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A CASTRAÇÃO

Quero lhes contar uma coisa hoje, e seria interessante que vocês, que me lêem, já tivessem lido No Divã, publicado aqui, em primeiro de fevereiro de 2012, quando fiz, pela primeira vez, a confissão que me contradiz: estou submetido ao tratamento psicanalítico.

Só de dizer estou submetido ao tratamento psicanalítico sinto o corpo trespassado por um arrepio causado pela humilhação que eu mesmo causei a mim quando decidi sentar-me lá, diante da psicanalista. Sim, porque eu passei a vida inteira a fazer chistes com a figura do analista. E hoje – notem vocês – lá estou, a cada manhã de terça-feira, a cada manhã de quinta-feira, diante daquela pessoa que é paga (mal paga, falo disso mais adiante) para ouvir meus derramamentos.

Mas não é sobre minhas sessões que quero falar. Quero falar de uma raça (sei do uso inadequado da palavra) que me causa, essa sim, até hoje, ganas de homicídio. É importante que vocês leiam No Divã (aqui) justamente porque lá eu falo de uma cidadã que enquadra-se perfeitamente no conjunto de pessoas (a tal raça a que me referi) que me dão nojo: a Núbia.

Eu digo seu nome – Núbia – e me vem sua imagem maviosa (Núbia era uma uva!) a repetir, como uma cacatua:

– Você já tentou terapia?

Vamos ao que quero lhes dizer: há, por aí, um exército de analisados, homens e mulheres, que não têm, simplesmente não têm, outro assunto para tratar. Pode estar ruindo a Europa, pode estar morrendo o Chico Anysio, pode ser dia de Fla x Flu, pode vencer o Oscar um filme iraniano, o assunto dessa gente será, sempre, em torno da terapia. Vou lhes dar exemplos.

Sentei-me, dia desses, à mesa de um bar. A mesa foi enchendo, foi chegando gente, até que chegou uma fulana (nomes, hoje, não interessam). E a fulana me perguntou (isso foi há uns meses), assim que sentou-se, como eu estava passando. Fui sucinto:

– Levando.

E ela, sabedora de minha situação íntima, disse, incorporando a Núbia:

– Você já tentou terapia?

Para evitar estender-me no tema – eu não queria falar de mim – dei por encerrado:

– Já estou fazendo.

Pra quê, meus poucos mas fiéis leitores? Pra quê? Bastou esse simples já estou fazendo terapia para que os olhos da fulana brilhassem. Sua respiração tornou-se ávida e intensa (penso que ela chegou a babar). Cravou as unhas no meu antebraço e me disse, nariz com nariz:

– Conta! – bateu os pés no chão.

E repetiu:

– Conta, conta, conta!

Eu, com cara de poucos amigos, disse:

– Conta o quê?

E ela, revirando os olhos e falando com voz de bebê:

– Ah, conta, vai… como é com você?

Fiz cara de nojo, pedi outra cerveja e ela insistiu:

– Você gosta dele?

– É ela.

– Gosta dela?

– Gosto.

Ela bateu palminha, gargalhou e disse, com expressão de pós-doutorado:

– Então ainda não houve a transferência…

Levantei pra ir ao banheiro sem dar um pio.

Voltei e lá estava a neurótica a postos:

– E a castração? Como você lida com esse lance da castração? – falou assim, bem escorregadia.

Perdi a paciência:

– Que castração, porra?!

Ela, tentando me acalmar, fez festinha na minha mão esquerda, pousada sobre a mesa, acendeu um cigarro e disse depois de fazer círculos com a fumaça:

– Como é, pra você, pagar as sessões? Saca esse lance? Quando você paga, você se castra. É um pedaço seu que fica lá. Saca?

– Não.

– Não te dói, pagar pelas sessões?

– Não.

Ela ficou transtornada. Queria, porque queria, que eu sofresse – “É, pra mim, o pior momento!”, ela urrava espetando o dedo no meu rosto e chorando, de forma compulsiva – com o fato de pagar pelas sessões. Encerrei ali, diante daquela cena que me pareceu exagerada demais, e é sobre isso que quero lhes falar hoje.

Vejam bem. Eu, que já me humilho de vergonha de mim mesmo quando saio caminhando de casa em direção ao consultório (eu ia dizer casa – fica numa casa – mas acho que consultório é mais apropriado), sinto-me ainda mais humilhado e vergastado pela vergonha quando abro a carteira, ao final da sessão, e estendo as notas que somam o valor da consulta. Isso, para essa raça insuportável, é a desgraça. Eles querem, eles precisam, eles desejam que o pagar seja sinônimo de sofrimento por conta da aplicação do dinheiro na cura da alma (é como eu chamo, não me corrijam). Eu, notem a diferença (é o foco do que quero lhes contar), ao contrário, pago achando que pago pouco.

