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EMBALA EU

Nunca tive medo do invisível. Deve ser porque eu fui anunciado por um caboclo da mata, Tupinambá, que no dia 26 de abril de 69 apareceu ao lado da cama de meus pais e disse a papai, que acordou:

– Curumim chega amanhã.

Já lhes contei a história. Mamãe, quando soube da tal aparição – troço inédito até aquele momento – disse a ele:

– Fui ao médico no começo da semana! É pra maio, é pra maio!

Papai, que trabalhava como plantonista da Refinaria Duque de Caxias, ainda teimou de não ir trabalhar. Foi convencido a ir. Ao chegar lá, encontrou o chefe, esbaforido, logo na entrada:

– Volta, meu filho! Estourou a bolsa da sua mulher!

Passei a infância dizendo a meus pais que eu brincava com pequenos índios no meu quarto. Eles, já escolados, não me desdiziam. Não me lembro disso, por óbvio, eu era um meninote, mas deve ser por isso que não tenho medo do invisível.

Deve ser também porque, em passado não tão remoto, encontrei-me com um determinado médico, já falecido (chamem vocês do que quiserem, espírito, fantasma…), fazendo de cavalo um amigo vivo, é evidente, que me pediu um favor: ele queria que eu localizasse seu trabalho final do curso de Medicina, no final do século XIX, na Biblioteca Nacional, na Cinelândia. Queria que eu desse seu nome completo às pesquisadoras, a época da conclusão do curso, fizesse uma pesquisa, encomendasse a microfilmagem do trabalho e remetesse o material para um certo museu. Fiz tudo isso. Nada foi encontrado. Voltei ao médico. Expliquei o imbróglio. E ele foi, digamos, mais direto. Pediu-me que anotasse o que ele iria dizer. Tomei nota de diversos indicativos: o tal trabalho estava no porão da Biblioteca Nacional, próximo da pilastra tal, na estante tal, na prateleira tal. Voltei às mocinhas que, foi impossível não perceber, me olharam com ar de piedade e me prometeram tentar localizar o trabalho.

Menos de uma semana depois, recebi um telefonema e fui convocado à Biblioteca. O trabalho havia sido encontrado. Exatamente naquele lugar.

– O senhor se importa de nos dizer como sabia a localização exata deste trabalho? – já microfilmado nas mãos de uma delas.

– Não. Não, se as senhoras não me julgarem louco.

– Como?

– O autor do trabalho me deu essas coordenadas.

Elas me julgaram louco. Mas o quê importa? Deve ser por isso, também, que não tenho medo do invisível.

Tenho medo, entretanto, tenho muito medo – me pergunto quem não tem… – de me machucar. Isso faz de mim, quase sempre, um obediente.

Pois dia desses, diante do invisível de novo, recebi um recado que me foi dado em tom grave: “O que está na sua boca é seu escravo; saiu, é seu senhor.”.

Eu, um obediente – repito – já tratei de rearranjar minhas posturas. Não tenho medo do invisível, é fato concreto. Tenho por ele, sei bem a quem procurar, é um danado de um respeito. E esse respeito, somado ao medo, esse sim, olímpico, de me machucar, me faz ser, hoje, um sujeito disposto a pisar devagar.

“Vira os olhos grandes de cima de mim pras ondas do mar”, é o que tenho pedido quando peço colo, cantando, e peço que me embalem (aqui), todas as manhãs. Peço que me me seja dada a benção, que eu esteja livre dos inimigos, peço proteção, peço que me sejam guiados os passos, quase sempre trôpegos, por onde eu caminhar.

Peço por mim. E por quem eu amo.

Até.

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Arquivado em confissões, Rio de Janeiro

GAUCHE

“Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida!”. Quem não conhece isso, trecho de conhecido poema de Carlos Drummond de Andrade? Em seu sensacional livro sobre o bairro de Vila Isabel, para a coleção Cantos do Rio, Aldir termina escrevendo: “Vai, Aldir, ser Blanc na vida, em nome da Vila!”. Vai daí que eu hoje acordei megalomaníaco. A Insônia, essa senhora egoísta que me fez companhia durante a noite, soprou em meu ouvido, alta madrugada, ao me ver chorar debruçado na janela:

– Vai, Edu, ser Goldenberg na vida.

Nada poético, reconheço. “Gauche” e “Blanc” melhor se encaixam na construção, o que me faz pensar que é preciso valer-se da língua francesa para dar graça ao troço. Mas não sou francês, meu sobrenome é judaico, sou brasileiro, tijucano, torcedor do Flamengo e do Salgueiro, e bem que gostei do sopro que ouvi à noite.

