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APOSENTOU-SE, O BIGODE – PEQUENAS DIGRESSÕES

Dia desses, minha Morena é testemunha, fui ao Salão América fazer a barba e saí de lá com a cara lavada de tanto que eu chorava. Explico: eu freqüento a Barbearia Salão América desde o dia 21 de março de 1970, quando eu tinha pouco mais de 10 meses de idade, (e se você duvidar de mim, basta ver as provas inequívocas aqui), portanto há mais de 43 anos, e naquela manhã, depois de ter dado por falta do seu Ernesto no comando da cadeira do fundo, perguntei por ele ao Raul, que me respondeu com a voz embargada:

– Tá em Portugal. Aposentou. Nem sei quando volta…

Essa resposta, o tom da voz do velho Raul (que foi quem cortou meu cabelo em 1970), essa permanente dificuldade para lidar com a perda, a certeza de não mais ver e ouvir a gargalhada daquele português naquele salão que faz parte dos meus cenários há mais de quatro décadas, me fez sair de lá chorando como criança de 10 meses sem colo de mãe.

Hoje soube pelo Gabriel Cavalcante, tijucano de escol, que outra grande figura do bairro, uma lenda-viva para os freqüentadores do Bode Cheiroso, glorioso botequim na rua General Canabarro, também acaba de se aposentar: o Bigode, que aparece na foto abaixo, de autoria do próprio Gabriel.

Bigode do Bode Cheiroso

Sobre o Bigode, escreveu meu irmão e meu compadre Luiz Antonio Simas:

“(…) A começar pelo Bigode, que controla o balcão feito Domingos da Guia dominava a grande área e abre cerveja atrás de cerveja como Garrincha enfileirava os marcadores. É craque.

Eu só acredito em garçons que pareçam egressos do cangaço. São cada vez mais raros diante da profusão dos garotões de aventalzinho, das moças moderninhas e dos descolados que pululam feito mato nos bares de grife. A  destreza com que Bigode abre uma ampola cu de foca – como se fizesse isso desde que o primeiro hominídeo caminhou ereto na Serra da Capivara – é a mesma com que Lampião manuseava o fuzil parabelo.”

E era assim mesmo.

O Bigode, assim como o seu Ernesto, habita o meu imaginário (e 0 meu dia-a-dia!) desde há muito.

Eu era um moleque e a rotina das manhãs era a mesma: papai ia nos deixar muito cedo no colégio, a caminho do trabalho. Parava todo santo dia, de 2ª a 6ª, no número 218 da General Canabarro, Bar Macaense pra turista, Bode Cheiroso pros íntimos. E todos os dias pedia seus 4 maços de Shelton Light e sua garrafa de água com gás, Caxambu, quando as garrafas d´água eram de vidro.

E lá estava ele, todos os dias – o Bigode.

Mudamo-nos dali, a rotina matinal deixou de ser cumprida mas eu jamais deixei de ir ao Bode Cheiroso.

Aqui, em março de 2007, o relato de um dia que terminou na calçada em frente ao bar. Aqui, em maio de 2009, um encontro antes e depois de um jogo no Maracanã. Aqui, em texto do mesmo 2009, uma das clássicas fotografias, de minha autoria, tirada no Bode Cheiroso, de Luiz Antonio Simas. Aqui, em junho de 2011, na concentração para a final da Copa do Brasil, Coritiba e Vasco.

Não são muitos os registros – escritos ou fotográficos – que tenho do bar e do Bigode.

Mas são incontáveis as referências dentro de mim.

Com o seu Ernesto e com o Bigode aposentados – merecido descanso depois de anos de bons serviços prestados – a Tijuca fica um pouco mais sem graça.

Até.

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BOLA PRETA

Corria o ano de 2009, dia 20 de janeiro, e lá estava eu – como sempre – na festa de aniversário da livraria do meu coração, a mais carioca das livrarias da cidade, a Folha Seca, comandada pelo Comendador Rodrigo Ferrari. Samba comendo solto do lado de fora, na rua do Ouvidor, até que a noite foi caindo, restamos uns poucos no interior da livraria e encostei naquele sagrado balcão com meu copo americano e minha cerveja.

Chegou-se o legendário Zé Leal, chegou-se Gabriel Cavalcante (quando ainda não me era hostil) e chegou-se, também, o querubim Tiago Prata, apelido que lhe foi dado por Aldir  Blanc (vejam aqui como foi cravado o apelido).

Alguém fez a sugestão. Bola Preta, de Jacob do Bandolim e com letra póstuma de Aldir Blanc, genial como de praxe, e contando toda a história do histórico cordão. Ouso dizer, sem medo do erro, que só eu sei, de cabeça, de cabo a rabo, a imensa letra do bardo tijucano. Com o auxílio desses três craques – e eu não me lembro quem foi que registrou o momento – mandei bala.

Estávamos a poucas semanas do Carnaval, e o Bola Preta já fazia de mim um ansioso – tanto que cantei emocionado.

Até.

