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MOACYR LUZ NA LUZ

Foi belíssima – belíssima! – e inesquecível a noite de 24 de agosto de 2013, em São Paulo, no Liceu, próximo à Estação da Luz, quando os Inimigos do Batente receberam, para a II Edição da série O Samba na roda em prosa & verso, o cantor e compositor carioca Moacyr Luz, sobre quem, recentemente, escrevi aqui.

Moacyr Luz com Railídia Carvalho

Moacyr Luz com Railídia Carvalho, foto de Flávia Ferreira

O Liceu, palco da festa, e as centenas de pessoas que lá estiveram, testemunharam um Moacyr visivelmente emocionado, como emocionados estavam os anfitriões dos Inimigos do Batente, dentre eles Fernando Szegeri, Railídia Carvalho, Arthur Tirone e Augusto Diniz, que formaram o time que conversou com o Moa – a prosa – antes do couro comer – o verso.

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Moacyr Luz com Fernando Szegeri, foto de Flávia Ferreira

Samba em prosa & verso é isso: há um papo informalíssimo com o convidado da noite e depois, ou mesmo durante (tudo flui com a espontaneidade das melhores rodas de samba), os Inimigos do Batente desfiam seu repertório com a competência que é uma das marcas do grupo, cuja roda (já tradicionalíssima em São Paulo e mesmo no Rio de Janeiro, onde sempre estão!) “foi concebida nas históricas tardes de sábado no Butantã, no saudoso Bar do Bilú – uma das maiores rodas de samba que essa cidade já viu, comandada pelo Dr. Chico Aguiar, o Chico Médico. O “parto” foi em fins de 1999, nas mesas do Bar do Cidão, em Pinheiros.”.

E o que quero lhes dizer, hoje, é algo que não disse no sábado, durante o bate-papo com o Moa – muito por conta da emoção que senti, por inúmeras razões, durante toda a noite.

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Moacyr Luz com Railídia Carvalho, foto de Flávia Ferreira

À certa altura da noite, um dos componentes da mesa pediu ao Moacyr que falasse sobre o samba Anjo da Velha Guarda, parceria com Aldir Blanc, dedicado ao Zeca Pagodinho.

E ele falou.

Contou que uma noite fora ao Lapases, na rua da Lapa, para uma roda de samba que era comandada pelo Monarco, no início da década de 90 (curiosamente eu estava presente nessa noite e o Moacyr lembrou-se disso, inclusive, enquanto narrava a história), e lá encontrara o Zeca Pagodinho.

E que ficara bastante impressionado com a reverência com que Monarco tratara o Zeca, daí a idéia de transformá-lo no anjo da velha guarda (ouça o samba aqui).

Eis o que quero lhes dizer: é compreensível a modéstia do Moacyr e é obrigação nossa (minha, in casu) fazer o adendo necessário.

Não é de hoje que o Moacyr, já com o nome gravado em letras de ouro e parte do tesouro que ostentamos com orgulho, cumpre o papel de anjo da velha guarda e também de luz para os mais-novos. E explico: meninos, eu vi (ironicamente o mesmo personagem…) o Monarco subir ao palco do Renascença lotado para reverenciar o Moacyr, no comando de mais uma impressionante roda do impressionante Samba do Trabalhador.

Como vi, também, a reverência com que o trataram nomes da estirpe de Guilherme de Brito, Casquinha, Jair do Cavaquinho, João Nogueira, Dona Ivone Lara, Walter Alfaiate e tantos outros.

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Moacyr Luz, foto de Flávia Ferreira

Assim como vejo, incansável que ele tem sido, o Moacyr, generosamente, estender as asas sobre os mais-novos, como Moyseis Marques, Gabriel Cavalcante e toda a rapaziada que o acompanha com a certeza de estar seguindo os passos certos de quem trilhos os caminhos certos para merecer o título que hoje é dele e ninguém tasca.

Até.

