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TESOUROS DA TIJUCA – HUAN LIAN

Eu já lhes contei sobre ele aqui, no texto UM PASSEIO PELA TIJUCA – IV. Mas é que hoje cedo, remexendo papéis, me deparei com a conta abaixo digitalizada e tive vontade de voltar a falar sobre o HUAN LIAN, de longe – mas muito de longe, chega a dar até pena dos que torram milhares de reais no chinês do Eike Batista, na Lagoa – o melhor e mais tradicional restaurante chinês do Rio de Janeiro (se eu disser a verdade e escrever que é do Brasil meus detratores me chamarão de exagerado).

Mencionei um dos textos da série UM PASSEIO PELA TIJUCA e quero lhes dizer que fiquei felicíssimo quando recebi, anteontem, o seguinte e-mail de um de meus poucos mas fiéis leitores, esse de Pelotas, no Rio Grande do Sul, Renato Grassi. Ei-lo:

“Caro Edu, depois de me tornar leitor assíduo do cardápio desse buteco, gostaria de lhe agradecer pelos roteiros tijucanos que disponibilizaste para os fregueses. Vou visitar o Rio no final do mês e já adiantei à patroa e à filha que um dia, pelo menos, vai ser reservado a um dos roteiros sugeridos.”

Nada mal para um tijucano – alô Felipinho, alô Simas, alô Olga! – perceber que tem gente que não se deixa levar pela arenga de gente como os membros do grupelho, que dizem amar a Tijuca (mas que só pisa e cospe no bairro), e se dispõe a conhecer, com olhos de ver e ouvidos de ouvir, o mais aprazível bairro da cidade. Feita a brevíssima digressão, vamos ao HUAN LIAN.

Na última vez em que lá estive foi na companhia dos Boechat, Jean e Leo. O primeiro, morador de São Paulo, e o segundo, morador da zona sul da cidade, estavam dispostos a conhecer o restaurante depois de meus comícios privados em prol da Tijuca e de seus tesouros.

Comemos – e tomara que ambos deixem aqui seus depoimentos – como reis. Nem posso lhes dizer que a conta é prova material de nosso banquete – não entendo nada do que foi lançado na nota pelo simpaticíssimo Lin, dono, chefe, manda-chuva do lugar – mas foi (para mim, mais um…) um almoço inesquecível.

Com fortíssima influência da cozinha de Cantão, a comida do HUAN LIAN é preparada com muitos condimentos, com óleo de ostra e vem quase sempre acompanhada de uma grande variedade de vegetais cozidos em altíssima temperatura (é sempre fabuloso ouvir o Lin contar sobre o modo de preparo dos pratos). Os ingredientes são carne de vaca, carne de porco, mariscos, vegetais, cogumelos e peixes de água doce.

No dia a que me refiro comemos ostras de entrada (fresquíssimas, chegadas de Santa Catarina pela manhã), comemos nirá, comemos rolinho primavera, comemos chow mein, comemos gioza, comemos wan tung, comemos carne de vaca, carne de porco, bebemos do saquê chinês (bebido em copos tradicionais), bebemos chope, fartamo-nos intensamente. A conta?

Inacreditáveis R$ 236,00 (duzentos e trinta e seis reais, repito por extenso para que não paire dúvidas… o valor que você paga em qualquer chinês mequetrefe espalhado por aí por um prato e um copo de qualquer bebida, somado ao valor da sobremesa, que também comemos lá!, e do manobrista).

O HUAN LIAN fica na rua Gonçalves Crespo, 450, na Tijuca, telefone 2293-2653. Funciona todos os dias, para almoço e para jantar. Tem estacionamento seguro e grátis, tem a simpatia do Lin, chinês radicado no Rio de Janeiro há mais de 30 anos – “sou calioca”, ele costuma dizer! – e surpresas a cada dia em função das compras feitas pelo próprio Lin.

Nesse dia, lembro-me que o Jean abriu uns olhos imensos diante do cardápio. Eu, curioso:

– O que foi?!

– Tem sopa de barbatana de tubarão! – e fez uma cara de excitação que poucas vezes vi.

Chamei o Lin. Perguntei-lhe sobre o prato. Olhando em volta, disse baixinho:

– Babatana! Tubalão! Tubalão glande!

O prato – raríssimo!, raríssimo! – tem de ser encomendado, custa algo perto dos R$ 1.500,00 e serve – disse-me o Lin – mais de 10 pessoas.

A conferir.

Com vocês, a nota de despesas do almoço:

conta do restaurante HUAN LIAN, na Tijuca

Até.

