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O OUTONO DO TEMPO DE FERNANDO SZEGERI

Meu irmão e compadre, Luiz Antonio Simas, só pra manter a tradição, escreveu o que eu gostaria de ter escrito sobre Fernando Szegeri, também meu irmão e compadre, aqui, no comovente convite em forme de texto, Os oito baixos de Fernando Szegeri. E o fez por conta do lançamento do livro Outono do meu tempo, de autoria do homem da barba amazônica, na próxima segunda-feira, 03 de dezembro, na livraria Folha Seca, a livraria do meu coração, na rua do Ouvidor nº 37.

Corri atrás do que disse sobre o Szgeri nosso irmão em comum, o saudoso Fernando Toledo, que conosco dividia o blog – o Conexão Irajá, que pode ser lido aqui que durou até durar Fernando Toledo, de quem tenho aguda saudade e que estaria orgulhoso com a publicação do primeiro livro de seu xará.

“Szé, O Impronunciável, também conhecido pela alcunha de Zé do Guéri Guéri (apud Nei Lopes) é uma criatura capaz de chegar num botequim às oito, beber todo o estoque de tudo que não o morda antes e ainda emitir opiniões inteligentes de madrugada, a caminho da rodoviária (e olhem que esta é apenas uma das histórias que testemunhei). Sabe-se lá para que em que mundos, em que estrelas se escondem os litros consumidos. Nascido por mero acaso em São Paulo, é mais carioca que 99,999999% da população do balneário. No café da manhã, bebe três doses de pandeiro, misturadas a quatro piadas de português e arrematadas com seis comentários sobre a bunda da mulher que acabou de passar. Existência saudável, esta do Szé.”

Pois quero dar meus humílimos pitacos sobre Fernando Szegeri, sempre citado por aqui, e fazer a convocação a todos vocês que me lêem, porque o lançamento de seu livro na Folha Seca, na rua do Ouvidor, onde está plantado o axé dessa cidade que ele tanto ama, é a grande pedida da segunda-feira.

Pai dedicado de três filhos (sou padrinho de suas duas meninas…), funcionário público igualmente dedicado, cantor de mão-cheia (ouça-o aqui, cantando uma obra-prima de Aldir Blanc), pensador inquieto e arquiteto de idéias geniais – um filósofo – o Fernando é, de longe, o sujeito que mais sabe de mim – e isso, talvez, por conseqüência de observações minhas, ao longo dos anos (antes mesmo de conhecê-lo) que foram me dando a certeza de que ele era um exemplo a ser seguido (é, também, um de meus orixás vivos).

É um brasileiro máximo, e não há nada no Brasil, o mais profundo, que lhe escape.

Em maio de 2005, quando lançamos o Conexão Irajá, tasquei lá:

“Minha alma irmã, é de longe o sujeito que mais chora que já conheci. Emociona-se com a mesma intensidade com que bebe e destila genialidade. Está para mim como Otto Lara Resende para Nelson Rodrigues. Um colosso de inteligência.”

E revalido, palavra por palavra, o que disse há mais de sete anos.

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O Fernando, ao mesmo tempo que é minha alma irmã, é um mistério pra mim. E eu acho que é um mistério pra mim porque eu não consegui, até hoje, depois de quase 15 anos de intenso convívio, dimensionar sua importância, compreender sua grandeza e absorver todos os seus ensinamentos.

Em seu livro, uma coletânea de mais de 25 anos de reflexões – não é coisa pouca.

E na segunda-feira – para encerrar essa convocação – você (como eu) terá a chance de vê-lo em ação: à mesa, entre os amigos, na cidade que tanto ama (na mesmíssima proporção em que a domina), na livraria que tem a cara dessa cidade, autografando Outono de meu tempo.

E vai que você dá sorte e vê, de perto, ao vivo e a cores, esses dois monstros – Luiz Antonio Simas e Fernando Szegeri – cantando juntos? Porque onde está Fernando Szegeri, meus poucos mas fiéis leitores, há música.

Até.

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REFÉNS VOLUNTÁRIOS

No final dos anos 90, início dos anos 2000, mantive na grande rede uma revista eletrônica que se chamava Sentando o cacete, nome que eu e Aldir Blanc (colaborador de todas as edições!) escolhemos juntos. Tínhamos o domínio, inclusive! O time, em ordem alfabética: Aldir Blanc, Eduardo Goldenberg, Mariana Blanc, Mauro Rebelo, Mello Menezes e, esporadicamente, Fausto Wolff.

Eu tinha dado como perdidos, os textos, as ilustrações do Mello… tudo. Numa operação arqueológica, os encontrei. Passarei a dividi-los com vocês. Inauguro essa comunhão hoje, com texto do meu saudoso mano Fernando Toledo!

(texto de Fernando Toledo para o site Sentando o cacete, edição de primeiro de novembro de 2001)

Esta semana, a modelo, apresentadora de vulgaridades e campeã mundial de gravidez oportunista – a única representante de nosso País a trazer uma medalha de ouro nas últimas Olimpíadas – , Luciana Gimenez, declarou, em alto e bom tom, para um público a cada dia mais ávido de informações acerca dos quinzeminutistas de plantão: “Morro de inveja dos ossos dela”, referindo-se a sua colega no promissor ramo do Alpinismo Social Giselle (sem) Bundchen. Ao que a mídia, de imediato, como sói acontecer nestes casos, se prostrou de joelhos, avalizou, e tratou de divulgar, com todas as letras e cores, a pertinentíssima opinião, causando ondas de inveja que deixariam rubro um estudante de Osteologia ou um médico legista, no público alvo da citada declaração: o imaginário feminino de determinados segmentos de nossa sociedade.

Na frase em questão estão contidas várias informações acerca de um dos atuais mecanismos que regem a imprensa e a mídia de um modo geral: a valorização de um padrão único de beleza feminina. Ou seja: a modelo espigada, esguia ao ponto de parecer doentia, e, principalmente, a mulher que, através de uma diversidade de métodos, consegue representar, por meio de suas formas, o seu patrimônio financeiro, suprema afirmação em um mundo regido pela grana e pelo que ela pode pagar. Sim, pois o estilo de corpo de que tratamos não é o que se pode chamar de um produto da natureza, e, sim, uma espécie de escultura perpetrada ao longo de anos, com o gasto de muito, mas muito dinheiro, e muito esforço pessoal. Um ícone, enfim, às duas principais bases do sistema monetarista que nos governa, e que, em última instância, determina cada um de nossos atos. Poder exibir, de forma a causar estupefação, inveja e desejo na parcela masculina da população, o fruto desta carreira, passa a constituir o fim em si, além de ser também um meio de se aumentar o patrimônio por meio de conquistas amorosas fartamente noticiadas, e, num efeito de bola-de-neve, se esculpir mais e mais e alcançar, a cada lipoaspiração, aplicação de silicone e semelhantes, um próximo alvo mais abastado e notório. Nesse quesito, Luciana Gimenez galgou o mais alto dos degraus: traçou Mr. Roquenrol, e com ele gerou um filho. Medalha de ouríssimo para ela.

