontem à tarde, de ir ao cinema ver A Separação, produção iraniana, filme indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Foi sair do cinema e ser aterrado por uma certeza inatacável: eu não entendo nada de cinema. Antes, uma explicação.

Eu não chego a ter ojeriza de cinema, como a que tem meu irmão Luiz Antonio Simas com relação ao teatro (leiam seu Bodas de Prata, aqui). Mas o cinema sempre me pareceu o habitat ideal para dormir. Ar-condicionado quase sempre gelado, poltronas (cada vez mais) confortáveis, o escurinho propício. Vai daí que ontem, sabe-se lá o porquê, disse de mim para mim, logo pela manhã:

– Vou ao cinema iraniano.

E só de dizer “vou ao cinema iraniano” senti-me uma espécie de cinéfilo. Ligou-me um amigo, logo cedo:

– E aí, Edu? Cerveja, agora de tarde?

Eu, em posição de sentido:

– Não, não, hoje não. Vou ao cinema iraniano.

E ele, do lado de lá, fez um “oh!”, um “ah!”, não escondeu sua admiração.

Tomei banho, vesti-me, e ao passar pelo porteiro:

– Vai ver o jogo do Botafogo?

Estaquei diante da cabine e disse:

– Não, Gildo. Vou ao cinema iraniano.

Ele arregalou olhos e disse:

– Parabéns.

Cheguei ao cinema, em Botafogo (na Tijuca, e eu já estranhei o fato, nenhum dos cinemas está passando a tal fita). Na fila, uma horda de elegantes. É preciso dizer que eu estava de All Star vermelho, bermuda quadriculada e uma camisa de malha. Fui alvo dos olhares. Não por conta de minha gordura (que vai se esvaindo aos poucos, estou em rigorosa dieta), mas por conta de meus trajes. Ouvi uma velha maquiadíssima cochichar pro marido:

– Isso lá é roupa para vir ao cinema?

E ele, concordando:

– Iraniano! E cinema iraniano!

Fingi que não ouvi, comprei meu ingresso e fiquei fumando do lado de fora. Pausa para lhes contar sobre a compra do ingresso.

Era muito melhor, mais romântico, mais emocionante, comprar o ingresso, entrar na fila, disputar a tapa e a cotoveladas o melhor lugar. Agora, não. A higienização chegou, também, aos cinemas. Compra-se, hoje em dia, lugar marcado. Daí o que se vê são doentes sociais que se sentem poderosos diante do mapa da sala de projeção. Porque é assim: você dá o mínimo poder de decisão ao ser humano e ele passa a ser um insuportável. Vamos ao exemplo. À minha frente, na fila, quatro pessoas juntas: marido, mulher, filho e nora. A bilheteira virou o monitor em direção a eles e disse:

– Quais as poltronas, senhor? – em direção ao mais velho.

Deu-se a bulha. Fui obrigado a assistir quase que a uma reunião de família. A velha dizia:

– Da D4 a D7. Tá bom, bem?

O velho:

– Só sento em fila de vogal.

A bilheteira:

– A, E, I, O e U estão lotadas, senhor.

Ele, neurótico:

– Vamos na próxima sessão!

A nora (era a nora) chiou:

– Ah, não! Vamos na H, então, que agá começa com uma vogal.

E isso levou uns 10 minutos, até que compraram sei-lá-que-lugares.

O pior, entretanto, deu-se durante o filme (que é horrível, modorrento, sonífero etc.). Ao meu lado, um militante do PSOL. Vocês perguntarão como eu sei que ele era militante do PSOL. Vou explicar com os detalhes que minha precisão sempre permite.

Sentei-me primeiro. Pouco depois, chegou-se o jovem (era jovem, não mais do que 22 anos). Comecei a me coçar logo em seguida. Virei de soslaio. O jovem tinha cabelos encaracolados, louros, em tubos, em cachos, como um rastafári. E da ponta dos cachos saíam lêndeas imensas, visíveis a olho nu. Soprei. Apoiei-me no braço oposto da poltrona. Pôs, o jovem, os pés descalços na poltrona da frente (deixou as alpercatas no chão). Fui acintoso e encarei-o de frente. Na blusa de malha branca, o bóton do PSOL. E era, o militante do PSOL, um cinéfilo. Puxou conversa ainda durante os reclames:

– Tu curte cinema iraniano?

Não respondi.

