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DO DOSADOR

* começa hoje no Rio o chamado Viradão Cultural promovido pela Secretaria Municipal de Cultura, inspirado em iniciativa que já é sucesso, há alguns anos, na cidade de São Paulo, e é bom pararmos por aí. Não podemos também, por exemplo, e a tucanalhada já se movimenta nesse sentido aqui no Rio, “importar” a inconcebível lei municipal paulista que proíbe terminantemente o fumo em qualquer (com a ênfase szegeriana) lugar (é ou não inimaginável um buteco sem cigarro?). O troço começa hoje à noite e termina junto com o domingo. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas quero daqui, do balcão imaginário do Buteco, dar-lhes outra dica, não por qualquer razão que não seja a de marcar o contraponto, dar voz e vez a quem a imprensa ignora, lançar luzes, ainda que modestas, sobre o que é bom demais. Haverá, neste final de semana, o fabuloso arraial junino da Igreja dos Capuchinhos, na fabulosa Haddock Lobo, na Tijuca, evidentemente. Dois dias de festa, quermesse, barraquinhas, esse frio que assombra a cidade e a certeza de distância absoluta da confusão e do tumulto que – anotem – marcará essa rave desnecessária. Se São Paulo necessita e aspira por eventos desse porte, por absoluta falta de generosidade da natureza (é uma cidade fria, convenhamos), o Rio de Janeiro, franca e sinceramente, prescinde disso.

* havia jurado a mim mesmo jamais pousar os olhos no blog Internetc, da colunista especializada em informática, Cora Rónai. Desde a última Copa do Mundo, quando o troço transformou-se num palco para demonstrações de uma capivara de pelúcia (não é piada, é a verdade), prometi jamais perder meu tempo lendo o que ela escreve (mal, na minha humílima opinião). Não vai, aqui, que fique claro, qualquer agressão ou ofensa à Cora Rónai. Filha de um homem cuja história admiro, trilha caminhos que nada têm a ver com os meus, eis outra razão pela qual também não a leio. Mas parei lá hoje, e lhes explico. Tive acesso, dia desses, à brilhante e corajosa sentença emanada da Justiça Federal a respeito do menino Sean, tremendo imbróglio que vem movimentando discussões no meio jurídico, nos cidadãos que nada têm a ver com o Direito propriamente dito e já na relação entre os países envolvidos, Brasil e Estados Unidos. Diante da sentença, extremamente esclarecedora sobre o modus operandi do qual vem se valendo o padrasto do menino, lembrei-me de um lamentável texto escrito por Cora Rónai publicado no jornal O Globo e reproduzido em seu blog, e que me foi recomendado por um desavisado amigo meu que torce (torcia, a bem da verdade) contra o pai da criança. Quis relê-lo. Achei o texto, Assim é se lhe parece, aqui. E quis relê-lo para que me saltasse ainda mais aos olhos essa curiosa torcida por alguém que atenta contra a Justiça. Daí pensei: vamos ver se Cora Rónai anda falando algo sobre o assunto. Não achei nada. Mas achei, meus poucos mas fiéis leitores, um post intitulado Ê, vidão, datado de ontem, 04 de junho de 2009 (vejam aqui). E já com 30 comentários (o blog de Cora Rónai é farto em comentários. Ela posta a fotografia de um de seus gatos e em coisa de – o quê? – 10, 15, 20 minutos, dezenas e centenas de leitores estão ali, babando sobre os gatos como se à espera do potinho de leite dos felinos da colunista especializada em informática. Ela espirra e seus leitores dizem “saúde” em uníssono. Ela escreve sobre o caso do menino Sean e há uma horda de mal-informados concordando com tudo, em segundos). Nele, no tal post, abaixo reproduzido, Cora Rónai espeta, uma vez mais, o mais aprovado presidente do Brasil por seu povo. Ela, como a elite raivosa brasileira, não tolera – eis a verdade resumida -, simplesmente não tolera que um homem do povo, ocupando o mais alto cargo da República, seja um êxito, um rotundo, circular, gigantesco e irrefutável êxito. Mas mais intolerável que isso, coisa infelizmente comum entre os membros da elite que não agüentam ver, por exemplo, suas empregas domésticas podendo comprar bens de consumo aos quais jamais tiveram acesso, é que a citada colunista especializada em informática permita e mantenha um comentário como o também abaixo reproduzido: “Pq o aerolula nao cai no meio do mar?”.

retirado do blog de Cora Rónai
retirado do blog de Cora Rónai

Este, meus poucos mas fiéis leitores, o triste desejo do homem que assina o comentário, Oscar, ao que tudo indica – até prova em contrário – corroborado pela dona do blog.

