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MAIS MEDOS, ALICERCES DO CARÁTER

Eu escrevi dia desses, na semana passada, inspirado em inspirado texto do mestre Luiz Antonio Simas, um pequeno tratado sobre a importância do medo imposto às crianças como formador de sólidos alicerces do caráter de um homem, aqui. Falei, ali, sobre diversos medos que me foram jogados no colo ao longo da infância, fiz a confissão no sentido de que foram todos fundamentais para minha formação, mas deixei de comentar sobre os medos que, mesmo depois de burro velho, papai – o principal arremessador de pânicos em nossa direção, minha e de meus irmãos – continuou fazendo questão de nos apresentar. Até já falei de um deles aqui, em 17 de abril de 2008. Mas hoje quero ser mais detalhista, mais preciso, mais verdadeiro.

Nesse texto, de abril de 2008, e notem como o tema já me preocupava, conto que papai tinha um casal de amigos que sofrera um pesado viés por tabela: o filho de um casal muito amigo desse tal casal amigo de papai (no texto dou os nomes, devasso tudo!), que dera carona a um amigo, fora preso por conta de uma blitz policial que encontrara, no porta-luvas de seu carro, uma quantidade considerável de maconha. Aquele enredo era um dos motes que meu velho pai usava para me manter longe das drogas, as ilícitas, seja feita a ressalva. As lícitas papai curtia. Em 1978, eu tinha 9 anos de idade, a poucos minutos da estréia do Brasil na Copa do Mundo papai arremessou uma lata de Brahma no meu colo e urrou, como um huno:

– Beba, porra! Beba!

Mamãe ensaiou um muxoxo mas papai foi enfático:

– É a primeira Copa do Mundo que o moleque vê. Não te mete nesse departamento!

Bebi felicíssimo aquele líquido amargo e até hoje, quando dou o primeiro gole de cerveja, sinto-me com 9 anos de idade recebendo o tesouro das mãos de meu pai. Dito isso, vamos em frente.

Bem lembrou-me o Simas, que voltou ao tema ontem, do caso do menino Carlinhos, seqüestrado em 02 de agosto de 1973 na rua Alice e jamais encontrado (leiam aqui). O menino Carlinhos foi muito utilizado na minha criação, como vou lhes contar. Antes, porém, faço breve digressão.

O menino Carlinhos nunca mais apareceu, mas rendeu foi matéria. Implacavelmente a imprensa falada, escrita e televisada dava notícias de que o pobre menino havia sido encontrado: em Caxambu, em Cambuquira, em São Gonçalo, em Florianópolis, no interior de São Paulo, até uma ossada encontrada na Baía de Guanabara inventaram que era do garoto, e daí ouviam a família, faziam perícias, dava-se um rebu que resultava sempre no mesmo… Não, não era o Carlinhos.

É que a imprensa tem seus modos, podem reparar: há uma mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas? Lá vão, aos atropelos, entrevistar o biólogo Mario Moscatelli. Houve um assalto na Fonte da Saudade? Teremos Ana Simas, presidente da associação de moradores, sapateando em todas as manchetes. Uma capivara pariu? Entrevista coletiva com Cora Rónai, e por aí. Repórteres (cada vez mais fracos) e estagiárias das redações (apud Nelson Rodrigues) têm no bolso os nomes de sempre para os fatos de sempre. Vai daí que foi assim durante muitos anos. Um louro qualquer era pescado pela imprensa, como um tesouro pronto pra virar manchete: encontramos o Carlinhos!

Na casa de meus avós sempre que a TV ou o rádio noticiavam o troço dava-se uma bulha tremenda. Minha bisavó ajoelhava e erguia as mãos em prece em direção ao céu, minha tia Idinha corria as contas do terço, minha avó fazia uma prece contida para que o espírito de Emmanuel conduzisse os trabalhos dos investigadores, e meu avô Milton, mexendo as pedrinha de gelo dentro de seu copo de Teacher´s, dizia sempre a mesma frase:

– Que palhaçada, o Carlinhos morreu!

Pois então, vamos ao que quero lhes contar.

Saía da vila em direção ao Monte Sinai, clube ao lado de nossa casa, e meu pai dizia me segurando pelos ombros:

– Atenção, viu? Olhe para os lados, não fale com estranhos, podem ser os seqüestradores do Carlinhos…

Quando comecei a voltar sozinho da escola, de ônibus, e eu pegava o 638, minha bisavó foi sempre implacável:

– Nada de conversar com quem você não conhece. Lembre-se do pobre Carlinhos…

Eis que hoje percebo com clareza que o pobre-diabo raptado mora em mim, enterrado como um sapo de macumba (apud Nelson Rodrigues, sempre).