Começou o filme (uma cena inaceitável, marido e mulher olhando pra câmera, que faz o papel de um Juiz de Direito, discutindo sobre a separação requerida por ela). Antes do primeiro minuto, disse o jovem militante:

– Que força dramática!

Um pouco mais à frente – eu já quase dormindo – e ele me cutucou:

– Que olhar, o desse diretor!

Mandei-o à merda e ele devolveu:

– Capitalista insensível!

E assim foi durante todo o filme.

Quando terminou, de maneira absolutamente patética, o jovem estava em frangalhos. Assoava o nariz na ponta da camisa e dizia, sozinho:

– Ah, o cinema iraniano! Ah, o cinema iraniano!

Levantei-me e ele disse:

– Só um segundo, não saio da sala de projeção antes de ler os letreiros finais… – todos no idioma persa, diga-se.

Enxotei-o, joguei longe suas sandálias imundas e voltei arrependidíssimo pra casa.

Até.

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OBRIGADO, ELIOMAR COELHO!

Obrigado, Eliomar Coelho! Hoje, 27 de abril de 2010, dia em que comemoro mais um ano de vida (o quadragésimo primeiro), comemora-se, pela terceira vez, no município do Rio de Janeiro, o Dia Municipal do Teatro de Bonecos, obra fundamental (vejam aqui) para minha mui amada e leal cidade de São Sebastião! Obrigado, vereador.

teatro de bonecos

Duvido (com a ênfase szegeriana) que o vereador mova uma palha para comemorar a data.

Só dói quando eu rio.

Até.

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SANTA TERESA EM MEIO AO CAOS

Santa Teresa é um bairro curioso ou, melhor, desperta um olhar curioso por parte da nossa (péssima) imprensa. Eu mesmo, confesso, já bati aqui no Buteco, diversas vezes, em “Santa”, que é como os descolados (os que votarão na Marina Silva) chamam o simpaticíssimo bairro carioca – e sempre em busca do humor. Estudantes com lêndeas, sandálias de couro cru, usuários da erva, simpatizantes do PSOL e do PV sempre foram (e são) personagens de minhas crônicas que se passam lá. Para a mídia que cobre o entretenimento sempre foi o bairro dos restaurantes pitorescos, o bairro preferido dos estrangeiros, por aí. Hoje, porém, quero falar da Santa Teresa que vergonhosamente não tem aparecido nos jornais e que parece (ou que efetivamente está) abandonada pelo poder público (alô, Rodrigo Pian, conto com você!). Como o blog é meu e como aqui prevalece minha vontade, vamos ao que quero lhes dizer.

Meu irmão, Fefê, mora, com sua mulher, em Santa Teresa. Não na Santa Teresa que tanto interessa aos olhos da massa (Largo das Neves, Largo dos Guimarães, Curvelo etc), mas bem lá pra cima, próximo à estrada das Paineiras, ao Hospital Silvestre, no cume da Almirante Alexandrino, depois da entrada para o Morro dos Prazeres (que mereceu atenção mínima da imprensa diante da maiúscula tragédia que se abateu sobre Niterói), depois do CEAT, depois do Corpo de Bombeiros, muito perto do Morro dos Guararapes, cujo acesso se dá, também, pela Ladeira do Ascurra, no Cosme Velho.

Fefê e Lina estão, eles que moram, com a graça dos deuses, em uma confortabilíssima casa, ao contrário de tantos que vivem ali, ao lado deles, desde a terça-feira da semana passada, morando com meus pais, no Alto da Boa Vista. Sem água. Sem luz. Sem telefone. E o que é mais grave: sem qualquer espécie de assistência por parte dos que têm obrigação de atendê-los.

Estiveram em casa ontem, domingo, a fim de pegarem algumas roupas. Fotografaram a área, coisa que já haviam feito na manhã da terça-feira, quando viram, desolados, vizinhos soterrados, mortos, feridos, desabrigados, tudo diante de um vergonhoso silêncio por parte dos jornais, das TVs e das rádios cariocas. A Almirante Alexandrino está coberta de lama e com o asfalto cedendo em diversos trechos. A estrada das Paineiras, idem. O caminho para o Corcovado, destruído. O Morro dos Guararapes em petição de miséria. E nada disso chega aos olhos dos que não vivem lá.

O Buteco expõe, hoje, cinco das dezenas de fotos que recebi e que retratam uma paisagem devastada, bem longe dos olhos, dos corações e das lentes daqueles que têm, por dever, a cobertura da tragédia e a assistência às vítimas.