Vou, por isso, seguir minha sina. Vou seguir tropeçando e contabilizando as incontáveis cicatrizes que tenho, frutos de igualmente incontáveis tombos, todos eles incapazes de interromper minha saga particular, íntima e privada. Até quando?, me pergunto. Mas nem mesmo essa reflexão, raríssima, é capaz de me frear o ímpeto que nasceu junto comigo no longínquo abril de 69. Não me cobrem sanidade, eis que fui forjado pela mais absoluta falta de racionalidade. Não me cobrem equilíbrio, eis que vou do breu à luz, do calor insuportável das mãos unidas à geleira azul da solidão, em questão de segundos. Não me cobrem parcimônia, eis que só compreendo entrega quando intensa, profunda e cortante. Não me cobrem calma, quando o que eu quero é o carnaval. Não me cobrem paciência, eu só entendo tensão de músculos rasgados e doídos. Se amor só é bom se doer, a vida só é boa se sangrar. Não me cobrem cuidado, eu prefiro a decepção ao estado de alerta. Não me cobrem a sabedoria do velho marinheiro, sou mais chegado aos rompantes de Elegbara. Não me cobrem matar a sede com água mineral, prefiro saciá-la com oti. Não me peçam pra esperar o dia de amanhã ou pra celebrar a data que passou, eu sou capaz, sabe-se lá como, de dobrar o tempo e viver mais à frente o que já vivi, ou o que nunca vivi, e reviver o que só viverei daqui a muitos anos – ou nunca. Não me sugiram preces pra aplacar as saudades, eu prefiro cantar e fazer a cama da dor pra que ela se deite do meu lado. Não me cobrem coerência, eu sou dissidente de mim mesmo. Não me ditem as regras, eu as subverto todas. Não queiram de mim a maturidade dos 40 anos, permaneço de calças curtas e camisa listrada pronto pro próximo tropeço. E não me venham com a conversa de manter aceso em mim o menino que um dia eu fui, sinto-me velho como uma múmia e disposto a fazer coisas que nem quando menino eu fiz. Não me peçam a metade de nada, só sei oferecer o inteiro.

Quando nasceu o dia, hoje, quando o sol despontou sobre os edifícios (notem a falta de poesia e seu excesso, numa manhã tijucana), eu tinha a cara lavada, os olhos vermelhos, as mãos trêmulas, as pernas bambas, o coração acelerado em ligeiro descompasso, e estava dotado de uma coragem que, nem mesmo nos sonhos em que sou herói, eu nunca tive.

Talvez só mesmo meu mano Luiz Antonio Simas me compreenda: mas não por acaso, em todas as oportunidades que me foram dadas de estar diante de Ifá, Orunmilá me disse:

– Você é filho de Ogum, meu filho. Mas quem te sopra nos ouvidos, o tempo todo, é Exu.

Até.

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AS MANHÃS SÃO ESPONTÂNEAS

Já há anos que eu acordo cedo, cedíssimo, e que o despertador, sempre pronto pra tocar às seis horas, é apenas uma música de fundo, incômoda, a me lembrar do horário – e os sinos da Igreja dos Capuchinhos vêm em seguida, produzindo a trilha sonora do homem que olha pela janela como quem espreita o infinito que a ausência de mar na Tijuca não realiza. Sou, aos 42 anos, novamente o menino que dorme sozinho no quarto à espera da manhã pra me dizer, siga! Sou, aos 42 anos, novamente o menino aprendendo a andar, tropeçando nas palavras, tentando balbuciar o inexprimível, como na manhã em que precisei recorrer a duas long-neck geladas pra tomar coragem junto com a cevada, o lúpulo e outros cereais, antes de dizer o que me parecia justamente inexprimível. Sou, de novo, o poltrão, o inseguro, o que tateia antes do segundo passo, e ao mesmo tempo sou o que permanentemente cai por conta da ansiedade do passo-a-mais. Sou o que se levanta à espera das mãos que hão de me conduzir, embora ofereça minhas mãos, permanentemente, como prova de amor. Olhar pela janela, a cada manhã, antes de bater a porta e sair em busca de caminhar a esmo, tem sido parte desse exercício de enxergar o mais-distante, o tal infinito que é infinitamente mais bonito diante do mar. Tem sido necessário para me fazer (re)dimensionar meu papel e minha missão, minha meta e meus objetivos, para entender meus desejos e compreender os festejos e essa emoção que me chega, dia após dia. É quando rezo – e eu rezo como quem fala, não sigo rito, não sigo nada que não seja o coração, esse meu velho coração tijucano, rubro-negro e suburbano, já tantas vezes em frangalhos e hoje cheio de esperança de viver de novo. Sou, de novo, o que-descobre. O que tem sede das novidades que estão aí para serem vividas. Sou, ainda, o mesmo homem de olhos úmidos incapaz de se manter indiferente às emoções que a vida nos reserva. Sou o homem pronto e disposto a viver o que já tinha como certo na conta do irrealizável, do não-vivido. Sou o homem com olhos de susto, com olhos de medo, com olhos que extravasam luz ao pensar no por-vir. Sou o homem de 69, aquele moleque de calças curtas e camisas listradas e este homem de hoje, o que tem mãos que tateiam o futuro como quem tateia e anseia pelo que nem eu mesmo, se me fosse dado o direito de moldá-lo, teria sido capaz de imaginar tão bonito.

Até.

