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E LÁ VAMOS NÓS!

Bem, meus caros, poucos mas fiéis leitores… Parto hoje, com a Sorriso Maracanã, a mulher que me ensinou a sorrir, essa força bruta e delicadíssima que é a Dani, para dez dias em Portugal. Estou, assim, exaltando a Dani nesse momento não apenas porque estou nessa manhã, depois de quase sete anos a seu lado, ainda mais apaixonado que ontem, mas porque eu me borro de medo de avião, de viagem, tenho tremores só de olhar mala, e só a mão da minha garota é capaz de me devolver a paz e a tranqüilidade. Só seu cheiro é capaz de me servir de calmante, só seu sorriso é capaz de me fazer esboçar um sorriso quando o avião decola, só seu abraço me faz cochilar durante o vôo.

E vamos parar com isso, ou daqui a pouco os comentários começam a chegar, ai, que lindo, oh, que amor bonito, ui, que relação é essa?, e o Szegeri vai me esculhambar.

Por falar em esculhambar. Pô. Saquem o “bilhete eletrônico” emitido pela TAP.

bilhete eletrônico da TAP

Feiíssimo. Sem charme algum. Era bem mais interessante – vejam como um pobre, um tijucano raciocina – aquele libreto, páginas e mais páginas, carbono vermelho, mil e uma instruções, tudo mais solene, mais grave, mais emocionante. Agora, não. Em nome da praticidade, do corte de custos, dessas merdas que nos atropelam, a gente imprime, de casa, o bilhete aéreo, banalizando um troço que, ao menos para mim, é altamente importante eis que sinto-me, sempre, na iminência da morte quando viajo.

São só dez dias, lembrem-se disso. Embarcamos de volta – se lá chegarmos, toc, toc, toc na tábua de madeira imaginária – no dia 05 de junho. Ou seja, pouquíssimo. Mas mesmo assim, mesmo sendo pouquíssimo, notem como os queridos que me cercam me conhecem bem. Dão, a essa mínima viagem, a essa curta ausência, uma importância como a que foi dada à viagem do major Marcos à Estação Espacial Internacional (ISS). Vejam.

Hoje já chegou e-mail da Maria Paula e da Manguaça. Almoçam conosco, hoje, no Salete, a Inês, a Guerreira e a Betinha. A Guerreira irá nos levar ao aeroporto, para onde também vai, para um beijo-tchau, o Mauro, que já esteve conosco ontem à noite, bem tarde, no Rio-Brasília, para um beijo-tchau também. Eu fui assistir ao jogo do Flamengo e Dani chegou, tadinha, tardíssimo, arrumando as malas, eis que eu não guardo nem meia. Ontem ligou-me o Pompa, de São Paulo, para um solene “boa viagem, meu irmão”, e eu chorei quando desliguei. Ah, sim. Disse-me mais, o Pompa, em tom de súplica:

– Querido… Não vá ao Rock in Rio, por favor…

Papai, mamãe, minha sogra, Maguinha, a irmã que eu não tive, todos ligaram como se fôssemos ficar um ano fora. Talvez seja tudo reflexo do que me vai na alma numa altura dessas.

Mas, enfim. Amanhã, às 6h40min, horário de Lisboa, estarão a nossa espera, no aeroporto, Próspero e Cidália, pais da Inês, que gentilmente acataram o pedido da filha:

– Resgatem o Edu e a Dani no aeroporto, por favor!

Lá ainda encontraremos o Cristiano, meu irmão, que fugirá, por cinco dias, de Clermont-Ferrand, e a Fumaça, que fugirá, por dois dias, de Maputo.

Estou levando na bagagem meu palmtop de pobre, o mesmo que levei para Belo Horizonte. Prometo, para o retorno, relatos detalhados, bem à minha moda.

Até.

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FEIJOADA COMPLETA

 

Eu tenho sido acometido, de uns anos pra cá, aos domingos, de um troço que não dá nem pra chamar de mal, até porque é bom pra cacete. Acordo com uma sede de anteontem. Não importa o que foi feito do sábado, domingo eu levanto e às vezes dispenso até mesmo o café da manhã. Tamanha a sede. E anteontem, domingão, acordei não apenas com a sede de anteontem, mas também com uma fome que nem me contem! E de feijoada! Oito da manhã, aproveitando o mote de que na véspera, sábado, foi aniversário da minha mui querida Manguaça, bati o telefone pra Sônia. E fiz a proposta indecente. Eu iria ao Mundial (da Rua do Matoso, é claro), compraria tudo e me mandaria pra lá. Ela sorriu, disse que faria o arroz, picaria a cebola e o alho pro refogado e combinamos de eu estar lá antes das 10h.