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LÁPIS DE COR, POR GABRIEL CAVALCANTE

Quem me lê está cansado de saber que a Tijuca é mais que minha aldeia. É meu chão, minha cachaça, minha paixão. E eu quero dividir com vocês, hoje, às vésperas do Carnaval, um pequeno tesouro que guardo em casa com um carinho semelhante ao carinho que nutro pela minha terra. Faz um tempinho que Gabriel Cavalcante, esse cantor de mão cheia, mais-que-promessa de talento – o cara já é uma realidade -, me mandou a gravação que exponho agora no balcão do Buteco do Edu, como presente a todos vocês, meus poucos mas fiéis leitores. Acompanhado pelo próprio cavaquinho, extensão de seu corpo, Gabriel interpreta, visivelmente emocionado, o samba que considero o hino do bairro onde nasci, onde fui criado e onde pretendo morrer: Lápis de Cor, do saudoso Paulo Emílio. Notem que na repetição do samba, Gabriel troca a letra de um dos versos, carinhosamente, e canta “depois os dois se encontaram num botequim na Haddock Lobo”, o que me causou – confesso – profunda e justificada emoção.

Ouçam aqui.

Até.

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A TIJUCA

É comum você ouvir dizer, por aí:

– A Tijuca? A Tijuca já era! A Tijuca é violentíssima!!

Quietíssimo durante o feriado e o final de semana, dei de ler os jornais.

Uma reclamação por conta de um carro com som alto, tocando funk, em Volta Redonda, diante de um bar, resulta na morte de um rapaz e em ferimentos à bala em seu pai (eu conheço o pai). Um acontecimento besta, no trânsito, termina com um homem, o pedestre diante de seus dois filhos, com afundamento de crânio por conta de pancadas dadas com uma chave-de-roda pelo destemperado motorista, na Tijuca (diga-se). Um churrasco de estudantes, uns quarenta, no Cosme Velho, zona sul do Rio, é interrompido por quatro assaltantes armados que fazem uma limpa na casa e nos pertences dos garotos. Um grupo de bandidos invade, na pacatíssima Itaipava, na região serrana do Rio, uma pousada premiadíssima e destrói o repouso dos hóspedes que buscavam refúgio durante o feriadão. Outro imbroglio no trânsito, em São Paulo, tem um morto a tiros depois de uma discussão e bate-boca. E eu poderia esticar este parágrafo até o infinito, como dizem as crianças. A violência não cessa, a violência não cede, a violência se espalha e não vê fronteiras – há muito tempo.

Eis a razão, precípua, pela qual acho de extremo mau gosto a perseguição que sofre a minha Tijuca, a Tijuca do Felipinho Cereal, a Tijuca de Luiz Antonio Simas, a Tijuca de minha infância, de meus irmãos e de meus pais, a Tijuca de Aldir Blanc, a Tijuca do Salete, do Rio-Brasília, do Galeto Columbia, do Columbinha, do Fiorino, do Mitsuba, do Otto, do Bar do Chico, do Bode Cheiroso, do Aconchego Carioca, a Tijuca do Cesinha Tartaglia, do Gabriel Cavalcante, a Tijuca do Basile, grande figura da Muda, pedaço da minha Tijuca, a Tijuca do Bar do Momo, e eu poderia – como no parágrafo anterior – listar dezenas, centenas, milhares de motivos para que a Tijuca esteja sempre na mais alta conta no coração do carioca.

Eu poderia, numa tentativa tosca de imitar o poeta, dizer que a Tijuca tem o desenho do meu coração e da minha alma, e que a Conde de Bonfim é a veia por onde corre o sangue que me bombeia a vida e que deságua – numa geografia que só o tijucano domina – no Largo da Segunda-Feira, onde vira Hadock Lobo (descendo), depois de ser Doutor Satamini até a Praça Saens Peña (subindo) – onde volta a ser Conde de Bonfim até a subida do Alto da Boa Vista. Poderia enumerar as veias que cruzam a aorta da zona norte, e eu estaria falando das ruas que me viram crescer, Barão de Mesquita, São Francisco Xavier, Heitor Beltrão, Professor Gabizo, Hadock Lobo, Mariz e Barros, General Canabarro, Afonso Pena, Martins Pena, Pardal Mallet, Vicente Licínio, Ibituruna, Praça da Bandeira, e dos morros que dão à Tijuca esse aspecto de vale que somente encanta quem nele penetra com olhos de ver, Borel, Formiga, Turano, Casa Branca, São Carlos, Chacrinha, Salgueiro… E novamente, como nos dois parágrafos anteriores, poderia listar todas as ruas da Tijuca e todos os seus morros e suas colinas, dando um tom de infinito a tudo isso.

A Tijuca é o bairro-mãe, que acolhe o filho no berço cercado de morros e o vê crescer, ainda que longe, ainda que tendo optado por viver longe, esperando o dia da volta, ainda que pra uma visita, que sempre há de vir.

Salve a Tijuca!

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RIO, 443 ANOS AMANHÃ!

