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ABRIL, UMA ALEGRIA INFERNAL

Em todos os abris dá-se o mesmo (e dá-se ainda mais forte depois de 2011 quando, no 07 de abril de cada ano dali em diante, passei a não mais ver a minha avó): tenho febres, febrículas, suadouros, tremores de mão e arremessos violentíssimos em direção ao passado. Tudo, claro, e ainda bem, de forma discreta a fim de não despertar o pânico em quem me cerca. De uns meses pra cá, e estou apenas digressionando de propósito porque se for lhes contar a verdade a fundo é bem capaz de eu perder a credibilidade que conquistei ao longo de quase 48 anos, até que tenho efetivamente estado com minha avó, que aparece na foto abaixo no canto à direita, vestidinho branco de bolinhas pretas. A foto, pelo que apurei nos arquivos que mantenho comigo, é de aproximadamente 1933 – vovó tinha entre 8 e 9 anos. Foi tirada no jardim da casa de meus bisavós, na rua Marquês de São Vicente nº 184, na Gávea – de onde, sabiamente, mudaram-se para a rua Gonçalves Crespo, na Tijuca, evidentemente.

Minha bisavó, Mathilde Veloso, a mais impressionante mulher que conheci, matriarca na exata e pesada acepção da palavra, está ao centro, de preto, pés elegantemente cruzados, e meu bisavô, Eugênio Augusto, no alto e no centro, bem na direção de minha bisavó, o cabelo levemente desgrenhado (em aguda oposição à rigidez do penteado de minha bisavó). Reconheço, ainda – com os olhos embaçados, porque eles estão quase sempre assim nos abris – minha tia Linda (à esquerda, de vestido branco, sorrindo, as mãos postas), meu tio Procter (ou seria Proter?) (no alto, à esquerda, com duas crianças no colo, ele (inglês) que foi casado com minha tia Alzira, minha tia Zirota, que não reconheço na fotografia – se é que nela está), mas são as figuras de minha bisavó (Mathilde) e de minha avó (Mathilde) as que mais me chamam a atenção.

A pouco mais de 20 dias de mais um aniversário, rumo à quadragésima oitava volta do ponteiro, dá-me especial prazer esse exercício arqueológico em busca de registros dos meu antepassados. Há quem prefira desfazer-se desses registros físicos (um crime, um estelionato afetivo), não eu.

Meu bisavô, Eugênio Augusto Monteiro de Barros, nasceu a 22 de novembro de 1893. Exerceu durante muitos anos o cargo de contador da Companhia de Navegação Costeira, foi presidente da União dos Empregados no Comércio do Rio de Janeiro, deputado federal classista (assinou a Constituição de 1934) e casou-se a 17 de maio de 1913 com Mathilde Veloso, que passou a assinar Mathilde Veloso Monteiro de Barros, minha bisavó!, ela filha de Francisco Veloso, português, e de Julia Pinheiro Veloso, de família de São João da Barra.

Tiveram muitos filhos: Maria Florinda, que morreu de tétano aos 15 anos (um dia lhes conto sobre meu pânico, na infância, de morrer de tétano aos 15 anos, como ela); Francisco de Paula Monteiro de Barros, meu tio Chico; Sílvio Augusto Monteiro de Barros; Mathilde Eugênia Monteiro de Barros; Carlos Henrique Monteiro de Barros e Pedro Paulo Monteiro de Barros. À exceção do Pedro Paulo, meu tio Pedrinho – cujo paradeiro há pouco descobri -, estão todos mortos. Mas não estão.

Fará anos depois de amanhã, 07 de abril, 93 anos mais precisamente, minha avó Mathilde, herdeira do matriarcado exercido durante 89 anos por sua mãe, minha bisavó. Lá em casa, como desde 2011, o café-da-manhã será preparado para ela, à sua moda, com torrada, manteiga, geléia, café com leite, bolo, castanhas, damasco, nozes, a ela será oferecido e dele me servirei no final do dia, quando chegar do trabalho. Estarão todos eles, os meus fantasmas, conosco, em homenagem a ela, uma mulher que foi desaparecer, aos 86 anos, credora do afeto e do carinho de todos os que com ela conviveram. Incapaz de um gesto capaz (é de propósito) de romper laços, laços, laços, laços, que sem eles, os laços, não somos nada.