E eis que fui ao Mundial e de lá parti pra Sônia com dois quilos de feijão preto, dois quilos de charque, dois de lombo, um quilo de lingüiça portuguesa, um de lingüiça calabresa, um de paio, um pé e um rabinho. Já fui recebido com caipivodka e com aquele abraço. Enquanto eu punha o feijão de molho, cortava as carnes, as laranjas pra cozinhar com o feijão (truque aprendido não-conto-com-quem), separava as folhas do louro, escaldava o pé e o rabo com limão, Sônia e Manguaça tratavam de convocar os sortudos, que foram chegando aos poucos: Dani Sorriso Maracanã (obviamente), Vidal e Gláucia, Dalton e Rino, André e Marcelo, Guerreira e Zé, Lelê Peitos, Zé Colméia e Vinagre, uma tia e a vovó.

 

E eu que sou de uma falta de modéstia olímpica não escondia o orgulho ouvindo os ohs e os ahs da Sônia diante da minha performance. Ela confessou, a certa altura, temer pelo feijão. A falta de tempo pra dessalgar as carnes, cozinhar o lombo, o rabinho, e se dizia estupefata diante do cheiro da comida, do chocolate do feijão, do sal no ponto certo (das carnes, sem uma pitada sequer).

E o glorioso momento do refogado? Sônia dizia “mas que dourado, mas que dourado…”, numa tietagem explícita, aquele tantão de cebola e alho submergindo no feijão fumegante.

Ficou perfeita. Os comensais gritavam “a melhor que você já fez”, “a melhor que já comi na vida”, “dá pra levar quentinha?, e a couve estava nos trinques, a farofa deliciosa, o arroz soltinho, a laranja gelada, e bebemos olimpicamente até 23h30min, quando a Sônia foi à sala de camisola e jogou beijinho.

Neguinho se mancou nessa hora.

Mas foi um senhor domingo.

Curioso e engraçado é que eu venho, há quase um ano, tentando marcar alguma coisa com a Sônia, um almoço, um jantar, e nada.

Foi um telefonema num dia inspirado e pronto: deu-se o encontro.

 

Pra encerrar, a foto desses dois sorrisos de felicidade já de pança cheia de feijão. Vidal, a Lenda, e Lelê Peitos, a Sorriso Via Láctea na visão do meu irmão Szegeri.

Retrato, aliás, da manhã, tarde e noite desse domingo. Um tremendo astral, todo mundo num absurdo bom humor, brindando à vida, à graça do encontro, com boa bebida e boa comida (eu não resisto a um último eleogio).

Até.

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FUMAÇA VERSÃO 2006

Na foto acima, Dani Sorriso Maracanã, eu, Fumaça e meu copo de uísque numa dose à VM, ou à Vinicius de Moraes, na noite do reveillon.

Citei a Fumaça e sou obrigado a reparar um erro grosseiro que cometi quando lhes contei sobre a noite de lançamento do livro no Estephanio´s. Disse eu, à certa altura, que a Incêndio comprara algo entre 4 e 5 livros. Errei. E de pé no banquinho imaginário corrijo-me entre chibatadas de autoflagelo nas costas: a Incêndio comprou quase 20 livros. Feita a correção, vamos em frente.

A Fumaça, já lhes disse, ri como quem respira. Mais-que-ri. Gargalha.

Veio de Maputo, onde está a trabalho, para passar o 31 de dezembro entre os amigos. E eis que à meia-noite, depois dos fogos, chega à festa toda a família inflamável. À Fumaça juntaram-se Incêndio, Bombeiro, Brasa e Ventarola. Ou, como queiram, à Débora juntaram-se Terezinha, Oswaldo, Paulo e Duda. “Ventarola?”, ouço daqui a Fumaça perguntar. E eu respondo que sim. É a Duda, que mantém o Brasa aceso. Vamos seguir.

A Fumaça, com quem encontrei-me no 31 pela manhã, fazia juras as mais pífias.

– Não ponho uma gota de espumante na boca hoje.

– Vou ficar na Coca Light.

– No máximo uma cervejinha.

E eu rolava de rir no chão de mármore da mansão à beira-mar (rolava no chão de mármore eis que tal sensação, para um tijucano de quatro costados, é de uma delícia indizível).

Duvidava de suas juras bizarras, feitas com os indicadores cruzados sobre os lábios, dando beijinhos na própria mão.

E veio a festa e a Fumaça bebeu Mumm no gargalo, socou o garçom que lhe ofereceu uma Coca Light e bebia um copo de cerveja a cada cinco taças de espumante, fora as bicadinhas esporádicas no meu uísque.

Como também já contei, o dia primeiro foi todo ele passado na casa da Maria Paula no Leblon, onde o piso também é de mármore e onde eu também rolava pelas mesmíssimas tijucanas razões.

Bebemos e comemos aquilo que nós, da zona norte, chamamos de “enterro dos ossos”, nome esdrúxulo pro troço já que há de tudo, menos osso no farnel.