Minha mui amada e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro faz anos amanhã, completando 443 anos desde sua fundação, a primeiro de março de 1565. Durante todo o dia, em todos os cantos da cidade, festa pra todos os gostos, de todos os jeitos, reforçando a faceta da mais bonita cidade do mundo, a de abrigar e a de abraçar a todos, cariocas ou não, ainda que seja necessário, em prol de evitarmos uma mudança muito brusca de rumos dessa mesma faceta, estarmos sempre com o regador ao alcance da mão. Pra bom entendedor, meia palavra basta e vamos em frente.

Eu, e penso que seja desnecessário dizer – mas vou dizer, o blog é meu, pô! -, estarei desde cedo de papo com os amigos na livraria do meu coração, a Folha Seca, bebendo uma Brahma estalando de gelada na Toca do Baiacu, beliscando uma coisa ou outra no Casual do Santos ou no Antigamente do Carlinhos, comemorando a graça de ter nascido aqui, de ter crescido aqui e de aqui viver até hoje com intenções arraigadas de tombar por aqui mesmo, que não há melhor lugar pra se viver.

E estarei comemorando não apenas o aniversário da cidade, mas também o aniversário de um carioca maiúsculo que, quando me bateu o telefone ontem, me flagrou já debruçado sobre seu presente:

Gabriel Cavalcante, rua do Ouvidor, 08 de dezembro de 2007

 

– Meu aniversário no sábado, hein, Edu!

O malandro, que faz anos no dia 04 de março, terça-feira, como bom carioca que é, dribla as horas, faz uma bainha no tempo, manda um acorde dissonante nos sete dias da semana e vai na aba do Rio de Janeiro festejando o aniversário no primeiro de março, na rua que fica a um passo da Primeiro de Março (salve, Salgueiro!), no canto da Ouvidor onde se assenta o poderoso axé que não permite o dobrar de joelhos da aniversariante maior, a cidade-mulher.

A partir do meio-dia, todos, então, à rua do Ouvidor, que a dica é abraçar a cidade ao som do samba e da voz desse rubro-negro também maiúsculo, merecedor do abraço de todos nós por mais um ano de vida.

A festa é deles dois, o presente é nosso.

Até.

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PRATA QUE VALE OURO

Quando, na sexta-feira passada, estive com a Sorriso Maracanã na apresentação do conjunto Malandros Maneiros, recebendo Wanderley Monteiro como convidado no Clube de Engenharia, no Centro, o Simas, olhos cheios d´água, comovido com a garotada do conjunto, média de 20 anos de idade, deitando e rolando com Bide, Marçal, Jacob do Bandolim, feras desse naipe, não estava errado quando disse com a cara enterrada no sétimo copo de caipirinha:

– O Brasil salvo, Edu!

Não há edição possível no aparente exagero do Simas, um sujeito que – aos poucos vou apresentando o malandro a vocês – chora mais que o Szegeri, o que sempre me pareceu impossível.

Gabriel no cavaco, Tiago da Serrinha e Anderson na percussão, Edu na flauta e Tiago Prata no violão de 7 cordas abriram o final de semana com uma maestria, com uma elegância e com um talento capazes de, de fato, dar cores de verdade absoluta à sentença lavrada pelo Simas.

Falei do Malandros Maneiros mas quero, hoje, de cotovelo no balcão, falar do Tiago Prata, o Pratinha, ele ,sim, um gente boa, se é que me faço entender.

(é que GENTE BOA é o nome da coluneta)

Achei melhor explicar.

Dezoito anos de idade, radical como são os membros do meu exército pessoal, rubro-negro até a alma, bom de copo e bom de papo, deixo a palavra com o próprio Pratinha, citando suas referências musicais:

Jacob do Bandolim, pela sua magistralidade como instrumentista (nunca houve igual) e por tamanha musicalidade. João Nogueira, por causa da malandragem e da melancolia, da forma como divide ritmicamente a música e da sua paixão pelo Flamengo e pelo samba. Paulinho da Viola, por causa de sua elegância e finura como músico, cantor e compositor. Dino 7 Cordas, por ter tido a criatividade que teve para consolidar o 7 cordas e por ser o maior músico acompanhante que já houve. Noel Rosa (o maior), pela inteligência de fazer as músicas que fez em tão curta carreira e há tanto tempo. Um verdadeiro gênio atemporal. Pixinguinha, pela quantidade de músicas compostas e por dar forma e graça ao choro e à música brasileira. Ernesto Nazareth, pelas suas belas valsas e músicas. Edu Lobo, por causa das lindas melodias e suas músicas de variados gêneros. E finalmente Chico Buarque, por juntar um pouco de tudo que eu citei acima.”

Tiago Prata em 16 de setembro de 2006

Eis aí, meus poucos mas fiéis leitores, o retrato do artista quando moço.

Eu, do alto dos meus 37 anos, tenho um puta orgulho por ter o Pratinha entre os meus.

E não é demais repetir: o monstro tem apenas 18 anos de idade.

Bebe – literalmente – das melhores fontes.

O Brasil, definitivamente, está salvo.

Isso sem contar que ele, amanhã entro em detalhes, é daqueles que, incansavelmente, tiram, dia após dia, um punhado de flechas do peito do meu padroeiro, que São Sebastião do Rio de Janeiro vai – com a licença do Moacyr e do Aldir – se salvar.

Até.

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