Até hoje sou um túmulo na rua. Nego cigarro a quem me pede. Não empresto o isqueiro nem à fórceps. Gente que vem forçar intimidade em fila de padaria, fila de banco, qualquer fila, não tem nada de mim além do mais absoluto desprezo. Ando, até hoje, como uma piorra no meio da rua. Rastreio meu trajeto. Viro pra trás em busca de meus algozes. Olho para os lados com a intermitência de um farol. Cada estranho, cada um que se aproxima é, potencialmente, meu seqüestrador.

E o que é mais bonito: acho tudo isso normalíssimo.

Era o que eu queria lhes contar.

Até.

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40 ANOS NÃO SÃO 40 DIAS

Eu sou um sujeito emocionado por natureza. Choro à toa mas esse choro que choro não é, em absoluto, desprezível ou corriqueiro por ser constante. Muito pelo contrário, é um choro capaz de me sustentar na medida em que representa uma espécie de catarse imprescindível para que eu me mantenha vivo, de pé. Dito isso, vamos ao que quero lhes contar hoje.

Fiz, em 2009, 40 anos de idade. E no tal dia, 27 de abril, senti o que chamam por aí de “peso da idade”. Sempre me senti uma múmia, é verdade. Um velho, um antigo, um ultrapassado. Mas o redondo da marca, os 40 anos (todos dizem “40 anos” com a boca cheia), foram um marco. Recebi, na ocasião, na Tijuca, minha aldeia, uma penca de amigos com quem fiz questão de comemorar a passagem dos meus 40 anos, e fui, naquele dia, a despeito do tal “peso da idade”, um homem em estado de graça.

Vai daí que ontem me dei conta de que estava eu às vésperas dos 40 anos de dois grandes sujeitos, nascidos, ambos, é claro, no longínquo 09 de maio de 1971. E aí eu retomo o fio do primeiro parágrafo: estava eu emocionado com a perspectiva de abraçar, hoje, Fernando Goldenberg e Leonardo Boechat. Dei-me conta disso quando estávamos, justamente eu e Leo Boechat, curtindo a domingueira no quintal do Aconchego Carioca, jóia encravada entre a Praça da Bandeira e a Tijuca, ele de violão em punho, garrafas de Heineken sobre a mesa, e a companhia – que não tardou a chegar – do bardo tijucano, Felipe Quintans, nosso Felipinho Cereal.

Repito hoje, pois, a homenagem que prestei a meu irmão, o Fefê, em 2006 – leiam aqui – ele que veio ao mundo, como o Leo, num domingo que era dia das mães, como ontem foi.

Ontem, logo depois da domingueira no Aconchego, parti em direção à casa de mamãe para o tradicionalíssimo almoço que comemora a data. Lá cheguei já devidamente calibrado, muito de leve, e senti uma saudade agudíssima de minha avó, mãe de mamãe, pela primeira vez ausente do furdunço, ela que partiu pro Orum em dezembro do ano passado. Tratei de tratar da saudade à base de malte escocês e segurei-me o quanto pude – tive êxito! – para não chorar diante daquele homem que vi nascer, há 40 anos.

Não tive a mesma competência quando falei com ele hoje cedo, pelo telefone, e tratei de constranger o motorista de táxi que me levava pro trabalho de tanto que funguei (fungo intensamente quando choro) assoando o nariz no lenço que tenho sempre no bolso.

Ele, a seu modo, dá-me lições constantes que eu, incorrigível, teimo em não aprender. Mas é bonito pacas ver o desenho de sua vida, a sabedoria que ele imprime a cada gesto, a boniteza de suas posturas, e é por isso que eu encho a boca pra dizer pros outros… é meu irmão.

Leo Boechat, que chega também aos 40, tem sido, já há tempos, meu parceiro mais constante quando dou de pousar o cotovelo nos balcões dos bares da cidade. Foi num desses balcões, no Vilarino, no centro da cidade, que há coisa de uns 2 anos ele me disse, a garrafa de Jack Daniel´s já pela metade, que eu era o padrinho, ao lado do padrinho original, de sua filhota, a Helena, que completará 3 anos em dezembro.

Foi ele que, num desses sábados, ao me ver chegar com minha menina no Casual, também no Centro, depois de atravessarmos uma tremenda turbulência juntos, desatou de chorar, desavergonhadamente, fazendo com que eu, naquele instante, reconhecesse nele um dos meus.

