Arquivo da tag: família

MEU PAI FAZ ANOS AMANHÃ

Faz anos, amanhã, meu velho pai. E uma boa maneira de (começar a) conhecer meu velho pai é lendo Papai também é fóbico, que escrevi aqui, em 19 de abril de 2011. No texto, conto sobre uma das facetas do meu pai, um homem multifacetado – como quase todos nós.

Escolhi para ilustrar o texto de hoje, que vai como homenagem ao aniversariante de amanhã, uma foto que virou, entre os familiares, uma espécie de patuá – e explico.

Tal foto foi tirada na Bahia, durante uma viagem que fizeram, ele e minha mãe, de férias. E meu velho pai tem, na mão esquerda, um galho, um graveto (sei lá que diabo!), usado para escrever nas areias da Bahia o apelido de minha mãe: Pixuxa. E faço, desde já, a ressalva: somente meu pai, mais ninguém, chama mamãe de Pixuxa, assim como ela, e somente ela, chama papai de Meudi. (lê-se Mêudi, não Meudí, e vão tomando nota do nível de precisão de meu relato). Pois esta foto teve, para a família, o impacto que teve a declaração de James Stewart para Katharine Hepburn, em Núpcias de Escândalo, em 1940, a declaração de Dalila a Sansão, a declaração do príncipe para Rapunzel.

Tal foto – diga-se – foi digitalizada a partir de um slide. E sessões de slide, lá em casa, sempre foram impactantes. Vou lhes contar com eram as tais sessões.

Papai montava o projetor (que sempre – eu disse sempre! – enguiçava no meio, requerendo uns tapas dados por meu pai) e chamava-se toda a família. Mamãe montava uma tela na parede e começava a sessão (sempre as mesmas caixas de slide, sempre os mesmos comentários!). Era aparecer essa foto e começava:

– Oh, Mariazinha, que lindo… – e vovó enxugava uma lágrima furtiva que subitamente lhe saltava dos olhos.

– Esse é o Isaac escrevendo Pixuxa numa praia em Salvador… – dizia mamãe, orgulhosa, o que todos já sabíamos.

Meu avô, meio avesso a demonstrações de afeto, tossia e dizia:

– Bacana.

Tia Idinha, irmã de minha bisavó, gemia entre os dentes:

– Benza, Deus!

Enfim, a foto era um ícone.

E por falar em ícone, deu-me vontade de lhes contar sobre um dos ícones de meu pai: a tia Noêmia (acabo de lembrar que, para conhecer melhor meu pai, é imprescindível ler isso aqui).

Tia Noêmia, casada com meu tio Chico, era nora de minha bisavó Mathilde, cunhada de minha avó Mathilde, chamada de tia por minha mãe, por nós – eu e meus irmãos – e também por meu pai. E o meu pai sempre teve verdadeira adoração, idolatria, quase um fanatismo cego pela biografia da tia Noêmia. E a tia Noêmia passou a ser, mesmo para quem não a conhecia (tia Noêmia ainda está vivíssima!), uma figura – por conta das reações do meu pai. E notem a que ponto a coisa chega.

Lembro-me de um dia, durante um churrasco de aniversário de um amigo (meus pais presentes), ter apresentado papai a uma amiga. Eu disse o óbvio:

– Esse é meu pai. Pai, essa é a Noêmia.

E bastava eu dizer o nome – Noêmia – para começar uma espécie de transe. Papai eriçou os pelos, pôs ereta a espinha, respirou fundo e saiu dizendo:

– Eu gosto da Noêmia. Gosto, gosto. Gosto da tia Noêmia!

Minha amiga se assustou (faço a confissão tardia).

Tia Noêmia, que hoje mora no Méier, morava numa casa no Engenho Novo. E muitas vezes mamãe dizia, aos sábados:

– Meninos! Aprontem-se. Vamos pra casa da tia Noêmia.

E meu pai guinchava na sala, uivava como um lobo faminto diante da presa, dava de repetir:

– Uma lutadora! Uma batalhadora, a tia Noêmia! Eu gosto da tia Noêmia!

Encarava um de nós e dizia, olhos nos olhos:

– Você entende? Eu gosto. Gosto. Gosto da tia Noêmia!

Lembro-me de que no jardim da tal casa do Engenho Novo havia uma das coisas mais feias e impactantes que eu jamais vi noutro lugar: havia uma réplica da estátua do Cristo Redentor, em gesso, sobre a grama, e em volta do Cristo, de mãos dadas, bonecos dos Sete Anões e da Branca de Neve (creiam que isso, essa visão, para uma criança, tem conseqüências gravíssimas que ainda não descobri).

Um dia eu disse, chegando lá:

– Que coisa estranha esse Cristo com esses anões…

Fefê, meu irmão mais velho (mais novo que eu, entendam), emendou:

– Bizarro.

Pois meu pai nos catou pelas mãos e foi categórico:

– Cristo, anões, Branca de Neve… é tudo da tia Noêmia, entenderam? E eu gosto da tia Noêmia. Não gosto?

Com medo, assentimos.

– Pois é lindo!

E ele deu-se por satisfeito.

E vejam – é como vou encerrar a crônica de hoje – a que ponto chega a idolatria de meu pai (antes, leiam aqui sobre o velório de minha avó Mathilde).

