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NOVO ENDEREÇO

Há dias que canto, pelas manhãs, assim que levanto, uma espécie de mantra pagão em ritmo de samba – salve, Hilda Macedo e Fernando Cerole!: “Se por acaso alguém perguntar por mim, diga que mudei de endereço: tô morando na rua da felicidade que faz esquina com recomeço”. Isso porque, apud Aldir Blanc, em toda a vida o samba foi cura pra minha doença. Como lhes disse ontem, aqui“enfrentei o momento que todos os que enfrentam a morte de perto têm de enfrentar: rearrumar a casa, rearranjar a vida, refazer os planos, caminhar – sempre. “. E nada disso pode ser feito sob o signo da tristeza ou da dor. É preciso coragem, meus poucos mas fiéis leitores, é preciso ânimo, e é por isso que recorro ao samba. Recorro ao samba porque é preciso, também, ter esperança. É preciso, muito, ter esperança, pois se até mesmo a tristeza – como nos ensinou o poeta – tem sempre a esperança de um dia não ser mais triste não, saravá, Vinícius de Moraes, saravá, Baden Powell!, não devemos subverter o processo capaz de nos redimir, sob pena de morrermos estando vivos. Vai daí que escancaro as janelas quando acordo, vai daí que canto enquanto passo meu café, vai daí que me comovo com as luminosas manhãs que me trazem tanta luz e sigo de cabeça erguida à espera do tempo buarquiano da delicadeza.

Até.

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INTENSA LUZ

Dias antes do sábado passado – eu sou, como já lhes disse diversas vezes, brasileiro até a alma em matéria de religião! – recebi a seguinte mensagem psicografada, ditada por um espírito que, pra me valer do meu tijucanismo, vai muito com a minha cara. Dizia, a mensagem: “A vida do espírito encarnado representa constante chamamento à compreensão do processo evolutivo do espírito. É preciso muita atenção para procurar compreender os acontecimentos e sua seqüência poder explicar. Coragem! Através de nuvens pesada, escuras, há intensa luz.”. Eu, que durante toda a trajetória dos últimos anos, busquei, à minha moda, compreender os acontecimentos com atenção suficiente para encontrar explicação para o porvir, jamais deixei de ter a companhia da coragem – e não perguntem onde encontrei forças para jamais esmorecer. Eis que vivi, do sábado pra cá, uma semana dura, sem deixar de ter, de novo, ânimo e coragem. Enfrentei o momento que todos os que enfrentam a morte de perto têm de enfrentar: rearrumar a casa, rearranjar a vida, refazer os planos, caminhar – sempre. Não me faltaram os meus, uma vez mais, e é rigorosamente desnecessário dizer o nome dos que não me faltaram: eles sabem que é a eles que me refiro. Minha mãe – eis a exceção, faço questão de citá-la – cuidou do apartamento desde a manhã da sexta-feira e quando eu cheguei no domingo, depois de um final de semana de auto-exílio forçado, encontrei cenário novo, irreconhecível, cores novas nas paredes, móveis em nova disposição, numa mágica que só mesmo mão de mãe é capaz de fazer. Se a morte é o revés do parto, apud Chico Buarque, mamãe deu à luz de novo, mais de 42 anos depois, ao seu primeiro filho, que veio ao mundo num longínquo abril de 1969 – através da transformação impressionante que plantou no canto em que moro há quase doze anos, mamãe fez morrer, de certa forma, o cenário que ficou impregnado de uma luz que se esvaiu. Mas como sou um homem de fé, permanentemente de fé, como bem me conhece o camarada que me mandou o recado que transcrevi, como ainda melhor me conhece a mulher que me trouxe à vida, percebi, também, no instante em que girei a chave na porta da casa transformada, a casa inundada pela intensa luz que me fora anunciada no tempo certo. E que não me faltem a fé, a coragem, o ânimo, para caminhar pelos caminhos que a Vida, essa senhora caprichosa que só ela, desenhar pra mim. Estará comigo, não tenho sombra de dúvida, a intensa luz que me dirá, a cada manhã, a cada dia (apud Francisco Bosco): nada foi em vão.

Até.      

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MINHA MÃE É UMA MULHER DE PEITO

Vocês que têm me acompanhado por aqui bem sabem que sou um homem de fazer confissões. Sabem, mais que isso, que tenho me dedicado, nos últimos dias, a fazer confissões arrancadas da gaveta da memória, fruto de intensos e violentos arremessos em direção ao passado que não me trai. Aqui e aqui, mais recentemente, tratei de um tema importante trazido à tona pelo historiador Luiz Antonio Simas em seu blog Histórias Brasileiras: a importância do uso do medo como instrumento pedagógico na formação do caráter do homem. Hoje, se vocês me permitem, vou fugir um pouco do medo mantendo-me fiel ao tema pedagogia. Antes, porém, permitam-me um não tão breve intróito.