Quando essa roda-viva de valorização de uma estética imposta atinge e influencia pessoas como as citadas, ou como outras tão paparazziadas quanto, não causa espanto de espécie alguma. Ver como isto afeta uma modelo-atriz (?) como Mônica Carvalho, que declarou recentemente que tinha como sonho visitar o Egito, pois sempre adorara “essa coisa de Mitologia Grega, como Cleópatra e as pirâmides” (palavras da própria) não surpreende. O culto doentio à beleza física nessa pessoa é mais que esperado, afinal, de que outros meios ela disporia para tentar se afirmar como ser humano? Surpreende abrir o jornal e se deparar com a notícia de que uma pessoa culta e inteligente como a arquiteta e diretora de projetos especiais da Funarj, Anita Mantuano, militante do MST, morreu na manhã de sábado vítima de uma embolia pulmonar decorrente de uma operação de lipoaspiração. Surpreende constatar como a ditadura dos ossos à flor da pele influencia até mesmo aqueles que julgaríamos salvaguardados da mesma. Surpreende ver como a mídia avança com passos de gigante, nos tomando de roldão, fazendo-nos até mesmo esquecer o senso de autopreservação em função de uma aceitação estética.

Estamo-nos tornando reféns, por nossa própria vontade, de critérios que talvez nem mesmo correspondam ao que realmente queremos, como homens e mulheres, em termos de atrativos físicos do sexo oposto. Caminhamos intrépidos rumo a um estado de coisificação, a ponto de permitirmos que designers nos imponham o desenho de nossos próprios corpos. Cabe indagar-nos, caso ainda nos reste algum tempo, se o preço a pagar vale nosso esquecimento de que somos humanos e, como tais, feitos, cada um, à sua própria imagem e semelhança.

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BRASIL, JUNHO DE 2002 – SENTANDO O CACETE

Durante os anos 90/2000, mantive ao lado de Aldir Blanc, Fauto Wolff, Fernando Toledo, Mariana Blanc, Mauro Rebelo e Mello Menezes – com esporádicas contrtibuições de mais gente – a Sentando o Cacete, revista eletrônica que chegou a ter mais de 1.500 assinantes das edições que colocávamos no ar. Grande parte do material então publicado perdeu-se, só que dia desses, durante exercício arqueológico em casa, encontrei um DVD que continha muitos textos, muitos desenhos (inéditos de Mello Menezes, que ilustrava a coluna do Aldir), e pretendo, aos poucos, publicá-los aqui.

Hoje, por conta de um papo eletrônico que mantive com o Zeh Gustavo e com a Áurea Alves sobre nosso Totô – o saudoso Fernando Toledo, vítima de um estúpido acidente que o levou antes da hora – inauguro a série Sentando o Cacete. Este texto, intitulado Brasil, junho de 2002, foi publicado, claro, em junho de 2002, na edição XXI da revista.

Com vocês, a lucidez, o humor e a inteligência de Fernando Toledo:

“Antes de mais nada, gostaria de dizer que não vou torcer contra: apesar de todos os pesares, creio verdadeiramente que o povo brasileiro merece ter uma alegriazinha de vez em quando, e nada mais significativo nesta questão que um campeonato mundial de futebol. Afinal, cento e cacetada milhões de pessoas têm todo o direito de pelo menos se sentirem unidos periodicamente, de poderem soltar, em uníssono, o grito de “gooooool” ou, na hipótese mais enlouquecida, de “é penta!”. Nada contra, como brasileiro que também sou: com certeza vou acabar gritando junto, vibrando junto e consequentemente comemorando junto. Apesar de que, hoje pela manhã, assistindo ao jogo contra a Turquia em meu quarto – não sei se por causa do meu costumeiro sono matinal – só consegui me aborrecer com os foguetes. Mas tudo bem: se – milagrosamente – a coisa engrenar, sei que minha brasilidade atávica há de acabar se manifestando.

Paralelamente, não vou me influenciar também com a velha história da Copa ser em ano de eleições presidenciais e dos nossos espertos governantes se aproveitarem de um remotamente possível campeonato a fim de eleger seus candidatos: anos de experiência me ensinaram que a corja que mantém o Poder neste País possui métodos muito mais eficazes e sutis de conquistar a simpatia de um povo que já perdeu sua dignidade, seu senso de cidadania e, em muitos casos, a própria consciência de sua humanidade (que deveria ser intrínseca). Vide os artifícios utilizados para derrubar a esquerda em 89, esquemas que envolveram até mesmo o sequestro de Abílio Diniz por um bando de porras-loucas anacrônicos e sua libertação, transmitida com ares de espetáculo para todo o Brasil – principalmente as imagens da malta de policiais exibindo acintosamente, como se fossem troféus, camisetas do PT “encontradas” no local do cativeiro. Não, uma vitória em uma Copa do Mundo não é um mecanismo absolutamente necessário para estrategistas deste calibre. Mesmo porque uma vitória mundial não depende, exclusivamente, do desejo de uma nata de canalhas. A maioria dos países do mundo (principalmente alguns da envergadura de uma Itália ou uma França) não se dignaria a colaborar com uma jogada semelhante.

Meu grande receio é quase que da ordem do subconsciente coletivo brasileiro: Luís Felipe Scolari (meu computador quase que se recusou a exibir este nome) é o tipo de figura pública capaz de exercer uma influência muito perniciosa na cabeça do povo brasileiro: mandão, com ares de militar, detentor de um tosco e hipócrita moralismo e de uma mente tacanha. Que já declarou ser admirador de um homem (?) como Pinochet, com o qual possui (mantendo as devidas proporções) algumas semelhanças metodológicas. A vitória de uma Copa do Mundo, metáfora do pote de ouro no fim do arco-íris para o brasileiro; a glória nacional máxima; o auge da realização da coletividade e de cada brasileiro individualmente, ser conquistada por um indivíduo como o citado, traz o risco de se estender este arquétipo a qualquer solucionador de problemas nacionais. É bastante claro: se o cara conseguiu pegar uma seleção desacreditada, que vinha de uma sucessão de técnicos que, usando dos mais diversos métodos, nada conseguiram, e elevá-la a melhor seleção do mundo atual, e – não se esqueçam deste pequeno detalhe – primeira pentacampeã da História, não seria este o tipo de perfil ideal para a resolução de quaisquer problemas insolúveis? Se contrariar a vontade das massas e montar uma equipe ditatorialmente, obedecendo apenas a critérios próprios, sem dar a mínima para a opinião do restante da população, dispensando mesmo uma quase-unanimidade como Romário, se afigurar como genial? Como obtentor de resultado concreto? Ora, resultado concreto é o que todos os brasileiros esperam, hoje, de seus próximos governantes…

