Arquivo da tag: Império Serrano

É MELHOR SE LEVANTAR!

Eu tinha pouco mais de dois anos de idade. Carnaval de 1972. Não sou capaz de lembrar de rigorosamente nada desse período. Mas sou capaz de jurar que lembro de mamãe cantando esse samba, do Império Serrano, pra me fazer dormir (e vocês tirem suas conclusões, se é possível que eu tenha crescido um homem 100% normal tendo sido ninado com samba-de-enredo!) – eu, aqui, em Uma noite imperiana, já contei um pouco dessa história pra vocês.

Tenho, do Carnaval, incontáveis lembranças. Fantasiava-me de índio, ia aos bailes infantis, e me é também, muito viva, a lembrança dos desfiles das escolas de samba pela TV. Papai e mamãe recebiam uma penca de amigos em casa, almofadas espalhadas pelo chão, o desfile ainda era na avenida Presidente Vargas e durava uma noite inteira, até a manhã do dia seguinte, e eu me lembro – lembro, lembro! – de ouvir mamãe cantando Carmen Miranda, o enredo do Império Serrano em 1972, escola do coração de meu velho pai.

Hoje, a quatro dias do sábado de Carnaval, ápice dos ápices da grande festa, acordei com esse samba ecoando na cabeça, samba que embalou o título da escola da Serrinha naquele longínquo 1972 (eu disse longínquo e no entanto 1972 está aqui, ao alcance das minhas mãos, à vista dos meus olhos que têm embaçado à toa).

Achei, há pouco, esses três registros que se seguem, todos de 1974. Eu, meu irmão, minha avó, minha mãe, meu pai – e se eu não estiver enganado as duas últimas fotos foram feitas durante um baile infantil no America, na Tijuca. É esse mesmo moleque que irá jogar-se nos braços do Cordão da Bola Preta, na manhã do sábado de Carnaval. Noutros braços, em busca de outros traços, com mais-que-trôpegos passos a fim de atingir a redenção sacrossanta que o Carnaval, a todos os que o compreendem, reserva.

E com vocês, meus poucos mas fiéis leitores, o samba do Império Serrano de 1972.

Até.

3 Comentários

Arquivado em confissões

PINGOS NO IS

Já fui obrigado, uma vez, vejam aqui, a colocar, como se diz corriqueiramente, pingos nos is para que eu fosse – como dizer? – compreendido. Aliás, é curioso ler o texto a que me refiro, PINGOS NO IS, de 21 de julho de 2009, para ver como recebi, a bordunadas, o Claudio Renato, hoje freqüentador mais que assíduo deste BUTECO e mesmo das mesas às quais me sento por aí.

Volto, hoje, 11 de fevereiro de 2010, ao mesmo tema: PINGOS NO IS. E serei didático, e serei cândido, e serei discreto – como poucas vezes fui neste balcão a cada dia que passa mais e mais freqüentado (antes que me lancem as pedras, estou a falar de quantidade, apenas). Vou, inclusive, evitar citar nomes quando me for conveniente por uma única razão: saberão, os destinatários do recado, que é a eles que me refiro, o que me basta, franca e sinceramente. Não sou de criar polêmica a troco de nada e citar os nomes que não citarei serviria, apenas, como mote para que os bombeiros que tentam apagar o fogo com gasolina entrassem em ação. Feito o não tão curto intróito, vamos ao que interessa.

Sou um homem simples, profundamente simples, não tenho posses, não exerço qualquer cargo que me dê status ou algo que o valha e não tenho poder a ponto de fazer com que as pessoas queiram me lustrar a bola brilhante que ostento presa no pescoço. Não tenho, portanto, qualquer puxa-saco em torno de mim. E por que lhes digo isso? E por que venho, aqui, diante do balcão imaginário do BUTECO, colocar os tais pingos nos is mais uma vez? Vou explicar.

Tenho amigos – e que são poucos. Tenho, entretanto, muita gente querida à minha volta. Gente a quem quero bastante bem, gente que – sei – quer e deseja meu bem. Como sei, também, que a postura eventualmente polemista que envergo no dia-a-dia me rende um punhado de gente que me quer pelas costas (há, ainda, os que aproveitam essa oportunidade para descer o sarrafo na minha pacífica pessoa). E rende também um bocado de gente (são estranhamente poucas pessoas…) que não me quer bem e que me diz isso, assim, na lata, cotovelo no balcão, diante de mim. Pois bem.