Para saber mais sobre as tristes conseqüências da liminar concedida pelo Ministro do STF, Marco Aurélio de Mello, leiam, por exemplo, isso aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

* falei em STF, presidido pelo lamentável Gilmar Mendes, e faço o alerta. O STF julgará, em 10 de junho próximo, a inacreditável e inadmissível (até mesmo do ponto de vista legal) ação impetrada pelo PP, partido político brasileiro que tem, em sua fileira, o também lamentável Francisco Dornelles, e que visa pisotear leis e tratados internacionais mantendo o menino Sean no Brasil, distante de seu pai, que luta (está dito assim, claramente, na sentença a que anteriormente me referi) rigorosamente dentro das normas legais pelo direito inalienável de viver ao lado de seu filho (em aguda oposição à postura do padastro, a afirmação consta também da decisão judicial). É preciso ficar de olho no  STF. Lá está o Ministro Carlos Alberto Menezes Direito, afilhado político de Moreira Franco e de Francisco Dornelles, diretamente interessado no resultado, Presidente do PP. Estou apostando numa saraivada de pedidos de vista, o que fará o julgamento da ação arrastar-se indefinidamente. E muito preocupado com o julgamento final, temendo pelo êxito do padastro da criança e pela repercussão mundial desse tiro no pé (mais um) que o STF pode dar.

* impressiona-me, profundamente, a ausência absoluta de comentários quando lhes conto qualquer coisa sobre esse brasileiro fundamental chamado Fernando Szegeri. O mais recente texto que tem meu irmão siamês como alvo é, mais uma vez, um deserto de comentários (vejam aqui).

Até.

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SZEGERI

Estava saindo do trabalho ontem à noitinha, perto das sete, ao crepúsculo. Saltei do elevador, dobrei à esquerda ainda dentro da galeria e tomei a calçada da rua. Fui em direção à banca de jornal, à direita, comprei um maço de cigarro e pedi, na cafeteria em frente, um curto pra acompanhar o trago. Estava acendendo o cigarro quando fui abordado:

– Edu?

Ergui os olhos (feíssimos), soprei a fumaça pro alto e disse, sem reconhecer a moça diante de mim, na faixa dos – o quê?! – 40 anos, como eu, diga-se.

– Pois não?

– Boa noite, Edu! Você se importa de me dar um cigarro?

Estendi a carteira em direção a ela. Ela puxou um com extremo zelo, valendo-se das unhas, pôs o cigarro entre os lábios e fez com a sobrancelha o pedido para que eu o acendesse. Acendi. Eu tinha nos olhos (feíssimos, repito, e um maior que o outro) o neon imaginário piscando e indicando que eu não sabia com quem estava falando. Ela se adiantou:

– Você não me conhece, não! – riu e soprou a fumaça pra baixo.

Meu café chegou. Ofereci a ela.

– Vou aceitar…

Pedi outro café e fixei o olhar nos olhos da moça. Não era feia. Mas não me comovia, também. Meus olhos pediam que ela continuasse.

– Sou uma de suas poucas mas fiéis leitoras… – ficou vermelha, soprou o café, deu um golinho, pousou a xícara no pires, tragou profundamente.

Fiquei sem ter o que dizer. Sorri, apenas, um dos mais feios sorrisos que a humanidade já produziu (sou um feio absolutamente ciente da minha aridez de qualquer espectro de boniteza). Ela continuou.

– Reconheci você… tenho seu livro, leio seu blog… fiz mal em abordá-lo?

Eu disse que não, mas ela não acreditou, foi o que me pareceu.

Abriu a bolsa, remexeu uns troços lá dentro, puxou uma nota de dois reais.

– Meu café…

– Ora, deixa disso… – tentei ser simpático, o que quase nunca consigo.

Ela pôs a nota sobre o balcão.

