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RIO DE JANEIRO EM ESTADO BRUTO

O nome do sujeito é Fábio e ele é membro da Guarda Municipal da Cidade do Rio de Janeiro, instituição um tanto quanto em baixa no coração do carioca por conta de um ou outro malfeito que, diga-se, não vem ao caso.

Na quarta-feira, anteontem, uma vez mais, fui ver de perto o ensaio de rua da azul-e-branco de Vila Isabel. Entra ano, sai ano, e eu continuo me comovendo feito o diabo antes, durante e depois dos ensaios da escola – anteontem, uma vez mais, não foi diferente. É bonito pacas ver o bairro inteiro mobilizado, em festa, nas ruas, nas calçadas, nos bares, aprontando o desfile da escola. Crianças, adultos, velhos (uma senhora que desfilou anteontem, de cadeira de rodas empurrada pelo marido, mais animada que a mais animada das componentes, quase me faz ir oló), todos cantando o samba – e o samba de 2013 está belíssimo! – dão um astral ao Boulevard 28 de Setembro que é um alento pro coração.

O Boulevard 28 de Setembro, pra quem não conhece, é uma avenida enorme que corta o bairro de Vila Isabel, do Maracanã à Praça Barão de Drummond. Composta por duas pistas, ambas na mesma direção, a avenida é dividida por um largo canteiro central e uma das pistas, a da direita, é sempre totalmente ocupada pelos componentes da escola em dia de ensaio, ficando fechada para o trânsito.

Anteontem, faltando pouco pro Carnaval, a pista da esquerda também esteve parcialmente ocupada de gente, exigindo dos guardas municipais muita paciência para controlar o trânsito, estrangulado pelo povo de Noel.

Foi quando me chamou a atenção, o Fábio.

Cantando o samba do início ao fim, com um sorriso enorme no rosto escondido entre o colete e o boné, o caboclo dava conta, praticamente sozinho, do recado. Não houve um único motorista – engarrafado! – que não atendesse aos comandos do cara.

Estávamos eu e a Morena, Edu e Renata com a Lulu.

E as meninas fizeram questão de uma fotografia com essa figura que só corrobora a fama de boa-praça que o carioca (ainda) tem.

30012013 ensaio de rua da vila isabel

Faltam oito dias apenas para a abertura do Carnaval 2013, que acontece quando os metais dão a senha na avenida Rio Branco: lugar quente, meus poucos mas fiéis leitores, é na cama ou então no Bola Preta.

Está dada a largada para a contagem regressiva.

Até.

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CHOPERIA TITO

Em 17 de junho de 2009 escrevi, sem o cuidado – reconheço tardiamente – que o lugar merece, Bar do Paulão, sobre um botequim portentoso situado na cidade de Caxambu, no sul de Minas Gerais, comandado pelo Paulão e pela dona Fátima, sua mulher – leiam aqui. O Bar do Paulão está, seguramente, entre os top de linha na matéria (e olha que eu conheço botequim pelo Brasil afora…). Porque o que mais temos por aí, principalmente nos grandes centros urbanos, são os bares-de-mentira, os que podem ser chamados de fake, as franquias-sem-alma, os bares que não têm o essencial que fale alto ao coração de um apaixonado pelo troço (sugiro a leitura de Butiquim que se preza, de Fernando Szegeri, um que entende, e muito, do riscado, aqui).

Pois eu não quero cometer o erro que cometi com o Bar do Paulão ao lhes falar da Choperia Tito, na cidade de Ponta Grossa, no Paraná, a pouco mais de uma hora de viagem, de carro, de Curitiba, para onde tenho ido com alguma freqüência.

Vai daí que fui para Curitiba, uma vez mais, na sexta-feira passada, 25 de maio. E havíamos programado, eu e a Morena, uma ida à cidade de Ponta Grossa na manhã de sábado. Assim que ganhamos a estrada, disse-me ela que iríamos, tão logo chegássemos, à Choperia Tito, um bar que “é a sua cara” – o que prova, e eu já poderia ter dito isso antes mesmo do episódio, sem medo do erro, que a Morena bem me conhece…

Chegamos perto de uma da tarde ao bar.