Vovó jazia, tadinha, no caixão de madeira. Mamãe, sua filha única, ao lado da mãe. Eu, Fernando, Cristiano, seus netos, também. E foi, como lhes conto no texto indicado, “um velório tijucano e rodrigueano”. Um detalhe, entretanto, escapou-me do tal relato. Vamos a ele.

A certo momento chegou, para a capelinha, a tia Noêmia. Meu pai, que não é muito chegado à visão de qualquer defunto, estava sentado num banquinho próximo ao caixão. Ao dar com tia Noêmia chegando, a cena.

Atirou-se, trôpego, ofegante, afoito, aflito e arquejante nos braços da tia Noêmia. E, novamente como um lobo, deu de uivar:

– A dona Mathilde sabia, tia Noêmia, o quanto eu gosto da senhora! Eu gosto! Gosto, gosto, gosto, tia Noêmia!

E não largou, meu pai, das mãos da tia Noêmia.

Cristiano, o mais novo, em dado momento incomodou-se:

– Pai! Fica com a minha mãe!

Eu, caminhando um pouco mais à frente pelas aléias do São Francisco Xavier, ouvi meu pai dizer:

– Cristiano, você e seus irmãos estão com a sua mãe! Vou ficar com a tia Noêmia, coitada, que está sozinha.

E repetiu, de si para si, até a última pá de cal:

– Eu gosto da tia Noêmia. Gosto!

Até.

6 Comentários

Arquivado em confissões, gente

DIANTE DO INTRANSPONÍVEL

Ao longo de pouco mais de 42 anos de vida aprendi, é evidente, algumas lições. Somos, cada um de nós, produto de cada um dos segundos vividos desde o nascimento, e é desinfluente dizer que ainda acredito no amealhar de cada um dos segundos vividos nas vidas pretéritas – não vem ao caso, não faz diferença para o que quero lhes dizer e isso aqui não é, definitivamente, palanque para pregações de qualquer natureza. Vou me ater, pois, ao mais simples.

Eu sou produto direto do meio em que vivi, e quantas vezes debrucei-me neste balcão virtual para lhes fazer minhas confissões (e, creiam, as faço precipuamente para mim mesmo, num exercício doloroso e prazeroso de arejar a alma, de exorcizar meus fantasmas, de compreender meus medos e de buscar ser e estar melhor)…

Nasci em 69 num hospital que fica de frente pro morro do Borel – e isso já diz, a mim, muita coisa. Primeiro filho de pais absolutamente fabulosos (meus amigos, os que me têm por perto, não me deixam mentir), nasci e cresci na Tijuca, forjado no asfalto das ruas, debaixo da saia de uma penca de mulheres, no concreto dos estádios de futebol, nas rodas de samba, nos balcões dos bares, nos centros espíritas que freqüentei, vendo papai receber caboclo dentro de casa, indo a terreiros de umbanda e candomblé quando me dava na telha. Fui criando minha particular visão de mundo, conheci a morte de perto quando vi minha bisavó desaparecer em 1982, morei durante um tempo na Lagoa, quando fui um exilado absoluto, mudei-me de volta pra Tijuca em 1999 e na Tijuca estou até hoje, torcendo pra que tenhamos um cemitério por aqui, como disse Luiz Antonio Simas em brilhante arrazoado (aqui), a fim de que eu não saia daqui nem mesmo depois de morto, quando a morte decidir vir me buscar.

Feito o não tão curto intróito, vamos em frente.

Diante do intransponível – seja ele uma dor lancinante, o fim de um namoro, a primeira derrota no jogo de botão, a morte de alguém muito amado, o fracasso do time em uma final de campeonato… – só há duas possibilidades, e não me venham com tratados a fim de derrubar minha certeza: ou encara-se o inevitável, o instransponível, de cabeça erguida, com bom-humor, ânimo e coragem, ou curva-se diante dele, cabisbaixo, com sinais de depressão, desânimo e medo. Qualquer coisa diferente disso é papo pra boi dormir.

E por que lhes digo isso, além da evidência de que falo de mim para mim a fim de me manter bem? Porque ontem estive com o Neco, um amigo querido, que me convidou para um almoço que acabou se estendendo até o final da tarde. Vimo-nos, na esquina da rua do Mercado com a rua do Rosário, e fomos imediatamente dois bonecos infláveis de posto de gasolina, brandindo os braços diante da alegria daquele encontro. Disse-me o Neco, sorrisão estampado no rosto?

– Como você tá, velhão?

Fui um derramado – troço, confesso, corriqueiro.

Saí dissertando justamente sobre isso, sobre a necessidade, imperiosa e urgente, do ânimo absoluto diante do intransponível. Repeti, de certa forma, o que venho dizendo aos meus, aos mais-de-perto, aos que constituem a muralha que protege minha cidadela. Aos que não terão, jamais, dedos apontados em minha direção, aos que jamais proferirão, diante de mim, sentenças prontas e fabricadas por sistemas que nunca me disseram nada ao coração – sistemas que dão valor ao que conheço apenas como palavra e letra fria: arrependimento, culpa, remorso.

Essa tática simples – e ao mesmo tempo difícil pacas de aplicar! – de manter-me pronto diante do intransponível rendeu-me, até hoje, mais de 42 anos depois de ter vindo ao mundo diante do morro do Borel, um bocado de histórias bonitas pra contar. Sempre preferi o riso à lágrima (embora eu chore cada vez mais, puramente de emoção diante da beleza das coisas, das saudades que guardo), o bom-humor à carranca, o braço aberto à sisudez, a leveza à dor, por aí.