Exerço – já disse isso aqui dezenas de vezes – mesmo a postura polemista no BUTECO. Assim como exerce, o BUTECO, não eu!, postura vigorosamente debochada no TWITTER (aqui), que não serve pra quase nada a não ser pra isso mesmo, fazer pilhéria.

Vai daí que ontem fiz uma piada particular que exibi publicamente no BUTECO. Escrevi: “Tomem nota aí: os intelectuais vão acabar com o IMPÉRIO SERRANO.”.

Eis que me bateu o telefone, há pouco, um de meus poucos mas fiéis leitores. Em aguda oposição ao papel que cumprem os bombeiros de plantão, fez apenas o desabafo de alguém que não compreende como é que podem, as pessoas, levar tão a ferro e fogo o que esse polemista que vos escreve escreve (é de propósito, e acho que não tem a vírgula, que não sei usar com perfeição) e o que o BUTECO propaga no exibidor de painés que é o TWITTER.

Ontem, durante pequeno evento sócio-etílico-cultural, acusaram-me de arrebanhar uma manada de puxa-sacos (ou algo assim, não estou em busca da transcrição literal do que foi dito). E isso – eis o que é triste – depois que parti em direção à minha casa.

Hoje, me contou meu interlocutor, Carlos Andreazza, outrora assíduo deste balcão virtual, desceu o lenho na minha pacífica pessoa. Disse a ele, meu interlocutor – e digo agora, de público -, que retirar o link para o blog do Andreazza do menu à dirteita do painel do BUTECO – já expliquei aqui a razão, não quero repetir – não foi apenas uma decisão que serve para o menu. Eu, que prezo o Andreazza como apenas ele, quero crer, sabe (eis aí um exemplo de alguém que diz o que pensa sem a máscara podre do anonimato – e se ele, como já tentaram me sugerir, vale-se do anonimato noutras ocasiões não me interessa, até porque não creio nessa hipótese), não leio mais o TRIBUNEIROS por razões simples que nem me caberia elencar (mas vou fazê-lo, ainda que em apertada síntese): (01) estamos em ano de eleição e somos agudamente opostos no terreno da política, (02) estamos nos aproximando do Carnaval e somos agudamente opostos no terreno da compreensão do que seja, hoje, o esquema que envolve as escolas de samba, (03) eu jogo no bicho e sou ferrenho defensor desse saudável hábito, mais uma aguda oposição, e por aí vai. Portanto, não me interessa fazer aqui a minha defesa (se é que preciso dela), até mesmo porque só contesta aquele que conhece os termos da exordial (estou advogadíssimo).

Ontem, meu irmão Luiz Antonio Simas virou-se pra mim e disse:

– Fiquei triste com o que você escreveu.

Não era pra ter ficado – foi o que pensei, franca e sinceramente.

Conheço muitos imperianos – de fé alguns, de ocasião, outros – e tenho por eles, e pela escola, profundo respeito. Não preciso elencar mais do que dois imperianos – Luiz Antonio Simas e meu amado pai – para dar cores de verdade ao que digo.

A frase que publiquei ontem no BUTECO – polêmica em estado bruto, meus poucos mas fiéis leitores – e que o BUTECO publicou no TWITTER – pilhéria em estado bruto, meus poucos mas fiéis leitores – não é, exatamente, de minha autoria.

Foi dita (e seguida de outras tantas que prefiro omitir pra não aumentar o volume do fogo) por um imperiano. E por um imperiano de fé. Foi aqui reproduzida, portanto, em tom de piada particular e porque concordo com ela na exata medida em que foi dita (explico mais abaixo).

Tendo dado as explicações que entendo cabíveis, despeço-me para só voltar amanhã. Aviso, desde já, aos curiosos de plantão, aos bombeiros adeptos da gasolina como comubustível diante do incêndio, que não vai adiantar NADA (com a ênfase szegeriana) me perguntarem – por e-mail, por comentário (serão vetados), por telefone ou ao vivo – quem foi o autor da frase (com a qual concordo integralmente, até porque no contexto em que foi dita representa uma brincadeira que só quem sai de casa com o bom-humor guardado no bolso entende).