Estava eu em casa, ontem, quando convoquei minha menina e minha sogra para o jantar. Sentei-me à mesa de pijamas (uso pijama) e deu-se em mim, antes mesmo da primeira garfada, um guincho que me lançou para 1985 (impossível esquecer o ano, estávamos a poucos dias do primeiro Rock in Rio). Morávamos na Professor Gabizo, quase esquina com a General Canabarro. E me veio à mente uma cena dessas que, contadas por alguém sem crédito, gera a reação da assistência:

– Mentira…

Disquei pra mamãe. Perguntei:

– Mamãe, posso contar no blog aquela história assim, assim, assado? – se eu lhes contar agora o que é, a graça vai embora.

Ouvi mamãe gargalhando do outro lado da linha. Ela, muito sábia, respondeu depois de uns segundos:

– Claro que pode! Rir ainda é um fantástico remédio!

Desligamos. De lá pra cá recebi telefonemas de meu pai (que não atendi de propósito imaginando o pedido de veto), e-mails, sinais de fumaça, mas acordei determinado a lhes contar sobre uma sensacional passagem envolvendo mamãe e seus métodos eficazes para educar os três filhos (sou o mais velho).

Hoje cedo, eu ainda tomava meu café preto no bar do Marreco, estrilou meu celular. Era meu dileto amigo e conselheiro, Aldir Blanc. Contei-lhe tudo, timtim por timtim. Só ouvi os guinchos e as gargalhadas do outro lado. Até que, ainda há pouco, chegou-me por e-mail um manifesto assinado pelo bardo:

“MANIFESTO que o direito do advogado, ativista político, compositor e cantor Eduardo Goldenberg escrever em seu blog sobre os seios da senhora mãe dele, minha querida amiga Mariazinha, é inalienável. Afinal, eles o amamentaram!”

Chorei, confesso, diante de tamanha manifestação de solidariedade.

Pouco depois do referido e-mail, foi Mariana Blanc, sua filha, minha querida comadre, quem escreveu em seu mural no Facebook:

“Eu não sei no Twitter, mas, nos telefonemas do meu pai durante todo o dia (sim, são sempre vários), no topo dos tópicos estão… peitos. P-E-I-T-O-S. E a culpa parece ser do Eduardo Goldenberg, como sói acontecer! Hahahahaha”

Feito o intróito, vamos ao que quero lhes contar.

Mamãe, que recentemente completou 43 anos de casada com meu pai – um homem que carrega frases feitas nos bolsos como maços de dinheiro – teve três filhos. Eu, o mais velho, nascido em 1969, Fernando, o do meio, de 1971, e Cristiano, o caçula, de 1975. Entre mim e Fernando e entre Fernando e Cristiano mamãe ainda perdeu dois bebês, dois homens, o que comprova que mamãe veio ao mundo para criar meninos. Sintam o drama da filha única da dona Mathilde. Pois bem.

Desde que me entendo por gente mamãe tem uma queixa: homens que sentam-se à mesa para as refeições sem camisa. Papai, então, sempre foi um radical. Mamãe podia receber um rajá em casa; lá estaria meu pai sem camisa e descalço expondo os pelos e os pés enormes que lhe renderam, em tenra idade, o apelido de Abominável Homem das Neves. Pois sabem como é… Três meninos que têm na figura paterna a figura do ídolo… Sentávamos todos à mesa, para as refeições, nus da cintura pra cima. Café da manhã, almoço nos finais de semana, jantares, todos sem camisa. E mamãe, com a paciência de uma espírita resignada, comendo entre muxoxos:

– Vocês sem camisa… tremenda falta de respeito…

Sobre isso, breve pausa. Mamãe sempre diz isso:

– Não admito que chamem meus filhos de mal-educados. Eles podem, isso sim, não ter absorvido a educação que dei!

Corria o mês de janeiro de 1985. Havíamos acabado de mudar para o edifício Míriam, no número 359 da Professor Gabizo, recém-construído. Fazia um calor dos diabos, verão carioca…

Estávamos na sala, eu, meus irmãos e meu pai. Mentira. Estávamos todos na varanda, era nosso primeiro apartamento com varanda, e isso era um luxo que vou lhes contar… Ouvimos o grito da cozinha:

– Meninos! Tá na mesa!