Meu medo não é o governo atual se aproveitar de um campeonato mundial, como já disse. Meu medo é esta vitória plantar na mente do povo brasileiro o gérmen de algo que não precisamos mais, que já experimentamos a contra-gosto uma vez (durante trinta anos!), que recentemente reapareceu na Venezuela e que, apesar de todas a minhas reservas em relação a meu candidato deste ano, Luís Inácio da Silva, não gostaria mesmo de ver repetido por aqui. Tenho medo da curta memória do brasileiro, de seu desespero, de sua necessidade de “soluções” milagrosas a prazos milagrosos, custe o que estas soluções possam custar.

Assim sendo, continuemos assistindo, sim, aos jogos, mas tendo sempre em mente que, se ganharmos este campeonato, não foi devido à truculência, ao autoritarismo, ao estilo, enfim, de Felipão e de seus ídolos. Tenhamos consciência de que, se chegarmos à final e conquistarmos o pentacampeonato, terá sido devido à sorte, à inépcia de nossos adversários, ou, simplesmente do talento individual de cada um de nossos jogadores, característica esta que torna o ser humano uma criatura realmente digna deste nome e que nem todas as mordaças do mundo conseguirão sufocar.”

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COMIDA DI BUTECO

Alguns leitores têm insistido nisso… Querem minha opinião sobre o festival Comida di Buteco, importado de Belo Horizonte, MG, e realizado pela primeira vez na cidade do Rio de Janeiro, entre primeiro e 31 de agosto. Quero lhes dizer, então, do lado de dentro do balcão imaginário do Buteco, cotovelo esquerdo apoiado no mármore e mão direita erguendo um copo de chope com quatro dedos de espessa espuma, que não tenho nada a dizer sobre esse troço. Rigorosamente nada.

Recomendo, entretanto, a leitura do texto A carnavalização dos butiquins, escrito por Fernando Szegeri em 04 de maio de 2005 para o saudoso blog Conexão Irajá, que dividíamos com o mais-saudoso Fernando Toledo, e que pode ser lido aqui.

Até.

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ENTREVISTA – FAUSTO WOLFF

No dia 19 de junho de 2004, um sábado, eu, Fernando Toledo, Gustavo Dumas e a Betinha passamos uma agradabilíssima tarde no Bar Brasil, na Lapa, na companhia do Fausto Wolff, para uma pequena entrevista com o Velho Lobo, que eu pretendia ter publicado aqui, no Buteco, desde então.

Hoje, 09 de agosto de 2006, mais de dois anos depois daquela agradabilíssima tarde, faz um ano, exatamente um ano, que o meu irmão Fernando Toledo mandou-se daqui deixando a gente com uma saudade doída, danada, que não cessa e que arde mais forte hoje.

E é em homenagem a ele, Fernando Toledo, orgulho da minha geração, amigo querido que faz uma falta que só ele sabe – tenho certeza de que o puto me lê – que eu publico hoje, na íntegra (ô, trabalhão que deu!), a tal entrevista, com todos os detalhes, e agradeço de público, de pé no balcão do Buteco, ao Marcelo Moutinho e ao Cesar Tartaglia pelas dicas e pelas manhas com relação à transcrição de uma entrevista gravada.

Ergo o copo, também, com um especial carinho no rosto da minha querida Áurea Santos, a quem ofereço, milagres da tecnologia, a voz do meu irmão, que ainda ecoa em cada buteco vagabundo dessa cidade que ele tanto ama, e a gente fica aqui, “chogando p´ga cagalho”, com saudade, onde tudo o que amei sobrevive.

E eu falei no presente de propósito.

Fernando Toledo: Dr. Fausto Wolff, bem… é… o que você acha do jornalismo feito hoje pelos nossos colegas mais jovens?

Fausto Wolff: Eu acho que é um jornalismo de merda. Acho que é um jornalismo de merda porque ele não leva o povo em consideração. Porque ele faz um jornalismo imparcial. Eu sou um jornalista parcial. Entre o bancário e o banqueiro eu vou escrever sempre a favor do bancário.

Eduardo Goldenberg: Deixa eu fazer uma pergunta que eu não sei se vai ser complicado pra responder… Você, quando o Roberto Marinho morreu, foi a única voz na imprensa brasileira que não o bajulou, não o transformou num, num anjo, num homem que foi capaz de fazer benesses pelo País, e fechou o teu artigo dizendo, pedindo desculpa, a todos esses que vinham dizendo que ele era um grande jornalista, dizendo que você era um grande jornalista. Quem é que você hoje, no Brasil, na grande imprensa, escrita, jornal, ou revista, pode considerar seu colega, jornalista também?

FW: Jânio de Freitas, Millôr Fernandes, Carlos Heitor Cony, Veríssimo, os irmãos Caruso, Angeli, é… Glauco, Nani, enfim, a grande, grande maioria são cartunistas, o que também é mais fácil porque o poder perdoa o que vem em chave de humor, e quando você mostra, por exemplo, um… um pitbull como se ele fosse um poodle de divã, todo mundo acha graça, mas o pittbull não deixa de ser um pitbull. Então você pode fazer gracinha com o Delfim Neto, você pode fazer gracinha com o Antônio Carlos Magalhães, você pode fazer gracinha com o Sarney, você pode fazer gracinha com o Barbalho, mas eles continuam sendo os mesmos genocidas de sempre. E olha que eu falei a palavra genocida!

FT: O Millôr falou uma vez que, que imprensa é de oposição, o resto é armazém de secos e molhados. Essa imprensa bunda mole que ´cê tá vendo por aí… A que você atribuiria esse fato dela simplesmente seguir a corrente e não mostrar a bunda do rei?

FW: Não entendi a pergunta!

FT: Bem… Hoje tem uma pequena praga que é a imprensa a favor. Você vê que, é… revista como a Caros Amigos e tal e outras afins hoje estão perdidas porque elas não conseguem ser exatamente uma oposição a um governo que teoricamente seria de esquerda. Né? Por que ela age assim?