Sempre fui bom nisso. De certa forma sempre preguei ou executei atos visando à transformação ou derrubada da ordem estabelecida, sempre fui revolucionário. De certa forma sempre expressei minhas idéias, pensamentos e opiniões opostos ou profundamente diferentes dos da maioria que, por isso mesmo, freqüentemente se sentiu ameaçada. De certa forma sempre agi de maneira a perturbar, tumultuar as instituições, sempre fui contra a ordem, desejei o caos, fui perturbador e agitador. Subversivo, além de polemista e dissidente de mim mesmo.

Mamãe conta – é uma de suas histórias preferidas, dessas que todas as famílias têm – que quando fui a meu primeiro jogo no Maracanã sozinho, completamente sozinho, sem meu pai, ela ficou me esperando chegar na varanda do apartamento. O jogo começara às nove, pouco depois das onze dobrei a esquina. Mamãe conta (lembro-me muito vagamente disso) que eu percebi que ela estava à minha espera, e ela apagou as luzes e foi pro quarto, fingir que estava dormindo. Conta, mais, que eu entrei, bati em seu quarto e a convoquei pra uma conversa na sala. Em resumo, eu disse a ela que eu nunca mais sairia sozinho se isso significasse preocupação pra ela. E que eu achava uma tremenda sacanagem ela acabar com minha alegria, deixando-me também preocupado com sua preocupação, algo assim. Pois quando mamãe termina de contar isso, ela diz (mamãe é muito pouco parcial…):

– Que lição! Que lição! Que lição que o Edu me deu!

Fato é que, dia desses, convoquei mamãe pra uma conversa de novo. Deitei-me em seu colo, chorei pra burro, falei de mim. Que lição! Que lição! Que lição que mamãe me deu! Subvertendo o tempo, fui ali, já velho, a criança indefesa, de calças curtas e camisa listrada, no colo quente da melhor mãe do mundo: pedindo conselho, pedindo perdão, pedindo sua benção.

Que nunca – eis o que eu queria lhes dizer -, mesmo diante do que parece intransponível, me faltou.

Até.

17 Comentários

Arquivado em confissões, gente

BARBEARIA SALÃO AMÉRICA

Eu hoje farei mais uma de minhas incursões pelo passado, esse alicerce fabuloso, formador do caráter de todo homem, e que engloba esse tempo incomensurável entre a primeira encarnação, entre o primeiro sopro de vida e o minuto anterior ao agora. Vou, confesso, mais longe. Vou ao dia 21 de março de 1970, um sábado. Fazia um sol tremendo na Tijuca, eu havia chegado ao mundo há menos de 10 meses – sou de 27 de abril de 1969 – e papai não dispensava, claro, o final de semana ao lado de seu primogênito. Papai e mamãe, frise-se, mas papai trabalhava na REDUC, em Duque de Caxias, e aos sábados e domingos a dedicação era integral para mim. Morávamos, evidentemente, na Tijuca – minha única geografia possível – , num edifício de pastilhas azuis na rua Barão de Mesquita, próximo à rua São Francisco Xavier. E naquele dia 21 de março de 1970 deu-se o seguinte: papai levou-me, pela primeira vez, para cortar o cabelo.

Não por outra razão a imagem dessa porta (acima) está enterrada em mim como sapo de macumba (apud Nelson Rodrigues). Mas eu, há até pouco tempo, não sabia muito bem o porquê.

Afastei-me da Tijuca durante um único período da minha vida: entre 1994 e 1999, durante o primeiro casamento, morei na Lagoa, onde eu me sentia, eis a verdade, tão confortável como um rabino dentro de Auschwitz-Birkenau. Nada ali me era familiar, e se eu conseguira até arrumar um lugar pra cortar cabelo, na Fonte da Saudade, eu continuava indo fazer a barba, aos sábados, na Praça Afonso Pena, na minha aldeia nativa.

No Salão América, quase na esquina das ruas Martins Pena com Campos Sales, bem diante da praça.

A mesma praça, diga-se em nome da precisão – essa minha companheira inseparável -, na qual estamos eu e papai na foto abaixo. Sou eu, ali, o menino sem camisa, de short quadriculado, com um sorriso que só criança é capaz de estampar no rosto, tendo as mãos cobertas pelas mãos de meu pai. Com o cabelo – notem – devidamente cortado.

Pela primeira vez.

Vai daí que é chegada a hora de lhes dizer: quem sempre faz minha barba, e desde que eu me entendo por gente (com barba, claro), é o Raul, esse caboclo boa-praça que aparece fumando na fotografia seguinte.

O Raul é tricolor fanático (um dos poucos que eu respeito, a torcida do Fluminense é composta por uma massa cheirosa que não me agrada), morador da rua do Matoso, fumante inveterado e hoje devagar com o andor quando o assunto é birita, porque ele foi um senhor bebedor ao longo da vida.

Fazer a barba, desde priscas eras, significa cumprir esse ritual: eu pago o café do Raul, antes e depois, no bar América Esportivo, ao lado do salão (hoje o nome mudou para Buteco do América). Conversamos sobre futebol, falamos da rodada e dos jogos da semana, sacaneamos o seu Ernesto, dono do salão e seu patrão há mais de 40 anos, damos boas risadas e não é raro cruzar com ele, pela manhã ou à noite, indo ou vindo do trabalho.