Vovó, que acha a Morena lindíssima (embora não a tenha conhecido em vida), há de estar, de novo, junto de nós, comungando conosco, mais de perto, dos nossos sonhos mais especiais nesse 2017.

Falo mais sobre os meus fantasmas, tão queridos, amanhã.

Até.

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A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – X

Não é demais repetir! A série A Tijuca em estado bruto nasceu e ganhou corpo por absoluto acaso, sem que nada, rigorosamente nada, tenha sido planejado. Eu, que sou modesto como um frade franciscano, recomendo a leitura de toda a série! Leiam aqui o primeiro da série, texto no qual conto o que vi e vivi numa pizzaria tijucana, O Forno Rio, numa noite de domingo (domingo é o dia mais tijucano da semana!); aqui o segundo, que traz o relato de um jantar no melhor restaurante de comida italiana do país, tijucano, é claro, o Fiorino; aqui o terceiro, pequena descrição do encontro de minha mãe com uma amiga de há séculos de vovó; aqui o quarto, narrativa saudosa fruto de um encontro meu com meu concunhado, no Salete, na Tijuca, evidentemente; aqui o quinto, no qual faço uma comparação entre a mãe judia e a mãe tijucana; aqui o sexto, sobre o simpaticíssimo assalto que sofreu vovó, há umas semanas; aqui o sétimo, sobre os vícios de minha avó; aqui o oitavo, sobre o jantar que ofereci à Lina, minha querida cunhada, no já citado melhor restaurante italiano do Brasil e aqui o nono, dando início aos relatos envolvendo o médico homeopata de minha família.

Hoje quero lhes contar mais sobre nosso médico homeopata, o doutor Lauro. O doutor Lauro, a quem a família inteira, vivos e mortos, atribui o milagre da cura de minha mãe – que teve tifo aos três anos de idade -, jamais admitiu amortecer, sobre seus próprios ombros, o peso que minha parentalha, na íntegra, tinha (e tem) como incontestável. Basta alguém soprar, baixinho que seja, o nome do doutor Lauro e começam os murmúrios com as mãos espalmadas para o alto – “Um santo homem!”, “Um sábio!”, “Um verdadeiro espírita!”, “Salvou a Mariazinha!”, “Trata da Maricota desde os três anos!”, essas bossas médico-patrióticas.

Curioso é que meu pai, meu amado pai, que evidentemente não conhecia mamãe quando ela teve o tifo, nutriu, ao longo da vida (ainda nutre, o doutor Lauro é que não clinica mais), desde que o conheceu e à sua história, verdadeira adoração, febril idolatria, preocupante fixação no médico homeopata de hábitos simples.

Se você, meu caro leitor, esbarrar no meu velho pai por aí (papai anda pela Tijuca diariamente), diga que lê o Buteco, abra um sorriso franco em direção a ele, pouse uma das mãos em seu ombro e pergunte:

– E o doutor Lauro, Isaac?

E você ouvirá:

– Tá fazendo uma tremenda falta…

Papai é desses homens que anda com frases prontas no bolso. Experimente:

– Issac?! E a Noêmia?

– Uma lutadora! Eu gosto da Noêmia! – e abrirá um sorrisão.

Pausa para lhes contar uma recentíssima de papai (como vocês sabem, escrevo em ritmo febril, quase-mediunicamente, então vocês têm de me perdoar, vez por outra, esses arroubos, essas idas-e-vindas, essas mudanças bruscas de assunto). Estávamos, no domingo passado, reunidos em torno desse portento que é Fernando José Szegeri, na casa de papai e mamãe, no Alto da Boa Vista. Mamãe preparou, para homenageá-lo, um cozido, a geladeira estava cheia de cerveja, de vinho verde (do branco e do tinto), o uísque jorrando das torneiras da sala, até que papai pediu silêncio com o copo estendido. Iria fazer um discurso (e esse pequeno discurso, apenas ele, justificaria estar, o texto de hoje, na série A Tijuca em estado bruto):

– Quero propor um brinde, primeiramente, à minha mulher! Um brinde a você, Dani, minha nora amada, eu amo você! Também amo você, Lina! Obrigado por tudo!