Papai disse:

– Já vou! Meninos, vão indo… vou aproveitar mais 2 minutos da fresca… – e meteu metade do corpo pra fora da varanda.

Fomos em fila indiana. Eu, na frente, estaquei diante da porta. Virei a cabeça como um boneco e penso que tinha os olhos saltados pra fora do rosto (notem que eu tinha 15 anos de idade, Fernando tinha 13 e Cristiano, 9). Gritei:

– Pai?

E ele:

– Hã!?

– Vem aqui…

Papai – um dos homens mais apaixonados que conheço – fez tremer o edifício a passos largos:

– O que houve?

Apontei pra cozinha, ainda de pé diante da porta. Papai pôs a cabeça por cima de nós, mirou em direção à mamãe e soltou:

– Prrrrrrrrrr!

Explico o “prrrrrrrrrr”.

Papai sempre nos ensinou:

– Não se fala palavrão na frente da sua mãe! Palavrão é pra falar na rua, no Maracanã, entre os amigos. Na frente da sua mãe, nunca! Entenderam!

Vai daí que, em casos extremos, o máximo que ele se permitia era um “porra”, o mais doce dos palavrões. Mas nem assim, nem sendo o mais delicado, ele se permitia um “porra”, que virava “prrrrrrrrrr”. Entenderam? Vou seguir.

Mamãe estava sentada à mesa com a mesa posta: salada verde com tomate, arroz, feijão, bife acebolado e batata frita. E estava nua da cintura pra cima (estávamos todos, como de costume, sem camisa). Mexendo o gelo dentro de um copo longo de Martini, disse como se nada estivesse acontecendo:

– Vai esfriar! Vocês não vêm?

Papai, coitado:

– Pixuxa, minha filha, o que houve? – ele estava de joelhos diante dela.

– Dudu, Nando, Cris, venham, meus filhos, sentem-se! – os olhos de mamãe brilhavam.

Papai virou-se e tentou interromper nossa marcha:

– Não olhem, não olhem! Sua mãe está nua! Prrrrrrrrrr!

Ela ficou de pé e foi enfática:

– Nua? Estou sem camisa, como vocês. Sentem-se! – e sentou-se de volta.

Papai, em visível estado de choque, disse em nossa direção:

– Vão vestir uma camisa, já! Prrrrrrrrrr!

Mamãe foi dura:

– Não! Hoje, não! Vai esfriar a comida. Vamos todos comer sem camisa hoje!

Foi o mais estranho jantar de meus 42 anos. Papai, assim que sentou-se, deu início ao transe. Baixou Tupinambá na cozinha mas mamãe não deu refresco:

– Ô, caboclo, dá licença. O senhor cuida do espiritual que da etiqueta e da educação dos meus filhos cuido eu. Canta pra subir! Saravá!

O caboclo cantou pra subir, de fato.

Papai cortava o bife e mastigava aos prantos. Cristiano, o mais novo, ajeitava os óculos a cada minuto. Fernando me chutava por baixo da mesa e eu, já exibindo meu talento polemista, dizia para desespero de meu velho:

– Pô, mãe, tudo em cima aí, hein!

Mamãe recolheu os pratos, serviu a sobremesa – era gelatina e eu percebi, ali, na escolha do doce, um sentido estético sensacional – e depois disse afagando as mãos de meu pai, que fungava sem pudor:

– Gostou, meu filho?

E ele:

– Da comida?

E ela, exibindo os seios:

– Não, meu filho! De sentar-se diante de mim e dos meninos assim, sem camisa! – e deu de rir, feito Exu-Caveira (apud Aldir Blanc).

Papai:

– Nunca mais, Pixuxa, nunca mais… – e assoou o nariz com o guardanapo de papel.

Ela, de pé, servindo-se de mais Martini:

– Acho que vocês entenderam, certo, meninos?

De lá pra cá – e lá se vão mais de 25 anos – nunca mais comemos nem de camiseta. Faça sol, chova, seja verão ou seja inverno, nunca mais ousamos desrespeitar esse desejo, tão simples, de mamãe.

Até.