Vamos ao que quero lhes dizer.

Dia desses quase matei o Raul do coração (o cabra é um emotivo).

E aqui faço uma pausa pra lhes contar uma história.

Quando fiz 40 anos, em 2009, mamãe me deu de presente um prato cheio para um homem como eu, apegado ao passado e às lembranças, aos registros, aos rastros. Meu álbum de bebê.

Fui, durante as semanas seguintes, um homem rasgado pela luz das lembranças. Folheava cada página com uma atenção absurda, prestava de observar cada detalhe, cada anotação feita pelas mãos generosas e carinhosas de minha mãe, e aquele álbum, cheio de clichês como qualquer álbum de qualquer bebê, mez fez vítima de arremessos violentos e bruscos em direção ao passado.

Estaquei pra valer, entretanto, diante da página que trazia um pequeno cacho de cabelos presos por um pedaço de fita durex.

Ali, a prova irrefutável: meu primeiro corte de cabelo fora no dia 21 de março de 1970, aos dez meses, no “barbeiro”, no “Salão América”, a letra de mamãe é nítida.

Diante da mais que justificável ausência do nome do “barbeiro”, convoquei papai, dia desses, para uma cerveja no bar ao lado do salão. Lá, contei pra ele sobre o álbum, que levava comigo. Papai umedeceu os olhos – papai é duro como um soviético, emociona-se pouco – e disse:

– Foi um tricolor fanático que ficava na primeira cadeira, à direita de quem entra…

Chamei pelo Raul.

Era ele.

Até.

7 Comentários

Arquivado em confissões

MINHA MÃE É UMA MULHER DE PEITO

Vocês que têm me acompanhado por aqui bem sabem que sou um homem de fazer confissões. Sabem, mais que isso, que tenho me dedicado, nos últimos dias, a fazer confissões arrancadas da gaveta da memória, fruto de intensos e violentos arremessos em direção ao passado que não me trai. Aqui e aqui, mais recentemente, tratei de um tema importante trazido à tona pelo historiador Luiz Antonio Simas em seu blog Histórias Brasileiras: a importância do uso do medo como instrumento pedagógico na formação do caráter do homem. Hoje, se vocês me permitem, vou fugir um pouco do medo mantendo-me fiel ao tema pedagogia. Antes, porém, permitam-me um não tão breve intróito.

Estava eu em casa, ontem, quando convoquei minha menina e minha sogra para o jantar. Sentei-me à mesa de pijamas (uso pijama) e deu-se em mim, antes mesmo da primeira garfada, um guincho que me lançou para 1985 (impossível esquecer o ano, estávamos a poucos dias do primeiro Rock in Rio). Morávamos na Professor Gabizo, quase esquina com a General Canabarro. E me veio à mente uma cena dessas que, contadas por alguém sem crédito, gera a reação da assistência:

– Mentira…

Disquei pra mamãe. Perguntei:

– Mamãe, posso contar no blog aquela história assim, assim, assado? – se eu lhes contar agora o que é, a graça vai embora.

Ouvi mamãe gargalhando do outro lado da linha. Ela, muito sábia, respondeu depois de uns segundos:

– Claro que pode! Rir ainda é um fantástico remédio!

Desligamos. De lá pra cá recebi telefonemas de meu pai (que não atendi de propósito imaginando o pedido de veto), e-mails, sinais de fumaça, mas acordei determinado a lhes contar sobre uma sensacional passagem envolvendo mamãe e seus métodos eficazes para educar os três filhos (sou o mais velho).

Hoje cedo, eu ainda tomava meu café preto no bar do Marreco, estrilou meu celular. Era meu dileto amigo e conselheiro, Aldir Blanc. Contei-lhe tudo, timtim por timtim. Só ouvi os guinchos e as gargalhadas do outro lado. Até que, ainda há pouco, chegou-me por e-mail um manifesto assinado pelo bardo:

“MANIFESTO que o direito do advogado, ativista político, compositor e cantor Eduardo Goldenberg escrever em seu blog sobre os seios da senhora mãe dele, minha querida amiga Mariazinha, é inalienável. Afinal, eles o amamentaram!”

Chorei, confesso, diante de tamanha manifestação de solidariedade.

Pouco depois do referido e-mail, foi Mariana Blanc, sua filha, minha querida comadre, quem escreveu em seu mural no Facebook:

“Eu não sei no Twitter, mas, nos telefonemas do meu pai durante todo o dia (sim, são sempre vários), no topo dos tópicos estão… peitos. P-E-I-T-O-S. E a culpa parece ser do Eduardo Goldenberg, como sói acontecer! Hahahahaha”

Feito o intróito, vamos ao que quero lhes contar.

Mamãe, que recentemente completou 43 anos de casada com meu pai – um homem que carrega frases feitas nos bolsos como maços de dinheiro – teve três filhos. Eu, o mais velho, nascido em 1969, Fernando, o do meio, de 1971, e Cristiano, o caçula, de 1975. Entre mim e Fernando e entre Fernando e Cristiano mamãe ainda perdeu dois bebês, dois homens, o que comprova que mamãe veio ao mundo para criar meninos. Sintam o drama da filha única da dona Mathilde. Pois bem.