Até.

21 Comentários

Arquivado em confissões

UMA NOITE IMPERIANA

– E aí, Edu! Como foi na Cinelândia?

Foi o que me perguntou, aflito e ansioso pelas notícias, às nove e quarenta da manhã de hoje, o Favela.

Eu poderia ser sucinto, como nunca fui, e responder do alto do orgulho que só os boêmios têm:

– Comecei bebendo uma cervejinha com o João Bosco às seis e cheguei em casa às seis…

Como jamais – com a ênfase szegeriana – fui sucinto, vamos aos fatos.

Às seis da tarde bateu-me um fio (acordei velho, velhíssimo… quem, meu Deus, nas novas gerações, bate um fio para alguém?????), conforme o combinado, o João Bosco. Encontramo-nos no Odeon, pusemos o papo em dia – aliás, belíssimo papo e prenúncio de uma noite histórica, até que estrilou meu telefone. Era papai.

Papai, que recusa-se, como um teimoso incorrigível, a sair de casa à noite, rendeu-se a meu convite e ao amor que sente pelo Império Serrano e foi, com mamãe, para a festa da verde-e-branco de Madureira.

Isaac Goldenberg e Mariazinha Goldenberg, Teatro Rival, 16 de janeiro de 2008

Meu pai estava visivelmente emocionado – ele negará isso até a morte, mas estava -, assim como minha mãe, que derrubou-se à certa altura. Vou lhes contar.

Durante todo o show – que foi belíssimo e emocionante – papai marejava os olhos, cutucava a mim e ao Fefê e dizia em tom paternal:

– Aprendam, meus filhos… Isso é uma escola de samba!

Até que senti as unhas de mamãe cravadas em meu braço.

Jorginho do Império cantava, à capela:

“Uma pequena notável
Cantou muito samba
É motivo de carnaval
Pandeiro, camisa listrada
Tornou a baiana internacional
Seu nome corria chão
Na boca de toda gente

Que grilo é esse?
Vou embarcar nessa onda
É o Império Serrano que canta
Dando uma de Carmem Miranda

Cai, cai, cai, cai
Quem mandou escorregar
Cai, cai, cai, cai
É melhor se levantar, oi…”

Bem a calhar o refrão.

Mamãe estava derrubada, olhos cheios d´água, como cheio de balões esteve, ontem, o céu de Madureira, e disse:

– O primeiro carnaval do Fefê…

E quando seus olhos deitaram-se sobre os meus, lembramos, em comovido silêncio, que era esse um dos sambas que ela cantava, formosa que sempre foi, para me fazer dormir.

Leiam Reminiscências do Carnaval, por favor, escrito em 04 de fevereiro de 2005, há quase três anos, portanto, e vejam que não minto, que sou preciso do início ao fim. Leiam, por favor… aqui, porque é comovente demais a percepção e a confirmação de nossa própria coerência!

João Bosco, Teatro Rival, 16 de janeiro de 2008

As apresentações, todas, foram belíssimas. Além do próprio Jorginho do Império, se apresentaram Moyseis Marques acompanhado por Tiago Prata, Cláudio Jorge, Dorina, Wanderley Monteiro, Nilze Carvalho, Andréia Caffé (a grande surpresa da noite, salve Nova Iguaçu!!!!!) o Jongo da Serrinha comandado por uma sempre iluminada Tia Maria, a Velha Guarda Show do Império Serrano, Zé Luiz, João Bosco, a bateria da verde-e-branco com seus agogôs inconfundíveis e se o objetivo da escola foi angariar axé… estejam certos… o Império Serrano vai pisar forte, fortíssimo, na avenida!

Desnecessário dizer que o Teatro Rival, em uníssono, cantou Oguntê, Marabô, Caiala, Sobá, Oloxum, Ynaê, Janaína e Yemanjá, e que transformou-se em misterioso mar de lágrimas que brotavam dos olhos dos presentes à festa – dessas de não se esquecer jamais.

