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64 ANOS DE ESPERA

Acabo de receber a camisa – verdadeiro tesouro! – da Seleção Brasileira de 1950, fruto da união de dois malucos fundamentais: Rodrigo Ferrari e Cássio Loredano. Com insana obsessão os caras pesquisaram o tecido, a textura, o escudo, as cores e eis que chegaram à perfeição: tenho em mãos a camisa que o Zizinho usou na final de 50.

Experimentei uma alegria de criança quando pus as mãos no tesouro, ainda há pouco. Fui arremessado ao passado e vi meu avô subindo as rampas do Maracanã naquela tarde de julho, como lhes contei aqui, em A taça do mundo é nossa.

CBD 1950

Foram 64 anos de espera.

Na quinta-feira pela manhã, a poucas horas da estréia do Brasil na Copa do Mundo, sei que acordarei tomado por uma emoção de mais de seis décadas. Vou chamar Barbosa, Castilho, Augusto, Nilton Santos, Juvenal e Nena. Chamarei por Bauer, Eli, Danilo, Rui, Bigode e Noronha; por Friaça, Alfredo, Zizinho, Maneca, Baltazar, Adãozinho, Jair da Rosa Pinto, Ademir de Menezes, Chico, Rodrigues e também por Flávio Costa. O Brasil há de chamar por seus heróis, todos já mortos e que hão de descer à Terra na manhã de 12 de junho a fim de participarem, invisíveis e vivísiveis aos que têm olhos de ver, da nossa batalha rumo ao hexacampeonato.

Recomendo aos que me lêem a leitura de dois blogs durante a Copa do Mundo: A Copa que vivi, de Bruno Ribeiro, aqui, e Dibrinho, de Fernando Szegeri, aqui, dois blogs criados somente para tratar do assunto que moverá o mundo até 13 de julho de 2014, quando o Maracanã, 64 anos depois, será palco de sua segunda final de Copa do Mundo. 

Até.

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A TAÇA DO MUNDO É NOSSA

(pra Flavia)

Eis que estamos a pouco mais de uma semana do início da Copa do Mundo de 2014.

Desde pequeno, e até meu avô Milton morrer em 2002, eu ouvia – e sempre assombradíssimo – a mesma história quando o assunto futebol vinha à baila (quase sempre, pois): vovô me contava que estava no Maracanã na fatídica tarde de 16 de julho de 1950. Contava, mais, que aquele fora o último jogo de futebol a que assistira. Ele contava essa história em tom soturno, os demais presentes sempre confirmavam com olhos de espanto, e sua última frase era sempre a mesma:

– Cuidado, meu filho, cuidado com o Maracanã.

E geralmente emendava, com os olhos embaçados e a voz embargada:

– Nunca mais pisei no Maracanã! Nunca mais!

Eu nunca disse ao meu avô que foi ele que me deu, pela primeira vez, a exata noção do que é o futebol e a certeza, cravada em mim, de que o futebol e a vida se confundem.

O primeiro jogo de que tenho lembrança é de dezembro de 1978 – eu tinha 9 anos de idade e já tinha medo do Maracanã, incutido pelo meu avô, que fora encontrado desolado, embriagado pela derrota, muitas horas depois do jogo de julho de 1950.

A verdade inapelável é que eu, desde 1978, vou ao Maracanã com o medo num dos bolsos. Vou ao Maracanã na angustiante expectativa de que seja, aquele, o último jogo da minha vida. Vou ao Maracanã com muito medo de repetir a história de meu avô.

Quase 40 anos de arquibancada e é evidente que já vi de tudo: vitórias épicas, derrotas acachapantes, campeonatos inesquecíveis e pesadelos em incontáveis finais – e nada foi capaz de me fazer querer repetir a saga de meu avô. Confesso, hoje, que em alguns desses jogos desci as rampas monumentais do Maracanã perguntando, de mim para mim, se eu voltaria.

E eu sempre disse que sim.

E eu sempre disse que sim porque minha opção sempre foi pela vida, mesmo quando diante da morte.

Acho que meu avô, em 50, deixou-se abater de tal forma, e passou a exibir seu luto como bandeira fúnebre desfraldada com tanto orgulho – afinal de contas, ele dizia, era preciso ser muito firme para manter a palavra e nunca mais voltar ao estádio – que ele teria mesmo era vergonha de ceder aos meus apelos (foram muitos) para me acompanhar num jogo do Flamengo (vovô era rubro-negro, como eu).