Reitero o apelo que fiz ao Rodrigo Pian, leitor desse blog e membro da administração municipal. E repito, o mesmíssimo apelo, a todos aqueles que porventura pararem aqui. Prefeitura, Estado, LIGHT, CEDAE, empresas de telefonia – virem os olhos para o mais alto. Santa Teresa pede socorro!





Até.

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OS CANDIDATOS DO PSOL

Um grupo de estudantes de História reúne-se, no final de uma tarde de sexta-feira, numa birosca qualquer nos arredores do Largo de São Francisco de Paula, no velho centro do Rio. É formado por oito estudantes, seis homens e duas mulheres, ambas com lêndeas visíveis a olho nu, compondo o quadro asséptico do ambiente. Uma delas coça, permanente e vigorosamente, valendo-se dos dentes do pauzinho de bambu que lhe adorna o coque, a cabeça povoada de insetos. A outra, com as unhas pintadas de vermelho e branco, cata piolhos nos cabelos da amiga. Os seis rapazes, devidamente uniformizados (chinelos de couro cru, calças jeans rasgadas e camisetas de malha branca com dizeres revolucionários), ocupam a quina do balcão e pedem ao velho dono da espelunca, sem sinal de respeito, duas garrafas de cerveja e oito copos.

– Americanos? – pergunta o velho.

– Nunca! – grita uma das piolhentas.

– Somos anti-imperialistas, tio… – argumenta a outra.

Servidas as cervejas e os copos-bolinha, um dos estudantes derrama um pouco da bebida na calçada, do lado de fora do bar.

– Pra Exu, companheiro?

– Não. Para Mao!

E emenda:

– Por falar em política, vocês já têm candidato pra governador?

Cada um foi dando seu palpite, a assistência em volta entrou na conversa – isso é bar! – até que o provocador da discussão disse, logo depois do silêncio coletivo:

– Vou de Jefferson Moura.

Como se fossem todos componentes do Fischer Chöre, veio a pergunta em uníssono:

– Quem?!

Deu-se o espetáculo plástico e gestual do simpatizante do PSOL (todos os demais membros do grupo eram ligados ao PSTU). Fez que não com a cabeça demonstrando falta de paciência com a ignorância unânime. Puxou do bolso um cigarro, acendeu com um palito de fósforo, tragou fundo, soltou a fumaça em direção ao próprio pé (imundo) e disse, de olhos fechados e olhando pro alto:

– Não conhecem?

A assistência, numa só voz:

– Não.

Ele muxoxou. Fez pose de estátua e disse:

– Um senhor quadro. Que quadro, que quadro!

Um bêbado ao lado, atento e impressionado com os ares de sabedoria do garoto, correu os olhos pela parede do bar. Sorriu quando deu de cara com uma morenaça num cartaz da Antarctica. Repetiu:

– Que quadro! Que quadro!

O estudante virou-se num sem-pulo e disse, forjando respeito pelo pobre-diabo:

– O senhor conhece?

Bebericando a cachaça, fez que não:

– Quem me dera! Quem me dera!

– Vou te apresentar. Faço questão.

Uma das piolhentas sussurou no ouvido da catadora de lêndeas:

– De quem eles estão falando?

– E eu sei?

Os cinco, que a tudo observavam, morriam de rir com os narizes enterrado nos copos-bolinha.

O bêbado:

– Quando?

– Vou chamá-lo para dar uma palestra no IFCS, para que ele fale sobre sua plataforma de governo. O senhor quer ir?

O bêbado:

– Ixi! Tá na hora de parar de beber!

Pescou umas moedas do próprio bolso, pagou a cana e despediu-se do militante. Este, indignado, vociferou:

– Sociedade alienada! – e puxou o segundo cigarro.

O mais velho do grupo, dirigindo-se a ele:

– Na boa, companheiro. Quem é esse seu candidato?

– Um quadro, um quadro!

E foi tão veemente em sua defesa, tão apaixonado, tão envolvente, que os outros sete, e até mesmo alguns membros da assistência, saíram de lá impressionadíssimos.

Na volta pra casa, sentadas lado a lado no 239, uma piolhenta disse à outra:

– Sabe que eu curti a proposta dele?

– Super estética, né?

– Mega estética. Curti essa parada de votar em quadro.

– Eu também!

E foram, guinchando de rir, até o ponto final.

Até.

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