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MONUMENTAL DOMINGO

Estar com o Fefê é, sempre, garantia de bons momentos. Foi por isso que quando combinamos a ida à feira, ainda no sábado à noite, eu passei a ser um homem dotado de uma certeza: meu domingo seria agradabilíssimo.

Acordei no domingo, como é praxe, antes das sete.

E já sentia, enquanto escovava os dentes, – sou um sentimentalóide mais agudo a cada dia que passa – saudades olímpicas do Simas. Eu já sabia, desde a quinta-feira, que ele e sua doce companheira estariam fora no domingo. E como eu faço a feira com esse carioca máximo há não sei quantos domingos, nada mais natural do que sentir-lhe a falta de maneira olímpica.

Lá fui eu à feira e lá fui à barraca de pastel com caldo de cana, o ponto de encontro de todos os domingos. Foi quando chegou o Fefê, e eu passei a ser, dali em diante, um homem em estado de graça. Não sei quanto a vocês, mas eu sofro uma espécie febril de carinho pelo meu irmão. Tê-lo como companhia é, por isso também, imprescindível. Dito isso, em frente.

Além de ser um sujeito sentimental, eu sou, também, ligeiramente invejoso. E além de ligeiramente invejoso sou, ainda, um sujeito que precisa dos ritos e dos rituais para ser alguém.

Daí juntei a inveja que sentia desde que o Szegeri serviu camarões gigantesco em sua casa – vejam aqui – à necessidade de celebrar a presença de Luiz Antônio Simas em minha vida.

Foi quando decidi, com o Fefê maravilhado ao meu lado, comprar um quilo e meio de camarões que fazem os camarões do Szegeri parecerem filhotes prematuros de camarões miúdos.

E comprei os camarões – eis a confissão essencial – para o Simas.

Da feira tomamos a direção do Bar do Chico. Bebemos duas cervejas e fomos pra casa.

Afinal, tínhamos a intenção de assistir ao show da Mart´nália no Museu do Açude, às duas e meia da tarde.

Chegamos em casa e nos esperavam Dani e Betinha – que na véspera havia combinado de estar em nossa casa antes do meio-dia de domingo!, num desses arroubos de saudade pré-datada.

Foi quando fiz a primeira leva de camarões.

camarão com azeite e alho

Umas doses de uísque, gemidos coletivos em razão do sabor dos camarões, e tomamos o rumo do Museu do Açude.

Tratava-se do projeto Brunch Cultural (nomezinho detestável), promovido pelo Museu do Açude em parceria com o Governo do Estado e com uma empresa de telefonia celular.

Show grátis, anunciavam os jornais.

Chegamos, sentamo-nos à mesa, pedimos uma garrafa de vinho, fazia um frio polar.

(dia desses escrevo sobre o estranhíssimo público da Mart´nália)

Fim da primeira garrafa, pedimos a segunda.

O pau comendo no palco muito por conta do quarteto da percussão, Jr. Crispin, Menino Ovídio (neto do grande Ovídio Brito), Macaco Branco e Cassiano, parceiros e amigos da G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel, e da simpatia e carisma das duas irmãs, Analimar (vocal e percussão) e Mart´nália.

Jr. Crispin, Analimar, Mart´nália e Macaco Branco, Museu do Açude, primeiro de julho de 2007

Final do show – ótimo – e pedimos a conta.

Antes, porém, leiam o que saiu publicado anunciando o show:

“O Brunch Cultural do Museu do Açude, um dos programas mais charmosos do Rio, (…).

(…). O show tem entrada franca, e o bufê da Casa dos Sabores é opcional. Para os que desejarem usar o bufê, que já estará aberto a partir das 12h, a reserva deve ser feita antecipadamente.

(…).”

Vem o garçom à mesa e estende a conta: R$230,00 – duas garrafas de vinho, duas águas e… e… e… quatro entradas!!!!!