– Faço questão.

– O.K.!

Estabeleceu-se um silêncio previsível.

Ela deu um último gole no café, tragou de novo o cigarro, jogou a guimba no chão (o cigarro pela metade), pisou para apagá-lo (ela vestia um tênis All Star), e disse, estendendo a mão (que estava geladíssima):

– Foi um prazer, viu?

– O prazer foi meu.

– Posso te perguntar uma coisa?

– Pode.

– Você me daria outro cigarro?

Estendi a carteira de novo.

– Era essa a pergunta?

Ela riu.

– Não.

– Então…

– Por que você nunca mais falou dele?

Franzi a testa (fiquei, tenho como certo, horripilante).

– Ele está bem?

Eu ia responder, ela continuou:

– O melhor personagem do seu blog. Tenho sentido falta dele. E de sua barba amazônica.

– Você o conhece?

– Do blog, apenas.

Eu ia responder, ela se despediu ainda rindo:

– Tenho que ir. Meu marido chegou! Mande um beijão pra ele, tá? Eu adoro ele!

Atravessou a rua e entrou no carro estacionado do outro lado, não sem antes acenar em minha direção.

Vejam vocês… Fernando José Szegeri, funcionário público, pai de três crianças, arrimo de família, comunista, cantor, empresário, filósofo, meu irmão siamês (e que jamais rejeitará tal condição), de férias em São Paulo, ocupando a cabeça de uma moça que dá-se ao trabalho de me parar na rua apenas para me pedir, clamando, urgentemente, que eu fale dele, o homem da barba amazônica.

Um portento, o Szegeri. Um portento.

Até.

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UMA NOITE TIJUCANA

Perdão, minha mãe, mas preciso começar assim… Meus poucos mas fiéis leitores, vocês que me lêem sabem que desde há muito deixei de lado a faceta do Buteco que expunha, de forma aguda, minha vida pessoal e meu dia-a-dia, por incontáveis razões que não vêm ao caso. Ocorre que preciso lhes contar sobre a noite de ontem por conta não apenas da excepcionalidade do ocorrido mas também por conta da belezura que foi o desfecho da história, já quase quatro da manhã.

Tudo o que se viveu na noite de ontem ficará para sempre guardado na memória e no coração dos que estiveram em torno da mesma mesa no Bode Cheiroso, glorioso pé-sujo na rua General Canabarro, na Tijuca (é claro), desde às sete e meia da noite.

O que quero lhes contar aqui é outro troço.

O Cláudio, autor do blog Chuta que é macumba (aqui), e que é um triplo explosivo ambulante (ele é, em ordem alfabética, comunista, corinthiano e japonês), responsável direto pela realização do desejo agudo que tomou de assalto meu mano paulista, o homem da barba amazônica, veio ao Rio para ver Vasco e Corinthians.

Na bagagem, despachada noutro vôo, em carne e osso, isso mesmo, Fernando Szegeri, que veio – tomem nota – apenas para beber comigo (eu ia escrever conosco, mas eu sou assim).

Após o jogo, conforme o combinado, reencontramo-nos todos no Bode Cheiroso, já que além do Cláudio, também fui ao jogo, com o Fefê, meu irmão do meio. No buteco ficaram (em ordem alfabética para não ferir suscetibilidades) Felipinho Cereal, Fernando Szegeri, Luiz Antonio Simas e Marcelo Vidal.

Pois o Cláudio, quando descia a rampa das arquibancadas, disse a seus amigos corinthianos:

– Vamos comigo beber com uns amigos num buteco aqui perto?

Os civilizados membros da Gaviões da Fiel, homens mansos e desacostumados com as quebradas, fizeram “ohs” e “ahs”.

– Aqui perto?! Na Tijuca?!

– Na Tijuca.

– ´cê tá doido, meu! A Tijuca é foda. A Tijuca é violenta. A Tijuca é perigosa.

E ficaram nessa lenga-lenga nojenta que macula o bairro onde nasci, onde cresci e fui criado.

O Cláudio, que apesar dos olhos puxados enxerga longe, e que de otário não tem nada, foi ter conosco em torno da mesa.