Desde que me entendo por gente mamãe tem uma queixa: homens que sentam-se à mesa para as refeições sem camisa. Papai, então, sempre foi um radical. Mamãe podia receber um rajá em casa; lá estaria meu pai sem camisa e descalço expondo os pelos e os pés enormes que lhe renderam, em tenra idade, o apelido de Abominável Homem das Neves. Pois sabem como é… Três meninos que têm na figura paterna a figura do ídolo… Sentávamos todos à mesa, para as refeições, nus da cintura pra cima. Café da manhã, almoço nos finais de semana, jantares, todos sem camisa. E mamãe, com a paciência de uma espírita resignada, comendo entre muxoxos:

– Vocês sem camisa… tremenda falta de respeito…

Sobre isso, breve pausa. Mamãe sempre diz isso:

– Não admito que chamem meus filhos de mal-educados. Eles podem, isso sim, não ter absorvido a educação que dei!

Corria o mês de janeiro de 1985. Havíamos acabado de mudar para o edifício Míriam, no número 359 da Professor Gabizo, recém-construído. Fazia um calor dos diabos, verão carioca…

Estávamos na sala, eu, meus irmãos e meu pai. Mentira. Estávamos todos na varanda, era nosso primeiro apartamento com varanda, e isso era um luxo que vou lhes contar… Ouvimos o grito da cozinha:

– Meninos! Tá na mesa!

Papai disse:

– Já vou! Meninos, vão indo… vou aproveitar mais 2 minutos da fresca… – e meteu metade do corpo pra fora da varanda.

Fomos em fila indiana. Eu, na frente, estaquei diante da porta. Virei a cabeça como um boneco e penso que tinha os olhos saltados pra fora do rosto (notem que eu tinha 15 anos de idade, Fernando tinha 13 e Cristiano, 9). Gritei:

– Pai?

E ele:

– Hã!?

– Vem aqui…

Papai – um dos homens mais apaixonados que conheço – fez tremer o edifício a passos largos:

– O que houve?

Apontei pra cozinha, ainda de pé diante da porta. Papai pôs a cabeça por cima de nós, mirou em direção à mamãe e soltou:

– Prrrrrrrrrr!

Explico o “prrrrrrrrrr”.

Papai sempre nos ensinou:

– Não se fala palavrão na frente da sua mãe! Palavrão é pra falar na rua, no Maracanã, entre os amigos. Na frente da sua mãe, nunca! Entenderam!

Vai daí que, em casos extremos, o máximo que ele se permitia era um “porra”, o mais doce dos palavrões. Mas nem assim, nem sendo o mais delicado, ele se permitia um “porra”, que virava “prrrrrrrrrr”. Entenderam? Vou seguir.

Mamãe estava sentada à mesa com a mesa posta: salada verde com tomate, arroz, feijão, bife acebolado e batata frita. E estava nua da cintura pra cima (estávamos todos, como de costume, sem camisa). Mexendo o gelo dentro de um copo longo de Martini, disse como se nada estivesse acontecendo:

– Vai esfriar! Vocês não vêm?

Papai, coitado:

– Pixuxa, minha filha, o que houve? – ele estava de joelhos diante dela.

– Dudu, Nando, Cris, venham, meus filhos, sentem-se! – os olhos de mamãe brilhavam.

Papai virou-se e tentou interromper nossa marcha:

– Não olhem, não olhem! Sua mãe está nua! Prrrrrrrrrr!

Ela ficou de pé e foi enfática:

– Nua? Estou sem camisa, como vocês. Sentem-se! – e sentou-se de volta.

Papai, em visível estado de choque, disse em nossa direção:

– Vão vestir uma camisa, já! Prrrrrrrrrr!

Mamãe foi dura:

– Não! Hoje, não! Vai esfriar a comida. Vamos todos comer sem camisa hoje!

Foi o mais estranho jantar de meus 42 anos. Papai, assim que sentou-se, deu início ao transe. Baixou Tupinambá na cozinha mas mamãe não deu refresco:

– Ô, caboclo, dá licença. O senhor cuida do espiritual que da etiqueta e da educação dos meus filhos cuido eu. Canta pra subir! Saravá!

O caboclo cantou pra subir, de fato.

Papai cortava o bife e mastigava aos prantos. Cristiano, o mais novo, ajeitava os óculos a cada minuto. Fernando me chutava por baixo da mesa e eu, já exibindo meu talento polemista, dizia para desespero de meu velho:

– Pô, mãe, tudo em cima aí, hein!

Mamãe recolheu os pratos, serviu a sobremesa – era gelatina e eu percebi, ali, na escolha do doce, um sentido estético sensacional – e depois disse afagando as mãos de meu pai, que fungava sem pudor:

– Gostou, meu filho?

E ele:

– Da comida?

E ela, exibindo os seios:

– Não, meu filho! De sentar-se diante de mim e dos meninos assim, sem camisa! – e deu de rir, feito Exu-Caveira (apud Aldir Blanc).

Papai:

– Nunca mais, Pixuxa, nunca mais… – e assoou o nariz com o guardanapo de papel.

Ela, de pé, servindo-se de mais Martini:

– Acho que vocês entenderam, certo, meninos?