Vai daí que temos derrubado juntos garrafas e mais garrafas diante dos balcões dos pés-sujos nos quais ancoramos e eu tenho feito dele, ainda que à sua revelia, porto-seguro para que eu siga enfrentando os revezes da vida com dignidade e ânimo constante, muito por conta das confissões que faço, transformando-o numa espécie de fiel depositário do que trago em mim. Pra quem me conhece, não é coisa pouca.

Ergo, por isso, comovidíssimo, o copo cheio de cerveja com espessa espuma na intenção desses dois grandes sujeitos, amigos meus, irmãos-de-fé, unidos pelo 09 de maio de 1971.

Era o que eu queria lhes dizer.

Até.

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O EDSON – CONFISSÕES

Esse exercício que faço constantemente aqui no blog, de voltar ao passado pelas espirais da memória, me é duríssimo – e explico. Em primeiro lugar porque ele me joga na cara o peso de meus 41, quase 42 anos: é cada vez mais doído voltar à infância, cada vez mais emocionante reviver os cenários e os personagens que compõem minhas histórias. Em segundo lugar porque os efeitos colaterais do arremesso ao passado são muitos e difíceis de administrar: dá-me como se fora uma epidemia, e eu começo a acreditar (eis um prato cheio para um psicanalista) de verdade que estão todos vivos, que ainda uso calças curtas, camisa de listras e mais um sem fim de pequenos problemas. Vamos em frente.

Eu não sei se vocês repararam, mas quando escrevi o texto do dia 02 de fevereiro – aqui – citei, de passagem, o nome de uma das professoras de mamãe. Pois seu nome ficou ecoando em torno de mim e eis que saltou, num átimo, também diante de mim, o Edson. Eu acabo de escrever “Edson” e já começo a rir. O Edson, que foi padrinho de casamento de meus pais – meu Deus, o Edson ainda está vivo? Não sei. – foi protagonista, ao longo da vida, das mais inacreditáveis histórias que eu jamais ouvi. Era sempre assim: papai chegava do trabalho. Mamãe, ainda da cozinha:

– Meudi, sabe a última do Edson? – Meudi é como mamãe chama o papai.

E ele, excitado, largando a pasta sobre a mesa:

– Conta, conta, conta!

Não quero mais lhes contar do Edson. Vou lhes contar sobre meu pai – ele é um personagem e tanto. O Edson fica para outra altura.

Vocês todos que me lêem sabem que vovó, mãe de mamãe, morreu em dezembro – lhes contei aqui. O que quero lhes contar aconteceu durante o período em que vovó ficou hospitalizada. Vamos porém, antes, a alguns detalhes.

Papai é um homenzarrão, altíssimo, forte, e ainda assim é um poltrão olímpico. Não pode ver sangue, que desmaia. Não agüenta visitar ninguém no hospital – e a palavra “hospital” já lhe dá náuseas. Não suporta – por fobia – os trancos mais violentos, digamos assim. Mamãe, por quem papai é completamente apaixonado, vive cercada de cuidados por parte do velho, e sabendo disso vamos em frente.

É evidente que papai não foi, dia nenhum, visitar vovó. Ia, diga-se, até o corredor do quarto fazendo companhia para mamãe. Mas não entrava. Vovó, uma mulher iluminadíssima e compreensível, disse, dia após dia (foram poucos, graças aos deuses), a mamãe:

– Tadinho do Isaac, eu sei que ele não suporta hospital.

Quando eu entrava, mudava pouco:

– Tadinho do seu pai, eu sei que ele não suporta hospital.

Pois bem. Vovó não estava bem, tínhamos pouco tempo para a visita, e decidimos sair para almoçar no primeiro dia em que as notícias não foram muito boas – eu, papai e mamãe.

À mesa, já mais relaxados, papai disse:

– Minha filha… – o “minha filha” era a certeza de que vinha emoção pelo caminho.

Alisando as mãos de mamãe, olhos ligeiramente marejados, ele soltou o petardo:

– … você não se preocupe, viu? No dia em que sua mãe… é… no dia em que sua mãe… hum… Minha filha, no dia em que sua mãe bater as botas, eu cuido de tu…

Quando ele pronunciou “bater as botas” eu e mamãe explodimos numa gargalhada que o deixou constrangido. Éramos nós, mãe e filho, diante daquele gigante tentando fazer poesia. Mudamos o rumo da prosa e deu-se o mesmo roteiro no dia seguinte.