Danielli Pureza e João Bosco, rua Álvaro Alvim em frente ao Teatro Rival, 16 de janeiro de 2008

Agora prestem atenção.

Saímos do Rival, tontos de felicidade, e sentamos diante do teatro – havia mesas espalhadas pela rua – para mais um bocado de cerveja, que a sede era de anteontem. A escalação da mesa: eu, Dani, João Bosco, Simas, Candinha, Mussa, Elaine, Prata, Luísa, Moutinho e Flávia.

Acontece, meus poucos mas fiéis leitores, que quando a noite é mágica as surpresas se sucedem, a boniteza fica sendo cada vez mais presente e a berzundela não cessa.

Havia uma mesa, ao lado da nossa, na qual bebiam, e jogavam conversa fora, uns cinco, seis malandros. Todos na faixa dos cinqüenta anos – eu conhecia apenas o Ivan Milanez -, os caboclos foram se chegando, como só em buteco mesmo, e começaram a puxar sambas, um atrás do outro – meus amigos testemunharão a meu favor! -, um mais bonito que o outro, até que um deles – Careca, foi como ele se apresentou – disse:

– Canto os sambas do Império de 1948 até hoje, se vocês quiserem!

Sacou de um pandeiro, mandou ver, cantou Silas de Oliveira que nenhum de nós conhecia, cantaram e dançaram jongo nas pedras pisadas daquela rua, durante a madrugada, e o furdunço só terminou quando o dono do bar em frente pediu arrego.

João Bosco, Ivan Milanez, Careca e amigos na rua Álvaro Alvim em frente ao Teatro Rival, 16 de janeiro de 2008

Despedimo-nos, todos rigorosamente embriagados pela beleza da estreladíssima noite de quarta-feira, e foi o João que propôs, às três da manhã:

– Vamos comer um javali no Capela?

De lá saímos, em estado bruto de felicidade, às cinco e meia da manhã, com mesas e cadeiras empilhadas, Miro e Cícero a postos aguardando a debandada, o sol forçando a barra da noite, e eu me despedi de todos, um por um, agradecendo pela graça do encontro e pela força da noitada.

Luiz Antonio Simas, Marcelo Moutinho, Flávia, Elaine, Alberto Mussa e João Bosco, Nova Capela, Lapa, Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 2008

Disse no ouvido do João, antes de entrar no táxi, blanquianamente:

– Eu gosto quando alvorece porque parece que está anoitecendo…

E ele, de volta:

– E gosto quando anoitece que só vendo porque penso que alvorece…

Fui, pelo caminho, cantando:

“… e então parece que eu pude
mais uma vez, outra noite,
reviver a juventude.
Todo boêmio é feliz
porque quanto mais triste
mais se ilude.
Esse é o segredo de quem,
como eu, vive na boemia:
colocar no mesmo barco
realidade e poesia.
Rindo da própria agonia,
vivendo em paz ou sem paz,
pra mim tanto faz
se é noite ou se é dia.”

Até.

6 Comentários

Arquivado em carnaval, música, Rio de Janeiro

UM RIO DE LÁGRIMAS

Vejam vocês a ironia das situações! Vivi, no sábado, ao lado de queridos meus, um momento tão mágico quanto encantado, capaz de, até esse exato momento, me fazer questionar, sem exageros, se aquilo de fato aconteceu ou não. Vou lhes contar. Mas antes, vamos à ironia. O Flavinho, meu querido Xerife, deixou, hoje, às 8h32min, o seguinte comentário no texto dedicado ao Salgueiro, aqui:

“É o maior rio de lágrimas da net…”

Era, meu querido Flavinho, era. E vou explicar.

Acordamos no sábado, eu e minha Sorriso Maracanã, com uma determinação bíblica: vamos almoçar no Casual!

O Casual, para quem não conhece, é comandado pelo grande Santos, e fica na esquina da Rua do Ouvidor com a Travessa do Comércio, a poucos metros da melhor e mais carioca das livrarias, a Folha Seca, dos queridíssimos Rodrigo Folha Seca e Dani.