Mas houve um destaque no tal pequenique.

Não sei se vocês hão de se lembrar, e tal história está, inclusive, contada no “Meu Lar é o Botequim” (comprem, comprem, comprem!), mas a Fumaça sofre de fome crônica, e foi capaz de ignorar solenemente a beleza imponente do Coliseu, em Roma, perturbada que estava pela vontade incontrolável de comer.

Dezoito horas do primeiro dia do ano.

E na sala eu, Dani, Maria Paula, Guerreira, Zé, Giulia e Fumaça.

E a Fumaça, que sempre sorri, deu de chorar dando socos nos braços da poltrona em que se encontrava.

Maria Paula preocupada:

– O que foi Debs?

Dani fazendo festinha:

– Ô, meu amor, aissipitu… (palavrinha de seu dicionário)… o que foi? É a viagem de volta pra Maputo, né?

E a Fumaça, entre soluços que espumavam salivinha pra fora da boca misturada às lágrimas:

– Não… Tô com fome!

Maria Paula, Dani e Guerreira se entreolharam e apontaram, as três, pras bandejas na mesa do centro. Frios, pães, patês, uma tonelada de comida. E a Fumaça, determinada:

– Não, não e não! Tô com fome de rabanada!

Maria Paula acionou a padaria de fé e em 20 minutos chegaram dois pães daqueles gigantescos de rabanada, leite, ovos, açucar, canela e óleo. Fui à cozinha preparar as rabanadas.

E diante do fogão eu ouvia os guinchos da faminta.

Chego à sala com a bandeja onde estão dispostas 40 rabanadas.

E assistimos, perplexos, àquele espetáculo estrelado pela Fumaça que, percebemos, incorporara de vez o espírito africano. Devorou, em coisa de 10 minutos, 30 das 40 rabanadas.

Riu. Dormiu. E roncou. Felicíssima. Com o vestido salpicado de açucar e canela.

Até.

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GUERREIRA EM PARATY

Na foto, a elegância suprema da Guerreira, de quem papai é fã número um. “Uma elegante, eu gosto da Guerreira”, repete papai sem cansar. E de fato é, a Guerreira, uma européia, uma elegante, e falando sobre Paraty durante toda essa semana que começa hoje, quero tentar, ainda que minimamente, derrubar esse mito que transforma a Guerreira numa incapaz de qualquer gesto, digamos, mais baixo. Vamos aos fatos.

Partiu o ônibus do Rio na sexta-feira às oito da noite. Eu, Dani, Fefê, Brinco, Dedeco, a namorada (cujo nome jamais vou dizer), Branco, João, Chico Maracanã, Aranha, Manguaça, Fernanda, Fumaça, Guerreira, Marquinho, Cicinho, e éramos quase quarenta seres humanos com sede de cana, que o festival é de pinga e é por ela que fomos todos. O ônibus, politicamente incorreto, era um fog de fumaça de cigarro e tinha, num par de poltronas, um isopor cheio de cerveja e gelo. Bebemos olimpicamente no trajeto a Paraty.

E lá chegando, tomamos cada um o rumo de seu quarto.

Nesse instante é preciso dizer que a Guerreira já chegou a um passo de galopar. “Estou bebinha”, é o que repetia a Guerreira, e notem que nessa frase reside um pouco de sua elegância. E fomos à cidade.

E sentamos num buteco e prosseguimos os trabalhos. Coisa de duas da manhã, decidimos, eu, Dani, Guerreira e Fumaça, voltar à pousada.

E a Guerreira disse: “Gente, vamos ficar bebendo aqui fora… quero esperar a Marcy…”.

A Marcy, amiga de SP, partira em direção a Paraty, onde chegaria às três da manhã.

E chega a Marcy. E a Guerreira, trôpega, mas cavalgando com aqueles pernões longos, pendura-se na Marcy e grita “Ôba, que bom que você chegou…”, mas esse “ôba, que bom que você chegou” foi dito de forma ininteligível, lentamente, ela babando no ombro da Marcy, que, assustada, disse… “Nossa, Lu… você está bem bêbada, heim…”.

E a Guerreira – notem a frase!, notem a frase!: “Pô… intimidade é uma merda… a gente não consegue esconder o porre de uma amiga íntima…”.

E teve mais: voltando ontem, o ônibus, em côro, começou, inexplicavelmente, a cantar os hinos brasileiros. O Nacional, o da Bandeira, o da Indendência. E eis que ecoou no coletivo: “Salve lindo pendão da esperança / Salve símbolo augusto da paz…”.

E a Guerreira, na poltrona de número 1, guinchava, chorava, gritava uns “ai, ai, ai”, e eu fui a ela.

“Ai, Edu… vocês falaram no Augusto… me deu uma saudade dele…”, e seguiu chorando, alagando o ônibus, até o desembarque.

Até.

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