O fato é que se aproxima a Copa do Mundo de 2014.

64 anos depois, novamente realizada aqui no Brasil, e com a final marcada para o mesmíssimo Estádio do Maracanã.

Sim, o mesmíssimo Maracanã. Mais moderno, adaptado às exigências da organização da Copa do Mundo, mas no mesmo lugar em que meu avô, em 1950, testemunhou uma tragédia que lhe marcou pelo resto da vida, por longos 52 anos, até sua morte.

Vou realizar – mais uma confissão – um sonho de infância (e quero estar de calças curtas, camisas listradas, sandália nos pés, de novo com poucos anos de idade pra vivenciar o mesmo assombro de menino): serei anfitrião de milhões de torcedores, de apaixonados, de loucos que correm o mundo para ver o futebol.

Invejei os argentinos em 78, os espanhóis em 82, os mexicanos em 86, os italianos em 90, os americanos em 94, os franceses em 98, japoneses e coreanos em 2002, os alemães em 2006 e os sul-africanos em 2010, todos eles privilegiados anfitriões de cada uma dessas nove Copas do Mundo que testemunhei.

Agora, em 2014, somos nós, os donos da festa. Sou eu, que não sou o mesmo, também dono da festa.

Vai ser minha primeira Copa do Mundo ao lado dela, da minha Morena, que representou minha opção pela vida quando eu quase caminhei pelo caminho do meu avô.

E eu vou estar vestido com a camisa da Seleção Brasileira de 1950.

E eu vou, ah, as pretensões de um menino, de mãos dadas com ela, vingar o meu avô.

Pra frente, Brasil!

Salve, a Seleção.

Até.

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BRASIL 2 X 0 AUSTRÁLIA

Não tecerei nenhum comentário sobre o jogo de ontem. Não quero criar rusga alguma com meu irmão Szegeri. Tenho minhas opiniões sobre a seleção brasileira, como todos têm a sua, e portanto, como diria o Stanislaw, isso deixa para lá.

O jogo seria às 13h, bem mais cedo do que o jogo de estréia. Assim, iniciamos, eu e Dani, a marcha rumo ao Estephanio´s às 11h. Durante o trajeto, todo o corolário de lendas inacreditáveis que cercam um dia de jogo de Copa do Mundo.

– Vamos atravessar! – diz minha garota me tomando pelas mãos.

– Não.

– Ué… Por que?

– Não foi aqui que atravessamos no jogo passado.

Um troço.

Atravessamos a Alzira Brandão, paramos no mesmíssimo Bar Estrela, bebemos uma Brahma, seguimos pela Conde de Bonfim, entramos na Rua Guapeni, chegamos à Praça Saens Peña, paramos no mesmíssimo pé-sujo comandado pelo Popó na Rua Desembargador Isidro, seguimos pela Avenida Maracanã, entramos na Rua Ribeiro Guimarães e pronto! Ao meio-dia estávamos no Estephanio´s, onde encontramos Isaac, Mariazinha (os dois sem beber, enjoadíssimos, e meu pai era um triste por causa disso), Fefê (com uma peruca lamentável), Brinco, Shaianny, Yasmim, Vidal, Gláucia, Lelê Peitos, Maria Paula, Guerreira, Duda, Fumaça, Dalton, Zé Colméia, o bar ainda mais cheio do que no primeiro jogo e eu tomei uma decisão fundamental quando lá pisei:

– Hoje só bebo uísque.

Brinco e Dani
Fefê
Vidal e meu pai
Shaianny
Antes de prosseguir: tirem os olhos sujos de cima da minha sobrinha.

Em frente.

Eu disse que foi fundamental porque eu me servia de caldeiretas lotadas de gelo com Chivas Regal, e só via os olhinhos do meu pai, do Vidal, do Fefê, mergulhando dentro do malte.

Conforme eu disse, sem comentários sobre o jogo.

Daí termina o sufoco e vencemos por 2 a zero.