Digo de mim para mim ao final de cada sessão:

– Se eu fosse pagar o que essa camarada vale eu teria de vender meu apartamento!

E isso, esse simples sentimento que me invade às terças e quintas-feiras, é o que não toleram esses chatos.

Até.

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NO DIVÃ

Quem me lê sabe: há anos – anos! – eu esculhambo, com fulcro na visão rodrigueana que me acompanha, a figura do psicanalista, do psicólogo, do psiquiatra (pus as nobilíssimas profissões em ordem alfabética para não ferir suscetibilidades). Vejam vocês – e é só um exemplo – o que disse, sobre estes profissionais, o inigualável Nelson Rodrigues, em A vida como ela é… O homem fiel e outros contos:

“A mãe de Bebeto e as tias benziam-se só de ouvir falar em psiquiatria. D. Detinha interpelou o marido: “Você quer que o Bebeto vá tratar de malucos?”. Acrescentava, para os lados: “Deus me livre!”. No fundo o que a assustava era a possibilidade de que um dos futuros clientes do filho o esganasse, num acesso homicida. Dr. Sinval teve que esclarecer:

— O Bebeto pode fazer psicanálise.

Explicou que a psicanálise não oferecia o menor perigo, nem para o médico, nem para o doente. Aventurou uma blague segundo a qual o mais perigoso dos dois era, ainda, o psicanalista. Impressionada, d. Detinha pediu outras explicações. Então, o dr. Sinval, mascando o charuto, afirmou:

— Sabe o que é a psicanálise, para encurtar conversa? Um bate-papo.

— Como assim?

E ele, convicto: “O médico senta e o cliente deita. Os dois se põem a conversar e pronto. Isso é a psicanálise”. Houve, em torno, uma impressão profunda, que tocou o próprio Bebeto. D. Detinha engoliu em seco: “Só?”. Confirmou: “Só”. E foi acrescentando:

— Ainda por cima, o seguinte: o analisado não é doente nem aqui, nem na Cochinchina. Na maioria das vezes, tem uma saúde de ferro e vai lá porque não tem o que fazer e pode pagar duas mil pratas por sessão.”

Vai daí que eu, premido por várias questões (não vêm ao caso, quais), fui parar no colo (ou melhor, no divã) de uma psicanalista. Escrevi no divã e já me corrijo: eu jamais deitei-me, ou mesmo sentei-me, no tal divã (tenho, do divã, uma paúra pânica). Passo as sessões sentado na cadeira de palha diante da médica (é uma médica) com os pés – apenas os pés – apoiados no divã. Isso  – essa minha obsessão pela mesma posição na mesma cadeira e com os pés, sempre, sessão após sessão, sobre o divã – já deve ser um prato cheio para a doutora (é o que imagino).

Vivo – é o que quero lhes contar -, por conta disso, desde a primeira sessão, uma sensação de fracasso absoluto. Eu, 42 anos e alguns meses de vida, desde o berço, desde antes de aprender a ler (e antes, portanto, de ler Nelson Rodrigues, e eu só leio Nelson Rodrigues), já tinha uma aversão agudíssima aos psicanalistas, aos psicólogos, aos psiquiatras. E de repente, não mais que de repente, lá estava eu diante da psicanalista rasgando minha pequena biografia íntima, pisoteando minhas convicções, estuprando, como uma fera possessa, as frases que repeti a vida inteira com denodado orgulho.

E desde ontem – desde anteontem, a bem da verdade – uma coisa me perturba a ponto de me tirar o sono (não preguei o olho a noite passada). Tenho, ainda, e cada vez mais viva, a mesma aversão que eu tinha (esse verbo no pretérito imperfeito é como um punhal no meu peito) aos médicos da alma ao cinema iraniano e ao partido do sol e da liberdade. Pois passei a me perguntar enquanto fumava pela sala escura de minha casa:

– Estarei, um dia, no Buraco do Lume, festejando o bigode ou o não-bigode do Milton Temer?

– Flagrar-me-ei, numa manhã de domingo, dançando ciranda de mãos dadas com o Chico Alencar em Copacabana?

– Será que um dia serei um fanático pelo cinema persa?

E essa possibilidade de novas violações às minhas convicções foi capaz (foi ela!) de me fazer atravessar a noite em vigília.

Bastou, entretanto, nascer o sol para tudo se esvair.

Donde se conclui que a noite é minha senhora, uma espécie de feitor impiedoso a me trazer lembranças assustadoras e possibilidades trágicas. Ontem, por exemplo (e é por isso que lhes escrevo hoje sobre este tema), lembrei-me da Núbia, colega de faculdade, e a imagem da Núbia parecia gargalhar de mim, submetido, hoje, ao tratamento psicanalítico. Vou lhes contar sobre a Núbia.