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MOACYR LUZ

Tenho dúvida em afirmar quando foi a primeira vez que eu vi o Moacyr Luz, não sei se foi no Caras & Bocas ou no Erva Doce, mas foi seguramente no começo da década de 80, eu tinha 15, 16 anos de idade. No Caras & Bocas, na Haddock Lobo (rua em que eu viria a morar em 1999), sempre via o Moacyr com Aldir Blanc, com Paulo Emílio, com Paulinho da Viola (posso jurar que ao menos duas vezes o vi lá), sempre cercado de muitos amigos e de muitas garrafas, e no Erva Doce, na Antônio Basílio, também na Tijuca, mais profissionalmente, o via cantando e tocando violão, canções belíssimas e muito antes da gravação de seu primeiro disco.

Uma curiosidade: minha primeira batida de carro (numa árvore, pateticamente), um Chevette bege de minha mãe, foi saindo (altíssimo!) de uma apresentação do Moacyr no Erva Doce (talvez eu tenha tentado acompanhar seu ritmo, da platéia).

Mais precisamente em 1995 (tinha eu meus 26 anos de idade), pedi a uma amiga – Vera Brazão – que me apresentasse ao Moacyr. Era véspera do lançamento de seu disco Vitória da Ilusão (meu preferido, até hoje), no Teatro Carlos Gomes, noite de gala, com quarteto de cordas, participação da Cristina Buarque e da Velha Guarda da Portela, um luxo.

De lá pra cá, muitas histórias, muitos enredos, muitos encontros, muitos desencontros, muitos porres, muitos bares, muita festa, muito luto, muita dor e sobretudo muito samba – que o samba sempre salva, o samba sempre cura, “porque em toda a vida o samba foi cura pra minha doença”.

Por conta do samba, por conta da II Edição da série O Samba na roda – em prosa & verso, tocada pelos meus amigos dos Inimigos do Batente, em que o convidado e homenageado é justamente o Moacyr Luz (neste sábado, 24 de agosto, em São Paulo, para onde vou com minha Morena), meu irmão e meu compadre Fernando Szegeri pediu-me um texto sobre o Moa, e eu de cara disse a ele que eu falaria da relação fusionada entre a cidade do Rio de Janeiro e o Moacyr.  

Não foi mole encarar o pedido, mas escrevi e foi publicado originalmente aqui:

“Moacyr Luz nasceu em Jacarepaguá, em 1958, na rua Barão e entre os 2 e 3 anos de idade foi morar na rua do Chichorro, no Catumbi, época da qual guarda a primeira visão de que se lembra: ele, com três anos de idade, e o avô, músico da Banda do Corpo de Bombeiros, o ensinando a escrever música. Foi no Catumbi, na zona norte do Rio de Janeiro – cidade que se confunde com sua obra – que começou essa relação indissociável entre o compositor, a música e a zona norte da cidade.

“(…) a zona norte é feito cigana lendo a minha sorte…”, escreveria anos depois Aldir Blanc, um dos principais parceiros de Moacyr.

Se o avô paterno de Moacyr foi quem apresentou ao neto a música, foram seus avós maternos que o apresentaram aos mercados de rua – ambos eram feirantes.

Moacyr morou ainda em Bangu, em Copacabana, no Méier, no Grajaú, na Muda (um pedaço sagrado da Tijuca), mas notabilizou-se por um fenômeno marcante em sua carreira, uma característica muito forte, um traço de sua personalidade: Moacyr sempre vergou o espaço e o tempo na direção da zona norte – a cigana.

Aliado a esse outro traço, um talento dentre tantos que carrega: o de ser agregador. Começou, a certa altura, a fazer reuniões quinzenais em sua casa, já na Muda, zona norte, na rua Garibaldi (no mesmo prédio em que mora Aldir Blanc até hoje), para onde iam Guinga, Fátima Guedes, Leila Pinheiro, Selma Reis, Oscar Castro Neves, Paulinho Pinheiro, Sérgio Natureza, Chico César, Lenine, Dudu Falcão, Beth Carvalho, Leny Andrade, Cláudia, gente que ia lá só pra tocar, cantar, mostrar música nova.

Foi numa dessas reuniões que mostrou “Saudade da Guanabara” quando eram apenas suas a música e a letra, samba que já cantara, muitas vezes, no Caras & Bocas, botequim na Tijuca – zona norte – que ganhou fama já por conta do poder agregador do Moacyr.