Ele pediu sua dose de Red Label, pigarreou, piscou os olhos numa velocidade absurda – outro sinal de que lá vinha emoção – e disse, com as mãos de mamãe entre as suas:

– Minha filha, eu já te disse… Quando sua mãe… é… Bem… Quando sua mãe… Minha filha, quando sua mãe descansar em definitivo…

Outra explosão. O mesmo constrangimento. Mudamos o rumo da prosa e deu-se tudo como dantes no dia do terceiro almoço. Papai, escolado pelas falas dos dias anteriores, inspirou muito fundo, pôs as mãos nas orelhas da mamãe, diante dele, e disse, de sopetão (ali eu tive a certeza de que ele ensaiara a nova performance):

– Minha filha, quando sua mãe atravessar para o outro lado…

Não conseguiu, pela terceira vez, completar a frase. Nesse dia ele reagiu. Explodiu:

– Vocês querem que eu fale o quê?! Quando ela morrer?!

Eu e mamãe rolando no chão do restaurante.

Passaram-se mais uns dias e eis que vovó foi oló.

Coisa de umas semanas depois fomos todos jantar na casa de meus pais – eu e meus irmãos.

E durante o jantar, o momento solene depois de um pigarro circunspecto de meu pai:

– Gente… Tenho uma coisa pra contar pra vocês…

Houve um burburinho de risos contidos. Minutos antes, abrindo os trabalhos à mesa, mamãe havia proposto um brinde à memória de vovó, estávamos todos emocionados. E meu pai, sério:

– Prrrrr…

Pequena pausa. “Prrrrr” é o som que ele emite quando quer dizer “porra”. Mas como papai não fala palavrão na frente de mamãe, sai “prrrrr” mesmo.

Voltando.

Ele disse:

– Prrrrr… Como se não bastasse a morte da dona Mathilde…

Houve um entrelaçar alucinante de olhos. O que vem por aí?, era a pergunta em neon na testa de cada um à mesa.

– Eu perdi a eleição ontem. Não fui reeleito síndico… – disse, sorumbático.

Deu-se uma explosão de risos, soquinhos sobre a mesa, uivos de tanto que se ria, e papai ali, tadinho, achando que ninguém compartilhava sua decepção com a derrota da véspera.

Até.

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ARREMESSO AO PASSADO – MAIS CONFISSÕES

Desde anteontem que estou para lhes contar sobre as expressões que minha bisavó usava e que tanto marcaram minha infância. Era minha intenção fazê-lo quando comecei a escrever no dia primeiro – aqui – mas fui sendo sugado pelo ciclone da memória e acabei contando a história de meu encontro com Adele Fátima mais de 30 anos depois de tê-la visto, arrebatadora, nas páginas de uma revista Amiga que encontrei na casa de meus avós – quando eu era um menino de calças curtas, camisa de listras e conheci os encantos da quiromania. Ontem, dia de festa no mar – aqui – mais uma vez não consegui. Fui enredado pelos encantos de Janaína e me perdi nas profundezas das emoções que me moldaram. Vamos a elas, hoje. Estou, confesso, excitadíssimo com a possibilidade de lhes contar sobre isso, muito mais – é evidente – por conta do que isso provoca em mim do que pelo simples agrado a cada um dos meus poucos mas féis leitores. Não são expressões, exatamente, mas isso é o que menos importa.

Minha bisavó morava numa vila – isso eu já lhes disse. Morava com meus avós e com sua irmã, tia Idinha. Ela passava – se é ou não a verdade, nada interessa, vale o que tenho em mim – grande parte do dia na janela. Bastava passar uma gostosa (dou-me conta, hoje muito mais, do quanto eram gostosas algumas das moças que iam e vinham) e ela dizia em direção à irmã:

– Lá vem aquela sirigaita.

E eu lhes pergunto: quem ainda usa a palavra “sirigaita”?

Vem a cena à minha mente: minha bisavó e sua irmã usavam leque (ninguém mais usa leque). Podia estar quente, chovendo, um frio dos diabos, lá estavam as duas de rede no cabelo e leque numa das mãos. O leque gerava uma série de códigos que eu ia pescando aos poucos. A situação era grave? Fechava-se o leque num átimo de segundo e dava-se uma pancadinha na palma da outra mão. Fofocavam as duas? O abanar era frenético.

E as refeições?

Vovó tinha uma mesa muito antiga, dessas que têm a possibilidade de serem abertas no meio. De dentro da fenda aberta saltava outro tanto de madeira e a mesa crescia. Pois se havia balbúrdia à mesa – e sempre havia balbúrdia à mesa – vinha o grito:

– Silêncio no tribunal! Silêncio no tribunal!