Papai tropeçava nas sílabas, uma garrafa de Red Label já tinha ido embora. Ele continuou, soluçando de leve:

– Um brinde, meus filhos… Dudu… Nando… e Szegeri, meu filho que veio de São Paulo…

O Szegeri começou a chorar. Papai prosseguiu:

– Um brinde, Cacá! Meu irmão! Meu irmão! E um brinde, por fim, a você, Verinha, minha querida… Um beijo!

Ele ia se sentar quando eu o interpelei:

– Pai? E a vovó?!

Vovó estava cabisbaixa, ao meu lado, e chegou a dizer baixinho:

– Deixa pra lá, Dudu, deixa pra lá…

E meu pai, espetando o copo em direção à sogra:

– Sua vó está quase todo dia aqui, pô! – e estatelou-se, às gargalhadas, no sofá.

Vamos voltar às reações de papai com relação ao doutor Lauro.

Assim que papai conheceu mamãe (leiam Papai arremessado ao passado para entenderem um bocadinho a história dos dois, aqui), num dos primeiros lanches de domingo na casa de meus avós – papai e mamãe eram vigiadíssimos! -, vovó passava manteiga num brioche para meu avô quando lembrou, num estalo:

– Ih, meu Deus do céu! Está na hora do meu remédio!

Deixou o brioche esperando, abriu a gaveta da cômoda ao lado da mesa, tirou o vidrinho de Bryonia, encestou duas bolinhas na tampa de rosca do vidro escuro e pôs as duas, num arremesso, na boca. Disse pra si mesma, fechando o vidro:

– Hora em hora, Mathilde, não esquece!

Papai, querendo puxar assunto com a futura sogra, fincando uma fatia de mortadela com o garfo:

– Homeopatia?

Vovó, com o rosto iluminado e pondo uma das mãos sobre a mão direita de minha mãe:

– Sim, meu filho. Tratamos com a homeopatia, graças ao doutor Lauro, que salvou a vida da Mariazinha quando ela tinha três anos e teve o tifo…

E contou, durante todo o lanche, a história que eu também já lhes contei aqui.

Papai, que sempre foi um emotivo contido, chorou diante do relato emocionado de minha avó. Meu avô, homem de poucas palavras, concordou durante todo o tempo, assentindo com a cabeça, dando ares de verdade incontestável a cada palavra que vovó dizia. E mamãe, por sua vez, não escondia a satisfação diante da sensibilidade do namorado. Papai quebrou o silêncio:

– Tem que tirar o chapéu pro doutor Lauro…

– Se tem! – disse vovó.

Mamãe sorriu e meu avô reclamou seu brioche.

Foi nesse dia, então, que papai ouviu, pela primeira vez, o nome do doutor Lauro.

Julho chegou e com ele papai pegou uma gripe. Foi ao lanche dominical na casa de meus avós. Vovó abriu a porta – era sempre minha avó a abrir a porta de casa para meu pai – e deu de cara com o nariz vermelho de meu pai (papai tem um senhor nariz). Foi dar os dois beijinhos no namorado da filha única e ele, gentil:

– Não, dona Mathilde! Estou com uma gripe daquelas! E uma febrícula desde cedo…

Mamãe levantou-se preocupada (ainda sofria as conseqüências do trauma do tifo). Vovó disse:

– Você está medicado, Isaac?

Ele fez que não com a cabeça enquanto assoava o nariz com seu lenço azul e branco.

Vovó em direção à mamãe:

– Mariazinha! Vá lá dentro buscar papel e caneta!

Mamãe voltou à sala e minha avó, depois de escrever no tal papelucho, estendeu-o a meu pai:

– O telefone do doutor Lauro! Marque uma consulta para amanhã, meu filho!