A Núbia estudava na PUC, era minha contemporânea. Eu fazia Direito, a Núbia psicologia. Estamos em 1989, ano da primeira eleição presidencial depois dos anos de chumbo. Eu era Brizola, a Núbia era Roberto Freire (na ausência do PSOL, o PCB quebrava o galho dessa gente). E a Núbia achava que pra tudo, tudo, tudo!, a terapia era a solução. Vejamos.

Lembro-me de uma sexta-feira. Na vila dos diretórios, onde fumava-se maconha com a mesma liberdade que sonha o Renato Cinco. Todos (penso que até o Reitor) davam seus tapas, todos. Menos eu. E a Núbia chegou-se a mim, determinado dia. Tinha, entre o polegar e o indicador, aquela guimba nojenta, babada, entre o verde e o marrom. Diante de mim, aspirou, tampou o nariz (era lindo, o nariz da Núbia) e estendeu-me o psicotrópico. Recusei. Ela:

– Há tempos percebo que você nunca fuma…

Sempre tive, de fato, horror à maconha. Respondi:

– É. Não gosto.

 E ela, cravando os olhos vermelhos nos meus:

– Já tentou terapia?

E essa sugestão – já tentou terapia? – era um bordão na boca carnuda da Núbia (era linda, e carnuda, a boca da Núbia). Servia pra tudo. Você se irritava diante da fila do elevador e ela fazia a sugestão. Você reclamava da qualidade sofrível da comida do bandejão, ela fazia a sugestão. Eu, que sempre fui um feio, tentei beijá-la não me lembro quando. Ela empurrou-me com nojo e disse:

– Você já tentou terapia?

E esse acúmulo de sugestões foi solidificando em mim esse horror que eu tinha – tinha – à idéia da terapia.

Quero voltar a falar do bigode do Milton Temer, vocês vão entender porquê.

Como lhes contei, em 1989, a Núbia fez campanha para o candidato do PCB, Roberto Freire (hoje, um pobre-diabo que não vale um tostão). Mas a Núbia tinha – disso me lembro com nitidez impressionante – fixação por um deputado estadual do PT: justamente o Milton Temer. E a Núbia, também é vivo na minha memória esse episódio, tinha verdadeiro fascínio pelo bigode do aguerrido deputado, então do PT (agora no PSOL).

Havia outra moça (não lembro seu nome nem a fórceps) que apoiava o Lula e que não era do PT, dizia ser de uma tal ala mais radical, da linha chinesa. Fanática (vejam vocês a força dos bigodes!) pelo bigode do Stalin. E me lembro das duas, durante o fumacê na vila dos diretórios, disputando pra ver quem tinha o bigode mais charmoso, se o Milton Temer ou o Stalin.

Sei que é o seguinte: vali-me de vários meios e achei, vejam vocês, o telefone da Núbia (e eu não falava com a Núbia desde 1992). Disquei e conversarmos por mais de meia-hora. Falamos da vida, das nossas carreiras (Núbia atende em casa, na Praça da Bandeira, está na miséria mas se declarou muito feliz), demos de falar sobre política (Núbia, é claro, é militante do PSOL) até que eu disse:

– E o Milton Temer?

Ouvi um suspiro que me sugeriu desolação. E ela disse:

– Tirou o bigode. Falamos depois.

É ou não, o PSOL, um partido incrível? Consegue, e só ele consegue, fazer da ausência de um bigode um assunto, um tema, uma pauta.

E no caso da Núbia, um trampolim para a depressão.

Até.

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A FAMÍLIA DO ANALISADO

Dedicar-me-ei hoje, mais uma vez, à figura do analisado e à de seu bacana portátil. Sob a ótica, eis o que me ocorreu depois de encontrar-me com um pobre-diabo na semana passada, de sua relação com a família. O analisado (o pobre-diabo a que me referi), por questões de moda, procurou o bacana que lhe fora indicado por outro pobre-diabo, amigo seu, que após uma rápida conversa no meio da rua estendeu ao outro o cartão, dizendo:

– Telefona. Você não vai se arrepender.

Pois o pobre-diabo originário telefonou. Marcou a consulta. Marcou a consulta e ficou felicíssimo quando soube que a primeira conversa sairia de graça (“teremos apenas uma conversinha para que você perceba se gosta”, foi o que disse o bacana cujo consultório ficava em Copacabana).

E houve a primeira conversa (durou 10 minutos).

A primeira pergunta do bacana:

– O que te traz aqui? – ele tinha, na face, a máscara de um membro de mesa da FLIP.

– Não sei. – foi sincero, o paciente.

O médico de almas arregalou os olhos, pigarreou, fez um silêncio pausado impactante e disse:

– Interessante. Conte-me sobre sua família.