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MAIS MEDOS, ALICERCES DO CARÁTER

Eu escrevi dia desses, na semana passada, inspirado em inspirado texto do mestre Luiz Antonio Simas, um pequeno tratado sobre a importância do medo imposto às crianças como formador de sólidos alicerces do caráter de um homem, aqui. Falei, ali, sobre diversos medos que me foram jogados no colo ao longo da infância, fiz a confissão no sentido de que foram todos fundamentais para minha formação, mas deixei de comentar sobre os medos que, mesmo depois de burro velho, papai – o principal arremessador de pânicos em nossa direção, minha e de meus irmãos – continuou fazendo questão de nos apresentar. Até já falei de um deles aqui, em 17 de abril de 2008. Mas hoje quero ser mais detalhista, mais preciso, mais verdadeiro.

Nesse texto, de abril de 2008, e notem como o tema já me preocupava, conto que papai tinha um casal de amigos que sofrera um pesado viés por tabela: o filho de um casal muito amigo desse tal casal amigo de papai (no texto dou os nomes, devasso tudo!), que dera carona a um amigo, fora preso por conta de uma blitz policial que encontrara, no porta-luvas de seu carro, uma quantidade considerável de maconha. Aquele enredo era um dos motes que meu velho pai usava para me manter longe das drogas, as ilícitas, seja feita a ressalva. As lícitas papai curtia. Em 1978, eu tinha 9 anos de idade, a poucos minutos da estréia do Brasil na Copa do Mundo papai arremessou uma lata de Brahma no meu colo e urrou, como um huno:

– Beba, porra! Beba!

Mamãe ensaiou um muxoxo mas papai foi enfático:

– É a primeira Copa do Mundo que o moleque vê. Não te mete nesse departamento!

Bebi felicíssimo aquele líquido amargo e até hoje, quando dou o primeiro gole de cerveja, sinto-me com 9 anos de idade recebendo o tesouro das mãos de meu pai. Dito isso, vamos em frente.

Bem lembrou-me o Simas, que voltou ao tema ontem, do caso do menino Carlinhos, seqüestrado em 02 de agosto de 1973 na rua Alice e jamais encontrado (leiam aqui). O menino Carlinhos foi muito utilizado na minha criação, como vou lhes contar. Antes, porém, faço breve digressão.

O menino Carlinhos nunca mais apareceu, mas rendeu foi matéria. Implacavelmente a imprensa falada, escrita e televisada dava notícias de que o pobre menino havia sido encontrado: em Caxambu, em Cambuquira, em São Gonçalo, em Florianópolis, no interior de São Paulo, até uma ossada encontrada na Baía de Guanabara inventaram que era do garoto, e daí ouviam a família, faziam perícias, dava-se um rebu que resultava sempre no mesmo… Não, não era o Carlinhos.

É que a imprensa tem seus modos, podem reparar: há uma mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas? Lá vão, aos atropelos, entrevistar o biólogo Mario Moscatelli. Houve um assalto na Fonte da Saudade? Teremos Ana Simas, presidente da associação de moradores, sapateando em todas as manchetes. Uma capivara pariu? Entrevista coletiva com Cora Rónai, e por aí. Repórteres (cada vez mais fracos) e estagiárias das redações (apud Nelson Rodrigues) têm no bolso os nomes de sempre para os fatos de sempre. Vai daí que foi assim durante muitos anos. Um louro qualquer era pescado pela imprensa, como um tesouro pronto pra virar manchete: encontramos o Carlinhos!

Na casa de meus avós sempre que a TV ou o rádio noticiavam o troço dava-se uma bulha tremenda. Minha bisavó ajoelhava e erguia as mãos em prece em direção ao céu, minha tia Idinha corria as contas do terço, minha avó fazia uma prece contida para que o espírito de Emmanuel conduzisse os trabalhos dos investigadores, e meu avô Milton, mexendo as pedrinha de gelo dentro de seu copo de Teacher´s, dizia sempre a mesma frase:

– Que palhaçada, o Carlinhos morreu!

Pois então, vamos ao que quero lhes contar.

Saía da vila em direção ao Monte Sinai, clube ao lado de nossa casa, e meu pai dizia me segurando pelos ombros:

– Atenção, viu? Olhe para os lados, não fale com estranhos, podem ser os seqüestradores do Carlinhos…

Quando comecei a voltar sozinho da escola, de ônibus, e eu pegava o 638, minha bisavó foi sempre implacável:

– Nada de conversar com quem você não conhece. Lembre-se do pobre Carlinhos…

Eis que hoje percebo com clareza que o pobre-diabo raptado mora em mim, enterrado como um sapo de macumba (apud Nelson Rodrigues, sempre).