De lá pra cá – e lá se vão mais de 25 anos – nunca mais comemos nem de camiseta. Faça sol, chova, seja verão ou seja inverno, nunca mais ousamos desrespeitar esse desejo, tão simples, de mamãe.

Até.

23 Comentários

Arquivado em confissões

MAIS MEDOS, ALICERCES DO CARÁTER

Eu escrevi dia desses, na semana passada, inspirado em inspirado texto do mestre Luiz Antonio Simas, um pequeno tratado sobre a importância do medo imposto às crianças como formador de sólidos alicerces do caráter de um homem, aqui. Falei, ali, sobre diversos medos que me foram jogados no colo ao longo da infância, fiz a confissão no sentido de que foram todos fundamentais para minha formação, mas deixei de comentar sobre os medos que, mesmo depois de burro velho, papai – o principal arremessador de pânicos em nossa direção, minha e de meus irmãos – continuou fazendo questão de nos apresentar. Até já falei de um deles aqui, em 17 de abril de 2008. Mas hoje quero ser mais detalhista, mais preciso, mais verdadeiro.

Nesse texto, de abril de 2008, e notem como o tema já me preocupava, conto que papai tinha um casal de amigos que sofrera um pesado viés por tabela: o filho de um casal muito amigo desse tal casal amigo de papai (no texto dou os nomes, devasso tudo!), que dera carona a um amigo, fora preso por conta de uma blitz policial que encontrara, no porta-luvas de seu carro, uma quantidade considerável de maconha. Aquele enredo era um dos motes que meu velho pai usava para me manter longe das drogas, as ilícitas, seja feita a ressalva. As lícitas papai curtia. Em 1978, eu tinha 9 anos de idade, a poucos minutos da estréia do Brasil na Copa do Mundo papai arremessou uma lata de Brahma no meu colo e urrou, como um huno:

– Beba, porra! Beba!

Mamãe ensaiou um muxoxo mas papai foi enfático:

– É a primeira Copa do Mundo que o moleque vê. Não te mete nesse departamento!

Bebi felicíssimo aquele líquido amargo e até hoje, quando dou o primeiro gole de cerveja, sinto-me com 9 anos de idade recebendo o tesouro das mãos de meu pai. Dito isso, vamos em frente.

Bem lembrou-me o Simas, que voltou ao tema ontem, do caso do menino Carlinhos, seqüestrado em 02 de agosto de 1973 na rua Alice e jamais encontrado (leiam aqui). O menino Carlinhos foi muito utilizado na minha criação, como vou lhes contar. Antes, porém, faço breve digressão.

O menino Carlinhos nunca mais apareceu, mas rendeu foi matéria. Implacavelmente a imprensa falada, escrita e televisada dava notícias de que o pobre menino havia sido encontrado: em Caxambu, em Cambuquira, em São Gonçalo, em Florianópolis, no interior de São Paulo, até uma ossada encontrada na Baía de Guanabara inventaram que era do garoto, e daí ouviam a família, faziam perícias, dava-se um rebu que resultava sempre no mesmo… Não, não era o Carlinhos.

É que a imprensa tem seus modos, podem reparar: há uma mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas? Lá vão, aos atropelos, entrevistar o biólogo Mario Moscatelli. Houve um assalto na Fonte da Saudade? Teremos Ana Simas, presidente da associação de moradores, sapateando em todas as manchetes. Uma capivara pariu? Entrevista coletiva com Cora Rónai, e por aí. Repórteres (cada vez mais fracos) e estagiárias das redações (apud Nelson Rodrigues) têm no bolso os nomes de sempre para os fatos de sempre. Vai daí que foi assim durante muitos anos. Um louro qualquer era pescado pela imprensa, como um tesouro pronto pra virar manchete: encontramos o Carlinhos!

Na casa de meus avós sempre que a TV ou o rádio noticiavam o troço dava-se uma bulha tremenda. Minha bisavó ajoelhava e erguia as mãos em prece em direção ao céu, minha tia Idinha corria as contas do terço, minha avó fazia uma prece contida para que o espírito de Emmanuel conduzisse os trabalhos dos investigadores, e meu avô Milton, mexendo as pedrinha de gelo dentro de seu copo de Teacher´s, dizia sempre a mesma frase:

– Que palhaçada, o Carlinhos morreu!

Pois então, vamos ao que quero lhes contar.

Saía da vila em direção ao Monte Sinai, clube ao lado de nossa casa, e meu pai dizia me segurando pelos ombros:

– Atenção, viu? Olhe para os lados, não fale com estranhos, podem ser os seqüestradores do Carlinhos…

Quando comecei a voltar sozinho da escola, de ônibus, e eu pegava o 638, minha bisavó foi sempre implacável:

– Nada de conversar com quem você não conhece. Lembre-se do pobre Carlinhos…

Eis que hoje percebo com clareza que o pobre-diabo raptado mora em mim, enterrado como um sapo de macumba (apud Nelson Rodrigues, sempre).

Até hoje sou um túmulo na rua. Nego cigarro a quem me pede. Não empresto o isqueiro nem à fórceps. Gente que vem forçar intimidade em fila de padaria, fila de banco, qualquer fila, não tem nada de mim além do mais absoluto desprezo. Ando, até hoje, como uma piorra no meio da rua. Rastreio meu trajeto. Viro pra trás em busca de meus algozes. Olho para os lados com a intermitência de um farol. Cada estranho, cada um que se aproxima é, potencialmente, meu seqüestrador.