Eis o diálogo que travei com o inocente garçom:

errado, meu chapa, foram só duas garrafas de vinho e as águas.

– Mas é que tem R$47,50 por pessoa…

– De quê?

Ele saiu pra checar. Voltou:

– O lugar à mesa custa isso.

– Não pago.

– Só falando com a gerente, senhor…

Fui à gerente:

– Minha senhora, a conta está errad…

Ela me interrompeu, grosseira:

– Quantas pessoas?

– Quatro.

– Todas sentaram?

– Sim.

– Tendo ou não comido, meu querido, vocês tem que pagar!

– Minha querida, não vou pagar porra nenhuma… – já debochando.

– Vai.

– Não vou. Vou é embora…

– Então vá!

E fomos.

Que beleza, não? A gerente, uma pernóstica-de-merda, burra de doer, deveria ser sumariamente demitida pelos donos do – pigarro – bufê.

O único senão da tarde, então, foi dito pela Betinha enquanto descíamos o Alto da Boa Vista em direção à nossa casa, para um risotto de camarão que estava – digo sem modéstia – perfeito:

– Se a gente soubesse, hein?! Teríamos bebido muito mais…

Até.

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NOVE DE MAIO

Estava eu com pouco mais de dois anos de idade naquele maio de 1971.

Era domingo, dia das mães, e minha mãe, a formosa, ganhou de presente seu segundo filho, um moreno bem mais moreno que o até então filho único, olhos bem pretos de jabuticaba, cabelos encaracolados e um jeito malemolente perceptível assim, de cara, pela mãe que não coube em si de tanta alegria e pelo pai, o caboclo.

Um jeito malemolente, um jeito marrento que seria evidente anos mais tarde, um corpo atarracado, uma covinha no rosto que fazia pais, avós, bisavós e toda a gente babar, e o até então filho único seguramente foi incapaz de perceber que nascia, ali, seu maior amigo.

Fefê, 30 de abril de 2006

Já discorri, mais de uma vez, sobre a paixão que nutro pelo menino de 71.

Sou mais que seu irmão mais velho, e dentro de mim se misturam as tintas do pai que não sou, do avô encantado pelo neto, do amigo e confidente indispensável, do cúmplice que tudo sabe, tudo ouve, tudo aponta, e eis que ele me comove de maneira olímpica pelo simples fato de existir e de ser meu a meu modo.

Estive com ele, pela última vez, no domingo retrasado, 30 de abril, para um churrasco em sua casa, em Vila Isabel, que ele agora divide com a Brinco e com suas meninas, Shayanne e Yasmim.

Pequena pausa para dizer que o Fê era, há até pouco tempo, daqueles solteiros convictos, radicais, capaz de fazer os militantes do MST e do PSTU parecerem cordeirinhos.

Era.

Encontrei meu irmão em estado de graça, sem caber em si de tanta felicidade, e isso estava ali, claríssimo, no brilho de seus olhos, nos gestos de atenção e doçura apontando para um homem em paz, e comovidíssimo que fiquei, bebi intensamente e fui incapaz de lhe dizer isso.

Aliás, fui incapaz de ir, antes, à sua casa para atestar o que atestei naquele domingo. Eu, fóbico incorrigível, eu, cada vez mais vulnerável a torrentes emotivas capazes de me derrubar (e um dia eu não levanto mais!), adiei o quanto pude o encontro com essa realidade que me fez tão bem vivenciar.

Preciso falar do Szegeri, rapidamente. Preciso porque quero que fique nítido o quanto o Pompa me ocupa a mente, e porque ele sabe, como poucos (talvez como ninguém) o que significa essa equação louca que me afasta de quem amo em certas ocasiões, por mero instinto de sobrevivência.

Fefê, 30 de abril de 2006

Daí fiquei grande parte do dia, naquele domingo de céu azul, cerveja gelada e carne na brasa, admirando meu irmão.

