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O OUTONO DO TEMPO DE FERNANDO SZEGERI

Meu irmão e compadre, Luiz Antonio Simas, só pra manter a tradição, escreveu o que eu gostaria de ter escrito sobre Fernando Szegeri, também meu irmão e compadre, aqui, no comovente convite em forme de texto, Os oito baixos de Fernando Szegeri. E o fez por conta do lançamento do livro Outono do meu tempo, de autoria do homem da barba amazônica, na próxima segunda-feira, 03 de dezembro, na livraria Folha Seca, a livraria do meu coração, na rua do Ouvidor nº 37.

Corri atrás do que disse sobre o Szgeri nosso irmão em comum, o saudoso Fernando Toledo, que conosco dividia o blog – o Conexão Irajá, que pode ser lido aqui que durou até durar Fernando Toledo, de quem tenho aguda saudade e que estaria orgulhoso com a publicação do primeiro livro de seu xará.

“Szé, O Impronunciável, também conhecido pela alcunha de Zé do Guéri Guéri (apud Nei Lopes) é uma criatura capaz de chegar num botequim às oito, beber todo o estoque de tudo que não o morda antes e ainda emitir opiniões inteligentes de madrugada, a caminho da rodoviária (e olhem que esta é apenas uma das histórias que testemunhei). Sabe-se lá para que em que mundos, em que estrelas se escondem os litros consumidos. Nascido por mero acaso em São Paulo, é mais carioca que 99,999999% da população do balneário. No café da manhã, bebe três doses de pandeiro, misturadas a quatro piadas de português e arrematadas com seis comentários sobre a bunda da mulher que acabou de passar. Existência saudável, esta do Szé.”

Pois quero dar meus humílimos pitacos sobre Fernando Szegeri, sempre citado por aqui, e fazer a convocação a todos vocês que me lêem, porque o lançamento de seu livro na Folha Seca, na rua do Ouvidor, onde está plantado o axé dessa cidade que ele tanto ama, é a grande pedida da segunda-feira.

Pai dedicado de três filhos (sou padrinho de suas duas meninas…), funcionário público igualmente dedicado, cantor de mão-cheia (ouça-o aqui, cantando uma obra-prima de Aldir Blanc), pensador inquieto e arquiteto de idéias geniais – um filósofo – o Fernando é, de longe, o sujeito que mais sabe de mim – e isso, talvez, por conseqüência de observações minhas, ao longo dos anos (antes mesmo de conhecê-lo) que foram me dando a certeza de que ele era um exemplo a ser seguido (é, também, um de meus orixás vivos).

É um brasileiro máximo, e não há nada no Brasil, o mais profundo, que lhe escape.

Em maio de 2005, quando lançamos o Conexão Irajá, tasquei lá:

“Minha alma irmã, é de longe o sujeito que mais chora que já conheci. Emociona-se com a mesma intensidade com que bebe e destila genialidade. Está para mim como Otto Lara Resende para Nelson Rodrigues. Um colosso de inteligência.”

E revalido, palavra por palavra, o que disse há mais de sete anos.

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O Fernando, ao mesmo tempo que é minha alma irmã, é um mistério pra mim. E eu acho que é um mistério pra mim porque eu não consegui, até hoje, depois de quase 15 anos de intenso convívio, dimensionar sua importância, compreender sua grandeza e absorver todos os seus ensinamentos.

Em seu livro, uma coletânea de mais de 25 anos de reflexões – não é coisa pouca.

E na segunda-feira – para encerrar essa convocação – você (como eu) terá a chance de vê-lo em ação: à mesa, entre os amigos, na cidade que tanto ama (na mesmíssima proporção em que a domina), na livraria que tem a cara dessa cidade, autografando Outono de meu tempo.

E vai que você dá sorte e vê, de perto, ao vivo e a cores, esses dois monstros – Luiz Antonio Simas e Fernando Szegeri – cantando juntos? Porque onde está Fernando Szegeri, meus poucos mas fiéis leitores, há música.

Até.

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RIO, 443 ANOS AMANHÃ!

Minha mui amada e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro faz anos amanhã, completando 443 anos desde sua fundação, a primeiro de março de 1565. Durante todo o dia, em todos os cantos da cidade, festa pra todos os gostos, de todos os jeitos, reforçando a faceta da mais bonita cidade do mundo, a de abrigar e a de abraçar a todos, cariocas ou não, ainda que seja necessário, em prol de evitarmos uma mudança muito brusca de rumos dessa mesma faceta, estarmos sempre com o regador ao alcance da mão. Pra bom entendedor, meia palavra basta e vamos em frente.