Batemos o telefone para papai e mamãe, que toparam o convite. Toparam o convite e amaram o restaurante e a livraria, que não conheciam. Foram horas de deleite, ali, saboreando lulas a vinagrete, punheta de bacalhau, muito chope, arroz de tamboril com camarão, taças de vinho tinto, e livros, e discos, e muito mais. Com outros compromissos, partiram os dois, deixando-nos ali, naquela esquina que nos reservava uma surpresa indizível.

Como a vida é feita de coincidências, e como as coincidências dão mais graça à vida pelo que guardam de inusitado, chegaram Simas e Candinha. E com eles, Adelino, Claudão e Ana com Clarinha, Rodrigão e Mônica com Miguel, Evelin, Joana, e Rodrigo Folha Seca com sua Joana depois de fecharem a livraria às 15h. Eu e Dani, evidentemente, sentamos à mesa com eles e havia, ali, como sempre há, diga-se, uma aura de coisa boa que as palavras não conseguem descrever, como os olhos, quando deitados em Mangueira.

O Simas, num gesto de generosidade olímpica, comemorando especialíssima data, anunciava:

– A conta hoje é minha!

E estava, de fato, o Simas, num dia de nítida alegria. Veio à certa altura e sentou-se a meu lado. Já tinha, o calvíssimo Simas, os olhos marejados:

– Edu… Você já conhece o Miguel? – disse referindo-se ao menino, quatro anos de idade, filho do Rodrigão e da Mônica.

– Não.

– Miguel, venha cá!

E me disse no ouvido:

– Um grande garoto, Edu! Um grande garoto… – e tomando o menino pelas mãos, disse:

– Você é filho de quem, Miguel?

– Xangô!

Gargalhou, o Simas, e voltou-se a mim, e eu também ria diante da resposta do moleque:

– Um grande brasileiro, Edu… Um grande carioca!

A certa altura liga-me o Prata. E vai ao nosso encontro. Lá chegando, saca do violão, e começamos, sem nada planejado, a cantar Noel Rosa, numa homenagem ao aniversariante, que faria hoje, 11 de dezembro, 96 anos de idade! Canto eu, canta o Simas, canta o Prata, canta o Rodrigo Folha Seca (e erra o tom), e ficamos nisso, bebendo e cantando, quando deu-se a mágica após intensa pancada de chuva, dando um tom ainda mais enigmático e impressionante pra tudo.

alunas do Jongo da Serrinha

Dobram a esquina umas trinta, quarenta crianças, guiadas por duas moças lindas, com sorrisos em flor, todas com a mesma camisa, onde lemos “JONGO DA SERRINHA” e param diante de nós, formávamos uma roda, e o Rodrigo Folha Seca dá o grito:- Palmas pro pessoal do Jongo da Serrinha!!!!!

O Simas cutuca o Prata e puxa:

“Serra
Dos meus sonhos dourados…”

A criançada em côro:

“… onde nós fomos criados
Eu hei de morrer
Não desfazendo de ninguém
Serrinha custa mas vem…”

Deu-se o seguinte: eu chorava, Prata chorava, Simas chorava, Rodrigo Folha Seca chorava (errando o tom, evidentemente), todos nós ali, diante daquela força inexplicável, diante daquele susto, diante da beleza dos sorrisos daqueles meninos e meninas, chorávamos copiosamente. Uma das meninas disse:

– Vamos cantar um jongo pra eles…

E cantaram. E das mesas fizeram tambores, surdos, caixas, bongôs, e quando partiram, ainda cantando, devolvemos – como se fosse possível – a homenagem:

“Menino de 47!
De ti ninguém esquece!
Serrinha, Congonha, Tamarineira,
nasceu Império Serrano
o reizinho de Madureira…”

Eu, particularmente, nunca mais – esse “nunca” dito com a ênfase szegeriana – vou me esquecer não apenas do momento, que durou no máximo uns 10 minutos, mas do olhar daquelas crianças, orgulhosas, emocionadas também diante da emoção de um bando de malucos, e especialmente do olhar de uma das meninas, também marejado enquanto ela cantava, e eu, num delírio, pensando que era pra mim.

Até.

28 Comentários

Arquivado em botequim, Rio de Janeiro