Dessa primeira versão, Moacyr lembra apenas dos primeiros versos: “Eu sei / Que o silêncio da madrugada / Faz a gente chorar por nada / Faz um homem sofrer de amor / Chorei / Com saudade da Guanabara / Meia-noite era noite clara / Meio-dia era o meu cantor”.

Beth Carvalho disse ao Moacyr que o samba era ótimo, mas a letra nem tanto. Até que um dia Moacyr, com Paulinho Pinheiro e Aldir em casa, mostrou o samba e pediu uma letra. Aldir subiu e desceu em meia-hora com a primeira metade pronta. E no final do dia, por fax, Paulinho Pinheiro mandou a outra metade daquele que se tornaria hino afetivo da cidade do Rio de Janeiro. Foi feita na Tijuca, zona norte.

Moacyr Luz inventou o Bar da Dona Maria, na rua Garibaldi, na mesma rua em que morava, um bar que não existia… Não tinha nem queijo, não tinha nada! Mas teve visita de Paulinho da Viola, de Luiz Fernando Veríssimo, de Beth Carvalho, de gente que vinha de todos os cantos da cidade pra ver mais aquele sonho do Moacyr virando realidade.

Ali, no Bar da Dona Maria, Moacyr inventou o bloco “Nem Muda nem Sai de Cima”, que mudou a filosofia da Tijuca – as palavras são do próprio Moacyr.

A Tijuca, que ficava entregue às baratas no Carnaval, quando tijucano tinha que ir pra Região dos Lagos ou atravessar a cidade pra brincar em outros blocos, Simpatia, Barbas, quando não havia a menor possibilidade de ficar por ali…

Moacyr, ao lado das outras pessoas que pensaram o bloco, criou a necessidade de que o enredo falasse da Tijuca ou de um tijucano, e isso começou a recriar um sentimento diferente no bairro. Começava ali essa história do cara achar bacana falar do bairro, do Rio Maracanã, do Paulo Emílio, do Vavá…

E esse sentimento – o amor arraigado do carioca pela sua cidade – que cresceu e se solidificou por diversas razões (que não cabem agora), deve muito ao Moacyr Luz, que incansavelmente, como reza a letra do samba, tira, dia após dia, “as flechas do peito do meu padroeiro”.

Na mesma rua Garibaldi, Moacyr – voltando no tempo, indo, sabe-se lá, ao encontro dos avós maternos, – deu de reinventar a feira. Cooptou um feirante, arrendou uma barraca e passou a fazer, sempre às sextas-feiras, às margens do rio Maracanã, uma reunião de amigos que, como acontece com tudo onde põe as mãos, virou evento de proporções olímpicas.

Tinha uca, açúcar, cumbuca de gelo e limão, camarão comprado e frito na hora, ostras praticamente vivas, jiló, alho e óleo, uma horda de malucos e de malucas que passavam as manhãs e atravessavam os começos das tardes em torno dele, dono absoluto do pedaço, anfitrião daquela barraca, mais um degrau na trajetória zona norte do Moacyr.

Moacyr foi virando, aos poucos, “o embaixador dessa cidade”, título que Paulinho Pinheiro deu a Pixinguinha em letra (comovente) feita para samba do Moacyr.

E foi mesmo: São Paulo passou a reverenciar o Moacyr como embaixador de São Sebastião do Rio de Janeiro, e ele passou a freqüentar cada vez mais a cidade injustamente carimbada como “túmulo do samba”. Fez do Bar Pirajá, a“esquina carioca” em São Paulo, uma espécie de bunker seu. Ia pra São Paulo levando o violão e, junto com ele, além das seis cordas, os seis postos de Copacabana – “do um ao seis” – e a zona norte, sempre ela, regando cada pedaço por onde passava pra São Paulo ganhar novo alento – e ganhou, gerou frutos, e não por outra razão é o segundo convidado da série “O Samba na Roda”, depois da estréia com o mestre Wilson Moreira, também seu parceiro.

Moacyr também sonhou o Samba Luzia, que hoje é realidade, às margens da Baía de Guanabara – foi quem plantou a primeira semente, que germinou.