O pobre-diabo falou maravilhas do pai, um ídolo, da mãe, dos irmãos, dos primos e primas, dos avós (os vivos e os mortos), das tias e dos tios. Estava ele empolgadíssimo relatando seus afetos, quando o analista ficou de pé.

Ficou de pé, deu uma voltinha ensaiada em torno do divã, pôs as mãos sobre o couro do dito cujo como que engaiolando o pobre-diabo e disse com os olhos ainda mais arregalados.

– Família Doriana. Sei.

Quase encostou o nariz no nariz adunco do paciente e disse, seriíssimo:

– Teu caso é sério.

O paciente encolheu-se como um feto. E foi a deixa para o bacana continuar:

– Três sessões por semana, no mínimo. Duzentos e setenta e cinco reais cada sessão. E eu recebo adiantado as seis primeiras.

Só então afastou-se do rosto em pânico do pobre-diabo.

Depois da terceira sessão – eis o milagre do bacana – o coitado já acahava o pai uma azêmola, a mãe chatíssima, zombava com desenvoltura dos cuidados dos irmãos, dizia que os avós mortos haviam partido tarde, que as tias eram umas recalcadas e os tios uns cornos em potencial, por aí.

O que eu queria lhes dizer desde o início, e me parece que já está dito, é o seguinte: os bacanas não toleram o bem-querer. Não suportam a felicidade alheia. Não admitem a sensação de plena satisfação dos pobres-diabos.

Os bacanas precisam incutir nos pacientes, que passam a fumá-los sem filtro num quadro de dependência preocupante, o ódio, o rancor, a responsabilidade atribuída ao outro, que é cravada na testa da vítima como alfinetes em um boneco de vodu, vítima essa que passa a ser a responsável direta por troços que, essa é a verdade, nunca incomodaram o paciente.

Daí pululam as frases:

– Bebo assim pois procuro repetir o que papai fazia quando era pequeno, quando eu ficava sozinho enquanto ele enchia a cara com os amigos no buteco.

– Mamãe é responsável por esse meu jeito tímido e minha covardia, ela jamais reagiu contra as barbaridades que papai aprontava.

– Meu irmão? Um idiota. Sempre me fez crer que queria o meu bem quando na verdade era um voyeur delirando diante de meus fiascos.

– Minha avó introjetou em mim essa nostalgia irritante que me atrasa a vida.

E as sessões continuam sendo marcadas, cobradas, e o pobre-diabo cada vez mais chato – como o tal que eu encontrei semana passada, conforme lhes contei no início deste arrazoado.

Até.

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É A LAMA, É A LAMA, É A LAMA

Ontem fui ao centro da cidade render-me à necessidade tecnológica, da qual fujo agudamente, e fui, como de hábito, tomar meu café coado no pano no Café Gaúcho (não suporto o café expresso, que passou a requintes que fazem uma xícara custar o preço de uma dose de uísque). De posse de um pendrive (reneguei, o quanto pude, o dito cujo), atravessei a Rio Branco e tomei a direção da esquina da São José com a Rodrigo Silva. Dei de cara com um protesto contra o golpe que não é exatamente golpe em Honduras (não tenho paciência pra discutir o troço aqui). Recomeço a frase: dei de cara com duas placas onde se lia “ZELAYA JÁ” e “FORA MICHELETTI”. Mentira, mentira. Eram três placas. Na terceira lia-se “O PSOL APÓIA O CAMARADA JOSÉ MANUEL”. Três pessoas, uma delas gritando palavras de ordem num megafone amarelo e vermelho, seguravam as três placas (um cidadão de bermuda bege, camisa branca e colete – membros do PSOL fazem do colete um uniforme – segurava o megafone com a mão direita e com a esquerda sacudia a cartolina pregada num cabo de vassoura com a impactante frase oferecendo solidariedade ao presidente deposto). Um quarto membro do partido distribuía panfletos convocando o povo para o debate político que às sextas-feiras o PSOL promove no Buraco do Lume para, no máximo, seis gatos pingados.

Depois de atravessar o Buraco do Lume fui ao balcão.

E encontrei o Percival.

Não o via há – o quê?! – dez, doze anos.

– Perci! – fui efusivo.

– Como vai essa força? – ele respondeu com a frase-feita.

Fiz a ele, em menos de dez minutos, um breve relato desses dez, doze anos e ele cravou-me com uma pergunta:

– Você faz análise?

Mexendo o café por puro esporte (bebo café puro), fiz que não com a cabeça. Veio a sentença:

– Por isso.

Fiz cara de que não entendi.

– Por isso andas bebendo com essa regularidade doentia, por isso voltaste a fumar, por isso essa barriga de chico-bóia, por isso esses cabelos brancos.

Para provocá-lo, sem dar-lhe uma resposta, pedi ao Bira:

– Um chope na pressão!