Acaba de me ocorrer que talvez, por isso, eu tenha seguido a carreira de advogado.

Noutras ocasiões, a blague era diferente:

– Calma no Brasil!

E tia Idinha completava, ensaiadíssima:

– … que a Europa está em guerra!

Minha bisavó não me dava bronca, não me dava esporro: os verbos conjugados eram outros.

– Vou ser obrigada a ralhar contigo!

Ou então:

– Vou te passar um pito, menino!

Eis uma das provas de meu evidente desequilíbrio: estou aqui escrevendo e ouço, com direito a eco, a voz da minha bisavó.

Dona Mathilde, minha bisavó, era torcedora do Botafogo. Mantinha na cozinha de casa um escudo com a estrela solitária desenhada com palitos de fósforo. Era dia de jogo do Botafogo. Se caía num domingo, lá estava também o tio Hique (que recebia o caboclo Tupiara, como lhes contei ontem), botafoguense também. E o jogo era ouvido no radinho de pilha. Gol contra o Botafogo? Ela era implacável:

– Papagaio!

Pois bem: deu-se em mim a guinada do tempo, o arremesso violento em direção ao passado e quero lhes contar uma das mais inacreditáveis histórias envolvendo a família (as expressões de minha bisavó foram apenas o pavimento pra que eu voltasse pra bem longe). Omitirei os nomes, todos trocados. Mas a história é 100% verdadeira e parte do anedotário coletivo dos Monteiro de Barros, dos Montenegro Braga, dos Goldenberg, todos unidos pela mágica da vida.

Angelina tinha uma irmã surda-muda. Ativíssima, ativíssima! Tinha, é verdade, muitos outros irmãos, e como Paulina – a surda-muda – era uma pedra no sapato, vivia sendo arremessada pra lá e pra cá. Passava uma semana na casa de um irmão diferente. Dava-se o rodízio. O troço era sempre assim: chegava na casa de um no domingo à noite e lá ficava até o domingo seguinte. E quando chegava o domingo seguinte era uma festa:

– Graças a Deus! Paulina agora só daqui a um mês e meio!

Pois num certo domingo desembarcou a Paulina na casa de Angelina. O domingo já foi um inferno. Na segunda-feira pela manhã – a casa estava em obras e Angelina não contou com a compreensão de nenhum dos irmãos – “sai pra lá, segura que a batata é tua!” – a surda-muda acordou perto do meio-dia. E acordou, como se diz, com a macaca. “Mmmmmmmmmm” pra cá, “mmmmmmmmmm” pra lá, aqueles gestos que ninguém fazia muita questão de entender e a paciência de Angelina no limite.

Foi quando teve a idéia que reputou brilhante.

Chegou-se pro pintor, um homem de meia-idade, e foi franca, sincera, direta:

– O senhor pode me fazer um favor?

– Pois não, dona Angelina. Pode dizer.

– Será que o senhor se importa de comer a minha irmã? Ela está impossível!

E esfregando as mãos, com os olhos semi-cerrados, completou o assédio:

– Dá um sossega-leão nela, dá? Passa-lhe o rodo! Crava esse pincel nela! – e deu de gargalhar feito uma louca, dando tapinhas no ombro do pobre-diabo.

Seu Onofre, o pintor, não achou má-idéia. Já havia comentado com o eletricista que a surda-muda “dá um caldo”.

Angelina saiu pra almoçar piscando o olho em direção ao seu Onofre:

– Conto com o senhor, hein! E prometo uma gorjeta gorda se o senhor acalmar a Paulina!

Horas depois voltou pra casa.

Seu Onofre, em pé na escada, fez que “sim” com a cabeça. E ela, aflita:

– Cadê ela? Cadê?

Ele apontou pro corredor e disse lixando a parede:

– No quarto. Dormindo. Parece morta.

Lá estava Paulina. Dormia – esse detalhe é importante – com um sorriso nos lábios. Braços abertos, pernas à vontade, e assim ficou até umas sete da noite. Jantou em silêncio, o sorriso fixo nos lábios, como uma máscara. E foi assim até o domingo seguinte, quando foi despachada para a casa de outro irmão.

Vamos ao final da bulha (outra expressão de minha bisavó).

Nove meses depois nasceu um menino saudabilíssimo, vendo, ouvindo e falando.

Investiga daqui, investiga dali, chegou-se à verdade dos fatos.