Admirando seus gestos expansivos, sua gargalhada que jamais conseguirei reproduzir (quando eu gargalho, o que é raro, pareco latir), seu sorriso puro (puro, sim, ô babacas, por quê?), sua ternura constante, e ver as marcas do tempo em seu rosto, e ver em seu rosto tanto gosto por estar vivendo aquilo naquele momento, deu-me a dimensão de sua sabedoria e a certeza de que a prece que faço, dia após dia, é imperiosa: tem de ser atendida.

Sabedoria, sim, eis que não há traumas nem tantas dores em seu caminho como há no meu, e talvez isso seja fruto de minhas preces, que creio fazer desde aquele longínquo 71, quando ainda não sabia rezar (e hoje eu acho que desaprendi).

Teria eu o dobro das dores que já sofri se isso significasse ausência de sofrimento para ele.

Fefê e Dani, 30 de abril de 2006

E por conta desses troços todos, desse amor desmedido, dessa espécie saudável de dependência, dessa idolatria infantil, é que tenho vontade de reproduzir, pelo terceiro ano consecutivo, o poema que dediquei a ele, Fefê, meu irmão siamês, pela primeira vez, em 2004.

Ergo do Buteco o copo a ele. Com quem passarei o dia, que tiro de folga hoje. Vejam se não é coisa de pai coruja, avô babão ou irmão apaixonado.

“Sendo eu Flamengo até a alma,
tendo o sangue negro
a bombear o coração vermelho,
preciso de um cigarro e muita calma
pra escrever,
depois de alguns ensaios diante do espelho,
uma frase capaz de lhe fazer compreender
a dimensão do amor que me une a você,
meu irmão siamês.
E vou escrever uma única vez:
por você sou vascaíno.

Por mais que o tempo passe
insisto em vê-lo como um menino,
mas o menino sou eu
a idolatrar o irmão que é meu maior tesouro,
num movimento e num impasse inexplicável do tempo,
que dobra as datas e me faz ter nascido depois do seu primeiro chôro.

Entre nós dois, pactos de sangue, cumplicidade,
cinzeiros cheios, muita cerveja, olhos marejados,
samba, mulheres e futebol.

Torço permanentemente para que a Vida,
a tal senhora por vezes desatenta,
atenda minha reza estúpida
que pede para que eu jamais lhe sinta a falta.

Passarei, como os craques passam,
de passagem,
deixando com você,
como homenagem,
meu coração calejado, na colina mais alta,
devidamente marcado pela Cruz de Malta.”

Até.

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CAFÉ DA MANHÃ, UMA SOLUÇÃO

Casam-se no sábado, depois de amanhã, 26 de novembro, meu irmão Szegeri e minha irmãzinha, a doce Stê. O furdunço, marcado para as 13h, promete ser imbatível e entrar pro Guiness. Fernando anuncia 25o litros de chope, caldeirões de fatada, comida pra batalhões, bebida pra cossacos com sede, e é claro, a fartura prometida, somada ao carinho, fez com que decidíssemos, aqui no Rio, partir em bando pra São Paulo. O que gerou pequeno problema que vou explicar.

Partimos às cinco e meia da manhã de sábado, num vôo da Gol, baratíssimo, eu, Dani, Vidal, Gláucia, Flavinho, Betinha, Dalton e Fefê (o Fefê vai de ônibus, mas isso é mero detalhe). Ou seja, chegamos à São Paulo às seis e vinte da manhã.

O que fazer chegando tão cedo?

Vamos a algumas propostas apresentadas pelos oito (eu me incluo):

– Podemos ir direto pra Mercearia São Pedro beber cerveja – eu disse.

– Abre às oito. – disse o Dalton – Acho melhor bebermos no aeroporto mesmo e de lá seguirmos, só às oito, pra esse lugar.

– Vamos chegar meia-noite no Galeão, então… bebemos por lá mesmo… – foi idéia do Vidal.