O Renascença, há oito anos, é um fenômeno. Foi de novo Moacyr quem sonhou aquele encontro entre músicos, às segundas-feiras, e que se transformou naquela loucura que o Andaraí – zona norte! – vive semana após semana, com mais de mil pessoas em volta da mesa que comanda, como se fora, ele próprio, o anjo da velha guarda que cantou sobre verso de seu mais fiel parceiro, Aldir Blanc, abençoando a rapaziada que divide com ele a alegria daquelas tardes.

Mais outra prova de que Moacyr Luz faz das suas para torcer a trilha do samba para a zona norte da cidade? O Samba da Ouvidor, realidade também consolidada pela liderança de Gabriel Cavalcante, tijucano de escol, dileto seguidor da luz do Moacyr, ele próprio já com luz própria, começou com as suas bênçãos. Num dia 16 de setembro de 2006, tendo como testemunhas não mais do que 10, 15 pessoas, Moacyr desfiou sua obra durante uma tarde inteira.

Já escuro, sol posto, a pedidos acabou por reencenar ali um número somente testemunhado pelos felizardos partícipes daquelas reuniões indescritíveis em sua sala-botequim na Muda, cantando a canção que fez sozinho, música e letra, pra seu pai. “Luzes acesas na minha memória, escuto o silêncio e sinto saudade da voz de meu pai…”.

Os presentes sentiam que Moacyr, uma vez mais, estava plantando algo que brotaria forte pra fazer História. Seguiu cantando que luzes acesas “(…) movem o curso da minha vida (…)”, e fincou-se em cada um a certeza de Moacyr não é mero espectador do curso de sua própria vida e da vida da cidade que ajudou a reerguer. Moacyr, como ferreiro, torceu o tempo, torceu as ruas, torceu os morros e a geografia da cidade pra mover, ele próprio, o samba para a zona norte da cidade, e dali para todo o Brasil, que reconhece nele o Embaixador da mui amada e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.”

Até.

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COLETA DE PROVAS

É bom, muito bom, às vezes, contar com bombeiros de gasolina dispostos a me ajudarem a dar mais e mais fundamento ao que digo por aqui.

retirado do TWITTER de Ed Motta

Até.

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NEM MUDA NEM SAI DE CIMA

Como lhes contei aqui, desfilou ontem o NEM MUDA NEM SAI DE CIMA, na Tijuca, homenageando – merecidamente – Moacyr Luz. Bonito o desfile, bonito o que escreveu o enredo, hoje, em seu blogaqui:

“Essa história de bloco deveria ser tratada com fichinhas tipo BA – BLOCOS ANÔNIMOS. A gente vicia na emoção que esse estatuto traz, perde e ganha amigos, rifa a alma pra conseguir comprar as camisas, convence um craque amigo de criar a estampa consagradora, jura que será a última vez que se mete nisso, mas quando a bateria cadencia, chora… O desfile desse ano do “Nem Muda Nem Sai de Cima” me deu nó na garganta. Fui o enredo. Acostumado a homenagear, fui pego de supresa na emoção, nasceu um riso na boca que só amenizou quando amanheci repetindo o último verso – “Cabô, meu pai, cabô…”. O arredor desse estado todo é a cidade. As pessoas chegam de bairros distantes, ouso dizer que conheço todos. Vêm do Méier, Copacabana, Irajá, Baixada Fluminense. Uns deixaram o churrasco na birosca da esquina pra alimentar de canto o rio de gente que transborda à rua. Outros não quiseram se bronzear, cruzando o túnel que separa status pra abraçar a Muda com seus apêndices – Formiga e Borel. Vejo os ambulantes suados. Carregam gelo nas costas, abanam com a outra mão o braseiro de asinha e salsichão. Agora um latão é tres, dois é cinco! Os rolimãs numa ladeira tangeciam nossos corpos enquanto o carro de som cresce na microfonia do intérprete. Meus queridos Gabriel, Pedrinho e Guilherme gesticulam animados uma garrafa de maracujá. O mestre Capoeira pede atenção ao cavaco, vem aí a Bateria do Império da Tijuca. Mesmo longe da passarela, eu recuo. Na outra margem correm as caixas pro foguetório: só pode durar 30 segundos, ordem da prefeitura! Hoje tem corda no bloco protegendo os ritmistas. Sai a primeira estrofe, e, junto com as rimas, o primeiro morteiro… “Aplausos, pois o samba somos nós”. Não sou da Polícia Militar pra contabilizar o público. Acho que, feito a final de 50, o Rio de Janeiro compareceu. Basile e Lula subiram pra pedir à São Pedro que não chovesse, destino contínuo dos nossos desfiles, e o bloco saiu pela Garibaldi, itinerário tijucano que inclui um congestionamento da Conde de Bonfim. Percebi que tempo passou, 15 anos. As crianças que habitavam os primeiros enredos, hoje são pais de novos foliões. O coração permanece amarelo e vermelho, cores da nossa bandeira. Eu saí da Tijuca, mas a Tijuca não saiu de mim. Até a garça do Rio Maracanã me acenou. Só não fui à dispersão porque o coração engasgou na boca, os olhos molhados não enxergariam meus diretores pra agradecer. Juro que foi a última vez, mas a bateria cadencia, o peito acelera e…”