Eu, e penso que seja desnecessário dizer – mas vou dizer, o blog é meu, pô! -, estarei desde cedo de papo com os amigos na livraria do meu coração, a Folha Seca, bebendo uma Brahma estalando de gelada na Toca do Baiacu, beliscando uma coisa ou outra no Casual do Santos ou no Antigamente do Carlinhos, comemorando a graça de ter nascido aqui, de ter crescido aqui e de aqui viver até hoje com intenções arraigadas de tombar por aqui mesmo, que não há melhor lugar pra se viver.

E estarei comemorando não apenas o aniversário da cidade, mas também o aniversário de um carioca maiúsculo que, quando me bateu o telefone ontem, me flagrou já debruçado sobre seu presente:

Gabriel Cavalcante, rua do Ouvidor, 08 de dezembro de 2007

 

– Meu aniversário no sábado, hein, Edu!

O malandro, que faz anos no dia 04 de março, terça-feira, como bom carioca que é, dribla as horas, faz uma bainha no tempo, manda um acorde dissonante nos sete dias da semana e vai na aba do Rio de Janeiro festejando o aniversário no primeiro de março, na rua que fica a um passo da Primeiro de Março (salve, Salgueiro!), no canto da Ouvidor onde se assenta o poderoso axé que não permite o dobrar de joelhos da aniversariante maior, a cidade-mulher.

A partir do meio-dia, todos, então, à rua do Ouvidor, que a dica é abraçar a cidade ao som do samba e da voz desse rubro-negro também maiúsculo, merecedor do abraço de todos nós por mais um ano de vida.

A festa é deles dois, o presente é nosso.

Até.

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SÁBADO EM PAQUETÁ

O Rio viveu, no sábado, um dia glorioso, um dia desses que nos enche o coração de alegria, um dia desses em que sentimos uma flecha a menos no peito do padroeiro e que nos dá a certeza de que estamos salvos.

Teve samba na mais carioca das ruas, a rua do Ouvidor, em frente à livraria do meu coração, a Folha Seca, pra comemorar lançamento de livro do Pimentel e CD do Zé Luiz do Império.

E teve samba, também, em Paquetá, para o lançamento carioca do CD que registra a presença da Cristina Buarque no terreiro da rapaziada, competentíssima, do Terreiro Grande.

Minha garota queria, há anos, conhecer Paquetá. Surgiu, então, a oportunidade perfeita, capaz de me fazer, não sem dor, abrir mão de mais um sábado naquele canto da velha cidade, onde assenta-se o verdadeiro axé que mantém pulsante o coração carioca.

Não estive, portanto, no samba da Ouvidor. Mas quem lá esteve, como meu querido Luiz Antonio Simas, viveu uma grande tarde, o que pode ser atestado com a leitura de Antologia carioca, crônica escrita por um sóbrio Simas, que nada bebeu durante todo o sábado – leiam aqui. Sobre o samba de lá, também escreveu Maria Helena Ferrari, mãe do poço artesiano de ternura, aqui.

O furdunço em Paquetá começou com o embarque na Itapetininga; eu, minha Sorriso Maracanã e a Betinha juntamo-nos à multidão que partia, feliz da vida, em direção à ilha.

Teve samba no embarque, teve samba durante a agradabilíssima viagem de pouco mais de uma hora, e teve samba – e muito, e muito bom! – na esquina das ruas Doutor Lacerda e Pinheiro Freire, em frente a um bar que, verdade seja dita, manteve a cerveja, do primeiro ao último minuto, gelada, geladíssima, com capa nevada de gelo – o que é, convenhamos, raríssimo.

roda de samba em Paquetá, 24 de novembro de 2007
roda de samba em Paquetá, 24 de novembro de 2007
roda de samba em Paquetá, 24 de novembro de 2007

Assim que desembarcamos em Paquetá fomos dar uma volta pela ilha. Amanhã, sem falta, conto a vocês sobre o passeio que me lançou ao passado com uma força e uma intensidade difíceis de segurar.

vista da barca, saindo de Paquetá, 24 de novembro de 2007

Até.