Atendendo comovente convite do Celsinho, eu e Dani seguimos à pé até a mansão do bardo, em Vila Isabel. Encontramos o próprio, Thati, Betinha, Flavinho, Barroca, Marquinho, provamos do inigualável arroz com polvo preparado pelo Celsão (como sempre um tremendo anfitrião), ficamos lá cerca de uma hora e… de volta! Havíamos prometido voltar rápido, até mesmo porque uma comovida Fumaça despedia-se de todos, voltando hoje pra Maputo, tadinha.

E daí foi uma festa. O pau comendo na roda de samba, neguinho com aquela alegria quase que indizível, e celebrava-se mais a graça dos encontros do que a vitória, macérrima (ou não, Szegeri?).

Vidal e eu protagonizávamos cenas semi-patéticas, abraços comovidos, gritos de “20 anos de Copa do Mundo juntos!”, esses troços que só os amigos compreendem. Notem o biquinho do Vidal pra dentro do meu aquário etílico.

eu e Vidal
E como sempre acontece, eis a hora tristíssima em todas as grandes festas, o Dever, esse sujeito inconveniente, surgiu diante de mim e fez o chamado com o indicador. Daí chamamos o Paulinho e tomamos o rumo de casa. E fomos, os dois, eu e Dani, dois satisfeitos depois de mais um grande dia.

Ergo o copo, de pé no banquinho imaginário, em homenagem (mais uma!) a essa grande figurinha que é a Fumaça, partindo hoje de volta para a África do Sul, onde está a trabalho. Vai fazer falta, a Fumaça, nos próximos jogos.

Até.

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BRASIL 1 X 0 CROÁCIA

Arrã. Então . Manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo. Arrã. Pódexá.

Às quatro da madrugada – eu disse quatro – de ontem eu já estava de pé, sacodido por um pesadelo tenebroso: a Croácia batia no Brasil de forma desonesta. Pensei em telefonar pro Pompa, mas antevi que meu irmão sequer me atenderia àquela hora. Daí fiquei vendo TV, assistindo os intermináveis comentários sobre o que seria a estréia brasileira, previsões as mais variadas, entrei em sites de jornais de todo o mundo, e cheguei a uma conclusão. Eu precisava beber para ficar mais calmo. A pedido do Fefê, comecei a gravar um CD para levar pro Estephanio´s: hino nacional na voz da Fafá de Belém, hino nacional em ritmo de forró, as vinhetas das Copas do Mundo, Voa Canarinho na voz do Junior, e eu chorava que dava dó. Aí decidi: às dez eu bebo uma coisinha. Assim mesmo, no diminutivo. Senti-me bem menos dodói por isso.

no Buteco do Edu

Bem, daí eu pus essa coisinha, que atende pelo nome de RedLabel, nesse copinho pequeno. Sentei-me no Buteco do Edu, fiquei dando pequenos goles, ouvindo resenhas intermináveis no rádio quando ouço a voz da mulher que me ensinou a sorrir:

Kêksetá chorando?

Pra quê?

Solidária, Dani chorou junto dando ligeiros soquinhos no meu ombro enquanto me abraçava:

– Pára com isso, pô… – pedia minha garota, em vão.

– Vamos indo? – eu disse.

– Vamos. – e isso com o sorriso mais bonito do mundo no rosto.

O plano era ir a pé, com calma, fazendo estratégicas paradas pelo caminho, para que chegássemos ao Estephanio´s às 13h, para o jogo da França. Descemos a Hadock Lobo na contramão, ultrapassamos o Largo da Segunda-Feira e chegamos no Alzirão. E, meus poucos mas fiéis leitores, o que é o Alzirão nesse 2006? Ainda mais gigantesco que noutros tempos e ainda mais bonito, embora eu rejeite as novidades babacas: área vip, área vip vip, esses troços que fazem com que uma meia-dúzia de espertos garantam algum pro resto do ano. Vejam a Dani no cantinho à direita da fotografia!

Dani no Alzirão

Nossa primeira parada foi no Bar Estrela, glória tijucana desde 1966, na esquina da Rua Conde de Bonfim com a Rua dos Araújos. Toca o celular. É o Vidal, a Lenda:

– Edu, qual sua posição?

– Estamos chegando em 20 minutos na Saens Peña. Ligo pra você. Bêjo-tchau.

Seguimos caminho e paramos num pé-sujíssimo na Rua Desembargador Isidro. Convoquei o Vidal que chegou em segundos. Bebemos uma, bebemos duas, bebemos três, pagamos a conta e seguimos para o Roquinha, na General Roca (daí o nome). Chope na pressão pros três, churrasquinho no pão (um clássico da casa) e toca o celular. Quem era? Quem era? Quem era?