FW: Há uma diferença fundamental entre o rebelde e o revolucionário. O revolucionário sabe que o poder corrompe sempre, o revolucionário sabe que o capitalismo é um sistema selvagem sim, o revolucionário sabe que ele não pode abrir a guarda. O rebelde, ele só é rebelde até ser convidado à mesa do poder. Eu conheci vários rebeldes durante os meus cinqüenta anos de jornalismo; estão todos n´O Globo hoje, e eu ensinei eles a escrever.

EG: Ô, Fausto, você dentro dessa perspectiva de que o revolucionário ao sentar na mesa do poder deixa de ser um revolucionário…

Roberta Oliveira: Rebelde!

EG: É, rebelde! Consegue enxergar hoje, dentro de um quadro de decepção que eu posso dizer que a gente tá vivendo, e você tem manifestado isso o tempo inteiro, consegue enxergar alguma nova liderança ou algum novo caminho que possa efetivamente fazer as mudanças que todo mundo que votou no governo, hoje, gostaria que fossem realizadas?

FW: Com um pé atrás, levo muita fé no Movimento dos Sem-Terra. Gostaria, já disse pra eles isso várias vezes, que me convidassem, é claro, com despesas pagas, pra eu passar dois meses com eles e escrever um livro sobre esse movimento. Eu creio que é a única esperança que nós podemos ter. Porque hoje eu estava verificando, além de vocês e alguns poucos amigos, sobrou pouco do meu Rio de Janeiro. Eu reconheço a cidade mas não reconheço os habitantes. A maioria das pessoas tornou-se rude e não gentil. O carioca era por natureza gentil, cordato, cordial, prazeroso, sem ser puxa-saco. Hoje nós vemos as pessoas que não têm esperanças e não têm perspectivas e estão apenas aprisionadas a um emprego, e que te tratam mal porque sabem que não vão poder tomar um chope na esquina, porque esse chope vai representar um litro de leite a menos na casa deles. Essa é a herança que o militarismo passou pro neoliberalismo.

FT: Bem, é… Há uns anos atrás eu visitei um assentamento de sem-terra em Barra Mansa, parece pergunta de Jesus Chediak isso, né?… E uma coisa que eu achei muito interessante, e que é uma coisa que a esquerda brasileira geralmente não faz. Os caras têm um trabalho de… é… ideológico, desde a escola deles lá, que é muito boa, eu assisti uma aula, e tudo deles envolve a tomada de consciência e que eu acho que foi uma das falhas da esquerda durante anos e anos no Brasil. E eu gostaria de saber o que é que você, se você acha que… acerca dessa falha da esquerda… essa ruptura que a esquerda opera entre a massa que ela quer, é… instrumentalizar e ela mesma, a esquerda que se coloca num patamar acima dessa mesma massa.

FW: Em primeiro lugar eu acho que não há mais esquerda no Brasil, eu já falei isso. Tô depositando minhas esperanças no movimento dos trabalhadores sem-terra. Porque a esquerda no Brasil me parece hoje é um bando de rebeldes sem caráter e sem vergonha. Isso vale pro PPS… parece que é, parece partido de viado do Oscar Wilde, partido que não ousa dizer o seu nome… (Toledo rola de rir), tá entendo? E pro Partido Comunista Brasileiro que como é que ousa manchar esse nome – comunismo – enquanto luta na Câmara e no Senado pra não aumentarem o, o salário mínimo em vinte reais, ou quinze reais. Isso é uma vergonha, um nojo!

FT: É… Como você vai se sentir quando o Antônio Carlos Magalhães levantar o braço e dizer: eu consegui aumentar o salário mínimo que o Lula queria dar!!!!!

(todo mundo ri)

FW: Eu vou me sentir como sempre me senti, como… é… irritado com o fato de ser um homem de paz e não ter um revólver e não dar um tiro nos cornos.

(a mesa rola de rir)

EG: Ô, Fausto, você já escreveu várias vezes que um dos dias mais felizes da tua vida foi o dia da eleição do Lula, e isso aconteceu comigo também, com todos nós…

FT: Chorei que nem um…

EG: … estávamos, eu particularmente num churrasco onde a festa foi pra isso, todo mundo chorou muito, foi uma grande esperança. E você há pouco disse que não há mais esquerda no Brasil. Mas naquele dia nós acreditávamos que a esquerda tinha chegado ao poder. Aonde, quando e de que forma você acha que houve essa quebra de compromisso com a linha de pensamento da esquerda?

FW: Hoje eu fui obrigado, por causa do comportamento do governo, a julgar a coisa como um romancista e ir para o passado. Mal ou bem, antes do PT aparecer, nós tínhamos um partido comunista, tínhamos dois partidos comunistas. O PT apareceu como o PTB na época do Getúlio, para formar um partido trabalhista, nada contra uma vez que a… a… a…, o axioma era que o comunismo comia crianças e isso foi colocado durante tantos e tantos anos que era até compreensível que um pai de família fosse prum partido trabalhista e não prum partido comunista. Esse partido trabalhista já é cópia do partido trabalhista do Getúlio. Mas aí aparece onde Freud e Marx se encontram. Nós temos uns garotos, todos filhos de papai, com raras exceções, que com dezenove, vinte anos, decidem que são contra, que os pais são uns exploradores etc etc e que eles vão fazer a guerrilha, que vão fazer isso e vão fazer aquilo. Mas eles precisavam de um líder. E esse líder naturalmente, já que eram todos comunistas, só podia ser um operário. E eles encontraram esse operário e endeusaram esse operário, e viveram em função desse operário, e esse operário achou bom. E a coisa toda virou meio religiosa. Se não você não era do PT você não era ninguém. Se você não era do PT você era burro. Se você não era do PT havia alguma coisa de errado com você. Porque o Suplicy foi aquele príncipe que encontrou a verdade, eles todos encontraram a verdade no profeta que veio de Garanhuns, naquele rapaz que não tinha nada e que chegou a ser presidente do sindicato, e foi indo e foi indo e foi indo. E o povo acreditou. Esse babaca aqui não acreditou nunca porque eu nunca votei no Lula, sempre votei no Lula em segunda instância, votei num outro maluco que é o Brizola, mas que eu prefiro. Mas aí o Lula chegou ao poder. Eu achava impossível. E ele chegou. E ele chegou e ele chegou e disse… a primeira coisa que nós vamos fazer é mostrar a fome no Brasil. O Projeto Fome Zero. E levou um bando de ministros riquíssimos pra ver a fome… Olha aqui, ô, Sr., essa é a fome, esse é o Ministro, essa é a fome, esse é o Ministro, essa é a fome perebenta e esse é o Ministro… (a mesa rolando de rir) E foi a última vez que eles viram a fome. E no dia seguinte eu comecei a fazer, não campanha contra o Lula, mas apenas dizer que aquilo era uma demagogia barata, que eles eram uns incompetentes, que não tinham um programa e que o Lula era um Cabo Anselmo, coisa que eu acho.