E faço a ele o pedido público para que comente, ele mesmo, sobre o que foi o passeio que fizemos a pé (acompanhem o traçado em vermelho no mapa abaixo), da General Canabarro, de onde partimos quase às duas da manhã, em direção ao Estudantil, na Haddock Lobo. Saímos da General Canabarro, entramos na Oto de Alencar, descemos a Lúcio de Mendonça (onde mora o Simas), dobramos à esquerda na Mariz e Barros, à direita na Professor Gabizo, atravessamos a Heitor Beltrão, pegamos a Martins Pena, a Afonso Pena à direita, atravessamos a Doutor Satamini e entramos à esquerda na Haddock Lobo.

caminhada da rua General Canabarro até a rua Haddock Lobo, Tijuca, Rio de Janeiro

Pegamos o Estudantil fechado (perto das três da manhã!), mas vazava luz pela fresta da porta de ferro.

O Felipinho bateu:

– Quem é?

– Felipinho, amigo do Edu…

Abriu-se a porta.

– Pô, por que tu não disse logo que era você?! O que vocês querem?

– Três cervejas e quatro copos americanos… toma aqui o dinheiro…

Éramos, àquela altura, eu, Cláudio, Felipinho Cereal e Fernando Szegeri.

– Paga depois… paga depois…

Nos entregaram as três cervejas geladíssimas já abertas, os quatro copos, e o caboclo disse, já indo embora:

– Depois deixa no canteiro ali, ó, os cascos e os copos. Falou?

E disse o homem da barba amazônica, de olhos marejados, uma de suas frases clássicas:

– Sabe quando isso aconteceria em São Paulo?! NUNCA! – e fez-se o eco na deserta Haddock Lobo.

Generosas doses de Old Parr fecharam a noite, quando me despedi do malandro às cinco e meia da manhã.

Salve a Tijuca e – o Cláudio vai lhes contar… – suas ruas!

Até.

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A RECEPÇÃO DE GALA

Talvez eu perca, com a publicação do texto de hoje, um de meus últimos amigos (estou exagerando apenas um pouco; vou explicar).

Dia desses, há coisa de – o quê? – uns seis, sete (acho que oito) meses, o H. me escreveu um e-mail. Dizia mais ou menos o seguinte (e eu li como se ouvisse sua voz de intelectual):

– Você pode me fazer um favor? Não cite mais meu nome. Estou pedindo! Estou pedindo!

E ameaçou, ralhando:

– Por enquanto, pedindo!

Respondi, crente que se tratava de uma brincadeira. E o H. desceu da cátedra e perdeu a linha:

– Experimente citar meu nome mais uma vez. Uma vez! Experimente!

Não experimentei.

Mais recentemente (pela ordem alfabética), o C., o F., o I., a L., a M. e a M., num movimento ensaiado como os piquetes do ABC na década de 80, gritaram (à moda do H.):

– Cite seu próprio nome!

E, antigos, disseram em côro:

– O nosso, não, violão!

Vai daí que meus personagens fugiram todos do palco. Foram em vão as tentativas de convencê-los (dentro do espírito é-mentira-mas-é-bonito) a permanecerem vivos nas minhas histórias. Usei argumentos tolos, confesso: eles estavam sendo imortalizados; eu vou morrer, o blog, jamais; essas bossas que não deram em nada.

O J.S. pediu-me algo semelhante. O F.C. também. E por aí (o V., amigo de há séculos, idem).

Apenas um – por pena de mim ou por aguda falta de tempo – não me fez pedido algum nesse sentido (e encho a boca para dizer seu nome por escrito, aqui no Buteco, e talvez pela última vez): Fernando José Szegeri.

Ontem à noite, enquanto eu dirigia, piscou seu nome no ecrã do celular (e, junto com seu nome, sua fotografia). Como por ele eu corro o risco da multa, atendi. Fui efusivo:

– Boa noite, querido!

E ele, nada efusivo:

– Tá podendo falar?

Menti:

– Arrã.

Ele, grave:

– Posso te pedir uma coisa, Eduardo? – ele nunca me chamou assim, pelo nome.

Com medo de que eu fosse ouvir o tal pedido (o tom de sua voz era o mesmo tom de voz do H., quando li seu email), desliguei. Desliguei a ligação e desliguei o aparelho.

Dito isso, vamos em frente. Hoje quero lhes contar sobre a última vinda do portentoso Fernando José Szegeri ao Rio de Janeiro.