– Eu voto pelo seguinte: – emendou o Fefê – Vamos direto pra casa do Szegeri. O chope já vai estar no gelo e começamos ali mesmo os trabalhos…

E fui comunicando tudo ao meu irmão paulista (cada vez menos meu irmão, eu devo dizer. O Szegeri, tomado por uma fúria de ciúmes do Zé Sergio, sem qualquer explicação cabível, maltrata-me de forma solene nas últimas semanas).

E eis o que o Szegeri me confessa…

A doce Stê está sem dormir de preocupação. Temendo pela performance dos oito desde às sete da manhã, conseqüentemente temendo pela integridade da casa e dos móveis, temendo pelo tumulto que aventa-se inevitável com oito cariocas de porre já de manhã, queimou a mufa (velho!, velho!, estou cada vez mais velho!) e arrumou uma solução. Bateu o telefone pra mim ontem à tarde e disse, dulcíssima, com aquela voz tão sweet como diria a Dani:

– Oi, Edu… é a Stê…

– Oi, querida!

– Edu… (vozinha de choro)

– O que foi?

– Vocês não vão beber desde cedo no sábado, né?

Eu apenas ri.

– Acho que não – e ri de novo.

– Eu e o Fê pensamos numa coisa muito legal, meu…

(fiquei mudo)

– Vamos servir um baita café da manhã pra vocês… Pães italianos, suíços, broas, bolinhos, patês franceses, queijos de todo o mundo, frutas variadas, sucos, e uma garrafa de champagne.

– Uma? – eu disse sendo tijucano dos pés à cabeça.

Ela desligou.

Comuniquei aos sete a decisão da Stê.

E a minha reprodução fiel do telefonema (“uma garrafa de champagne”) gerou protestos dignos do movimento estudantil em 68.

– Pão-dura! – urrou a Betinha.

– Depois eu é que sou do Cachambi! – protestou o Flavinho, dando tiros pro alto.

– Nem fudendo! – disse o fino Fefê.

– Ai iê iê mamãe Oxum, assim não dá! – cantou o Pai Dalton.

– Ela é italiana ou é judia? – foi o Vidal o autor da pérola.

E eu temo, francamente, pela integridade da cozinha do queridíssimo casal.

Até.

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GRANDEZA ESPIRITUAL

Notem a grandeza espiritual do Szegeri. Meu irmão foi passar sete dias em Pouso da Cajaíba com a doce Stê e com a Iara, a rainha das águas, uma de minhas afilhadas. Além da Stê e da Iara, Szegeri partiu para o paraíso com a Railídia, sua ex-mulher e mãe da Iara, e com o Robson, namorado da Rai.

Contei a façanha durante churrasco na StefHouse.

A Betinha:

– Que lindo! Que elevação espiritual!

E o Flavinho de cara amarrada:

– Não admito tamanha concessão. Não suporto fair play.

E deu dois tiros pro alto, sacando da pistola que guardava na meia (notem a indumentária do egresso do Cachambi: camisa pólo da Elle et Lui, bermuda branca de popeline, meia soquete e tênis All Star).

A Betinha foi, ali, uma condoída pelo estado do Xerife. E argumentou:

– Puxa, amor… Veja que lindo! Szegeri com sua amada, a filha e – qual o problema, poxa vida…? – a ex-mulher com o namorado. Coisa de primeiro mundo. Prova de elevação de espírito e solidez de caráter.

O Fefê meteu-se na conversa:

– Alto lá! Prova de elevação também da Stê e do tal do Robson!

– Dois babacas. – emendou o Xerife.

Dei-lhe um tapa na altura do omoplata:

– Nunca mais fale assim da doce Stê.

– Falo quando eu quiser. – disse o Flavinho com o cano da pistola na minha testa.

A Betinha tomou o Flavinho pelas mãos e o obrigou a guardar a arma.

E disse:

– Amor… veja bem… você não iria comigo passar um final de semana em Angra com o… (e cochichou-lhe no ouvido).

– Nenhuma chance.

– E com o… (outro segredinho).