FT: É… bem, eu queria mudar um pouco o enfoque, agora, e queria falar da tua obra literária…

FW: Mas não era pra ser uma mini-entrevista?

(Roberta ri)

FT: Mas tá aumentando a mini-entrevista… Olha só! Deixa o Eduardo falar mais uma coisinha aqui…

RO: Antes de mudar o foco!

EG: Antes de mudar o foco, e agora quase que matando uma curiosidade pessoal minha. Eu também sempre votei no Brizola, meu carro até hoje tem adesivos do Brizola…

FT: Inclusive ele é reconhecido na Vila Isabel por causa do carro!

RO: Por isso!

EG: Reconhecido, é verdade! E você sempre que menciona o Brizola, como um homem em quem você acreditou, acredita ainda, não sei, como o “homem do dedo podre”. Por que isso?

FW: Porque o Brizola não tinha a genialidade, não tem a genialidade do Getúlio, o Brizola é um caudilho. Mas o Brizola tinha um programa de alfabetização e de educação, e de transformar crianças em cidadãos: o CIEP. Eu muito mais que brizolista sempre fui “ciepista”. Porque eu imaginei que se você tem 500 escolas dessas, você tira… põe 1.000 crianças em cada escola, e essas crianças vão comer, vão ter noções de higiene do próprio corpo, essas crianças vão se tornar cidadãs, eu não quero mais nada. Se isso tivesse acontecido em 1986, quando o Moreira Franco tomou conta pra isso acabar… Esse Moreira “francamente” Moreira eu gostaria de dizer… É a única pessoa no mundo que eu conheço que não tem serventia alguma.

(a mesa vem abaixo de tanto que ri!)

FW: Só pra ficar registrado. Mas enfim, ele queria acabar com a criminalidade no, no Rio de Janeiro em seis meses, e entrou no, no lugar do Darcy (Ribeiro) que também não seria um grande governador, não, porque o Darcy não entendia disso, mas alguém faria alguma coisa. E eu desconfio que o Brizola já sabia disso e preferia o Darcy perdendo pra ele poder depois das cagadas do Moreira chegar bem. Enfim, o Brizola não é um intelectual naquilo que o intelectual tem de bom sentido, o Brizola jamais se disse comunista, acho que nunca leu Marx, eu acho que o sujeito que… Ele era mais ligado era ao Alberto Pasqualini que escreveu um livro chamado… é… (pensando)… “Bases e Proposições Para Uma Política Social”, ali é onde está todo o comunismo do PTB, e posteriormente o Brizola, como tem medo de intelectuais, como tem medo de pessoas que pensam, acabou se cercando de vigaristas. E é por isso que ele está onde está. Eu diria: um homem de bem, mas não é uma pessoa confiável.

FT: Uma pergunta rápida… Você falou que do Brizola ter medo de intelectuais. Porque que o brasileiro tem tanto preconceito em relação a quem pensa e a quem questiona, a quem se arrisca a raciocinar. E perguntar o “por que”… Porque na minha opinião a pergunta mais significante que o ser humano pode fazer é “por que?” Porque que o brasileiro tem tanto medo do “por que”?

FW: Porque o brasileiro é um povo como qualquer outro, com a diferença de ser um povo um pouco melhor, principalmente o povo aqui do Rio de Janeiro que tinha uma cultura. Mas a cultura lhe foi roubada, seu jornalismo foi roubado, sua cultura foi roubada, seu esporte foi roubado, sua música foi roubada, tudo, e ele está carente e continua. Por que é que tem medo de intelectuais? Quais são os intelectuais? Eu não vejo intelectuais. Eu vejo um bando de acadêmicos idiotas dizendo besteiras uns por outros e aparecerem na televisão dizendo coisas que o povo não entende.

FT: Isso cai numa questão do Stockman, do Ibsen…

FW: Você vai perguntar se eu conheço o Ibsen?

FT: Claro que não, porra! Lentilha garni! Lentilha garni! (pedindo o prato ao garçom) Por que é que todo Stockman se fode?

FW: Porque os “Stockman” da vida, eles… em vez de seguir um código eles preferem criar um código. Qual é o código do Stockman? Eu tenho que denunciar a podridão. Eu não consigo conviver com o cheiro da podridão. Talvez se eu conseguisse eu seria galã da Globo, eu seria produtor da TV Globo… E depois, depois escreveria artigos sobre a morte do…

FT: Roberto Marinho!

FW: Não! Daquele garoto que morreu em São Paulo… O primeiro a ser suicidado em São Paulo… Jornalista. Jornalista judeu, meu Deus do céu!

EG: Samuel Wainer!

FW: Não! Jornalista judeu! Foi suicidado em São Paulo!

EG: Herzog!

FW: Herzog!!!!! Aí depois de ter colaborado com o suicídio do Herzog eu escreveria artigos louvando o Herzog. Porque o que está se passando na imprensa brasileira é isso! Hoje O GLOBO está falando de todos os heróis de 64, 65, 66, 67, 68, como se ele não fosse responsável pela morte dessas pessoas. E só tem um puto nesse país que diz isso, que sou eu, porra!

FT: Bem, é… a gente pode falar de literatura agora? Eu observo – eu li todos os seus livros, você sabe muito bem disso – bem, é… que no início quando você começou a escrever, você tinha uma tendência até um pouco surrealista, quase que escrita automática, muito próxima do Henry Miller e que hoje você é mais sintético, você tenta dizer as coisas com menos palavras e com mais clareza. Você passou anos sem escrever ficção, década de 90, né? É… você pode explicar – eu como escritor gostaria de ouvir isso – como se dá esse mudança e como se dá esse amadurecimento estilístico?

(longo silêncio)

FW: É natural que todo o sujeito com 22 anos escreva com o subconsciente e tente mais ou menos domar aquilo que o seu consciente dita. Isso não é natural (ri) 50 anos depois.

FT: É, eu vejo isso, eu vejo poemas que você escreveu em mesa de bar, quando você tinha em torno de 50 anos, mais ou menos na época em que eu te conheci, um pouco mais derramados, prolongados, com 50 anos! Hoje você faz quase hai-kais em certos momentos, você tenta é… conduzir a coisa até o cerne da coisa, né? E com musicalidade na coisa. Como é que você consegue fazer esse troço?

