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A SEPARAÇÃO

Caí na asneira, ontem à tarde, de ir ao cinema ver A Separação, produção iraniana, filme indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Foi sair do cinema e ser aterrado por uma certeza inatacável: eu não entendo nada de cinema. Antes, uma explicação.

Eu não chego a ter ojeriza de cinema, como a que tem meu irmão Luiz Antonio Simas com relação ao teatro (leiam seu Bodas de Prata, aqui). Mas o cinema sempre me pareceu o habitat ideal para dormir. Ar-condicionado quase sempre gelado, poltronas (cada vez mais) confortáveis, o escurinho propício. Vai daí que ontem, sabe-se lá o porquê, disse de mim para mim, logo pela manhã:

– Vou ao cinema iraniano.

E só de dizer “vou ao cinema iraniano” senti-me uma espécie de cinéfilo. Ligou-me um amigo, logo cedo:

– E aí, Edu? Cerveja, agora de tarde?

Eu, em posição de sentido:

– Não, não, hoje não. Vou ao cinema iraniano.

E ele, do lado de lá, fez um “oh!”, um “ah!”, não escondeu sua admiração.

Tomei banho, vesti-me, e ao passar pelo porteiro:

– Vai ver o jogo do Botafogo?

Estaquei diante da cabine e disse:

– Não, Gildo. Vou ao cinema iraniano.

Ele arregalou olhos e disse:

– Parabéns.

Cheguei ao cinema, em Botafogo (na Tijuca, e eu já estranhei o fato, nenhum dos cinemas está passando a tal fita). Na fila, uma horda de elegantes. É preciso dizer que eu estava de All Star vermelho, bermuda quadriculada e uma camisa de malha. Fui alvo dos olhares. Não por conta de minha gordura (que vai se esvaindo aos poucos, estou em rigorosa dieta), mas por conta de meus trajes. Ouvi uma velha maquiadíssima cochichar pro marido:

– Isso lá é roupa para vir ao cinema?

E ele, concordando:

– Iraniano! E cinema iraniano!

Fingi que não ouvi, comprei meu ingresso e fiquei fumando do lado de fora. Pausa para lhes contar sobre a compra do ingresso.

Era muito melhor, mais romântico, mais emocionante, comprar o ingresso, entrar na fila, disputar a tapa e a cotoveladas o melhor lugar. Agora, não. A higienização chegou, também, aos cinemas. Compra-se, hoje em dia, lugar marcado. Daí o que se vê são doentes sociais que se sentem poderosos diante do mapa da sala de projeção. Porque é assim: você dá o mínimo poder de decisão ao ser humano e ele passa a ser um insuportável. Vamos ao exemplo. À minha frente, na fila, quatro pessoas juntas: marido, mulher, filho e nora. A bilheteira virou o monitor em direção a eles e disse:

– Quais as poltronas, senhor? – em direção ao mais velho.

Deu-se a bulha. Fui obrigado a assistir quase que a uma reunião de família. A velha dizia:

– Da D4 a D7. Tá bom, bem?

O velho:

– Só sento em fila de vogal.

A bilheteira:

– A, E, I, O e U estão lotadas, senhor.

Ele, neurótico:

– Vamos na próxima sessão!

A nora (era a nora) chiou:

– Ah, não! Vamos na H, então, que agá começa com uma vogal.

E isso levou uns 10 minutos, até que compraram sei-lá-que-lugares.

O pior, entretanto, deu-se durante o filme (que é horrível, modorrento, sonífero etc.). Ao meu lado, um militante do PSOL. Vocês perguntarão como eu sei que ele era militante do PSOL. Vou explicar com os detalhes que minha precisão sempre permite.

Sentei-me primeiro. Pouco depois, chegou-se o jovem (era jovem, não mais do que 22 anos). Comecei a me coçar logo em seguida. Virei de soslaio. O jovem tinha cabelos encaracolados, louros, em tubos, em cachos, como um rastafári. E da ponta dos cachos saíam lêndeas imensas, visíveis a olho nu. Soprei. Apoiei-me no braço oposto da poltrona. Pôs, o jovem, os pés descalços na poltrona da frente (deixou as alpercatas no chão). Fui acintoso e encarei-o de frente. Na blusa de malha branca, o bóton do PSOL. E era, o militante do PSOL, um cinéfilo. Puxou conversa ainda durante os reclames:

– Tu curte cinema iraniano?

Não respondi.

Começou o filme (uma cena inaceitável, marido e mulher olhando pra câmera, que faz o papel de um Juiz de Direito, discutindo sobre a separação requerida por ela). Antes do primeiro minuto, disse o jovem militante:

– Que força dramática!

Um pouco mais à frente – eu já quase dormindo – e ele me cutucou:

– Que olhar, o desse diretor!

Mandei-o à merda e ele devolveu:

– Capitalista insensível!

E assim foi durante todo o filme.

Quando terminou, de maneira absolutamente patética, o jovem estava em frangalhos. Assoava o nariz na ponta da camisa e dizia, sozinho:

– Ah, o cinema iraniano! Ah, o cinema iraniano!

Levantei-me e ele disse:

– Só um segundo, não saio da sala de projeção antes de ler os letreiros finais… – todos no idioma persa, diga-se.

Enxotei-o, joguei longe suas sandálias imundas e voltei arrependidíssimo pra casa.

Até.

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