Papai:

– Doutor Lauro…

E olhando ternamente para mamãe:

– … o homem que salvou sua vida!

E vovó, já caminhando pelas sendas do espiritismo:

– Graças a Deus!

Ficaram os três de conversa na sala – meu avô ouvia o noticiário no rádio num canto, sem tirar os olhos do casal de pombinhos – até que minha avó, depois do quinto espirro de meu pai, disse:

– Vou ligar pra casa do doutor Lauro! Você está muito mal, meu filho!

Papai:

– Mas hoje é domingo, dona Mathilde, não há urgência, amanhã eu mesm…

Vovó já estava pendurada no gancho:

– Doutor Lauro? Oh, doutor Lauro, que Deus o abençoe… Me perdoe estar ligando num domingo… – e ficou espetando o polegar em direção ao teto anunciando o êxito da ligação.

Papai espirrou.

– Oh, doutor Lauro… O senhor ouviu? É o Isaac, doutor Lauro, namoradinho da Mariazinha, sabe? Está com uma gripe daquelas!

Fez cara de suspense:

– Sei, sei, sei. Tenho sim, doutor Lauro! – fez sinal com a mão pedindo papel e lápis mais uma vez.

Papai levou o mesmo papelucho, e o lápis:

– Aconitum… sei… Bryonia e Belladona! – o polegar espetadíssimo, quase eufórica.

Pôs a mão no bocal do fone e disse:

– Mariazinha, minha filha, pegue lá, na cesta dos medicamentos! Tome! Tome! – e lhe estendeu o papelucho.

Continuou:

– Oh, doutor Lauro, muito obrigada! Que Deus abençoe o senhor! Amanhã, então, o Isaac irá vê-lo!

E sendo moderna, disse sorrindo em direção a meu pai:

– O.K., doutor Lauro? Um abraço, doutor Mauro, lembranças à família, o Milton e a Mariazinha estão mandando um abraço para o senhor!

E desligou.

Mamãe chegou de volta com os medicamentos. Vovó, zelosa, explicou a meu pai, calma e pausadamente, como ele teria de tomar os remédios. E disse, colocando-os em fila na mesinha de centro:

– Comece agora, meu filho! Comece agora!

Lancharam, papai parou de espirrar – “E ainda dizem que a homeopatia é lenta!”, disse vovó, quase-fanática -, e quando foi haver a despedida, falou, maternal:

– Leve os remédios, meu filho. Continue tomando, agora de meia em meia-hora. Amanhã, quando você sair do doutor Lauro, passe por aqui, devolve esses remédios e aproveita para nos dar notícia acerca de seu quadro!

Mamãe achava aquele cuidado da própria mãe com seu namorado, uma benção. E seus olhos deixavam isso muito claro.

Papai despediu-se com um aceno de meu avô – que nada disse -, despediu-se de mamãe (não podiam ir, sozinhos, ao portão da rua), e quando ia estender a mão em direção à vovó, ela lhe disse:

– Espia! Espera um minutinho!

Sumiu pelo corredor e voltou, ligeira:

– Meu filho, vá com Deus e que Jesus te acompanhe até em casa. E… – pigarreou – … tome. Espero que você goste. Não há pressa. Depois você devolve.

E estendeu, sorrindo, um exemplar do Livro dos Espíritos, o mesmo que ganhara, anos antes, do doutor Lauro.

Papai o pôs debaixo do braço. Vovó:

– Alguma coisa contra, meu filho?

– Muito pelo contrário, dona Mathilde, muito pelo contrário…

Tomou a direção do portão, deu o último adeus da noite, e vovó, suspirando e fechando a porta:

– Um bom rapaz, o Isaac… Graças a Deus, minha filha, graças a Deus!

Até.