E ele, com carinha de nojo:

– Sai dessa lama!

Estendeu-me um cartão:

– Liga pro doutor. Te fará um bem tremendo.

– Você enlouqueceu, Percival?! Não nos vemos há dez, doze anos, e você vem com esse papo?! Ô, troço chato!

Ele ajeitou os óculos e disse:

– Quem mais precisa do tratamento é quem mais o rejeita…

Bebi o chope. Pedi outro. E ele:

– Sai dessa lama, Eduardo… Sai dessa lama!

Aproxima-se do balcão o pobre-diabo que distribuía os panfletos do PSOL. Estende um para o amigo a quem, àquela altura, eu lamentava ter encontrado. O Percival recebe o folhetim, lê o texto, dobra a coisa e guarda no bolso. Estende, em seguida, um para mim. Eu faço outro sinal pro Bira e digo:

– Não, obrigado.

O pobre-diabo continua distribuindo os santinhos entre a assistência que está no bar. O Percival:

– Não por que?!

Não respondo.

– Teu caso é urgente. Sai dessa lama! Sai dessa lama!

Despediu-se de mim, tirou o casaco (foi quando eu vi em sua lapela o botton do PSOL) e saiu em direção à rua da Assembléia fazendo que não com a cabeça.

E eu ali, indo para o quarto chope, enterrado na lama imaginária que o amigo de outrora enxergou.

Até.

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POSES, POSES, POSES

Andei recentemente – vocês que me acompanham sabem – falando sobre essa intrincada relação entre os homens e mulheres doentes da alma com seus bacanas (psicanalistas, precipuamente). Hoje mesmo, mais cedo, vim para o trabalho de ônibus, como de costume, e enquanto os pneus do coletivo deslizavam pela rua Alice meus pensamentos patinavam sobre as máscaras e poses dos envolvidos nas tais relações, os analisados e seus analistas, os bacanas. São um festival de poses. O olhar de um analisado é uma bomba atômica onde não há urânio, mas piedade. Ele olha, da cabeça do próximo à sola do sapato alheio, com um olhar pleno de piedade e superioridade. São meneios permanentes de cabeça que denotam pena, e os médicos da alma não ficam atrás. Fazem do silêncio seu cartão de visitas e moldam, dia após dia, suas máscaras de gesso das quais emerge uma superioridade ariana. Tudo pose.

Um sujeito sentado no banco da frente do ônibus ouvia, enquanto eu divagava, seu radinho de pilha (sim, era um radinho de pilha mesmo, não um desses aparelhos modernos). E ele ouvia Beth Carvalho batucando, não na caixinha de fósforos cada vez mais improvável, mas na pastinha de cartolina que carregava no colo. É incrível, mas não consigo ter certeza nem a fórceps de qual o samba que o sujeito ouvia, mas o samba era um sucesso retumbante da grande sambista (a maior, a maior, a maior). Disse a besta sentada ao meu lado, puxando papo:

– Crente que é sambista.

Eu, que não perco as chances de melhor conhecer o homem, nada disse, mas disse com os olhos um “hein?” que excitou meu interlocutor (uma besta, repito).

– Ouvindo esse samba aí, pô, tremendo sucesso, tremendo hit-parade, e se achando…

Eu nada disse e ele explodiu:

– Samba é raiz! Samba é Picolino! Picolino!

E ficou ali, repetindo o nome do velho portelense que já vaga pela pátria espiritual, como se isso desse a ele, a besta, o título de doutor.

O ônibus seguia o trajeto e já estávamos em Laranjeiras.

A besta desceu na altura da São Salvador e lançou, antes de tomar a rua, um olhar de nojo em direção ao feliz passageiro que ouvia, no instante em que estamos, um samba do Agepê.

Saltei no Largo do Machado junto com o rapaz do radinho e dei de cara com um mini-comício do PSOL bem diante da estação de metrô. O homem que empunhava o megafone falava para – o quê?! – uma pessoa estacada diante dele. E essa pessoa aplaudia freneticamente as botinadas verbais do socialista, quando me dei conta de que a máscara da besta do ônibus é freqüente nas rodas de samba que se espalham por aí, em todos os terreiros, os pequenos e os grandes. E explico.

Como se adquiridas na Casa Turuna, essas máscaras são idênticas na forma: tem expressão de nojo, superioridade, e estão espalhadas pelas rodas de samba como nos consultórios dos bacanas ou nas mesas dos bares onde se sentam, com ares parisienses, os analisados e analisadas. Estou, sei que estou, dando voltas e voltas. Mas quero lhes dizer é justo isso…

Como é que você reconhece uma besta numa roda de samba? Como é que você sabe que ali, empunhando um cavaquinho, segurando um repique, batucando um tamborim, está uma besta? É fácil.