FW: Eu decidi que eu ia escrever poesia a sério depois dos 60 anos, quando eu tivesse alguma coisa pra dizer.

(Fernando Toledo ri)

FW: Os outros poemas de mesa de bar foram poemas gentis, pra amigos. Se havia alguma qualidade nos poemas, que bom. Mas a idéia principal era lembrar uma data e louvar um amigo.

FT: Tinha uma pergunta pro Gustavo Dumas aqui, que é um grande amigo meu, que é escritor, poeta… Pergunte!

Gustavo Dumas: Bom, vou tentar fazer aqui uma provocação com o Fausto, com todo o respeito… Uma pergunta ligando a literatura a…

Fausto: Não faz não, eu me conheço, se a provocação for idiota eu vou ficar puto…

RO: Ah, faz, faz!

GD: Você me diz, você me diz… Tá bom! É o seguinte, você respondeu pro Fernando, essa mudança de… uma mudança até de postura estética, de consciência, que quando você tinha 22 anos você escrevia muito com o seu subconsciente, se foi isso que eu entendi, acho que foi essa a sua afirmação. E que depois com o passar do tempo, essa, essa… vai se adquirindo uma consciência literária. Eu queria retomar aquele assunto inicial, que era o assunto política. Será que a desculpa pra essa transformação do revolucionário pro rebelde, a desculpa dessa transformação não seria um suposto amadurecimento? E eu teria outra pergunta ainda sobre política. Você falou que a esperança partia do campo. Em relação à cidade… Como pensar a cidade como agente de transformação hoje? São duas perguntas, na verdade, diferentes.

FW: A pergunta se eu acho que o revolucionário que se transforma num rebelde não é uma demonstração de amadurecimento. Não. É uma demonstração de filho da puta. Esse não vale nada, esse quer grana, quer poder.

GD: A outra pergunta sobre… Sobre a questão da cidade, né? Porque a esperança no campo seria os sem-terra. E quanto à cidade? Qual seria a esperança na cidade?

FW: Não pode haver esperança nas cidades enquanto não houver uma reforma agrária e essa reforma agrária vai ter que ser sangrenta. E talvez nós possamos ganhar nas cidades, porque por mais pobres que morram, nós sempre vamos ser em número maior que latifundiários e seus filhos.

FT: O que você acha que dá pra esperar da arte brasileira, e da literatura em particular, hoje, é… em termos de participação da literatura não como um compartimento estanque em relação à sociedade, mas da literatura da arte em si como elemento transformador da sociedade? E eu acho que é uma boa pergunta pra terminar a entrevista.

FW: Nada.

(risos)

FT: Ótimo! Fechamos! Dia… 18 de junho…

RO: 19!

FT: 19 de junho de 2004, Bar Brasil, às três e meia da tarde… Robertinha… Essa menina linda de morrer vai fazer uma pergunta…

RO: Eu não tenho pergunta pra fazer… Por favor! Tchau! Tchau!

EG: Um dos livros do Fausto que mais me impressionou e eu até trouxe pra cá no último encontro que nós tivemos aqui, foi “Palestinos: judeus da terceira guerra mundial”. A situação que está hoje, com aquele muro construído, a opressão cada vez maior, o isolamento do Arafat de uma forma cada vez mais… daqui a pouco ele vai se tornar uma figura desprezível internacionalmente… Quais são as perspectivas que você vê para o conflito entre os palestinos e os israelenses? E o que é que você adquiriu naquela teu livro, naquela época daquele teu livro, que você verifica hoje como realidade?

FW: Olha, tudo o que eu escrevi no livro está acontecendo hoje. E tudo poderia ter sido evitado naquela época.

EG: E daqui pra frente, você vai acha que aquilo vai se transformar no quê?

FW: Daqui pra frente nós vamos ver uma mistura de… Freud… tá muito ligado a isso, né? Eu acho que o Sharon é louco, né?, como todas as pessoas que tem esse tipo de cargo, e eu acho que ele quer um Holocausto glorioso, eu acho que ele tá… há uma vergonha por parte do militarismo judeu por parte daquilo que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, ou seja, deles deixarem se matar daquela maneira. Então eles estão reagindo contra o inimigo errado. Os judeus em vez de transferirem, transferirem não!, em vez de continuarem com ódio dos alemães estão transferindo o ódio deles para os árabes.

FT: Você falou em “politicamente correto”… É, antes, primeiro eu queria fazer um preâmbulo. Você conhece um romance do Sinclair Lewis chamado “Nobre Senhor Kingsblood”?

FW: Conheço.

FT: Maravilhoso. Eu acho a melhor análise do racismo norte-americano. Quanto ao “politicamente correto”… Na verdade eu acho que essa imposição do “politicamente correto” acaba sendo uma espécie de racismo às avessas, porque… porra, eu não posso chegar pro Zózimo Bulbul e chamá-lo de “Afrão”, porra, porque ele é afro-brasileiro. O que você acha dessa imposição politicamente correta?

FW: Politicamente correto é coisa de viado reacionário.

FT: Concordo!

FW: Meus amigos vão continuar me chamando de Alemão, vão continuar me chamando de Gigante, vão continuar me chamando de Vara Pau, ta entendendo?. E eu quero continuar chamando meus amigos judeus, “fala, Jacó!”, e o crioulo, “fala, crioulo!” e assim por diante, porra! No momento em que você começar a colocar uma ordem na língua do povo, no linguajar do povo… essas coisas elas só podem e devem ser perseguidas quando elas vêm de cima pra baixo, quando são nazistas que fazem através dos meios de comunicação você odiar os judeus, você ta entendendo?, quando são os americanos dos anos 20 mostrando que os negros todos são palhaços, são idiotas etc. Qualquer coisa que saia do povo para o meio de comunicação é arte. Aquilo que vai do meio de comunicação pro povo é imposição de arte. Isso vale pra qualquer coisa.

FT: Exatamente… Olha… Uma coisa curiosa… Eu tenho passado por uma coisa semelhante… O samba, que é uma arte popular, é uma arte altamente complexa e altamente sofisticada, você concorda comigo, eu sei que você concorda, toda vez que eu, porra, o Zuza Homem de Mello, o Roberto Moura, a gente tenta pegar e teorizar sobre o samba nós somos taxados de elitistas em relação ao samba. Você acha que, porra, o samba não merece ser estudado, ser observado com a postura epistemológica, você acha que o samba não merece isso?

FW: Isso é um negócio tão burro, essas coisa me deixam tão puto! Ta entendendo? Mozart, Bethoven, Strauss, por que é que eles são clássicos hoje?

FT: Porque eles faziam coisas maravilhosas, lindas!