E o que é mais bonito: acho tudo isso normalíssimo.

Era o que eu queria lhes contar.

Até.

9 Comentários

Arquivado em confissões

LIÇÕES DE PEDAGOGIA

Luiz Antonio Simas, brasileiro máximo, meu irmão de fé, respeitado professor de História, é pai de primeira viagem do carioquíssimo Benjamin, que completa amanhã, 21 de maio, dois meses de vida. Garoto de sorte, o Benjamin. A mãe é uma doçura que começa pelo nome – Cândida. E o pai, um caboclo sabido demais, conhecedor dos mistérios do invisível, que carrega nos olhos verdes toda a sabedoria ancestral que nos remete à mata brasileira e sua imensidão encantadora. Pois o Simas, que anda numa alegria comovente por conta do moleque recém-chegado, escreveu um tratado anteontem em seu imprescindível blog, o Histórias Brasileiras. No texto, afirma que “o medo é um instrumento pedagógico da maior eficácia na educação de uma criança”. Só por conta dessa curtíssima transcrição ouço daqui os sapateados histéricos de educadores, pedagogos, psicólogos, quadros do PSOL e quejandos. Mas o que quero lhes dizer hoje é o seguinte: concordo inteiramente com o bardo tijucano, morador da aldeia Maracanã, cuja oca dista pouco mais de 1km da minha. Mas vamos às minhas razões.

Lendo o texto a que fiz referência, e que pode ser lido na íntegra aqui, percebo que os medos que geraram reações pânicas no menino Luiz Antonio foram os mesmos que me foram plantados, enterrados em mim como sapo de macumba (apud Nelson Rodrigues).

Eu era um menino. Uma de minhas tias, casada com um irmão de minha avó, a tia Noêmia, tinha uma casa em Campo Grande, zona oeste da cidade, num condomínio chamado Clube 34, tratado como sítio por toda a parentalha. Pois havia, no tal Clube 34, uma piscina enorme, redonda, funda, e não houve um só dia em que eu não ouvisse de meu pai a frase que gerava uma concordância unânime entre as tias:

– Cuidado na piscina! Olha o garoto que morreu sugado pelo ralo! Morreu, ouviu? Morreu!

E sempre fui, na piscina em Campo Grande, um menino de olhos esbugalhados diante da possibilidade da sucção fatal.

Eu era um menino. Papai me dava semanada, nunca me deu mesada (vá entender). E dizia, todos os dias, ao me deixar no portão da escola:

– Compre sua merenda na cantina, viu? Apenas na cantina! Esse moço da carrocinha coloca cocaína nas balas que vende. Sabe o que é cocaína?

Eu, trêmulo, com a pequena mochila no colo no banco de trás do carro, dizia que não. E papai, soturno pelo retrovisor:

– É um pó, meu filho, uma droga. Vicia. Vicia e mata. Como o ralo das piscinas, entendeu?

E na hora do recreio eu comprava meu Mirabel na cantina e olhava, com intensa piedade, para os colegas que atravessavam o portão em direção à carrocinha, como se fossem pré-cadáveres à beira da morte.

Eu era um menino. E exatamente como o mestre Luiz Antonio, evitava ir ao banheiro sozinho durante as aulas. Lá estava, é claro, a Belmel, a loura defunta, de algodões ensangüentados nas narinas, disposta a vingar o filho que morrera antes dela.

Eu era um menino, e assistia sempre, estarrecido, um diálogo recorrente entre minha bisavó, Mathilde, e minha tia (sua irmã), tia Idinha. Leque fremindo numa das mãos, dizia minha bisavó:

– Idinha, espia. Não vá esquecer do espelhinho quando eu morrer.

Tia Idinha fazia o sinal da cruz:

– Pidôca, isso se você morrer antes. Se eu morrer antes, veja lá, não vá esquecer do espelhinho!

Dava-se o seguinte: o ator Sérgio Cardoso, cujo corpo havia sido exumado, fora encontrado de bruços dentro do caixão. A tampa do dito cujo estava marcada, por dentro, pelas unhadas vigorosas que o pobre-diabo dera depois de acordado a sete palmos do chão, fruto do desespero diante da situação. Vai daí que espalhou-se pela cidade, pelo país, o pânico. Ser enterrado vivo era o medo súbito de toda uma geração. E minha bisavó tinha a tática infalível:

– Idinha… Você não se importe com a reação da assistência na capelinha. Aproxime-se de meu corpo e deixe durante um bom tempo o espelhinho diante de minhas narinas. Se embaçar é batata. Estou viva. Não pemita que fechem o caixão, entendeu?

Eu, molecote, tinha pesadelos horripilantes.

Numa só noite eu estava nadando no Clube 34 e era sugado pelo ralo. Dado como morto. Velado por uma família inconformada. E acordava aos berros quando me percebia vivo no caixãozinho já fechado. Noutra noite, atravessava o portão do colégio e comprava uma bala Soft na carrocinha. Era um zumbi, minutos depois, flechado pelo vício da cocaína e fadado a viver por aí perambulando em busca de mais pó. Noutra noite, ainda, eu era acometido por uma diarréia violenta durante a aula de Estudos Sociais e sentado no vaso do banheiro do colégio Palas via agigantar-se diante de mim o vulto impressionante da loura assassina.