Paulina hoje mora com Angelina – os irmãos não perdoaram a irmã por conta da insanidade – e com Roberto Carlos, o filho do pintor.

Na escola, em tenra idade, o menino contou, é claro, a história pros amiguinhos de classe (sabem como é criança…).

O duro mesmo é o apelido que ele carrega até hoje, já burro velho: Suvinil.

Até.

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DIA DOIS DE FEVEREIRO – PEQUENAS CONFISSÕES

Eu acho que já lhes contei isso algumas vezes, mas como sou um homem obsessivo, orgulhoso de minhas idéias fixas, não me importo de lhes contar mais uma vez, tudo de novo (acho que dessa vez com mais detalhes). É que hoje é dia dois de fevereiro, dia de festa no mar, e nesse dia – sempre! – quero ser o primeiro a salvar Iemanjá (apud Dorival Caymmi). E é isso – o por quê disso – que quero lhes contar hoje.Sou o filho mais velho de um casal tijucaníssimo, da sola dos sapatos ao ponto mais alto da cabeça. Responsáveis diretos pelo barro que me molda, é a eles que atribuo o que tenho de bom. O que tenho de ruim, bem, devo à tumultuada trajetória pela qual passa todo ser humano: e só os canalhas mais sórdidos são inteiramente bons – se é que me faço entender. Um casal tijucaníssimo mesmo, inclusive se tomarmos os estereótipos como parâmetros. Ela, torcedora do America, ex-aluna do Instituto de Educação, na rua Mariz e Barros, salgueirense, normalista, recitava quando menina – foi aluna de sua madrinha, Dalila Geraldo. Ele, vascaíno, ex-aluno do Instituto La-Fayette, na rua Haddock Lobo, freqüentava o Divino, na esquina da mesma Haddock Lobo com Matoso, e a Petrobras foi seu único emprego. Avô materno rubro-negro, ex-servidor do DNER, nunca mais foi ao Maracanã depois da tragédia de 1950. Avó materna, dona-de-casa, vendedora da Avon, da Jafra, eles também moradores da Tijuca. Avô paterno vascaíno, romeno ou russo (nunca se soube ao certo), chegou ao Brasil fugindo de Odessa, trabalhou com vendas a vida inteira, casado com minha avó paterna, ambos judeus, também tijucanos. Vovô Milton, católico não-praticante. Vovó Mathilde, católica até certa altura e espírita convicta a partir de meados dos anos 50. Vovô Oizer freqüentava a sinagoga e reunia-se, todas as tardes, com velhinhos judeus na praça Afonso Pena, quando gastava o verbo, em ídiche. Vovó Elisa, judia. Quando morreu, numa casa de repouso destinada às damas israelitas, descobrimos que freqüentava um centro espírita, às escondidas, na Praça da Bandeira, com a anuência das enfermeiras que acobertavam seus passeios pelas aléias de Kardec.

Papai nunca gostou de judeus – a razão é o menos importante. Sentia-se fora d´água entre os que diziam serem os “seus”. Apaixonou-se por mamãe, uma goy, e encantou-se pela umbanda quando viu tio Hique, irmão de vovó Mathilde, recebendo o caboclo Tupiara numa sessão, na Tijuca. Disse-lhe o caboclo, dando-lhe tapas muito firmes no peito:

– Ainda vamos trabalhar juntos, filho!

Anos depois, papai saiu dançando, sem mais nem menos, riscando ponto no tapete arrancado com fúria com os próprios pés dentro de casa: era o caboclo Tupinambá, camarada de Tupiara, o mesmo que no dia 26 de abril de 1969 apareceu pra ele, na cabeceira da cama, avisando que eu, esperado para o final de maio, chegaria no dia seguinte. Como de fato cheguei. Mamãe nasceu com vovó já espírita, foi presidente da Juventude Espírita do Rio de Janeiro, inclusive, mas rendeu-se também aos encantos do caboclo e dos tambores. Ele só a chama de “formosa”. E ela recebeu avisos também, em forma de sonhos recorrentes, durante a gravidez, como lhes contei aqui, em 02 de fevereiro do ano passado:

“Consta que mamãe, grávida de mim, seu filho mais velho, tinha um sonho recorrente. Na praia, na areia, diante do mar revolto, mamãe chorava angustiada olhando pro mais alto, onde nuvens carregadas davam cores mais trágicas a seu medo e seu temor. Das águas do mar, emergia uma moça bonita, com olhos doces e feição amorosa, trazendo uma criança no colo que era oferecida à minha mãe. Mamãe chorava – e chorava muito. Negava o presente das águas, e a moça bonita mantinha os braços estendidos em sua direção com expressão ligeiramente autoritária e impositiva. Passado um tempo, rendida à insistência daquela mulher, mamãe caminhava pro mar. E quando seus pés tocavam a espuma das ondas que arrebentavam na areia, o céu se abria, o mar acalmava e a moça desaparecia nas profundezas das águas. Era quando mamãe me punha no colo, os olhos lavados de lágrimas e maresia. Hoje, dia de festa no mar, dia de Yemanjá, dedico à minha mãe minha mais profunda gratidão por ter me criado como me criou. Agradeço aos deuses que me emocionam a cada dia mais pelo fato de eu ter vindo ao mundo através dela, a mais doce das mulheres, rigorosa, impetuosa, generosa acima de tudo, imagem e semelhança da moça do mar.”

Nesse caldeirão, vim ao mundo.

De nada me lembro do que contam meus pais, do que contava minha avó: eu, em tenra idade, tinha diálogos intermináveis com o mar. Não havia pai, mãe, avó, não havia santo ou demônio que me tirasse da beira d´água quando eu ia à praia. Gritava palavras ininteligíveis, brandia os braços, fazia saltar as veias do pescoço, e invariavelmente só voltava pra barraca, com um sorriso no rosto, depois de encerrado o bate-papo com o invisível. E em casa, era comum a cena:

– Dudu? Vem, filho. Tá na mesa.

– Péra. Tô brincando de arco-e-flecha com os índios.

Passei grande parte da infância no clube Monte Sinai, clube tijucano que ficava ao lado do prédio em que morávamos. Namorei uma judia e quase fui fuzilado por meu pai. A primeira mulher que conheci biblicamente era uma mulata, e justo em Volta Redonda, durante um torneio de natação, a mesma terra que viu nascer a mulher que me ensinou a sorrir, minha menina. Tenho dezenas de Bar-Mitzvah no currículo, recito trechos inteiros da Torá, de cabeça (para desespero de meu velho), me amarro em conversar com Tupinambá quando ele baixa no terreiro de papai, tenho vaga lembrança das idéias que troquei com Tupiara na pele de meu tio Hique, não perco por nada a missa no dia de São Sebastião, no dia de São Jorge, no dia de São Judas Tadeu, virei devoto de São Peregrino, tomo remédios fitoterápicos recomendados pelo espírito de um médico curitibano, gosto de tomar passe em centro espírita, fico impactado e emocionado num terreiro de candomblé, travo a garganta com os tambores e os cantos da umbanda e já conversei com preto velho, com seu Zé, com Maria Padilha, com o povo da rua. Minha religião, definitivamente, é o Brasil.

Jogar flores no mar no dia 31 de dezembro é um ritual que acompanho desde que nasci. Papai, quando morava com eles, saía de casa antes das seis da manhã carregando maços e maços de palmas brancas. Sempre na Praia Vermelha, na Urca, e ele sempre me mostrava o morro que, visto do calçadão, parece com o perfil de um índio velho. Eu o imitava, cheio de orgulho. Ia ao mar, molhava os pés, entrava um pouquinho na água com as palmas nas mãos, dizia uma coisa ou outra, conversava com Iemanjá e fazia minha oferenda na expectativa de que fosse bem aceita.

De uns anos pra cá, me foi dito que sou filho de Ogum. Ganhei das mãos generosas de Luiz Antonio Simas seu ileke de contas vermelhas, pretas e azuis. Somos filhos do mesmo pai. E Exu sopra, diuturnamente, no meu ouvido – fui duas vezes consultar Ifá, e foi batata. Depois, o mesmo Simas deu-me um de seus tesouros (entregou-me, comovidíssimo, no dia de meus 40 anos): a imagem de São Jorge Guerreiro, meu pai Ogum, que guardava o congá do terreiro de xambá comandado por sua avó – e que hoje guarda minha casa. Há anos que vou ao mar no dia dois de fevereiro. Ninguém mandou, ninguém pediu, ninguém sequer me sugeriu. Vou – simplesmente.

Como fui hoje. Pra rezar, pra cantar baixinho, pra render minhas homenagens.

Axé.