A roda de samba é, por excelência, congregação. É a missa campal do povo brasileiro, apud Aldir Blanc. O samba cantado por todos é, não há dúvida, o ápice, o axé, a força, o peso e a beleza da roda, do encontro, da reunião.

A besta o rejeita (o samba cantado por todos, que fique claro).

A besta quer começar o samba e ver que a seu redor há um silêncio absoluto, como o de uma missa à moda antiga. Ninguém sabe aquele samba. Ninguém conhece. Ninguém jamais ouviu falar (ou cantar). E daí ele levanta, no intervalo, com ar blasè, e sai sapateando distribuindo “não conhecia?”, “nunca ouviu?”, achando-se o maior, o superior, o supremo sábio.

É o anti-sambista. O anti-povo. E se arvoram, essas bestas, como procuradores não-nomeados de Candeia, Picolino, Colombo etc etc etc

Volto ao tema.

Até.

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O ANALISADO, AINDA

Dedico-me hoje, pelo terceiro dia seguido, a tecer minhas digressões sobre essa figura frágil (ela não sabe que é frágil como porcelana) que é a do analisado, da analisada. Na terça-feira escrevi O analisado (aqui), ontem Ainda o analisado (aqui), e hoje deito-me sobre o assunto uma vez mais, mais voltado para os efeitos práticos, no dia-a-dia, dessa nefanda atividade.

Eu conheci um sujeito, o Nestor, em meados da década de 80. Tínhamos – o quê?! – uns 15 anos. O Nestor perdera o pai exatamente um dia depois do parto que o trouxe ao mundo. Fulminado por um ataque do coração, seu pai, torcedor fanático do Fluminense, não resistiu às emoções do Fla x Flu de 15 de junho de 1969, quando mais de 170 mil torcedores assistiram à vitória do Fluminense por 3 a 2 no Maracanã. Morreu maldizendo sua mãe que o obrigara a ficar na maternidade, ouvindo – vá lá! – o jogo pelo radinho para fazer sala para a parentalha na maternidade.

Nestor cresceu ouvindo essa história contada por sua mãe, por seus avós, primos e primas mais velhas, e cresceu rubro-negro, amando o Flamengo graças à garotada da vila onde morava (ainda mora, encontrei o Nestor não tem nem um mês). Era (não é mais) fanático. Não perdia um jogo do Flamengo, era do tipo que viajava, entrava em caravana em ônibus clandestino, fazia parte de torcida organizada, o escambau. Um dia, Nestor estava para fazer 18 anos, e sua mãe o chamou, grave:

– Nestor, preciso falar contigo. Coisa séria.

Mergulhando o pão francês sem miolo na caneca de café com leite, Nestor respondeu:

– Fala, mãe.

– É sério, filho. Senta aí.

Nestor sentou-se. Achava a mãe uma santa, afinal o criara praticamente sozinha, viúva, costurando pra fora, dando tudo de si para garantir a educação do único filho.

– Nestor, esse teu fanatismo pelo Flamengo, filho… Há 18 anos penso no desgosto de teu pai… Tu não percebes que… que… – a mãe gaguejava.

– Percebo o quê, mamãe?

– Tu não percebes que teu fanatismo nada mais é do que uma vingança tua contra teu pobre pai só porque ele morreu um dia depois do teu nascimento?! Não percebe?! – chorava, a mãe, dona Jandira.

– Ô, mamãe… que papo é esse, mãezinha?!

A mãe assoou o nariz num guardanapo de papel. Bateram à porta, Nestor foi atender.

Voltou à cozinha:

– Mãe, é pra senhora. É Margarida, não conheço…

A mãe fez cara de aterrada, ajeitou o avental, o pano de prato sobre o ombro e foi atender a cara. Demorou – o quê?! – uns 10, 15 minutos. Voltou-se. O filho lia o Lance!.

– Quem é, mamãe?!

– Inquilina nova da casa oito. Psicóloga. Foi ela que… – e deu-se o blá-blá biográfico da nova vizinha.

Quando Nestor fez 18 anos ganhou de presente, da vizinha, fruto de um arranjo com a mãe, que cuidava das roupas da bacana, um ano de sessões de análise grátis, duas vezes por semana. O consultório da doutora era em Copacabana e lá foi o pobre Nestor descobrir, em absoluto pânico (era, na íntegra, um órfão de pai, visivelmente carente), que o futebol nada mais era do que uma fuga da dura realidade da orfandade, que seu fanatismo, justo pelo Flamengo, era uma espécie de vingança contra o desaparecimento precoce do pai, que sua relação com o ídolo Zico nada mais era do que transferência, essas besteiras olímpicas que os bacanas exalam pela boca como fumaça de um Cohiba legítimo.