– Cadê minha pistola?

– Amor… que é isso? E com o…

Flavinho pôs a mão no queixo e disse:

– Com esse até pode ser…

Betinha abriu um sorriso lindo e disse:

– Viu?

– Viu o que?

– Você não é tão rude assim…

– É porque esse eu mataria durante o final de semana!

E deu mais um tiro pro alto.

Depois de mais alguns engradados, o Flavinho toma do celular. E rosna:

– Fora da área! Fora da área!

E eu:

– Tá tentando falar com quem?

– Com o Szgeri, pô! Ele não pode ser tão frouxo!

Eu, pondo panos quentes:

– Xerifão, veja bem… O Szegeri é quase não-humano, rapaz. Ele tem uma, hummm…, sabedoria superior, elevada… Não é à toa que é meu Otto.

Flavinho já triscado:

– Otto é o cacete! Otário, isso sim! Otário!

Betinha intervém:

– Môzão… que é isso?

– Sai pra lá! Sai pra lá! Afinal de contas o cara fala que tu é musa dele, te comparou com uma pipa, tá pensando o quê? Acabo com a rabiola dele!

Eu:

– Malandro, não fala assim, pô, o cara é nosso Confrade!

– Eu votei contra! Eu votei contra! – confessou o Flavinho, denunciando o voto contrário à entrada do meu irmão na Confraria.

Daí o Fefê se meteu. O Vidal se meteu. O Zé Colméia se meteu. O Dalton meteu a colher. E o Flavinho:

– ´cês tão vendo? A Confraria inteira está aqui! Cadê o cara? Cadê o cara? Tá lá, em Pouso sei lá de quê fazendo papel de otário! Vamos expulsá-lo da Confraria!

Foi preciso que a Betinha, geralmente um furacão de fazer o Katrina parecer brisa, convencesse o Flavinho a ir embora para que tudo se acalmasse novamente.

Bateu-me o telefone cedinho o Flavinho no dia seguinte:

– Edu… desculpa por ontem…

– Deixa pra lá. Tu tava bêbado.

– Não conta nada pro Szegeri, por favor.

– Pode deixar.

Como se vê, promessa cumprida.

Até.

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A ADEGA DO FEFÊ E DO ZÉ COLMÉIA

Fefê e Zé Colméia, dois dos piores anfitriões de que se tem notícia, mas dulcíssimos no trato pessoal, abriram ontem os portais da StefHouse para um churrasco. Presentes eu, Dani, Silvia, Betinha, Flavinho, Dalton, Camafeu, Vidal, Gláucia, Fumaça, Duda, Fefê, Brinco, Shasha, Zé Colméia, Vinagre, Marquinho e Manguaça. Vejam bem que a Duda estava presente, mas foi, a Duda, convidada de última hora.

Chegou à janela de sua nova casa (mudou-se para um prédio colado, parede com parede, com a StefHouse) e gritou “oi”. E recebeu de volta 34 braços e 34 mãos fazendo gestos sob gritos de “vem, vem, vem!”. E ela foi.

Mas chegou com o pai e a mãe, Rogério e Regina, que estavam fazendo pequenos reparos e algumas instalações no apartamento da filhota.

O Rogério, seu pai, é renomado sommelier, autor de vários livros sobre o assunto, organizador de cursos nos quais ministra aulas sobre a matéria e, diz a lenda, não bebe cerveja.

Quando adentrou o recinto, Rogério foi saudado com um respeitoso “oh” coletivo. E percebi, nos olhos do Fefê, o pânico instalado.

– Zé! O cara não bebe cerveja…

O Zé, fino como de costume (tenham em mente que o Zé é altíssimo e calça 50, o que dá a ele a aparência de um rude mastodonte) respondeu de voleio:

– Foda-se!