FW: Por que eles eram populares, pôrra! Clássico é o popular que vira clássico, é aquilo que passa pela triagem.

FT: Mas você acha que a arte popular, além da análise gosta, não gosta, ela não merece também ser estudada a fundo como são estudados a fundo como as pessoas estudam Stravinsky por exemplo?

FW: Eu acho que não existe arte popular. Eu acho que todo cara que fala em arte popular, música popular brasileira, devia ser castrado e colocado em praça pública para ser fuzilado. O que existe é a arte.

FT: E todas as formas de arte não merecem ser tratadas da mesma maneira?

FW: Claro, eu por exemplo não conheço… qual é a música clássica brasileira? Que eu saiba o Carlos Gomes, que fez uma ópera que já era arte popular na Itália, que por sua vez vinha da comedia dell´arte, porra, pelo amor de Deus, não me enche o saco com arte clássica, porra!

(risos)

EG: Fausto, deixa eu te perguntar uma coisa pra voltar ao teu estilo de Pasquim. Hoje, 2004, junho, quem é “O Coiso” e como se combate “O Coiso”?

FW: O Coiso já foi na mitológica história judaica, Arnaz e Caifás. Porque Arnaz e Caifás fizeram uma gangue no grande Sinédrio na época de Jesus e eles permaneceram donos do poder econômico e religioso da Judéia durante 70 anos, era o mesmo pessoal. Esse pessoal queria que Jesus morresse realmente porque ele poderia subverter as coisas. Então “O Coiso” é sempre o homem de palha do poder. No caso do Brasil, o homem de palha do poder era o Roberto Marinho. Agora eu vou ter que arranjar um outro Coiso, mas está cheio de gente querendo tomar o lugar do Coiso!

EG: E como é possível, não combater, mas fazer com que este espírito que era o Roberto Marinho e que hoje se traduz nessa imprensa pastiche, como é que se faz para que ela não seja a maior influência sobre a população em geral? Isso foi até o princípio de uma conversa minha com o Fernando… a internet hoje é efetivamente um canal possível de levar pras pessoas informação e dados que não têm que passar pelo crivo da censura desses instrumentos?

FW: Por acaso aconteceu uma coisa excelente. A classe média brasileira, internacional, foi obrigada a tomar vergonha por causa do Consenso de Washington e do neoliberalismo e do salve-se quem puder. E essa classe média tá utilizando a internet e isso tá jogando muita água no chope dos poderosos.

FT: Chega!

EG: Acabei de lembrar de uma coisa! Através do Jean Scharleau, você mantém hoje um site, Fausto Wolff, que é muitíssimo visitado e que obviamente é um troço que você incentiva, tem um extremo apreço por aquilo e tal. Você consegue enxergar que aquilo é, ainda que dentro do universo pequeno de pessoas no Brasil que têm acesso à internet, um canal pra levar a verdadeira informação e a transformação pras pessoas que acessam o site?

FW: Claro! A minha idéia basicamente é isso, fazer do site um lugar pras pessoas inconformadas, as pessoas que foram feridas, as pessoas que não têm um lugar pra falar, você tá entendendo?, mesmo que seja um menino, uma menina, mas um lugar onde elas tenham o que dizer… Aquilo não é uma ONG, mas como ali tem nomes, endereços, tem tudo, talvez outras pessoas ajudem aquelas que estão precisando, mas basicamente é um lugar libertário pra todo mundo escrever. Um cara aí que escreveu uma bobagem enorme sobre os CIEP´s eu disse, “claro, publica!”, é claro que escrevi o que eu pensava, mas eu quero que seja um espaço aberto pra todo brasileiro que se considere sacaneado…

EG: E que esteja à esquerda da esquerda!

FW: Isso é o melhor! Mas enfim que se considere sacaneado, que tenha sido machucado como ser humano e queira limpar isso de alguma maneira.

FT: Pode funcionar como a consciência da consciência. Lembra dos desenhos animados? Que ficava a consciência no ombro do personagem: “Eu sou a boa consciência!!!”. E a esquerda não parece esquecer que ela necessita de uma consciência? Ela parece se arvorar da própria consciência, ela é a própria consciência dela mesmo. O que você pensa a respeito dessa arrogância dessa pseudo-esquerda que tomou o poder.

FW: Eu fiquei impressionado com a burrice dos intelectuais do PT e realmente poucas coisas me dão mais nojo do que um fim de semana na Granja do Torto.

FT: É impressionante que um cara como o Frei Betto, que, porra!, não é um cara burro, porra!, esteja corroborando a burrice. Você conhece o Frei Betto… A posição dele é meio esquisita.

FW: Ninguém é frei de graça!

(risos)

FT: Podemos encerrar?

(desliga o gravador)

(liga o gravador de novo)

EG: Falou em estrada eu lembrei dele! O Ministério Público já conseguiu provas. A Justiça já tem provas. E Paulo Maluf continua dizendo, como em ladainha, “não tenho conta na Suíça”… Depois de 40 anos os mesmos homens estão no poder e ainda almejando o poder… Aqui no Rio, se é que é possível você me responder isso agora, temos uma eleição municipal pra brevíssimo, onde estão disputando a princípio César Maia tentando a reeleição, Crivela, aquele Bispo da Igreja Universal, do PL, o Conde, que é vice da Rosinha, e parece que vem a Jandira do PC do B como opção de esquerda, e o Jorge Bittar do PT. Tem alguém que você consiga enxergar como capaz de modificar esse estado de merda que a gente ta vivendo na cidade de hoje?

FW: O Maluf, eu tenho a maior admiração por ele. Quanto ao futuro prefeito, ta muito difícil, porque é uma corrida de incompetências, mas eu ficaria com o Bittar, pela coerência. Acho que o Lula, como ele mudou, e o Bittar não mudou, ele vai ficar com César Maia. César Maia por sua vez é um fascista e ladrão. Sobra o Conde que eu poderia levar a sério se não fosse vice da Garotinha que ainda não sabe o que é álgebra. De modo que a situação tá muito braba. Quanto à Jandira Feghali, é uma médica, do PC do B, mas em compensação apóia o Lula… Difícil… Muito difícil…

Até.