O fato é que o Nestor deixou-se levar pelo papo da bacana. Passou a criar dois gatos que encontrou na rua dando-lhes o nome de Eros e Tanatos. Abandonou o futebol, o Flamengo, passou a olhar para seus amigos de infância com um olhar greco-romano, nunca mais pisou no Maracanã e, quando eu o encontrei, há coisa de um mês, estando eu debruçado no balcão do Café Gaúcho à espera do Leo Boechat, o chamei efusivamente:

– Ô, Nestor! Há quanto tempo, negão! E nosso Mengão, hã?! Bebe um chope comigo?

Ele me olhou dos pés à cabeça com um cara de nojo que vou lhes contar:

– Chope?! Mengão?! Eu evoluí, Eduardo! Evoluí!

E estendeu-me, depois de prospectar o bolso do agasalho onde vi espetado um botom do PSOL (fazia um frio polar no Rio), um cartão chiquérrimo:

– Procure a doutora Margarida. Fale em meu nome. Passar bem!

E saiu sapateando as pedras portuguesas da São José.

Até.

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AINDA O ANALISADO

Hoje vou prosseguir nas sendas dessa figura sorumbática que é o analisado, a analisada, conforme lhes prometi ontem, quando escrevi O analisado, leiam (ou releiam) aqui. O texto fez, quero reconhecer publicamente, relativo sucesso. Recebeu poucos comentários, é verdade, mas rendeu uma enxurrada de e-mails. Um deles, anuncio desde já, me servirá de inspiração para o que quero lhes dizer hoje (e sobre o mesmo tema, palpitante, falarei também amanhã). Vamos ao e-mail que mais me impressionou, de um fiel leitor que me pediu (e eu o atenderei, por óbvio) anonimato:

“Freqüentei psicóloga quando criança. Eu era uma peste, saía no tapa praticamente todos os dias no colégio, além de detestar estudar: um típico menino revoltado sem causa. Meus pais, então, enfiaram-me numa psicóloga. Não adiantou, eu ficava jogando ping-pong com ela numa mesa minúscula, pouco falava; ela – como sempre -, muda. Por vezes, enchia-me daquele tédio (o ping pong era uma bosta), pedia para ir ao banheiro, e demorava uns 10/15 minutos – não, eu ainda não tinha idade para o 5×1, e ela jamais poderia ser fonte de inspiração para tal passatempo – só para sair da frente dela, uma das maiores malas da minha vida. Foi um dinheirão jogado fora durante um ano inteiro, e tenho cá desconfiança, que mais por conta da incompetência da tal fulana, do que por minha, digamos, incompreensão juvenil. Uma pena, pois acho que se meu pai tivesse investido tal monta num autorama novo, eu teria sido muito mais feliz.”

Pausa para meus comentários.

Imaginem a cena, e tirem as crianças da frente do monitor. O leitor em questão era – a leitura de suas primeiras frases não deixa dúvidas – uma criança rigorosamente normal. Seus pais, que não deviam ter tempo para o próprio filho e achavam elegantérrimo ter um psicólogo cuidando do pimpolho, puseram o moleque numa bacana. E o que fazia a bacana? Na ausência do divã, que seria inadmissível para uma criança, e tendo descoberto (tenho certeza, tenho certeza!!!!!) o nicho criança-bem-nascida-mimada-com-pais-sem-tempo, via o cofrinho encher de dinheiro enquanto, empunhando uma raquete de ping-pong, distraía (ou pensava distrair) a criança com partidas chatas e intermináveis de tênis de mesa. O menino, hoje um profissional bem sucedido graças a seu talento e perserverança, teria sido (a confissão e a conclusão são dele) infinitamente mais feliz com um mero autorama, sonho de todo moleque na década de – o quê? – 70, início dos anos 80. Mas, imaginem vocês se os pais dariam um brinquedo para a criança se podiam dar – ah, os luxos dos pais zona-sul – um psicólogo! Vamos à continuação do emocionado relato de meu leitor:

“Ultrapassada a psicóloga, infância, adolescência e faculdade, eu resolvi – depois de muito refutar – testar, por um tempo, a psicanálise. Não por conta de coisas mal resolvidas e etc., mas porque tinha essa – equivocada – impressão (vinda, talvez, de amizades feitas nos corredores do Cardeal Leme, se é que me entendes) de que o analisado é mais evoluído, enxerga mais, sente mais, percebe, e, acima de tudo, conhece mais de si. Sem dúvida, essa é a grande propaganda da psicanálise e, especialmente, do psicanalista, seja ele medíocre, seja ele um estudioso.”