Até hoje sou um túmulo na rua. Nego cigarro a quem me pede. Não empresto o isqueiro nem à fórceps. Gente que vem forçar intimidade em fila de padaria, fila de banco, qualquer fila, não tem nada de mim além do mais absoluto desprezo. Ando, até hoje, como uma piorra no meio da rua. Rastreio meu trajeto. Viro pra trás em busca de meus algozes. Olho para os lados com a intermitência de um farol. Cada estranho, cada um que se aproxima é, potencialmente, meu seqüestrador.

E o que é mais bonito: acho tudo isso normalíssimo.

Era o que eu queria lhes contar.

Até.

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40 ANOS NÃO SÃO 40 DIAS

Eu sou um sujeito emocionado por natureza. Choro à toa mas esse choro que choro não é, em absoluto, desprezível ou corriqueiro por ser constante. Muito pelo contrário, é um choro capaz de me sustentar na medida em que representa uma espécie de catarse imprescindível para que eu me mantenha vivo, de pé. Dito isso, vamos ao que quero lhes contar hoje.

Fiz, em 2009, 40 anos de idade. E no tal dia, 27 de abril, senti o que chamam por aí de “peso da idade”. Sempre me senti uma múmia, é verdade. Um velho, um antigo, um ultrapassado. Mas o redondo da marca, os 40 anos (todos dizem “40 anos” com a boca cheia), foram um marco. Recebi, na ocasião, na Tijuca, minha aldeia, uma penca de amigos com quem fiz questão de comemorar a passagem dos meus 40 anos, e fui, naquele dia, a despeito do tal “peso da idade”, um homem em estado de graça.

Vai daí que ontem me dei conta de que estava eu às vésperas dos 40 anos de dois grandes sujeitos, nascidos, ambos, é claro, no longínquo 09 de maio de 1971. E aí eu retomo o fio do primeiro parágrafo: estava eu emocionado com a perspectiva de abraçar, hoje, Fernando Goldenberg e Leonardo Boechat. Dei-me conta disso quando estávamos, justamente eu e Leo Boechat, curtindo a domingueira no quintal do Aconchego Carioca, jóia encravada entre a Praça da Bandeira e a Tijuca, ele de violão em punho, garrafas de Heineken sobre a mesa, e a companhia – que não tardou a chegar – do bardo tijucano, Felipe Quintans, nosso Felipinho Cereal.

Repito hoje, pois, a homenagem que prestei a meu irmão, o Fefê, em 2006 – leiam aqui – ele que veio ao mundo, como o Leo, num domingo que era dia das mães, como ontem foi.

Ontem, logo depois da domingueira no Aconchego, parti em direção à casa de mamãe para o tradicionalíssimo almoço que comemora a data. Lá cheguei já devidamente calibrado, muito de leve, e senti uma saudade agudíssima de minha avó, mãe de mamãe, pela primeira vez ausente do furdunço, ela que partiu pro Orum em dezembro do ano passado. Tratei de tratar da saudade à base de malte escocês e segurei-me o quanto pude – tive êxito! – para não chorar diante daquele homem que vi nascer, há 40 anos.

Não tive a mesma competência quando falei com ele hoje cedo, pelo telefone, e tratei de constranger o motorista de táxi que me levava pro trabalho de tanto que funguei (fungo intensamente quando choro) assoando o nariz no lenço que tenho sempre no bolso.

Ele, a seu modo, dá-me lições constantes que eu, incorrigível, teimo em não aprender. Mas é bonito pacas ver o desenho de sua vida, a sabedoria que ele imprime a cada gesto, a boniteza de suas posturas, e é por isso que eu encho a boca pra dizer pros outros… é meu irmão.

Leo Boechat, que chega também aos 40, tem sido, já há tempos, meu parceiro mais constante quando dou de pousar o cotovelo nos balcões dos bares da cidade. Foi num desses balcões, no Vilarino, no centro da cidade, que há coisa de uns 2 anos ele me disse, a garrafa de Jack Daniel´s já pela metade, que eu era o padrinho, ao lado do padrinho original, de sua filhota, a Helena, que completará 3 anos em dezembro.

Foi ele que, num desses sábados, ao me ver chegar com minha menina no Casual, também no Centro, depois de atravessarmos uma tremenda turbulência juntos, desatou de chorar, desavergonhadamente, fazendo com que eu, naquele instante, reconhecesse nele um dos meus.

Vai daí que temos derrubado juntos garrafas e mais garrafas diante dos balcões dos pés-sujos nos quais ancoramos e eu tenho feito dele, ainda que à sua revelia, porto-seguro para que eu siga enfrentando os revezes da vida com dignidade e ânimo constante, muito por conta das confissões que faço, transformando-o numa espécie de fiel depositário do que trago em mim. Pra quem me conhece, não é coisa pouca.