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A PEDAGOGIA DE MEU PAI

Como mexi – oh, como me comovo com a dor alheia – com o sentimento de alguns membros da turma da erva quando disse – e repito, e repito! – que são todos uns bobos-alegres, volto ao balcão para fazer a confissão do mais-óbvio: eu, meus poucos mas fiéis leitores, eu também sou um bobo-alegre! E explico o por quê e, mais, explico a qual viés me refiro quando digo que sou um bobo-alegre. Vamos aos fatos.Quando escrevi a Marcha da Maconha (leiam aqui), contei sobre alguns métodos pedagógicos que meu pai utilizava para me transformar (e deu certo) num poltrão na matéria.

Agora quero lhes contar sobre uma lição específica que me transformou – vocês verão, acompanhem a historinha… -, durante um bom tempo, num bocó, num aparvalhado, num calino de marca maior.

Papai tinha um amigo (ou eram meus avós, sim, sim, eram meus avós) chamado Hélio Saboya, que Deus o tenha em bom lugar. Era casado – minha memória não me trai – com Cenyra Saboya, e eu bem me recordo do quanto me impressionava aquela mulher com dois ípsilon no nome (era uma estrangeira na Tijuca e justo por conta da duplicidade da letra elegante).

Estou aqui escrevendo e não sei se digo “que Deus a tenha em bom lugar” em relação a ela… Eu simplesmente não sei, e essa dúvida me machuca, se Cenyra Saboya está ou não está entre nós.

Hélio e Cenyra Saboya moravam na rua São Miguel, quase chegando na subida do Alto da Boa Vista, na Tijuca. Morávamos, nessa época, na rua São Francisco Xavier. E a caminho da praia (íamos à praia do Pepino), sempre que passávamos diante do prédio do simpático casal (eram simpáticos), lá estavam os dois na janela esperando as seis buzinadas que meu pai imprimia na Brasília branca.

E quando dobrávamos à direita no final da São Miguel, quando o carro começava a subir a avenida Edison Passos em direção à estrada do Joá, que nos levaria a São Conrado, meu pai dizia:

– História impressionante aquela daquele amigo do Hélio…

Eu, representando meu papel, cutucava o velho:

– Que história? Que história?

Notem que eu estava careca de saber da história. Mas ouvi-la mais uma vez era uma espécie de refeição para o pânico que crescia dentro de mim.

E ele repetia a história de um amigo do casal Saboya. Esse amigo tinha um filho, que por sua vez tinha um carro, e esse filho tinha um amigo e esse amigo estava um dia de carona com o rapaz quando foram parados numa blitz policial. Durante a blitz, documento pra lá, documento pra cá, apalpa daqui, revista dali, e pronto. Acharam maconha no porta-luvas do carro. E eis o drama que papai contava, com olhos de terror mirando meus olhos assustados de menino através do espelhinho retrovisor da Brasília:

– Esse menino, Dudu, ficou preso dez anos e jurava que não sabia da maconha do amigo. Cuidado com as companhias! Cuidado com as caronas que vais dar!!!!!

E me aterrava cada vez mais:

– Arruinou a vida do pai!

– A fortuna da família foi gasta com os honorários do advogado de defesa. E em vão!

– Cuidado com as caronas!

É bom lembrar que eu tinha, nessa época – o quê? – uns nove, dez anos.

O que ocorre é que, em 1987, eu com 18 anos e meu primeiro carro, um Passat bege, eu era um motorista em estado permanente de alerta (agora sim, notem como eu era um bobo-alegre).

A primeira providência que tomei foi levar meu Passat (acho que o ano de fabricação era 1982) a uma oficina. Defeito mecânico?

Não.

Pedi que retirassem o porta-luvas.

Lembro com nitidez o diálogo com o Mário, mecânico na São Francisco Xavier mesmo, quase esquina com a Mariz e Barros:

– Tirar o porta-luvas? Pra quê, rapaz?

– Para ninguém esconder maconha dentro! – para espanto do pobre Mário.

E quando saía da faculdade – se você estudou na PUC (alô, Márcio!) há de se lembrar disso – havia uma tempestade de polegares pedindo carona na saída do estacionamento. E era comum o bate-papo rápido:

– Tá indo pra onde, amigo? – eu nem conhecia o “amigo”.

– Tijuca.

– Belê! Dá uma carona?

– Você está transportando maconha?

Ou então:

– Tijuca, Tijuca?

– Isso, Tijuca.

– Pô, aê, valeu… – já ia abrindo a porta.

– Não tem porta-luvas no carro!

– Mas…

– Tem maconha na mochila? – e eu arrancava em direção à Tijuca, orgulhosíssimo.

Nunca dei – eis a verdade que me atesta o grau de bobo-alegre – uma mísera carona que seja.

Até.

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