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NO DIVÃ

Quem me lê sabe: há anos – anos! – eu esculhambo, com fulcro na visão rodrigueana que me acompanha, a figura do psicanalista, do psicólogo, do psiquiatra (pus as nobilíssimas profissões em ordem alfabética para não ferir suscetibilidades). Vejam vocês – e é só um exemplo – o que disse, sobre estes profissionais, o inigualável Nelson Rodrigues, em A vida como ela é… O homem fiel e outros contos:

“A mãe de Bebeto e as tias benziam-se só de ouvir falar em psiquiatria. D. Detinha interpelou o marido: “Você quer que o Bebeto vá tratar de malucos?”. Acrescentava, para os lados: “Deus me livre!”. No fundo o que a assustava era a possibilidade de que um dos futuros clientes do filho o esganasse, num acesso homicida. Dr. Sinval teve que esclarecer:

— O Bebeto pode fazer psicanálise.

Explicou que a psicanálise não oferecia o menor perigo, nem para o médico, nem para o doente. Aventurou uma blague segundo a qual o mais perigoso dos dois era, ainda, o psicanalista. Impressionada, d. Detinha pediu outras explicações. Então, o dr. Sinval, mascando o charuto, afirmou:

— Sabe o que é a psicanálise, para encurtar conversa? Um bate-papo.

— Como assim?

E ele, convicto: “O médico senta e o cliente deita. Os dois se põem a conversar e pronto. Isso é a psicanálise”. Houve, em torno, uma impressão profunda, que tocou o próprio Bebeto. D. Detinha engoliu em seco: “Só?”. Confirmou: “Só”. E foi acrescentando:

— Ainda por cima, o seguinte: o analisado não é doente nem aqui, nem na Cochinchina. Na maioria das vezes, tem uma saúde de ferro e vai lá porque não tem o que fazer e pode pagar duas mil pratas por sessão.”

Vai daí que eu, premido por várias questões (não vêm ao caso, quais), fui parar no colo (ou melhor, no divã) de uma psicanalista. Escrevi no divã e já me corrijo: eu jamais deitei-me, ou mesmo sentei-me, no tal divã (tenho, do divã, uma paúra pânica). Passo as sessões sentado na cadeira de palha diante da médica (é uma médica) com os pés – apenas os pés – apoiados no divã. Isso  – essa minha obsessão pela mesma posição na mesma cadeira e com os pés, sempre, sessão após sessão, sobre o divã – já deve ser um prato cheio para a doutora (é o que imagino).

Vivo – é o que quero lhes contar -, por conta disso, desde a primeira sessão, uma sensação de fracasso absoluto. Eu, 42 anos e alguns meses de vida, desde o berço, desde antes de aprender a ler (e antes, portanto, de ler Nelson Rodrigues, e eu só leio Nelson Rodrigues), já tinha uma aversão agudíssima aos psicanalistas, aos psicólogos, aos psiquiatras. E de repente, não mais que de repente, lá estava eu diante da psicanalista rasgando minha pequena biografia íntima, pisoteando minhas convicções, estuprando, como uma fera possessa, as frases que repeti a vida inteira com denodado orgulho.

E desde ontem – desde anteontem, a bem da verdade – uma coisa me perturba a ponto de me tirar o sono (não preguei o olho a noite passada). Tenho, ainda, e cada vez mais viva, a mesma aversão que eu tinha (esse verbo no pretérito imperfeito é como um punhal no meu peito) aos médicos da alma ao cinema iraniano e ao partido do sol e da liberdade. Pois passei a me perguntar enquanto fumava pela sala escura de minha casa:

– Estarei, um dia, no Buraco do Lume, festejando o bigode ou o não-bigode do Milton Temer?

– Flagrar-me-ei, numa manhã de domingo, dançando ciranda de mãos dadas com o Chico Alencar em Copacabana?

– Será que um dia serei um fanático pelo cinema persa?

E essa possibilidade de novas violações às minhas convicções foi capaz (foi ela!) de me fazer atravessar a noite em vigília.

Bastou, entretanto, nascer o sol para tudo se esvair.

Donde se conclui que a noite é minha senhora, uma espécie de feitor impiedoso a me trazer lembranças assustadoras e possibilidades trágicas. Ontem, por exemplo (e é por isso que lhes escrevo hoje sobre este tema), lembrei-me da Núbia, colega de faculdade, e a imagem da Núbia parecia gargalhar de mim, submetido, hoje, ao tratamento psicanalítico. Vou lhes contar sobre a Núbia.

A Núbia estudava na PUC, era minha contemporânea. Eu fazia Direito, a Núbia psicologia. Estamos em 1989, ano da primeira eleição presidencial depois dos anos de chumbo. Eu era Brizola, a Núbia era Roberto Freire (na ausência do PSOL, o PCB quebrava o galho dessa gente). E a Núbia achava que pra tudo, tudo, tudo!, a terapia era a solução. Vejamos.

Lembro-me de uma sexta-feira. Na vila dos diretórios, onde fumava-se maconha com a mesma liberdade que sonha o Renato Cinco. Todos (penso que até o Reitor) davam seus tapas, todos. Menos eu. E a Núbia chegou-se a mim, determinado dia. Tinha, entre o polegar e o indicador, aquela guimba nojenta, babada, entre o verde e o marrom. Diante de mim, aspirou, tampou o nariz (era lindo, o nariz da Núbia) e estendeu-me o psicotrópico. Recusei. Ela:

– Há tempos percebo que você nunca fuma…

Sempre tive, de fato, horror à maconha. Respondi:

– É. Não gosto.

 E ela, cravando os olhos vermelhos nos meus:

– Já tentou terapia?