Fefê valeu-se de fundamentados argumentos para convencer o Zé de que seria de bom tom retribuir a gentileza, lembrando ao Zé a noite em que, depois de uma festa em sua casa na serra, o Rogério abriu caixas e mais caixas de raríssimo vinho do porto para eles. E os dois desceram, e eu fui atrás.

Foram à adega que mantêm em casa. O Zé mostrando uma garrafa pro Fefê disse:

– Esse aqui, Fê. Acho que ele vai gostar.

– Zé! Almadén não rola! O cara é super rigoroso!

– Foda-se, Fernando! Custou 3 reais essa garrafa, pô! Tu quer esbanjar, cara?

– Não é isso, Zé. Ele é sommelier!

– E daí, cara? Eu sou Botafogo, tu é Vasco e qual o problema?

– Vamos levar essa, então, que pelo menos tem nome estrangeiro!

– Essa foi 6 reais. Tem certeza?

– Tenho.

E subiram. Eu atrás de novo.

O Zé pro Rogério, desligando o som e pedindo silêncio:

– Rogério, é uma puta honra receber você aqui em casa. Como a gente sabe que tu não bebe cerveja queremos te oferecer esse tesouro que guardamos na nossa adega há mais ou menos uns 10 anos… – e estendeu a garrafa verde do vinho branco CountryWine em direção ao Rogério.

E parecia que o Zé estava pondo nas mãos do Rogério um vírus visível e mortal. O Rogério deu um salto pra trás. E o Zé, piscando o olho pro Fefê:

– Quê isso, Rogério!? Cerimônia não! Faço questão!

Tomou do abridor de garrafas numa das mãos – não há abridor de vinhos na casa – e empurrou a rolha pra dentro do vinho, que esfarelou-se em mil grãos.

Deu um vigoroso gole no gargalo.

– Rogério, toma aí! Dei esse primeiro gole e bebi a rolha esfarelada mesmo pra não te servir esse líquido precioso maculado por cortiça!

Estendeu ao Rogério a garrafa (o rótulo completamente desfeito pela ação do tempo) e um copo de geléia de mocotó Imbasa:

– Sirva-se! E perdoe pela taça, mas é o que temos de mais apropriado pra ocasião!

O Rogério, gentil e educado, polido e amedrontado, serviu-se e deu um golinho.

– E aí? E aí? – disse o Zé varando um tapão no ombro direito do Rogério.

O Rogério, fazendo uma careta terrível, disse:

– Legal. – estendendo o copo em seguida em direção à Regina.

– Sentiu aromas herbáceos? – perguntou o Fefê.

– Arrã. – disse um lacônico Rogério já se despedindo de todos.

– Pô… mó grosso o cara, aê… – disse o Zé entornando pelo gargalo o resto do vinho.

Do alto do terraço eu vi quando o Rogério, coitado, vomitou do outro lado da rua. E já longe do Zé, não temendo mais as possíveis retaliações, gritou:

– Zé! Se você temperar carne assada com essa bosta a carne estraga!

Até.

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ROYAL SALUT E UMA DO PAPAI

O Flavinho, nosso querido Xerife, fez colossal convite a mim e ao Fefê pra noite de ontem. Bateu o telefone cedinho pra mim e foi dizendo:

– Tens algo pra hoje à noite?

E eu que não recuso convites:

 – Tinha!

E ele:

– Quero você e o Fefê lá em casa hoje à noite então, vamos abrir uma garrafa de Royal Salut…

Eu fiquei mudo – bebera apenas uma única vez desse tesouro – e ele emendou “Cem dólares a garrafa!”.

Eis aí, nessa frase – “cem dólares a garrafa” – a certidão de nascimento do Flavinho e seu atestado de origem. Egresso do Cachambi, onde não tinha nem pro Teacher´s ou pro Old Eight, hoje morando no Flamengo, e na companhia da minha mui amada Betinha, o Flavinho ligou em seguida pro Fefê e foi um íntegro repetidor do que disse a mim no telefonema. Soube disso porque em minutos o Fefê me ligou:

–  Edu, você vai, né? Cem dólares… putz!