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TERÁ O JOTA ENLOUQUECIDO?

O Jota, que além da lamentável coluneta diária intitulada GENTE BOA também escreve às segundas-feiras no igualmente lamentável SEGUNDO CADERNO de O GLOBO, parece ter enlouquecido, como a mãe do personagem que criou para esconder-se, hoje: Dom João VI.

Num texto paupérrimo – não é à toa que dizem por aí que o Jota soa pífio quando pratica o exercício de fazer embaixadinhas com as palavras – ele relata o passeio que ele próprio fez (eu vi, eu vi, eu vi!) na semana passada, mais precisamente no dia 28 de agosto de 2007, pelo Centro da cidade.

Mas notem este trecho…

trecho da coluna de Joaquim Ferreira dos Santos, publicada no jornal O GLOBO de 03 de setembro de 2007

Ele diz que quis comprar o quadro monumental – vejam aqui, que beleza! – que o poço artesiano de ternura, meu amigo Rodrigo Ferrari, ganhou de presente. É verdade.

Mas diz – mentindo – que os donos da livraria tergiversaram.

Em primeiro lugar: eu almoçava, no exato instante em que o Jota visitava a mais carioca das livrarias, com o Rodrigo Ferrari.

São apenas dois os donos da livraria… Portanto – eis a primeira mentira… – refere-se, o Jota, à queridíssima Daniela Duarte, a Dani Folha Seca, e não aos “donos da livraria”.

E a segunda mentira… Não houve tergiversação.

A resposta à proposta deselegante não foi evasiva, não foi em rodeio, não foi uma desculpa qualquer.

A resposta foi um NÃO rotundo, como diria meu eterno e saudoso Governador Leonel de Moura Brizola.

Até.

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SÓ FICO À VONTADE NA MINHA CIDADE

Dia desses eu fui jantar na casa da minha amada Sônia, mãe dos queridos André e Marcela, e lá encontrei-me com o Rodrigo, primo desses dois, sobrinho daquel´outra. Disse-me o Rodrigo, comentando sobre o episódio envolvendo a garotada do jongo da Serrinha, que relatei aqui, que tudo na minha vida era encantado demais, bonito demais, quase que duvidando das belezuras que conto aqui no Buteco do Edu. Não duvidava de mim, exatamente, mas queixava-se, numa pilhéria, do marasmo de sua vida em contraste com as surpresas da minha.

Não estava – confesso de pé no balcão imaginário – exagerando, o Rodrigo. Posso queixar-me de tudo: da carestia, do pouco dinheiro, do time do Flamengo, do janeiro estranhíssimo desse 2007, da distância de amigos queridos que insistem em não viver no Rio, menos das surpresas que a vida me apronta. Só que ontem, quinta-feira, 18 de janeiro de 2007, as coisas tomaram proporções bíblicas, vou explicar.

Às oito da manhã eu chego na Assembléia Legislativa, no Centro do Rio, para encontrar a  Beth Carvalho. Eis aí o primeiro milagre. A Beth não levanta, nunca, antes das duas da tarde. Mas lá estava ela, de pé, como eu, às oito, para a cerimônia da entrega da medalha Tiradentes ao presidente venezuelano, Hugo Chavez.

O que aconteceu? A cerimônia foi transferida para hoje – sexta-feira – e vimo-nos, os dois, juntamente com dois grandes praças – Beto Almeida e Mário Augusto – sem saber o que fazer.

Só que o Rio, meus poucos mas fiéis leitores, é uma cidade mágica e muito mais bonita do que a cidade mostrada nos jornais. Eu disse à Beth:

– Vamos à Folha Seca? Quero que você conheça a livraria do meu coração, a mais carioca de todas, quero que você conheça o Rodrigo, a Dani, o chef Santos… Vamos?

Nem titubeio houve. Fomos.

Preciso dizer, em nome da precisão que me caracteriza, que eu estava a caráter: terno, gravata, pasta, muito a fazer e muitos compromissos.

Mas a minha cidade, onde fico à vontade como em nenhum outro lugar, é capaz de nos encorajar para o ócio, para o prazer puro e simples, para esse fundamental gesto de jogar pra escanteio, sem culpa, o terno, a gravata, a pasta, o muito a fazer e os compromissos.