Ao lado de dois de meus afilhados – Felipe (no meu colo, na foto abaixo) e Helena – e com uma garrafa de Red Label no bolso, presente do Pavão, eu fiz a festa.

A lamentar, apenas, o fato de que não consegui comprar, e pela primeira vez em 15 anos, uma camisa do bloco. Não havia o meu tamanho…

Até.

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CACHAÇA, ÁRVORE E BANDEIRA

Bacana a história contada hoje cedo pelo Moacyr Luz em seu blog, recentemente inaugurado.

Em CACHAÇA, ÁRVORE E BANDEIRA (leiam aqui) ele conta sobre a criação do samba, com esse mesmo nome, que fez em parceria com Aldir Blanc para homenagear o Carlos Cachaça. Leiam lá, leiam lá.

Deve ter sido logo depois do telefonema dado pelo Moacyr pro Aldir

Eu ainda morava na Lagoa e recebi, também do orelhão, uma chamada de um emocionadíssimo Moacyr. Ele e o violão tomaram um táxi, desembarcaram na Epitácio Pessoa e subiram ao sexto andar, onde eu morava.

Eu havia comprado recentemente um computador equipadíssimo.

E foi nele, valendo-se de um microfone mínimo, que o Moacyr fez a primeira gravação de CACHAÇA, ÁRVORE E BANDEIRA.

Até.

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SÓ FICO À VONTADE NA MINHA CIDADE

Dia desses eu fui jantar na casa da minha amada Sônia, mãe dos queridos André e Marcela, e lá encontrei-me com o Rodrigo, primo desses dois, sobrinho daquel´outra. Disse-me o Rodrigo, comentando sobre o episódio envolvendo a garotada do jongo da Serrinha, que relatei aqui, que tudo na minha vida era encantado demais, bonito demais, quase que duvidando das belezuras que conto aqui no Buteco do Edu. Não duvidava de mim, exatamente, mas queixava-se, numa pilhéria, do marasmo de sua vida em contraste com as surpresas da minha.

Não estava – confesso de pé no balcão imaginário – exagerando, o Rodrigo. Posso queixar-me de tudo: da carestia, do pouco dinheiro, do time do Flamengo, do janeiro estranhíssimo desse 2007, da distância de amigos queridos que insistem em não viver no Rio, menos das surpresas que a vida me apronta. Só que ontem, quinta-feira, 18 de janeiro de 2007, as coisas tomaram proporções bíblicas, vou explicar.

Às oito da manhã eu chego na Assembléia Legislativa, no Centro do Rio, para encontrar a  Beth Carvalho. Eis aí o primeiro milagre. A Beth não levanta, nunca, antes das duas da tarde. Mas lá estava ela, de pé, como eu, às oito, para a cerimônia da entrega da medalha Tiradentes ao presidente venezuelano, Hugo Chavez.

O que aconteceu? A cerimônia foi transferida para hoje – sexta-feira – e vimo-nos, os dois, juntamente com dois grandes praças – Beto Almeida e Mário Augusto – sem saber o que fazer.

Só que o Rio, meus poucos mas fiéis leitores, é uma cidade mágica e muito mais bonita do que a cidade mostrada nos jornais. Eu disse à Beth:

– Vamos à Folha Seca? Quero que você conheça a livraria do meu coração, a mais carioca de todas, quero que você conheça o Rodrigo, a Dani, o chef Santos… Vamos?