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SIMAS E SEU PESADELO DA HORA

Ontem à noite estive, na doce companhia do Simas e da Candinha – uma santa – jantando no Huan Lian, restaurante chinês escondido e encravado na Praça da Bandeira, na Tijuca (onde mais eu jantaria?), tremenda descoberta minha e da Dani, comandado pelo Lin e por sua família. Éramos, como sempre acontece, os únicos ocidentais no pedaço. Fartamo-nos com um Pato à Cantão que custou R$40,00. Eu disse isso – o preço – só pra contar que no restaurante metido à besta do Eike Batista, na Lagoa, a mesmíssima iguaria custa pra lá de R$200,00. Pose – como diria o Manoelzinho Mota, com a licença do Simas – é foda. Pigarreio, arroto (o pato) e sigo.

Enquanto jantávamos, eu gemia de saudade da minha garota, viajando a trabalho. Até que eu disse, com o olhar distante, fixado no mais feio lustre de toda a Tijuca, violáceo com detalhes prateados, quiçá da China:

– Detesto dormir sem ela… Não tenho ânimo sequer pra vestir o pijama quando chego em casa…

Foi eu dizer essa frase e a Candida, que chegou a deixar cair sobre a mesa o osso da coxa do pato que chupava, lamentou, grave, fazendo bico e revirando os olhinhos:

– Por que é que você foi falar essa palavra, Edu?!

Eu ia responder, quando o Simas, feito um possesso, tomou a direção do banheiro.

– Que palavra, Candinha?

Ela, checando se ele a ouvia:

– Pijama.

– Pijama?

– Desde que eu dei ao meu irmão, no Natal, um pijama de presente, que o Luiz Antonio reclama um pijama pra ele… É tipíco dele, Edu, um ciumento…

Pausa explicativa: a Candida nunca – com a ênfase szegeriana – chama o marido de Simas. Assim como a Luísa nunca – idem, idem – chama o Prata de Prata.

Volta o Simas à mesa.

caricatura de Luiz Antonio Simas, por Stocker

Tem os olhos vermelhos, a face afogueada. Senta-se. Senta-se e dá um murro na mesa. Entre dentes, num acesso de bruxismo às escâncaras, mas num tom bruno, diz baixinho:

– Você usa pijamas?

Antes mesmo de eu responder, ele emenda:

– Aliás, você tem pijamas?

Eu, não mentindo, mas provocando de leve, respondi como se puxasse pela memória:

– De seda ou de algodão?

Tomei um chute da Candida – que calçava um All Star estampado com personagens de hitórias em quadrinhos – por baixo da mesa.

– Você tem dos dois? – perguntou o Simas, aflito.

– Sem contar os de flanela…

– Flanela? – e danou de chorar feito criança.

Candida me deu outro bico e nem disfarçou:

– Tá satisfeito?

E ficou fazendo cafuné na careca do marido.

Eis aí, meus poucos mas fiéis leitores, um espetáculo kafkiano.

Não há, no alto da cabeça do protagonista de hoje – ou mesmo do lado, atrás – um único projeto de fio de cabelo. Não há a mais remota expectativa de um fio de cabelo. Não há a esperança, mesmo distante, da mais remota penugem. Um tufo, que seja. Nada. O Leo Boechat, por exemplo, é uma Rapunzel ao lado do Simas. Daí a barbaridade que foi assistir a Candinha fazendo carinho com os dedinhos naquela superfície árida como se enrolasse cachinhos imaginários.

Simas foi amansando.

Da aparente revolta passou ao estado de tristeza absoluta.

Fez beicinho.

Deixou cair uma única lágrima do olho direito, que enxugou com o dedo médio da mão esquerda.

E falou, trêmulo, como que discursando, enquanto bebericava o chá de jasmim:

– Candida… me prometa que de amanhã não passa! Ou não durmo nunca mais, Candida! Um homem que dorme sem pijamas é um homem sem-caráter. É um nu. É um indecente indigno! Quero pijamas, Candidas! Vários! Vários! – foi num crescendo.

Ela, doce, sorrindo em direção ao Lin (frase na testa: não ligue, senhor, meu marido é um desequilibrado):

– Prometo, Luiz Antonio…

– Quantos, Candida?

– Quantos você quer, Luiz Antonio?

E ele, de primeira:

– Somando todos, Edu… Quantos você tem?

– Uns vinte.

– Quero quarenta, Candida. No mínimo!

Como se vê, um doente.

Até.

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