Chegamos à livraria, caminhando, às dez em ponto, justamente no horário em que a Folha Seca abre. E eis aí outra característica nossa, carioca, outra marca que nos identifica. Foi a Beth entrar na livraria, passar os olhos pelas prateleiras, sentar à mesa e dizer:

– Que livraria!!!!!

Ali, naquele exato instante, eu tive uma certeza inabalável: eu não trabalharia.

Diante dessa certeza não me restou outra alternativa: afrouxei o nó da gravata e mandei vir a primeira garrafa casco escuro.

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Éramos, àquela altura, pouco antes das onze da manhã, cinco seres humanos felizes dentro da livraria… Eu, Beth Carvalho, Beto Almeida, Rodrigo Ferrari e o Bruno.

Até que o Rodrigo mandou a nota:

– Vamos ao Casual antes que lote!

Saímos da loja e a Beth, picada pela carioquice febril que tem na Folha Seca o habitat ideal para agudíssima proliferação, disse:

– Quero jogar no bicho!

Eu emendei:

– Joga no 37, número da Folha Seca, rua do Ouvidor 37!

O apontador:

– Escolhe uma milhar, madrinha!

A Beth é, como se sabe, madrinha de todos nós.

E ela, de voleio:

– 5137!

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Fez o jogo. Cercou pelos 12, inverteu milhar e centena, cravou no coelho, mandou um duque de dezena, pagou os trinta reais e partimos pro Casual, do chef Santos.

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E quem chegou?

Quem chegou?

Ele, o portento, o talento, o genial, Tiago Prata! Beth fez festa, Rodrigo fez festa, eu fiz festa, e já sentados à mesa do Casual fomos de chope, alheiras, bolinhos de bacalhau, costelinhas assadas, batatas ao murro, cantamos sambas de enredo, choramos – sim, meu pai, choramos todos diante da beleza – e depois de pagarmos a conta decidimos, para o bem de todos e felicidade geral da nação, voltar para a livraria.

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Voltamos, disfarçamos todos tomando um café expresso e o Digão cochichava ao meu ouvido:

– Que noite ontem, que dia hoje!

Pausa esclarecedora: na véspera, quarta-feira, entrevistamos o João Bosco. Eu, ele, Simas e Leo Boechat. Em breve, brevíssimo, publicarei aqui a entrevista na íntegra, como sempre. Foi, devo confessar desde já, emocionante. Encontramos o João numa tarde/noite inspirada, num buteco pé-sujo na Marquês de São Vicente, na Gávea, derrubamos uma garrafa de Red Label, bebemos quase um engradado de cerveja, e o resultado – vocês verão! – foi surpreendente!

São quase três da tarde e o apontador de bicho invade a livraria:

– Dona Beth! Dona Beth! A senhora ganhou 300 reais! Por um número… Se desse 5137 ao invés de 6137 a senhora levaria mais de dois mil!

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Vão tomando nota dos fatos da tarde. Tudo soa à mentira. Tudo tem cores de lenda. Tudo parece inventado. Mas não, meus poucos mas fiéis leitores, não. Definitivamente, não. O Rio de Janeiro tem essa capacidade. O Rio de Janeiro tem essa impressionante capacidade de surpreender a gente, e aquela esquina, aquele trecho do velho centro do Rio – leiam isso aqui – tem essa mania apaixonante de produzir mágica atrás de mágica.

A Beth foi, na hora, receber seu prêmio.

E a rua do Ouvidor foi um só alarido! Ela pousou para um sem fim de fotografias, deu incontáveis autógrafos, e eu mesmo respondi à hilária pergunta de um passante:

– Perdão. Essa aí é a Beth Carvalho de verdade?

Quando já dávamos o dia/tarde por encerrado quem chega?

Quem? Moacyr Luz e Dorina.

Há mais festa no interior da livraria.

Môa toca e canta. Beth canta e chora. Eu choro. Dorina canta. E o Rodrigo prossegue, guinchando baixinho:

– Que noite ontem! Que dia hoje!

Szegeri, meu mano Szegeri, o paulista mais carioca da paróquia, possivelmente sentindo apertar o peito diante de tamanha boniteza, bate o telefone pra mim. E eu choro – de novo, meu pai… eu chorei de novo… – contando sobre tudo.