E que bar! E que bar!

Guardadas, evidentemente, as devidas proporções, o mesmo encantamento que me causaram os olhos dela tomou conta de minh´alma boêmia assim que pisamos o piso sagrado – sagrado! – da Choperia Tito. Prestem atenção, vou à descrição do cenário: portas de ferro resguardam a porta de vidro, emoldurada por madeira, que separa a calçada do interior do bar. Um balcão extenso, fórmica vermelha das bem antigas, prateleiras todas de madeira com garrafas de todos os tipos, de todos os gêneros de bebida, uma chopeira quase secular, um espaço bem pequeno para os freqüentadores diante da extensão do balcão, fotos de priscas eras da choperia, uma pequena estufa, uma ou duas mesas no fundo do salão, um relógio-cuco (e lembrei-me imediatamente do Felipinho Cereal, que tem um idêntico, menor, em casa), e eu estava em casa quando ancoramos ao lado da estufa, em frente ao Hudson, neto do Tito, dono do lugar que valoriza Ponta Grossa há 76 anos!

Hudson no balcão, Anderson na chopeira. Sábado é dia de folga do seu Tito, e fomos recebidos pelas duas belas figuras que honram a tradição dos melhores donos de botequim.

Tínhamos, eu e a Morena, pouco menos de uma hora para aproveitar aquele pedaço de céu na Terra.

Eu – confesso – mal pude acreditar quando pedimos os dois primeiros chopes (foram 10, e mais a dose de Steinhaeger e a de cachaça pra acompanhar os bolinhos de carne fabulosos que pedimos) e vieram para nós dois Brahma muitíssimos bem tirados (com um zelo e um cuidado que não se vê em qualquer canto) e servidos em tulipas de cristal como as da foto acima.

O Anderson – passei a acompanhar o trabalho do cara… – tira cada chope como se produzisse uma peça única. Não há pressa em seus gestos, como não há pressa em nenhum objeto exposto na choperia. Não há truque, não há mentira, não há qualquer artifício: estávamos diante de um mestre na arte de servir chope.

Daí eu fui ficando louco – para delírio da Morena, felicíssima com o evidente acerto de sua escolha. Dentro do balcão, uma escrivaninha e ao lado um telefone preto, com fio. Garrafas de diversas bebidas, muitas sequer estão à venda, são da coleção do seu Tito. O Hudson deu de, com justificado orgulho, contar algumas histórias passadas ali, contou-nos sobre um curta-metragem, um documentário que foi produzido por freqüentadores da choperia e que ganhou um concurso recentemente (no final deste texto você poderá assistir ao “documentário que conta a história de um dos bares mais emblemáticos do Paraná.”. Como conta a sinopse, é a “história da Choperia Tito confunde-se com a de seu proprietário, Tufi Cury. Em Ponta Grossa há mais de 60 anos o estabelecimento mantêm-se original até os dias de hoje, preservando o passado e perpetuando-se no presente com o tradicional e diferenciado chope.”. O filme é de Frederico Taques, Ismael de Freitas e Rodrigo Czekalski e foi produzido por Misto Quente Produções.)

Eu queria, com esse texto, agradecer profundamente à Flávia Holleben, minha Morena, que, talvez sem saber, me apresentou aquele que, como disse a ela assim que saímos de lá, é seguramente um dos três bares mais bacanas que eu já conheci na vida – a Choperia Tito, lembrem-se de que eu sou preciso do início ao fim!, é um portento a ser conhecido e preservado ad eternum. Agradecer ao seu Tito, a quem não conheci, que mantendo sua choperia como de fato a mantém, contribui para manter viva a chama de um Brasil que está morrendo aos poucos, assolado por um modernismo que nada tem a ver conosco. A seus netos, que me pareceram absolutamente dispostos a seguirem na mesma trilha do avô.

E  deixar minha dica: se você for a Ponta Grossa tenha em mente que conhecer a Choperia Tito é mais-que-obrigação. Será um ato de fé e de devoção.

Até.

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