Nem titubeio houve. Fomos.

Preciso dizer, em nome da precisão que me caracteriza, que eu estava a caráter: terno, gravata, pasta, muito a fazer e muitos compromissos.

Mas a minha cidade, onde fico à vontade como em nenhum outro lugar, é capaz de nos encorajar para o ócio, para o prazer puro e simples, para esse fundamental gesto de jogar pra escanteio, sem culpa, o terno, a gravata, a pasta, o muito a fazer e os compromissos.

Chegamos à livraria, caminhando, às dez em ponto, justamente no horário em que a Folha Seca abre. E eis aí outra característica nossa, carioca, outra marca que nos identifica. Foi a Beth entrar na livraria, passar os olhos pelas prateleiras, sentar à mesa e dizer:

– Que livraria!!!!!

Ali, naquele exato instante, eu tive uma certeza inabalável: eu não trabalharia.

Diante dessa certeza não me restou outra alternativa: afrouxei o nó da gravata e mandei vir a primeira garrafa casco escuro.

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Éramos, àquela altura, pouco antes das onze da manhã, cinco seres humanos felizes dentro da livraria… Eu, Beth Carvalho, Beto Almeida, Rodrigo Ferrari e o Bruno.

Até que o Rodrigo mandou a nota:

– Vamos ao Casual antes que lote!

Saímos da loja e a Beth, picada pela carioquice febril que tem na Folha Seca o habitat ideal para agudíssima proliferação, disse:

– Quero jogar no bicho!

Eu emendei:

– Joga no 37, número da Folha Seca, rua do Ouvidor 37!

O apontador:

– Escolhe uma milhar, madrinha!

A Beth é, como se sabe, madrinha de todos nós.

E ela, de voleio:

– 5137!

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Fez o jogo. Cercou pelos 12, inverteu milhar e centena, cravou no coelho, mandou um duque de dezena, pagou os trinta reais e partimos pro Casual, do chef Santos.

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E quem chegou?

Quem chegou?

Ele, o portento, o talento, o genial, Tiago Prata! Beth fez festa, Rodrigo fez festa, eu fiz festa, e já sentados à mesa do Casual fomos de chope, alheiras, bolinhos de bacalhau, costelinhas assadas, batatas ao murro, cantamos sambas de enredo, choramos – sim, meu pai, choramos todos diante da beleza – e depois de pagarmos a conta decidimos, para o bem de todos e felicidade geral da nação, voltar para a livraria.

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Voltamos, disfarçamos todos tomando um café expresso e o Digão cochichava ao meu ouvido:

– Que noite ontem, que dia hoje!

Pausa esclarecedora: na véspera, quarta-feira, entrevistamos o João Bosco. Eu, ele, Simas e Leo Boechat. Em breve, brevíssimo, publicarei aqui a entrevista na íntegra, como sempre. Foi, devo confessar desde já, emocionante. Encontramos o João numa tarde/noite inspirada, num buteco pé-sujo na Marquês de São Vicente, na Gávea, derrubamos uma garrafa de Red Label, bebemos quase um engradado de cerveja, e o resultado – vocês verão! – foi surpreendente!

São quase três da tarde e o apontador de bicho invade a livraria:

– Dona Beth! Dona Beth! A senhora ganhou 300 reais! Por um número… Se desse 5137 ao invés de 6137 a senhora levaria mais de dois mil!

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Vão tomando nota dos fatos da tarde. Tudo soa à mentira. Tudo tem cores de lenda. Tudo parece inventado. Mas não, meus poucos mas fiéis leitores, não. Definitivamente, não. O Rio de Janeiro tem essa capacidade. O Rio de Janeiro tem essa impressionante capacidade de surpreender a gente, e aquela esquina, aquele trecho do velho centro do Rio – leiam isso aqui – tem essa mania apaixonante de produzir mágica atrás de mágica.

A Beth foi, na hora, receber seu prêmio.

E a rua do Ouvidor foi um só alarido! Ela pousou para um sem fim de fotografias, deu incontáveis autógrafos, e eu mesmo respondi à hilária pergunta de um passante:

– Perdão. Essa aí é a Beth Carvalho de verdade?