Eu não sei se vocês, meus poucos mas fiéis leitores, captaram a mensagem imbuída na menção aos “corredores do Cardeal Leme”, e eu explico. Meu leitor estudou – onde mais?! – na PUC, onde deixar cair no Pilotis o cartão do psicanalista é sinal de status. O mesmo se dá, por exemplo, em Santa Teresa, onde fazer análise é condição sinae qua non para ser considerado um descolado. O mesmo se dá com o filiado ao PSOL, que é vaiado em convenção se não tiver, no bolso do colete (membros do PSOL se sentem in vestindo coletes), o cartão do seu próprio bacana. E notem como meu leitor vai na mesma direção que fui ontem quando eu disse que há, no analisado, essa necessidade incompreensível do proselitismo!

Continuando:

“Bom, foram 4 anos de psicanálise, o que para mim foi uma experiência bacana, positiva. Nunca cheguei a me sentir – e nem me sinto – superior ou melhor do que ninguém por isso. Senti, sim, por vezes, certa dependência da psicanalista (alimentada, naturalmente, por este), e isso muito me incomodou, mas depois deixei essa neurose de lado e a coisa fluiu bem.”

O analisado, que fuma, cheira, debulha e aperta seu bacana-portátil, depende do doutor para quase-tudo. Quer ir ao cinema. Doutor, drama ou comédia? Quer sair pra jantar. Mestre, carne ou peixe? Quer viajar. Sábio, Europa ou América? E por aí vai.

E assim meu leitor fecha o e-mail (omiti os pontos mais pugentes e capazes de identificá-lo):

“Achei muita coincidência esse teu post, pois tem, exatamente, um mês, que me dei alta, após pouco mais de 4 anos de sessões. Não sinto falta, mas também não me arrependo de ter feito. Acho minha ex-psicanalista uma pessoa bacana, profissional, correta, e com defeitos; muitos, inclusive, ligados ao ranço da profissão (todas as profissões têm os seus), que você muito bem descreveu. De resto, estou contigo, quando dizes que muitos fumam o psicanalista (perfeita a expressão), utilizando-o como um verdadeiro guru, conselheiro, chegando à idolatria. Além de patético, é altamente maligna essa distorção de valores.”

Quatro anos de sessões (vamos na média de 2 sessões por semana) somam 384 sessões. Vamos à média de R$ 200,00 por consulta e verificamos, assombrados, que meu leitor entregou na mão da psicanalista a quantia de R$ 76.800,00. Um carro de luxo zero quilômetro! Um apartamento modesto em Jacarepaguá! Uma quitinete na Tijuca! E isso, meus poucos mas fiéis leitores, para que a bacana se mantivesse no mais rigoroso e árido silêncio (os psicanalistas mudos são muito mais chiques!). O único gesto do psicanalista é, sempre, o apontar do relógio ao final do tempo estabelecido com o dedinho indicador, como um metrônomo de carne batendo no vidro do Mido.

Dito isso, vamos a um caso concreto, prova cabal do efeito nefasto que causam, os bacanas, na vida de seus pacientes.

Estava eu no Café Gaúcho, um dia desses, encostado no balcão de café, saindo do metrô em direção ao Tribunal de Justiça. Sozinho.

A meu lado, um sujeito de terno, como eu, conversava com outro, também num bem-cortado.

– Tens visto o Danúbio?

– Nem te conto… – pôs as mãos em concha sobre a boca.

– O que foi?

– Está fazendo análise.

– Análise?!

– Análise. Mudadíssimo, nem queira encontrá-lo!

O amigo boquiaberto, mexendo o café com a colherinha, olhando pro Buraco do Lume, onde acontecia um comício do PSOL para quatro pessoas.

Eles se cutucam.

– O Danúbio! O Danúbio vem lá!

– Onde, homem de Deus? Onde?

– Ali, ó! De terno bege e gravata vinho!

E passou o Danúbio pela esquina da Rodrigo Silva com a São José.

Foi chamado com um “psiu”. Parou. Olhou pros dois. E não esboçou reação.

Disse o primeiro, que acabara de saber da novidade psicanalítica, com os braços abertos:

– Ô, Danúbio! Dá cá um abraço nesse teu irmão, pô!

E eu testemunhei, juro pra vocês, a frase gélida do analisado:

– Abraço? Tu estás brincando, Macedo?

O pobre do Macedo ficou sem ação, com os braços abertos como a águia da Portela:

– Tá me estranhando, Danúbio?!

– Tu nunca foste meu amigo, Macedo. Que dirá irmão! Passar bem!

Antes de partir vasculhou o bolso interno de seu paletó. De lá de dentro, sacou um cartão:

– Vá procurar um analista, Macedo. Eu mudei, e para melhor. Passar bem!

Saiu sapateando os paralelepípedos da Rodrigo Silva numa pose de puro-sangue, virando a cabeça até dobrar a Assembléia, com aqueles olhos de profunda piedade que os analisados trazem encaixados na máscara que vestem depois das primeiras sessões.

Até.

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