O Pompa.

Fui um feliz naquele instante.

O telefone rodou a mesa (sempre, todos, sejam quantos forem, querem falar com o Pompa, ouvir-lhe a voz, os conselhos, a gargalhada sábia).

Quase 13h. Dani toma o rumo do salão (por que mulheres são assim?) e eu e Vidal o do Estephanio´s.

Estephanio´s

Encontramos meu pai, Fefê, Bruno e Fraga. Os quatro com os olhos levemente marejados. E notem a grandeza e a maturidade dos diálogos:

– Edu… li o texto de hoje cedo… Também não paro de chorar… – e fungou, o Fraga.

– Edu… – disse o Fefê – estou com péssimo pressentimento…

– Mas por que?

– Joguei Brasil e Croácia no Fifa 2006 e deu 2 a 1 pra eles.

Aí todos estrilaram. Eu primeiro:

– Mas, Fê… você jurou por Deus antes do jogo começar que o resultado seria o real?

A respiração coletiva suspensa:

– Não.

Aí todos relaxaram, mas disse o Vidal:

– Cacete, Fê… eu não tive coragem de jogar lá em casa… Até jurei por Deus que jogaria e que o resultado seria o real, mas não consegui.

Dalton e eu

Neguinho foi chegando. Manguaça, Fernanda, Lelê Peitos, Maria Paula, Alex, o Fraga bebia uísque como quem respira, mamãe, Dalton, Guerreira, Kaká, Fumaça (por uns dias no Brasil!), Gláucia, Brinco com a Yasmim, Carmen com a Gabi, Vítor, Fred, Cachorro, Cris, Mauro, Sogrinho, Bianca, Deyse, Índio, Zé Colméia, uma horda de hunos enfurecidos, e os diálogos enriquecedores ganhando força.

– Edu, meu filho… – é minha mãe na área – vai lá dar uma força pro seu pai, vai…

– O que houve, mama?

– O jogo nem começou e ele está chorando…

Daí comecei a chorar de novo, que choro contagia.

Dani chega do salão. A vejo, corro pro abraço e choro:

– Ô, amor… não gostou do meu cabelo?

– Cabelo? Que cabelo?

O Fraga, à minha esquerda, na provável décima-segunda dose de uísque chora. O Vidal funga (e com aquele nariz, quando ele funga, já viu). O Fefê traz o Sogrinho pela mão:

– Edu, sabia que o Sogrinho vai ser avô?

O Sogrinho chora.

– Pô, Sogrinho, não fica assim… – eu disse – Você vai curtir ser avô…

Ele, finíssimo:

– Avô é o caralho, Edu! Brasil, porra! Brasil!

Choramos abraçados.

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Quem também deu o ar da graça foi um louro. No ombro do dono o tempo inteiro, foi anunciado assim pela Fumaça quando adentrou o recinto:

– Ih! Um louro!

A Guerreira já galopando:

– Um louro? Gato? Tá sozinho? Aonde? Aonde? Cadê?

Daí canta-se o hino, daí começa o jogo, daí a gente sofre de doer, o Brasil joga mal pacas mas faz um gol. Fefê e Cachorro, gênios do marketing, bolaram a promoção: a cada gol do Brasil um chope grátis para quem estiver com a camisa do Estephanio´s para a Copa do Mundo. O bar inteiro estava com a camisa. E notem a categoria da torcida brasileira segundos após o gol:

– Chope! Tamtamtam! Chope! Tamtamtam! Chope!

Pra logo depois o côro irromper noutro grito:

– Eu, eu, eu, o Fernando se fudeu! Eu, eu, eu, o Cachorro se fudeu!

Uma categoria de fazer croata pedir penico.

Eu, Fefê e Vidal

E assim foi o Brasil, mal das pernas, rendendo muito menos do que o esperado, mas é Copa do Mundo.

Um a zero são três pontos.

E é o que importa.

Vidal Fefê, Dani e Fumaça

Fechamos a noite, eu e Dani, na companhia sempre hilária da Fumaça, no Galeto Columbia, glória da gastronomia tijucana, conduzidos, é óbvio, pelo maior taxista de que se tem notícia, o Paulinho.

Até.

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