Quando papai soube que ele viria (e que chegaria num sábado), decretou:

– Domingo ele almoça lá em casa conosco!

Meu irmão do meio (notem que não declino mais o nome de ninguém), que estava ao lado de papai quando anunciei a vinda do homem da barba amazônica, disse:

– Vou levar um puro para ele fumar!

E houve, na família, a euforia de sempre, a mobilização coletiva que só ele merece.

Mamãe preparou um cozido (uma de suas especialidades). Vovó chegou com a sobremesa que ela mesmo fez. Meu irmão levou, de fato, o puro cubano que prometera. Minha cunhada cantou tangos em homenagem a ele ao longo da tarde. A empregada de mamãe, que não trabalha aos domingos, fez questão de ir trabalhar e não admitiu receber nem o do ônibus! Meus tios se despencaram da Barra da Tijuca para ver o sobrinho. E o almoço transcorreu como se estivéssemos numa vernissage, e Fernando José Szegeri, é claro, desempenhando o papel do artista plástico, assediado, adorado, tocado, farejado, procurado para um papinho rápido que fosse. Tratado, enfim, como o gênio que ele é.

Fernando Szegeri, Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2008

Ele fez questão de fumar o charuto depois do almoço, sentado na mais portentosa poltrona que há na sala da casa de papai e mamãe. Aliás, sobre isso, um pequeno detalhe.

Quando chegamos – eu, ele e minha menina – fui direto em direção à poltrona (é confortabilíssima, a tal poltrona). Mamãe, estrilou:

– Nã, nã, ni, nã, não!

E meu pai, por trás:

– Essa poltrona é do Szegeri! É do Szegeri! – e explodiu em ruidosa gargalhada.

Voltando ao charuto.

Fernando Szegeri, Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2008

O homem da barba amazônica dava baforadas que – reparem! – só os grandes comunistas dão.

E enquanto ele fumava ali, quieto, na dele (sempre assediado pelas pessoas), fazendo gracinha com a fumaça que exalava (ele fez uma foice e depois um martelo com a espessa fumaça do charuto) sentado na mais fantástica poltrona da casa de meus pais (meus pais têm uma verdadeira coleção de poltronas), lembrei-me de uma história tristíssima, mas real, e que quero contar pra vocês.

Estive em São Paulo em meados de 2007. E bati o telefone pro Szegeri, uns dias antes:

– Posso te pedir uma coisa?! – eufórico.

E ele, protocolar:

– Fala.

– Eu queria demais encontrar com o Augusto, com o Favela, com o Borgonovi, com o Marcão, com o Capitão Leo e com o Julio Vellozo no Valadares! Você combina com eles?

– Arrã.

– Eu chego sexta. Sexta às nove? Tá bom?

– Tá. Quer que eu te pegue na porra do aeroporto?

– Não precisa. Encontre comigo no Valadares. O.K.? Ah! E avise ao Bruno e ao Gordo!

– Arrã. Pode deixar.

Fernando Szegeri, Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2008

E eis o que aconteceu…

Ninguém – nem ele, Fernando José Szegeri – apareceu no bar. Ninguém.

Quando eu digo pra vocês, meus poucos mas fiéis leitores, que o homem da barba amazônica dedica-se, como jardineiro orgulhoso de seu jardim, a cultivar humilhações impostas em doses homeopáticas a mim, eu não minto.

Eu não apenas lembrei-me dessa história.

Eu a contei, em voz alta.

Papai gritou:

– Bem feito!

E Fernando José Szegeri (o instantâneo foi tirado nesse exato momento) afastou de leve o charuto para explodir, junto com meu pai, numa acachapante gargalhada, confirmando o fato que até hoje dói em mim.

Fernando Szegeri, Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2008

Até.