E essa sugestão – já tentou terapia? – era um bordão na boca carnuda da Núbia (era linda, e carnuda, a boca da Núbia). Servia pra tudo. Você se irritava diante da fila do elevador e ela fazia a sugestão. Você reclamava da qualidade sofrível da comida do bandejão, ela fazia a sugestão. Eu, que sempre fui um feio, tentei beijá-la não me lembro quando. Ela empurrou-me com nojo e disse:

– Você já tentou terapia?

E esse acúmulo de sugestões foi solidificando em mim esse horror que eu tinha – tinha – à idéia da terapia.

Quero voltar a falar do bigode do Milton Temer, vocês vão entender porquê.

Como lhes contei, em 1989, a Núbia fez campanha para o candidato do PCB, Roberto Freire (hoje, um pobre-diabo que não vale um tostão). Mas a Núbia tinha – disso me lembro com nitidez impressionante – fixação por um deputado estadual do PT: justamente o Milton Temer. E a Núbia, também é vivo na minha memória esse episódio, tinha verdadeiro fascínio pelo bigode do aguerrido deputado, então do PT (agora no PSOL).

Havia outra moça (não lembro seu nome nem a fórceps) que apoiava o Lula e que não era do PT, dizia ser de uma tal ala mais radical, da linha chinesa. Fanática (vejam vocês a força dos bigodes!) pelo bigode do Stalin. E me lembro das duas, durante o fumacê na vila dos diretórios, disputando pra ver quem tinha o bigode mais charmoso, se o Milton Temer ou o Stalin.

Sei que é o seguinte: vali-me de vários meios e achei, vejam vocês, o telefone da Núbia (e eu não falava com a Núbia desde 1992). Disquei e conversarmos por mais de meia-hora. Falamos da vida, das nossas carreiras (Núbia atende em casa, na Praça da Bandeira, está na miséria mas se declarou muito feliz), demos de falar sobre política (Núbia, é claro, é militante do PSOL) até que eu disse:

– E o Milton Temer?

Ouvi um suspiro que me sugeriu desolação. E ela disse:

– Tirou o bigode. Falamos depois.

É ou não, o PSOL, um partido incrível? Consegue, e só ele consegue, fazer da ausência de um bigode um assunto, um tema, uma pauta.

E no caso da Núbia, um trampolim para a depressão.

Até.

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UM BIGODE

Acabo de chegar da rua. Voltando do Tribunal de Justiça, encostei-me no balcão do Bar dos Advogados, na avenida Erasmo Braga. Ah, a avenida Erasmo Braga… Pacata rua só de pedestres, o trecho a que me refiro fica entre a Graça Aranha e a Presidente Antônio Carlos, ao lado do Edifício Garagem Menezes Cortes. Encostei-me no balcão do Bar dos Advogados e pedi, com fome, ao balconista:

– Duas torradas, sem nada, e um café, por favor… – estou em rigorosa dieta.

Estava eu dando a primeira mordida na primeira torrada quando percebi, ao meu lado, duas mocinhas. Vou descrevê-las.

A primeira vestia calça jeans rasgada (o rasgo ficava na altura do joelho, que estava sujo), blusa de crochê vermelha (estava sem sutiã), umas sandálias de couro cru com fecho (os pés, é preciso que eu diga, lindos), tinha – o quê?! – seus 21 anos, um tererê colorido pendendo dos cabelos ruivos e se coçava, a mocinha, feito um cão sarnento. A outra, um pouco mais velha (23 anos, talvez), vestia uma bermuda branca (encardida), uma mini-blusa amarela, usava um All Star também amarelo e pediram, as duas, fatias de pizza e suco de caju.

Bonitinhas, eu diria – nada mais que isso.

Lanchei – é o que quero lhes contar – aos atropelos.

Não consegui acreditar, até agora, no que eu ouvi.

A ruiva, excitadíssima, comendo de boca aberta, perguntou à amiga:

– ´cê tá sabendo do Milton?

A amiga:

– Não. O que houve?

– Radicalizou.

Quando ela disse radicalizou eu perdi a compostura e passei a prestar, de forma acintosa, atenção à conversa. Seguiram, ainda mais excitadas:

– Conta, amiga! Conta! Conta, conta, conta!

A ruiva, coçando a cabeça com a extremidade de um canudo (o mesmo usado para sorver o suco de caju):

– Voltou de férias sem o bigode!

Eu já era, a essa altura do campeonato, um curioso. Perguntava de mim para mim:

– Que Milton? Que Milton? Que Milton, e que bigode, podem ser tão importantes?

Prosseguiu, a ruiva:

– O Temer, véia, o Temer é radical.

Explodi numa gargalhada, engasguei com um pedaço da torrada, as duas me cravaram os olhos:

– O que foi, tio? – e esse tio, dito pela mocinha dos cabelos ruivos, me flechou o combalido coração.

Fiz que não era comigo.

A de bermuda encardida, fez a blague:

– De terno, cara. Só pode ser um capitalista nojento…

Terminei meu lanche sem lhes dirigir novo olhar. Ouvi a ruiva:

– Tu conhece o Temer? Milton Temer?

Virei-me:

– De outros carnavais… – e fui ao caixa.

E fui ao caixa aterrado. O PSOL, pensei, faz da ausência do bigode do Milton Temer um assunto, uma pauta! Paguei meu lanche. Disse à senhora:

– A senhora pague, por favor, duas torradas, um café, duas fatias de pizza e dois sucos de caju. – e estendi a nota de cinqüenta.

Passando pelas duas, disse:

– O lanche de vocês está pago. Boa tarde.

Vim até a portaria de meu prédio ouvindo impropérios. Até “abaixo o FMI” eu ouvi.

Sexta-feira, a próxima, vou ao Buraco do Lume para ver se encontro as moças. E pra ver – não vejo a hora! – o radical sem bigode.

Até.

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