Ergo, por isso, comovidíssimo, o copo cheio de cerveja com espessa espuma na intenção desses dois grandes sujeitos, amigos meus, irmãos-de-fé, unidos pelo 09 de maio de 1971.

Era o que eu queria lhes dizer.

Até.

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O EDSON – CONFISSÕES

Esse exercício que faço constantemente aqui no blog, de voltar ao passado pelas espirais da memória, me é duríssimo – e explico. Em primeiro lugar porque ele me joga na cara o peso de meus 41, quase 42 anos: é cada vez mais doído voltar à infância, cada vez mais emocionante reviver os cenários e os personagens que compõem minhas histórias. Em segundo lugar porque os efeitos colaterais do arremesso ao passado são muitos e difíceis de administrar: dá-me como se fora uma epidemia, e eu começo a acreditar (eis um prato cheio para um psicanalista) de verdade que estão todos vivos, que ainda uso calças curtas, camisa de listras e mais um sem fim de pequenos problemas. Vamos em frente.

Eu não sei se vocês repararam, mas quando escrevi o texto do dia 02 de fevereiro – aqui – citei, de passagem, o nome de uma das professoras de mamãe. Pois seu nome ficou ecoando em torno de mim e eis que saltou, num átimo, também diante de mim, o Edson. Eu acabo de escrever “Edson” e já começo a rir. O Edson, que foi padrinho de casamento de meus pais – meu Deus, o Edson ainda está vivo? Não sei. – foi protagonista, ao longo da vida, das mais inacreditáveis histórias que eu jamais ouvi. Era sempre assim: papai chegava do trabalho. Mamãe, ainda da cozinha:

– Meudi, sabe a última do Edson? – Meudi é como mamãe chama o papai.

E ele, excitado, largando a pasta sobre a mesa:

– Conta, conta, conta!

Não quero mais lhes contar do Edson. Vou lhes contar sobre meu pai – ele é um personagem e tanto. O Edson fica para outra altura.

Vocês todos que me lêem sabem que vovó, mãe de mamãe, morreu em dezembro – lhes contei aqui. O que quero lhes contar aconteceu durante o período em que vovó ficou hospitalizada. Vamos porém, antes, a alguns detalhes.

Papai é um homenzarrão, altíssimo, forte, e ainda assim é um poltrão olímpico. Não pode ver sangue, que desmaia. Não agüenta visitar ninguém no hospital – e a palavra “hospital” já lhe dá náuseas. Não suporta – por fobia – os trancos mais violentos, digamos assim. Mamãe, por quem papai é completamente apaixonado, vive cercada de cuidados por parte do velho, e sabendo disso vamos em frente.

É evidente que papai não foi, dia nenhum, visitar vovó. Ia, diga-se, até o corredor do quarto fazendo companhia para mamãe. Mas não entrava. Vovó, uma mulher iluminadíssima e compreensível, disse, dia após dia (foram poucos, graças aos deuses), a mamãe:

– Tadinho do Isaac, eu sei que ele não suporta hospital.

Quando eu entrava, mudava pouco:

– Tadinho do seu pai, eu sei que ele não suporta hospital.

Pois bem. Vovó não estava bem, tínhamos pouco tempo para a visita, e decidimos sair para almoçar no primeiro dia em que as notícias não foram muito boas – eu, papai e mamãe.

À mesa, já mais relaxados, papai disse:

– Minha filha… – o “minha filha” era a certeza de que vinha emoção pelo caminho.

Alisando as mãos de mamãe, olhos ligeiramente marejados, ele soltou o petardo:

– … você não se preocupe, viu? No dia em que sua mãe… é… no dia em que sua mãe… hum… Minha filha, no dia em que sua mãe bater as botas, eu cuido de tu…

Quando ele pronunciou “bater as botas” eu e mamãe explodimos numa gargalhada que o deixou constrangido. Éramos nós, mãe e filho, diante daquele gigante tentando fazer poesia. Mudamos o rumo da prosa e deu-se o mesmo roteiro no dia seguinte.

