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NELSON RODRIGUES, A INEVITÁVEL INFLUÊNCIA

Não foi uma, não foram duas, não foram três pessoas que já me apertaram o nariz com o indicador acusador, no meio da rua, aos berros:

– Chega de imitar o Nelson Rodrigues, chega!

Eu, que sou, antes de tudo, um tímido, costumo responder olhando pros meus próprios pés:

– Tá bom. Desculpa?

Nunca ninguém me respondeu.

O fato é que não há – é incontestável – como fugir da influência rodrigueana. Li, reli, comi, mastiguei, digeri, li de novo, todos os livros do Nelson. Todos, eu disse. Toda sua obra no teatro. Toda. E sou, na matéria, um obsessivo nato. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi a Dani dizer, desoladíssima:

– Mas outra edição de “Asfalto Selvagem”?

– Edu, meu amor… “A Vida Como Ela É”????? Já não bastam as edições que temos?

Por aí.

Mas contei-lhes isso apenas para fazer o intróito da verdadeira história que torno pública sem piedade. Porque a história, meus poucos mas fiéis leitores, parece ter saltado da jurrásica máquina de escrever do anjo pornográfico. A história, o homem, a mulher amada, o defeitinho de nascença, a rua óbvia, o único bairro possível. E eis aí o que eu gostaria de lhes provar, sem com isso querer me defender da acusação sórdida que me fazem os indicadores pressionando meu nariz: as histórias que soam como rodrigueanas aos ouvidos ou aos olhos de alguns – há, eu sei, leitores que lêem o Buteco em voz alta -, pululam, se multiplicam, dão brotos e dão frutos em cada esquina da zona da cidade que freqüento, a norte, evidentemente.

Há um amigo meu – e se torno pública sua história não tornarei público seu nome – que bateu-me o telefone há uns meses. Foi grave:

– Edu?

– Arrã.

– Estou apaixonado por uma carioca.

– Mas que tragédia. Quem é? Eu conheço?

Pausa.

Eu disse “mas que tragédia” porque meu bom amigo mora no Jaçanã. E morar no Jaçanã, que fica em São Paulo, já faz dele um ser humano, no mínimo, digno de atenção. Eu, por exemplo, quero fazer a confissão pública, à beira dos meus trinta e oito anos, pensava que o Jaçanã fosse uma invenção do Adoniran Barbosa criada apenas para rimar com “só amanhã de manhã”.

E ele:

– Não.

Seguiu-se um silêncio maçante. Afinal, o que poderia eu dizer depois do “não” do cara? Ele mesmo continuou depois de tossir:

– Ela é anã.

Notem bem uma coisa. Eu não tenho nenhuma tendência ao deboche ou à pilhéria. Mas conhecer um cidadão – e mais do que conhecer, conversar com um cidadão, ao vivo, pelo telefone! – que namora uma anã é, como diz a piada, o equivalente a conhecer alguém que já foi ao enterro de algum anão.

Eu urrei:

– Anã?!

– Anã.

Minha sorte foi estar usando o telefone sem fio. Eu rolei corredor afora, do banheiro à cozinha, da cozinha ao banheiro. E ria. E ele:

– Tá rindo de quê?

Não consegui responder. E ele:

– Há outro detalhe…

Imaginei horrores que nem vou reproduzir:

– Desembucha!

– Ela mora na rua do Matoso, Edu! Eu estou apaixonado por uma anã que mora na rua do Matoso! A Anã da Matoso! A Anã da Matoso!

E ficou gritando o nome da personagem que ele mesmo criou – a Anã da Matoso – que lhe tirava o sossego.

Vou fechar a história de hoje, agora.

E vocês perceberão como são as coisas. E tirarão, cada um a seu modo, suas próprias conclusões sobre o que encerra o episódio.

Passaram-se semanas e ele veio ao Rio. Como sempre faz quando vem, bateu-me o telefone cedíssimo, num sábado:

– Desça! Estou no Rio-Brasília!

Lá fui eu.

Daí tem toda aquela papagaiada, abraço pra cá, tapinha nas costas pra lá, pedimos cerveja, pastéis, maracujá, e ele apoiou os dois cotovelos na mesa forrada com plástico verde. Disse-me, seriíssimo:

– Ela está vindo pra cá encontrar-se conosco…

Eu, dando uma bicadinha no maracujá, distraído, disse:

– Ela, quem?

– A minha anã.

Infelizmente é necessário lhes contar essa passagem nojenta para que eu seja preciso, como de costume. Eu lancei, no susto, um jato de maracujá na camisa do Palmeiras que meu amigo vestia.

Joaquim,  sempre solícito, veio com o paninho de prato.

E meu amigo, pacientemente enxugando a camisa:

– Mas antes preciso te contar uma coisa…

– Desembucha!

– Ela não é anã. Era brincadeira minha…

Empalideci.

– E tem mais…

– Desembucha…

– Mora na Barão de Ubá. Não na Matoso.

Eu assumo: eu parecia um possesso.

Eu parecia um possesso e o Joaquim, de dentro do balcão, olhava-me assustadíssimo enquanto eu suspendia meu amigo do chão, pela gola da camisa verde e branca, gritando furioso:

– Não quero conhecê-la, canalha! Nunca! Nunca! Mentiroso! Traidor! Sua besta! Para mim, animal, você é apaixonado, namora, vai casar e ter filhos com a Anã da Matoso! Filhodaputa! Calhorda!

Fui contido por Deus, garçom prata-da-casa.

Até hoje – creiam em mim! – não conheço a namorada desse amigo. Em mim e para mim ela é, e será sempre, anã, gorducha, bochechuda, morando num simpático três andares na rua do Matoso, perto do Mundial.

Até.

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