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O STUDIUM, O PUNCTUM E O OVO COZIDO

Meu queridíssimo Bruno Ribeiro é tão exagerado e tão amigo dos amigos, que conseguiu elevar um tijucano humílimo, um fotógrafo mais-que-amador e rigorosamente despretensioso, à categoria de autor de pelo menos duas fotografias objetos de estudo. Vejam o que disse o malandro em seu BOTEQUIM DO BRUNO:

“Trata-se do balcão de uma esquina carioca. Chove canivete. E a chuva imóvel, ao fundo, parece emoldurar a cena, além de ser uma pintura. Se a chuva, originalmente, não tem esta cor alaranjada, deveria ter. À esquerda está o paulistano Fernando Szegeri; ao seu lado está o carioca Luiz Antonio Simas; e, na extrema direita, o jornalista Zé Sérgio Rocha (na segunda foto, suas mãos e o ovo). Sabemos que a máquina cristalizou um momento único, em que algo fundamental estava sendo discutido. Em verdade, cantado: o samba-enredo que Simas fez para o Salgueiro. Samba este que, se os orixás e os jurados assim quiserem, irá descer com a escola na Marquês de Sapucaí, no Carnaval do ano que vem. Eis o nosso studium.

Mas Barthes ficaria confuso, talvez, na hora de encontrar o punctum da foto. Pontos de fuga não faltam: pode ser tanto a barba amazônica do Szegeri quanto a careca do Simas. Eu diria que o grande ponto de fuga, no duro, é o ovo cozido na mão do Zé Sérgio. Em ambas as fotos. Os teóricos dirão que o Zé Sérgio, ou melhor, o ovo do Zé Sérgio, prejudica definitivamente o studium da imagem. “Se aquelas mãos, colocando uma pitada de sal naquele ovo, não aparecessem na segunda foto (ouço daqui os semiólogos dizerem), esta seria uma grande foto”. Eu digo, porém, que é justamente o ovo cozido nas mãos do Zé Sérgio Rocha que faz desta uma grande foto. O ovo dá o toque tijucano à obra-prima de Eduardo Goldenberg – é detalhe invasivo, tosco, alheio à emoção que a lente da máquina captura. O ovo acaba com qualquer tentativa de afrescalhar a análise sobre um simples bate-papo de buteco. O ovo, pois, é essencial para a compreensão não apenas da cena, mas da alma peculiar da Tijuca. Punctum, diria o Zé Sérgio, é o que se faz depois de comer o ovo…”

Leiam, na íntegra, aqui.

Até.

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BEBENDO COM O BERINJELA

Vocês hão de se recordar… No começo de setembro esteve no Rio o meu queridíssimo Favela. Escrevi FAVELA NO RIO, DE NOVO e publiquei umas fotos do malandro (em preto e branco), bebendo com dois caboclos num final de noite no COLUMBINHA (vejam aqui).

Pois no final da noite de sábado, 27 de setembro, já madrugada de domingo, pediu-me o mano Szegeri (de passagem pelo Rio de Janeiro), depois de um dia de fortíssimas emoções (vejam aqui):

– Eu quero ir beber no Columbinha com aquele negro velho que eu conheci pelas fotos e que bebeu com o Favela, será que ele tá lá?

Saímos do BAR DO CHICO, atravessamos a Afonso Pena, bebemos uma no BAR PINK e tomamos o rumo do COLUMBINHA. E não é que estava lá o Berinjela?

Fernando Szegeri e Berinjela, COLUMBINHA, Tijuca, 28 de setembro de 2008, 0h34min
Fernando Szegeri e Berinjela, COLUMBINHA, Tijuca, 28 de setembro de 2008, 0h35min
Fernando Szegeri e Berinjela, COLUMBINHA, Tijuca, 28 de setembro de 2008, 0h35min

Até.

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MESA FORTE

Um sábado com direito a fortes emoções e fortíssima chuva adiando o fim da noite.

Marcelo Vidal, Fernando Szegeri, Isaac Goldenberg, Felipe Quintans (o Felipinho Cereal) e Luiz Antonio Simas, QUITANDA ABRONHENSE, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 15h29min
Fernando Szegeri, Fernando Goldenberg e Isaac Goldenberg, QUITANDA ABRONHENSE, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 15h43min
Fernando Szegeri e Felipe Quintans (o Felipinho Cereal), ESCONDIDINHO DA MATOSO, Tijuca, 27 de setembro de 2008, 17h03min
Fernando Szegeri, Luiz Antonio Simas e José Sergio Rocha, BAR DO CHICO, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 20h36min
Fernando Szegeri e Luiz Antonio Simas, BAR DO CHICO, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 20h36min

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