Moacyr, Dorina e Beth batem em retirada por volta das sete e meia da noite. Vão em direção à Gamboa. Eu recuso o convite e fico. Eu fico porque minha menina, a Sorriso Maracanã, está chegando de Curitiba. Eu fico e fecho a loja com o Digão às oito, depois de dez horas seguidas de batente.

E vamos a pé até a Praça Tiradentes, onde ele fica e de onde eu tomo um táxi para casa.

Vim mudo, sem falar palavra.

Só fui abrir a boca – e o coração, e a alma – quando a casa encheu-se de luz com a chegada da moça com um sorriso do tamanho da cidade que eu amo e onde fico à vontade.

Com a licença do Aldir e do Moacyr… Deus desenhou meu coração de um jeito igualzinho ao velho Centro do Rio.

E fiquei no colo da mulher amada contando sobre o dia. Contando sobre o dia mágico que vivi. Ela sorriu diversas vezes, como quem sorri pra uma criança diante do encantamento novidadeiro de uma descoberta. Fez festinha nos meus cabelos, enxugou minhas lágrimas com as mãos em cujas linhas tropecei faz tempo. Disse-me, com a doçura que só têm os cúmplices:

– Não fosse você me contando, meu amor, e eu diria… mentira!

Tal e qual me disse o Rodrigo, sobrinho da Sônia.

Vai ver que foi tudo mentira mesmo.

Mais uma peça pregada pela cidade-mulher, da qual sou, como diria Paulo da Portela, grande admirador.

Eu pensei – juro! – à certa altura, que eu estava de fato delirando… que eu abrira um livro qualquer, numa qualquer prateleira daquela portentosa livraria, e entrara, literalmente, dentro de um enredo encantado, para viver, de verdade, uma das mais bonitas histórias já escritas.

Até.

P.S.: depois não digam que eu não avisei. No sábado, amanhã, a partir das 13h, acontece a festa de 3 anos de vida da livraria Folha Seca que embarca nas comemorações do dia do padroeiro, São Sebastião do Rio de Janeiro, como já anunciei aqui. Não me venham dizer, na semana que vem, quando eu contar sobre a festa – que se anuncia antológica – que é tudo exagero meu, mentira minha, delírio.

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DIA 20 DE JANEIRO

Sábado que vem, não amanhã!, é dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião do Rio de Janeiro, padroeiro da mais linda cidade do Brasil, quiçá do mundo, que ainda pode se salvar, como vaticinaram Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro, autores do hino afetivo desse pedaço de terra.

Dia 17 de dezembro a livraria do meu coração, a Folha Seca, comandada por dois cariocas máximos, Daniela Duarte e Rodrigo Ferrari, comemorou três anos encravada ali, naquele lindíssimo canto da cidade, na rua do Ouvidor, entre a Primeiro de Março e a travessa do Comércio.

Vai daí que, juntando duas datas tão significativas, a Dani e o Rodrigo tiveram uma idéia genial, fomentada – devo dizer em nome da precisão e da verdade! – por mim, pelo Pratinha, pelo Simas, pelo Loredano e pelo Leo Boechat, num desses finais de dia lá mesmo, quando a livraria se transforma numa espécie de bar, de lar, nesses troços fundamentais na vida da gente.

convite para a festa de 3 anos da Livraria Folha Seca

No próximo sábado, então, 20 de janeiro, a partir das 13h, o coro come naquele pedaço do Rio, com muito choro, muito samba, muito caldinho de feijão, muita cerveja gelada, festejando mais um ano de vida de uma livraria que engrandece a cidade que, por sua vez, a acolhe como mãe.

Será, efetivamente, um puta prazer ver todo mundo lá.

Até.

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UM RIO DE LÁGRIMAS

Vejam vocês a ironia das situações! Vivi, no sábado, ao lado de queridos meus, um momento tão mágico quanto encantado, capaz de, até esse exato momento, me fazer questionar, sem exageros, se aquilo de fato aconteceu ou não. Vou lhes contar. Mas antes, vamos à ironia. O Flavinho, meu querido Xerife, deixou, hoje, às 8h32min, o seguinte comentário no texto dedicado ao Salgueiro, aqui:

“É o maior rio de lágrimas da net…”

Era, meu querido Flavinho, era. E vou explicar.

Acordamos no sábado, eu e minha Sorriso Maracanã, com uma determinação bíblica: vamos almoçar no Casual!