Uma infância tranqüila, como se vê.

Hoje, percebo tristíssimo que são pueris os medos da garotada. Medo de que se quebrem os controles do Wii. Medo de que caia a conexão da banda-larga. Medo de que sejam hackeados os perfis do Orkut ou do Facebook. Medo de que acabe a bateria do celular no meio da rua… Uma falta absoluta de encantamento, uma ausência completa de um pânico-humanizado capaz de mostrar à molecada a finitude do homem, sua falibilidade e seus limites.

Entro, pois, de cabeça, na campanha lançada por Luiz Antonio Simas. Meus afilhados que se cuidem. Os filhos e filhas de meus amigos, de meus vizinhos, todos que se preparem!

Até.

22 Comentários

Arquivado em confissões

PAPAI TAMBÉM É FÓBICO

Ontem lhes contei aqui sobre uma das fobias de meu compadre e dileto amigo, Leonardo Boechat.

Hoje, já que o assunto – fobia – ficou me rondando durante a noite, volto ao tema. Meu pai, um homem que carrega nos bolsos uma quantidade impressionante de frases feitas, como já tantas vezes lhes contei por aqui, tem lá, também, suas reações pânicas (quem não as tem?). Hoje – sonhei com sorvete – quero lhes relatar o que se passa quando mamãe serve sorvete de sobremesa.

Vamos ao cenário. Podem estar à mesa apenas nós, os 3 filhos, as noras, papai e mamãe; pode estar também a Rainha da Prússia, num dos tantos jantares de cerimônia que mamãe promove. Pode ser uma noite de festa, dezenas de convidados espalhados pelos sofás da ampla sala, apenas a comida à mesa. O que ocorre – aguardem! – é sempre a mesmíssima coisa. A fim de simplicar o teatro (não-ficção, que fique claro), estamos apenas nós, a pequena família, à mesa. É um jantar.

Mamãe servirá o vinho e disporá os pratos no grande centro da mesa quadrada, sobre uma portentosa bandeja giratória. Brindamos, comemos, até que em dado momento eu pergunto:

– O que tem de sobremesa, mãe?

E quando ela diz “sorvete”, dá-se a bulha. Há toda uma festa de farfalhar dos guardanapos, pés que sapateiam por baixo da mesa de mármore, talheres fazendo os pratos de xilofone, uma tensão já de todos conhecida. Papai bufa sempre que mamãe anuncia, piscando para os três filhos:

– Sorvete!

Desse momento em diante – quero crer que por conta da ansiedade pela graça de sempre – todos à mesa aceleram seus movimentos. Jantar terminado, ajudamos todos a retirar os pratos, os talheres, trazemos os pratos de sobremesa, os talheres, mas justo quando a sobremesa é sorvete é papai quem sai atropelado em direção à geladeira no exato instante em que está tudo pronto para servi-la.

Ele mesmo abre o pote e começa a ladainha:

– Gente, rápido! Caso contrário, o sorvete vai virar sopa!

E aí, como somos (como todas as famílias) olimpicamente implicantes, a coisa demora. Mamãe serve-se primeiro. Papai arranca a colher de sua mão e a entrega para mim:

– Rápido, Eduardo! Vai virar sopa!

E dá-se o mesmo com cada um de nós…

De fato vai, o sorvete, derretendo. E papai derrete junto, geme, diz coisas ininiteligíveis entre dentes que rangem até que, desoladíssimo, como se fora viúva saudosa de um general de pijamas, recolhe o pote, levanta-se e toma a direção da cozinha bufando:

– Sopa! Virou sopa!

Houve, certa feita, um jantar de cerimônia. Mamãe trabalhava numa empresa de cosméticos, americana, e ocupava alto cargo. Parênteses.

Mamãe pode receber a Rainha da Prússia, rajás, ditadores, astros de Hollywood, não importa: papai estará descalço, o tempo todo descalço, exibindo os pés que lhe renderam, na infância, o apelido de Abominável Homem das Neves. Fecho e continuo.

O presidente da tal empresa e sua mulher (diretora não lembro do quê) eram os convidados, os homenageados da noite. Eram – o quê?! – 30, 40 convidados. Mamãe contratou serviçais, alugou castiçais de prata russa, louças inglesas, talheres impressionantes, contratou uma banqueteira de mão cheia, e havia faisões, cascatas de camarões (fazem um sucesso na Tijuca que eu vou lhes contar…), melões cortados imitando aves e o diabo. Para agradar o casal homenageado, mamãe mandou preparar o quê?! Sorvetes. E tinha sorvete de creme, sorvete de caqui, de tangerina, de limão, de todas as frutas tropicais (mamãe achou chique oferecer comida típica). Terminado o jantar, recolhida a louça pelos empregados, vieram à mesa, em suportes também de prata, os sorvetes. Mamãe visivelmente tensa (eu e meus irmãos acompanhávamos tudo pela fresta da porta do corredor). E quando o presidente (não lembro seu nome nem à fórceps) solicitou à mocinha de uniforme um dos sorvetes (penso que era o de caqui), papai parecia em transe do outro lado da mesa. Fazia gestos em direção à menina – que não entendia nada – e dizia, sem emitir um som, em busca da compreensão da leitura labial:

– Rá-pi-do! Vai vi-rar so-pa!

Até.

12 Comentários

Arquivado em confissões, gente