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A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – VI

A TIJUCA EM ESTADO BRUTO está virando, confesso, uma série interessante. Leiam aqui o primeiro, aqui o segundo, aqui o terceiro, aqui o quarto e aqui o quinto. Não era pra ser assim, não foi nada planejado, mas a Tijuca tem desses troços, a Tijuca é tão espraiada dentro de quem a ama, a Tijuca ocupa tanto espaço, a Tijuca tem tanta história, que somos flagrados assim, tomados de Tijuca até a alma – e somos obrigados a dividir essas tijucaníssimas emoções, esse afeto tijucano, sob pena de sentirmos dor, inclusive. Pois a Tijuca, meus poucos mas fiéis leitores, a Tijuca machuca. Feito o intróito, em frente.Hoje vou lhes contar uma história – realíssima, eis que sou preciso do início ao fim – envolvendo vovó, dona Mathilde, uma mulher altiva, 84 anos, ativíssima, formosa, cheirosa e vaidosa como canta o samba. Vou lhes contar, mais precisamente, a história de um assalto que vovó sofreu recentemente (o primeiro depois de 84 anos de Tijuca, diga-se!, o que só prova que a violência, na Tijuca, é coisa rara como goiabada-cascão).

Minha avó acaba de sair de seu prédio e vem caminhando pela rua onde mora para tomar um ônibus. Uns 500 metros depois de seu prédio é abordada por um sujeito, na casa dos 30, 35 anos, esbaforido, correndo, aflitíssimo:

– Ô, senhora… boa tarde!

Vovó, que sorri para estátuas, pombos, postes, bancas de jornal – como sorri, a minha avó! -, responde:

– Boa tarde, meu filho. Como é seu nome? – vovó conhece todo mundo pelo nome!

(pequena pausa: eu tenho a impressão de que esse “meu filho” deu ao meliante a certeza do êxito de sua empreitada)

– Ô, senhora… – forjava baforadas de exaustão – É Robson. Vim correndo, seu porteiro bem me disse que eu alcançaria a senhora… Ele bem que me disse que a senhora estava com uma calça branca e uma blusa colorida… Muito simpático, ele… Como é mesmo seu nome? Me esqueci! – e guardou um crachá que trazia pendurado no pescoço.

Vovó, terna:

– Mathilde.

Ele deu um tapa na testa:

– Puxa vida! Como pude me esquecer! O nome da professora que me ensinou a ler… – e fingiu enxugar lágrimas dos olhos.

– Pois não, meu filho…

– Então, dona Mathilde. Eu sou da LIGHT. A senhora não vinha achando sua conta de luz cara?!

– Caríssima!

(pequena pausa: quem paga as contas de vovó é papai, que jura que suas contas de luz sempre foram baixíssimas)

– Pois eu acabo de trocar seu relógio de luz!

Vovó, terníssima:

– Ô, meu filho, ô, Robson…

Estende a mão em direção ao sujeito, faz festinha em suas mãos, e, sendo espírita da cabeça aos pés, diz:

– Deus te abençoe, Robson!

Ele sorriu e disse num sem-pulo:

– Obrigado, dona Mathilde. Mas eu vim correndo não apenas para avisar a senhora, mas… – fingiu constrangimento abaixando os olhos – … esse serviço é pago.

– Oh! É? – e já foi abrindo a bolsa, aflita – E quanto é?

– Quinze reais, dona Mathilde.

Vovó revirou a bolsa e estendeu ao homem uma nota de cinqüenta e duas de vinte:

– Só tenho assim. O senhor tem troco?

– Não tenho, dona Mathilde… A senhora me espera aqui? Posso ir trocar ali no bar da esquina…

– Ô, meu filho, você faz isso? Estou indo para o outro lado.

– Claro, senhora…

(pequena pausa: notem a genialidade do momento, o encanto e a doçura do assalto, só possíveis num assalto na Tijuca)

Vovó estendeu a nota de cinqüenta.

Ele:

– Ô, senhora, me dê a de vinte…

– Não, meu filho! Eu aproveito e já troco essa nota grande!

– Não, não, será mais fácil trocar a de vinte.

Vovó está esperando o homem até agora.

Quando chamamos sua atenção – todos -, vovó disse, sábia:

– Ele precisa mais do que eu. E foi, convenhamos, genial, não foi? Mereceu! Mereceu! Além de tudo, poderia ter ficado com minha nota de cinqüenta… Foi até gentil!

Até.

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