Ele pediu sua dose de Red Label, pigarreou, piscou os olhos numa velocidade absurda – outro sinal de que lá vinha emoção – e disse, com as mãos de mamãe entre as suas:

– Minha filha, eu já te disse… Quando sua mãe… é… Bem… Quando sua mãe… Minha filha, quando sua mãe descansar em definitivo…

Outra explosão. O mesmo constrangimento. Mudamos o rumo da prosa e deu-se tudo como dantes no dia do terceiro almoço. Papai, escolado pelas falas dos dias anteriores, inspirou muito fundo, pôs as mãos nas orelhas da mamãe, diante dele, e disse, de sopetão (ali eu tive a certeza de que ele ensaiara a nova performance):

– Minha filha, quando sua mãe atravessar para o outro lado…

Não conseguiu, pela terceira vez, completar a frase. Nesse dia ele reagiu. Explodiu:

– Vocês querem que eu fale o quê?! Quando ela morrer?!

Eu e mamãe rolando no chão do restaurante.

Passaram-se mais uns dias e eis que vovó foi oló.

Coisa de umas semanas depois fomos todos jantar na casa de meus pais – eu e meus irmãos.

E durante o jantar, o momento solene depois de um pigarro circunspecto de meu pai:

– Gente… Tenho uma coisa pra contar pra vocês…

Houve um burburinho de risos contidos. Minutos antes, abrindo os trabalhos à mesa, mamãe havia proposto um brinde à memória de vovó, estávamos todos emocionados. E meu pai, sério:

– Prrrrr…

Pequena pausa. “Prrrrr” é o som que ele emite quando quer dizer “porra”. Mas como papai não fala palavrão na frente de mamãe, sai “prrrrr” mesmo.

Voltando.

Ele disse:

– Prrrrr… Como se não bastasse a morte da dona Mathilde…

Houve um entrelaçar alucinante de olhos. O que vem por aí?, era a pergunta em neon na testa de cada um à mesa.

– Eu perdi a eleição ontem. Não fui reeleito síndico… – disse, sorumbático.

Deu-se uma explosão de risos, soquinhos sobre a mesa, uivos de tanto que se ria, e papai ali, tadinho, achando que ninguém compartilhava sua decepção com a derrota da véspera.

Até.

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ARREMESSO AO PASSADO – MAIS CONFISSÕES

Desde anteontem que estou para lhes contar sobre as expressões que minha bisavó usava e que tanto marcaram minha infância. Era minha intenção fazê-lo quando comecei a escrever no dia primeiro – aqui – mas fui sendo sugado pelo ciclone da memória e acabei contando a história de meu encontro com Adele Fátima mais de 30 anos depois de tê-la visto, arrebatadora, nas páginas de uma revista Amiga que encontrei na casa de meus avós – quando eu era um menino de calças curtas, camisa de listras e conheci os encantos da quiromania. Ontem, dia de festa no mar – aqui – mais uma vez não consegui. Fui enredado pelos encantos de Janaína e me perdi nas profundezas das emoções que me moldaram. Vamos a elas, hoje. Estou, confesso, excitadíssimo com a possibilidade de lhes contar sobre isso, muito mais – é evidente – por conta do que isso provoca em mim do que pelo simples agrado a cada um dos meus poucos mas féis leitores. Não são expressões, exatamente, mas isso é o que menos importa.

Minha bisavó morava numa vila – isso eu já lhes disse. Morava com meus avós e com sua irmã, tia Idinha. Ela passava – se é ou não a verdade, nada interessa, vale o que tenho em mim – grande parte do dia na janela. Bastava passar uma gostosa (dou-me conta, hoje muito mais, do quanto eram gostosas algumas das moças que iam e vinham) e ela dizia em direção à irmã:

– Lá vem aquela sirigaita.

E eu lhes pergunto: quem ainda usa a palavra “sirigaita”?

Vem a cena à minha mente: minha bisavó e sua irmã usavam leque (ninguém mais usa leque). Podia estar quente, chovendo, um frio dos diabos, lá estavam as duas de rede no cabelo e leque numa das mãos. O leque gerava uma série de códigos que eu ia pescando aos poucos. A situação era grave? Fechava-se o leque num átimo de segundo e dava-se uma pancadinha na palma da outra mão. Fofocavam as duas? O abanar era frenético.

E as refeições?

Vovó tinha uma mesa muito antiga, dessas que têm a possibilidade de serem abertas no meio. De dentro da fenda aberta saltava outro tanto de madeira e a mesa crescia. Pois se havia balbúrdia à mesa – e sempre havia balbúrdia à mesa – vinha o grito:

– Silêncio no tribunal! Silêncio no tribunal!

Acaba de me ocorrer que talvez, por isso, eu tenha seguido a carreira de advogado.

Noutras ocasiões, a blague era diferente:

– Calma no Brasil!