O Casual, para quem não conhece, é comandado pelo grande Santos, e fica na esquina da Rua do Ouvidor com a Travessa do Comércio, a poucos metros da melhor e mais carioca das livrarias, a Folha Seca, dos queridíssimos Rodrigo Folha Seca e Dani.

Batemos o telefone para papai e mamãe, que toparam o convite. Toparam o convite e amaram o restaurante e a livraria, que não conheciam. Foram horas de deleite, ali, saboreando lulas a vinagrete, punheta de bacalhau, muito chope, arroz de tamboril com camarão, taças de vinho tinto, e livros, e discos, e muito mais. Com outros compromissos, partiram os dois, deixando-nos ali, naquela esquina que nos reservava uma surpresa indizível.

Como a vida é feita de coincidências, e como as coincidências dão mais graça à vida pelo que guardam de inusitado, chegaram Simas e Candinha. E com eles, Adelino, Claudão e Ana com Clarinha, Rodrigão e Mônica com Miguel, Evelin, Joana, e Rodrigo Folha Seca com sua Joana depois de fecharem a livraria às 15h. Eu e Dani, evidentemente, sentamos à mesa com eles e havia, ali, como sempre há, diga-se, uma aura de coisa boa que as palavras não conseguem descrever, como os olhos, quando deitados em Mangueira.

O Simas, num gesto de generosidade olímpica, comemorando especialíssima data, anunciava:

– A conta hoje é minha!

E estava, de fato, o Simas, num dia de nítida alegria. Veio à certa altura e sentou-se a meu lado. Já tinha, o calvíssimo Simas, os olhos marejados:

– Edu… Você já conhece o Miguel? – disse referindo-se ao menino, quatro anos de idade, filho do Rodrigão e da Mônica.

– Não.

– Miguel, venha cá!

E me disse no ouvido:

– Um grande garoto, Edu! Um grande garoto… – e tomando o menino pelas mãos, disse:

– Você é filho de quem, Miguel?

– Xangô!

Gargalhou, o Simas, e voltou-se a mim, e eu também ria diante da resposta do moleque:

– Um grande brasileiro, Edu… Um grande carioca!

A certa altura liga-me o Prata. E vai ao nosso encontro. Lá chegando, saca do violão, e começamos, sem nada planejado, a cantar Noel Rosa, numa homenagem ao aniversariante, que faria hoje, 11 de dezembro, 96 anos de idade! Canto eu, canta o Simas, canta o Prata, canta o Rodrigo Folha Seca (e erra o tom), e ficamos nisso, bebendo e cantando, quando deu-se a mágica após intensa pancada de chuva, dando um tom ainda mais enigmático e impressionante pra tudo.

alunas do Jongo da Serrinha

Dobram a esquina umas trinta, quarenta crianças, guiadas por duas moças lindas, com sorrisos em flor, todas com a mesma camisa, onde lemos “JONGO DA SERRINHA” e param diante de nós, formávamos uma roda, e o Rodrigo Folha Seca dá o grito:- Palmas pro pessoal do Jongo da Serrinha!!!!!

O Simas cutuca o Prata e puxa:

“Serra
Dos meus sonhos dourados…”

A criançada em côro:

“… onde nós fomos criados
Eu hei de morrer
Não desfazendo de ninguém
Serrinha custa mas vem…”

Deu-se o seguinte: eu chorava, Prata chorava, Simas chorava, Rodrigo Folha Seca chorava (errando o tom, evidentemente), todos nós ali, diante daquela força inexplicável, diante daquele susto, diante da beleza dos sorrisos daqueles meninos e meninas, chorávamos copiosamente. Uma das meninas disse:

– Vamos cantar um jongo pra eles…

E cantaram. E das mesas fizeram tambores, surdos, caixas, bongôs, e quando partiram, ainda cantando, devolvemos – como se fosse possível – a homenagem:

“Menino de 47!
De ti ninguém esquece!
Serrinha, Congonha, Tamarineira,
nasceu Império Serrano
o reizinho de Madureira…”

Eu, particularmente, nunca mais – esse “nunca” dito com a ênfase szegeriana – vou me esquecer não apenas do momento, que durou no máximo uns 10 minutos, mas do olhar daquelas crianças, orgulhosas, emocionadas também diante da emoção de um bando de malucos, e especialmente do olhar de uma das meninas, também marejado enquanto ela cantava, e eu, num delírio, pensando que era pra mim.

Até.

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