Quando já dávamos o dia/tarde por encerrado quem chega?

Quem? Moacyr Luz e Dorina.

Há mais festa no interior da livraria.

Môa toca e canta. Beth canta e chora. Eu choro. Dorina canta. E o Rodrigo prossegue, guinchando baixinho:

– Que noite ontem! Que dia hoje!

Szegeri, meu mano Szegeri, o paulista mais carioca da paróquia, possivelmente sentindo apertar o peito diante de tamanha boniteza, bate o telefone pra mim. E eu choro – de novo, meu pai… eu chorei de novo… – contando sobre tudo.

Moacyr, Dorina e Beth batem em retirada por volta das sete e meia da noite. Vão em direção à Gamboa. Eu recuso o convite e fico. Eu fico porque minha menina, a Sorriso Maracanã, está chegando de Curitiba. Eu fico e fecho a loja com o Digão às oito, depois de dez horas seguidas de batente.

E vamos a pé até a Praça Tiradentes, onde ele fica e de onde eu tomo um táxi para casa.

Vim mudo, sem falar palavra.

Só fui abrir a boca – e o coração, e a alma – quando a casa encheu-se de luz com a chegada da moça com um sorriso do tamanho da cidade que eu amo e onde fico à vontade.

Com a licença do Aldir e do Moacyr… Deus desenhou meu coração de um jeito igualzinho ao velho Centro do Rio.

E fiquei no colo da mulher amada contando sobre o dia. Contando sobre o dia mágico que vivi. Ela sorriu diversas vezes, como quem sorri pra uma criança diante do encantamento novidadeiro de uma descoberta. Fez festinha nos meus cabelos, enxugou minhas lágrimas com as mãos em cujas linhas tropecei faz tempo. Disse-me, com a doçura que só têm os cúmplices:

– Não fosse você me contando, meu amor, e eu diria… mentira!

Tal e qual me disse o Rodrigo, sobrinho da Sônia.

Vai ver que foi tudo mentira mesmo.

Mais uma peça pregada pela cidade-mulher, da qual sou, como diria Paulo da Portela, grande admirador.

Eu pensei – juro! – à certa altura, que eu estava de fato delirando… que eu abrira um livro qualquer, numa qualquer prateleira daquela portentosa livraria, e entrara, literalmente, dentro de um enredo encantado, para viver, de verdade, uma das mais bonitas histórias já escritas.

Até.

P.S.: depois não digam que eu não avisei. No sábado, amanhã, a partir das 13h, acontece a festa de 3 anos de vida da livraria Folha Seca que embarca nas comemorações do dia do padroeiro, São Sebastião do Rio de Janeiro, como já anunciei aqui. Não me venham dizer, na semana que vem, quando eu contar sobre a festa – que se anuncia antológica – que é tudo exagero meu, mentira minha, delírio.

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MOACYR LUZ CANTANDO – I

Havíamos acabado de chegar, Moacyr e eu. O Beco do Rato ainda sendo lavado, o Môa tirando os troços de dentro da sacola – a cachaça, as castanhas do Pará, as cuités, o peixe, os camarões – e depois o violão. E mostrou-me sua mais recente composição com o Sereno, com quem já fez quatro canções (outra delas também gravada por mim e que mostrarei em breve). Música do Sereno, letra dele, Moacyr. Aliás, curiosamente, os três vídeos que vou pôr aqui, ao longo da semana, provam que o letrista Moacyr nada deve ao melodista. Eis a letra e o vídeo.

“Um samba-enredo
Se eu falasse de Natureza
Cantaria de tristeza um amor
Sem cor
As folhas secas de uma vida
Estão queimando na despedida
Um botão de flor

(eu tenho medo)

E o samba chora
Claridade que me apavora
É a madeira que foi embora
Dessas mãos
Sem chão
Sementes caem feito presas
Por isso um samba de Natureza
Dói no coração

Um bem-te-vi sozinho
Não vê caminho e a saudade mata
Um azulão sem ninho
Asa no espinho de outra mata

Assim na minha alma de aprendiz
Se a natureza não é feliz
Eu não sou…

Um rio
Que de repente, passou, perdi
Agora é a lagrima que por ti
Jamais secou”

Até.

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