E tia Idinha completava, ensaiadíssima:

– … que a Europa está em guerra!

Minha bisavó não me dava bronca, não me dava esporro: os verbos conjugados eram outros.

– Vou ser obrigada a ralhar contigo!

Ou então:

– Vou te passar um pito, menino!

Eis uma das provas de meu evidente desequilíbrio: estou aqui escrevendo e ouço, com direito a eco, a voz da minha bisavó.

Dona Mathilde, minha bisavó, era torcedora do Botafogo. Mantinha na cozinha de casa um escudo com a estrela solitária desenhada com palitos de fósforo. Era dia de jogo do Botafogo. Se caía num domingo, lá estava também o tio Hique (que recebia o caboclo Tupiara, como lhes contei ontem), botafoguense também. E o jogo era ouvido no radinho de pilha. Gol contra o Botafogo? Ela era implacável:

– Papagaio!

Pois bem: deu-se em mim a guinada do tempo, o arremesso violento em direção ao passado e quero lhes contar uma das mais inacreditáveis histórias envolvendo a família (as expressões de minha bisavó foram apenas o pavimento pra que eu voltasse pra bem longe). Omitirei os nomes, todos trocados. Mas a história é 100% verdadeira e parte do anedotário coletivo dos Monteiro de Barros, dos Montenegro Braga, dos Goldenberg, todos unidos pela mágica da vida.

Angelina tinha uma irmã surda-muda. Ativíssima, ativíssima! Tinha, é verdade, muitos outros irmãos, e como Paulina – a surda-muda – era uma pedra no sapato, vivia sendo arremessada pra lá e pra cá. Passava uma semana na casa de um irmão diferente. Dava-se o rodízio. O troço era sempre assim: chegava na casa de um no domingo à noite e lá ficava até o domingo seguinte. E quando chegava o domingo seguinte era uma festa:

– Graças a Deus! Paulina agora só daqui a um mês e meio!

Pois num certo domingo desembarcou a Paulina na casa de Angelina. O domingo já foi um inferno. Na segunda-feira pela manhã – a casa estava em obras e Angelina não contou com a compreensão de nenhum dos irmãos – “sai pra lá, segura que a batata é tua!” – a surda-muda acordou perto do meio-dia. E acordou, como se diz, com a macaca. “Mmmmmmmmmm” pra cá, “mmmmmmmmmm” pra lá, aqueles gestos que ninguém fazia muita questão de entender e a paciência de Angelina no limite.

Foi quando teve a idéia que reputou brilhante.

Chegou-se pro pintor, um homem de meia-idade, e foi franca, sincera, direta:

– O senhor pode me fazer um favor?

– Pois não, dona Angelina. Pode dizer.

– Será que o senhor se importa de comer a minha irmã? Ela está impossível!

E esfregando as mãos, com os olhos semi-cerrados, completou o assédio:

– Dá um sossega-leão nela, dá? Passa-lhe o rodo! Crava esse pincel nela! – e deu de gargalhar feito uma louca, dando tapinhas no ombro do pobre-diabo.

Seu Onofre, o pintor, não achou má-idéia. Já havia comentado com o eletricista que a surda-muda “dá um caldo”.

Angelina saiu pra almoçar piscando o olho em direção ao seu Onofre:

– Conto com o senhor, hein! E prometo uma gorjeta gorda se o senhor acalmar a Paulina!

Horas depois voltou pra casa.

Seu Onofre, em pé na escada, fez que “sim” com a cabeça. E ela, aflita:

– Cadê ela? Cadê?

Ele apontou pro corredor e disse lixando a parede:

– No quarto. Dormindo. Parece morta.

Lá estava Paulina. Dormia – esse detalhe é importante – com um sorriso nos lábios. Braços abertos, pernas à vontade, e assim ficou até umas sete da noite. Jantou em silêncio, o sorriso fixo nos lábios, como uma máscara. E foi assim até o domingo seguinte, quando foi despachada para a casa de outro irmão.

Vamos ao final da bulha (outra expressão de minha bisavó).

Nove meses depois nasceu um menino saudabilíssimo, vendo, ouvindo e falando.

Investiga daqui, investiga dali, chegou-se à verdade dos fatos.

Paulina hoje mora com Angelina – os irmãos não perdoaram a irmã por conta da insanidade – e com Roberto Carlos, o filho do pintor.

Na escola, em tenra idade, o menino contou, é claro, a história pros amiguinhos de classe (sabem como é criança…).

O duro mesmo é o apelido que ele carrega até hoje, já burro velho: Suvinil.

Até.

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