O Flavinho estava repetindo “cem dólares a garrafa” como quem respira.

Mas vamos ao encontro.

Apenas nós quatro: eu, Fefê, Flavinho e Betinha.

Eu cheguei primeiro (como sempre). O porteiro interfonou, fui autorizado a subir e eis que salto do elevador e o Flavinho está no corredor a minha espera. Abraça-me e diz “cem dólares, cem dólares!” e ficou brandindo a nota do DuttyFree no meu nariz (a Betinha chegou, há dias, da Suíça, e vejam que nisso, também, reside a escalada do Flavinho, cujas namoradas até então chegavam, no máximo, de Cabo Frio).

Tínhamos de esperar o Fefê pra abrir o tesouro, ele me disse. E o Fefê chegou em meia-hora. Toca a campainha, é o Fefê. O Flavinho vai à porta e, como fez comigo, espana o nariz do meu irmão com a nota fiscal e fica dizendo “cem dólares, Fefê!, cem dólares!”.

Antes de abrir a garrafa o Flavinho posou, deixe-me pensar pra que eu seja de novo preciso, para umas quinze fotografias abraçado à garrafa. Numa delas – eu vi!, eu vi! – o Flavinho sentou-se no sofá e ajeitou a garrafa em almofadas a seu lado e ficou fazendo festinha na tampinha até que disse pra Betinha “Pode bater, amor!”, e em seguida ficou estendendo a mão pra câmera dizendo “Deixa eu ver! Deixa eu ver! Ficou boa?”.

Mas bem. Abriu-se a garrafa. Ao primeiro gole, o Flavinho, “Hummmm…” pra logo em seguida pôr a boca em meu ouvido e repetir “cem dólares!”.

Um vizinho pôs-se a espiar pela janela em direção a nós (como estou velho, quem ainda usa o verbo “espiar”?) e o Flavinho, grosso:

– Qual que é, camarada? Nunca viu uma garrafa dessas não? Cem dólares, otário! Cem dólares!

E assim seguiu-se até que parti. Mas notem bem. Eu falei no vizinho do Flavinho e quero lhes contar uma do papai. Imperdível.

Eu cresci – e creio que também o Fefê – tendo uma piedade aguda dos vizinhos. Nutrindo um sentimento de pena, de dó, imenso, intenso, incessante, pelos vizinhos. Pensava ser, o vizinho, o ser mais solitário e abandonado da face da Terra. Tudo por culpa do papai. E quero explicar.

Cresci ouvindo o papai dizer coisas como: “Meus filhos… se o papai não se preocupar com vocês, vai se preocupar com quem? Com o vizinho?”, e nós dizíamos instruídos “nãããão…”.

Se um dia estávamos à mesa sem fome, lá vinha o papai. “Vocês têm que comer tudo!”, e nós, depois do muxôxo, ouvíamos, “Meus filhos… se o papai não se preocupar com a alimentação de vocês, vai se preocupar com a alimentação de quem? Do vizinho?”.

Tínhamos uma febrinha. E o papai vinha, com o termômetro, a cada meia hora. Bastava dizer “de novo, papai?”, e ele espetado e já enfiando o termômetro debaixo de nosso braço, “Se o papai não tirar a temperatura de vocês, vai tirar a temperatura de quem? Do vizinho?”, e notem que isso me fazia, às vezes, chorar escondido com pena do vizinho. Por que?, eu pensava, o vizinho é o último dos homens e o mais desprezível? Quem?, eu me torturava, quem cuidará do vizinho?

Ontem brindamos, em determinado momento, eu e o Fefê. Erguemos o copo e dissemos “Ao papai!”, ao que o Flavinho, “Alguma razão especial?”, e eu, repetindo o gesto do meu velho pai… “Flavinho… se nós não brindarmos à saúde de nosso pai, vamos brindar à saúde de quem? Do vizinho?”, e ele riu, apenas riu.

Até.

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