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BUNDALELÊ-ESCARLATE

Hoje, 04 de janeiro, faz anos – eu disse faz – meu amigo Fernando Toledo, o Girassol, como o eternizou outro amigo, Fausto Wolff, que dedicou ao Totô (como carinhosamente era chamado) um réquiem no JB, logo após a partida do malandro. E o Fernando, ano após ano, no dia 04 de janeiro, organizava o que ele chamava de “Bundalelê-Escarlate”, para comemorar a passagem de mais um aniversário. A Áurea, sua companheira, organiza hoje, no Carlitos, em frente ao Teatro Rival, o tal do “Bundalelê”, aproveitando a oportunidade para inaugurar uma placa em sua homenagem, mais que justa, diga-se. E daqui do Buteco, mui humildemente, ergo o copo ao humor e à saudade que tenho dele, e junto meu copo ao copo do Szegeri, ainda em Pouso da Cajaíba curtindo a ressaca da virada do ano. Tenho certeza de que no instante do brinde estará refeita, por instantes, a Conexão Irajá, de duração tão curta quanto a passagem do Fernando no planeta, cada vez mais podre e cada vez mais ressentido de sua ausência física. Eu digo física porque ele está em cada um de nós que convivemos com ele.

Fecho hoje deixando com vocês um dentre os milhares de e-mails que tenho guardados enviados pelo Fernando, politicamente incorreto como eu, indignado como eu, tendo absoluta certeza de que ele aprova a quebra do sigilo. Enviado em primeiro de abril de 2004:

“De minha lavra…

MANIFESTO DO GREYPEACE
Vida no mato? Mosquitos e insetos desconhecidos pela Ciência? Cortar o pé em caminhadas inúteis? Aliás, fazer caminhadas? Dormir em um colchonete sobre um chão irregular, cheio de pedrinhas por baixo? Fazer cocô no bambuzal e limpar a bunda com folha de mamona, morrendo de medo que seja urtiga? Lavar a louça no rio, sabendo que o pessoal que está acampado mais acima já fez mesmo, logo a água está trazendo os detritos deles? Ter de tirar sanguessugas com brasa do cigarro após o banho? Andar duas horas para tomar uma cerveja gelada? Sentar em torno de uma fogueira com um filho da puta desafinado cantando “apenas apanhei na beira-mar um táxi para a estação lunar” etc etc acompanhado por um violão com cordas de aço enferrujadas cheio de adesivos pseudo-psicodélicos? Ouvir alguém tirar a abertura de “Stairway to Heaven” numa flauta em bá frustrenildo que ele mesmo fez, pois vive de “fazer trampo”? Fumar maconha com dez marmanjos e cinco gordinhas dentro do quarto da barraca, fazendo sauna? Comer muié feia? Tomar banho de água fria, num frio pior ainda? Queimar de calor de manhã dentro da barraca? Aturar os peidos do cara do quarto de barraca ao lado? Comer miojo? Pão todo despedaçado? Catar araçá no mato porque não agüenta mais salsicha em lata? Beber vinho Catafesta de garrafão? Aturar algum maluco que tomou chá de trombeta, surtou e teve que ser amarrado? Ouvir “pô bicho”, “aí maluco” e semelhantes de dois em dois minutos? Ficar sem cigarros no meio da noite, e, depois de andar três horas, descobrir que na maldita vendinha da porra do amaldiçoado povoado de bosta só tem o caralho de uma marca genérica paraguaia? Almoçar mal para caramba, sabendo que, àquele momento, está saindo um cabrito quentinho no Nova Capela? Estar a pelo menos cinqüenta quilômetros do uísque escocês mais próximo? Ter de aturar o rádio-gravador de algum apedeuta tocando Deep Purple sem parar?

ESTE É O MANIFESTO DE FUNDAÇÃO DA ONG GREYPEACE, DESTINADA A MELHORAR A QUALIDADE DE VIDA E MANDAR OS RIPONGAS SE ROÇAREM NAS OSTRAS!

NATUREZA, TÔ FORA!

VIVA O URBANISMO!

ABAIXO O AR PURO!

VIVA O ASFALTO!

FODAM-SE OS URSOS PANDA QUE ANDAM DE BANDA E VIVEM EM UGANDA!

Um abraço,

Fernando Toledo”

Até.

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NO OLHO DO FURACÃO

(pro Fernando Toledo)
Esse olho, captado no Bar da Maria, que o bar era, definitivamente, seu segundo lar, há de permanecer em mim, dentro de mim, no fundo do fundo de mim, em meus próprios olhos, embaçados que estão, agora, diante da notícia, veja que ironia, passada assim, por email: “Totô, seu danado… trocou a gente por uma grande roda no céu…”.

Eu não agüento mais perder amigos. Não agüento mais. E dói, mais, saber que essa revolta, quase-infantil, é à toa. Afinal, o que fazer diante da fúria da Vida que atende aos chamados da Morte, assim, sem cerimônia e de uma hora pra outra?

Mas meus amigos não morrem, malandro. Eu, “Vossa Goldenblância”, que é como você me chamava, na medida em que me acumulo de ausências, na medida em que me sobrecarrego de saudades – e é nela que tudo o que amei sobrevive, com a licença do Aldir – torno-me um capaz de manter os que partem dentro de mim.

Sabe, seu puto, liguei há pouco pro Szegeri, “O Impronunciável”, e choramos juntos por sua causa. E saiba, malandro, que ele será capaz de fazer o mesmo. Mantê-lo vivo. Afinal, formamos ou não formamos uma conexão que há de permanecer?

Seu olho será o farol capaz de nos fazer erguer o copo, a cada encontro, à graça do nosso convívio. Curtíssimo, diga-se de passagem. Mas de uma intensidade, regada à cerveja, cachaça, indignação em nome do que é justo, capaz de nos fazer, olha a ironia de novo, olhar pra dentro e dizer, “foi do cacete”.

Ontem mesmo o nosso irmão Szegeri pôs, lá no Sodói, a imagem de São Sebastião, padroeiro da cidade que você tanto ama, pra zelar por você, no compasso da espera da tua recuperação.

Mas o Tião, Toledo, nós temos intimidade pra chamá-lo assim, foi mais carioca que nunca, malandro de boa cepa, rápido como um punguista e roubou você de nós pra que você ajudasse na luta ao lado dele.

Olhe por nós, meu irmão.

Eu te prometo, e falo por mim e falo pelo teu xará, que a nossa conexão será mantida.

“Quando três por acaso amigos se encontram
Começam a cantar a paixão
São línguas de fogo, promessas e jogo
Vícios do coração

São horas perdidas

que o relógio não marca
Segue o seu curso a serpente,
segue o rio o seu caminho
Enquanto eu, de repente,
sigo somente o que sou
Quase sempre sozinho,
quase sempre sozinho

Diletos amigos consigo comigo

Consigo evitar o perigo falando de amor
Falando de um gol já quase perdido
São cores do mundo, perfumes e flores
Os gols mais bonitos pela linha de fundo

Quando três por acaso amigos se encontram

Ninguém sabe o destino que darão ao mundo”

Até.

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