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VELHAS RUAS

Vira e mexe me vem à cabeça o verso blanquiano “… velhas ruas, cansado da boemia, entre essas pedras, um dia, quero cair e morrer…”. Sou, como se vê, embora eu seja um sujeito em permanente estado de ânimo, um trágico (sempre fui um trágico). Desde que ouvi a tal canção pela primeira vez que eu não consigo andar em qualquer rua de paralelepípedo sem que me venha à mente:

– Quero cair e morrer…

É que ando, meus poucos mas fiéis leitores, e pra me valer um pouco mais da poesia do bardo, sentindo meu coração vacilando e saindo, às vezes, fora da velha cadência. É só um momento, bem sei. Mas eu, que faço disso aqui uma espécie de auto-divã no qual converso sozinho comigo mesmo (e tenho piedade aguda de minha pessoa, nessas horas…), não poderia deixar de lhes dizer isso.

Sou eu, aos 42 anos de idade, e logo eu, que tantos arremessos ao passado sofro ao longo do tempo, sentindo, mais que o peso da idade (sou uma múmia que caminha serelepe), o peso bruto da vida bruta e toda a sua bagagem composta de lembranças, de dores, de medos, de ansiedade, de insegurança, desse misto entre a pureza da criança e a crueza da vida adulta, entre as esperanças e as frustrações, entre a calmaria e a turbulência, entre a cumeeira e o baixio, de perdas, de muitos ganhos, de amores que vêm, de amores que vão, de muitas alegrias, de momentos que se cravam em nós como flecha, essa boniteza infinita que a vida dá a todos nós. É preciso, mais que nunca é preciso, saber lidar com isso. Não nos resta outra opção. A vida está aí, queiramos ou não.

E eis que é essa a visão que tenho, permanente, da trilha que sigo na vida. Sigo pela imaginária rua de paralelepípedos, sinto nos ombros, sem que isso me incomode, o peso fabuloso e desejável da vida, sempre com medo, com certo medo, de que eu de fato caia e morra, embora seja inevitável, é evidente, que esse dia um dia chegue. Minha rua de paralelepípedos tem, entretanto, e é isso que me sustenta, e é isso que me dá de novo o compasso que o coração pareceu perder, uma nesga permanente de intensa luz a me guiar os passos.

Ouçam aqui, que o troço é bonito de doer, e foi escrito para sua mãe, Helena, a quem tive o prazer de conhecer, Aldir Blanc cantando Velhas Ruas.

Até.

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DIANTE DO INTRANSPONÍVEL

Ao longo de pouco mais de 42 anos de vida aprendi, é evidente, algumas lições. Somos, cada um de nós, produto de cada um dos segundos vividos desde o nascimento, e é desinfluente dizer que ainda acredito no amealhar de cada um dos segundos vividos nas vidas pretéritas – não vem ao caso, não faz diferença para o que quero lhes dizer e isso aqui não é, definitivamente, palanque para pregações de qualquer natureza. Vou me ater, pois, ao mais simples.

Eu sou produto direto do meio em que vivi, e quantas vezes debrucei-me neste balcão virtual para lhes fazer minhas confissões (e, creiam, as faço precipuamente para mim mesmo, num exercício doloroso e prazeroso de arejar a alma, de exorcizar meus fantasmas, de compreender meus medos e de buscar ser e estar melhor)…

Nasci em 69 num hospital que fica de frente pro morro do Borel – e isso já diz, a mim, muita coisa. Primeiro filho de pais absolutamente fabulosos (meus amigos, os que me têm por perto, não me deixam mentir), nasci e cresci na Tijuca, forjado no asfalto das ruas, debaixo da saia de uma penca de mulheres, no concreto dos estádios de futebol, nas rodas de samba, nos balcões dos bares, nos centros espíritas que freqüentei, vendo papai receber caboclo dentro de casa, indo a terreiros de umbanda e candomblé quando me dava na telha. Fui criando minha particular visão de mundo, conheci a morte de perto quando vi minha bisavó desaparecer em 1982, morei durante um tempo na Lagoa, quando fui um exilado absoluto, mudei-me de volta pra Tijuca em 1999 e na Tijuca estou até hoje, torcendo pra que tenhamos um cemitério por aqui, como disse Luiz Antonio Simas em brilhante arrazoado (aqui), a fim de que eu não saia daqui nem mesmo depois de morto, quando a morte decidir vir me buscar.

Feito o não tão curto intróito, vamos em frente.

Diante do intransponível – seja ele uma dor lancinante, o fim de um namoro, a primeira derrota no jogo de botão, a morte de alguém muito amado, o fracasso do time em uma final de campeonato… – só há duas possibilidades, e não me venham com tratados a fim de derrubar minha certeza: ou encara-se o inevitável, o instransponível, de cabeça erguida, com bom-humor, ânimo e coragem, ou curva-se diante dele, cabisbaixo, com sinais de depressão, desânimo e medo. Qualquer coisa diferente disso é papo pra boi dormir.

E por que lhes digo isso, além da evidência de que falo de mim para mim a fim de me manter bem? Porque ontem estive com o Neco, um amigo querido, que me convidou para um almoço que acabou se estendendo até o final da tarde. Vimo-nos, na esquina da rua do Mercado com a rua do Rosário, e fomos imediatamente dois bonecos infláveis de posto de gasolina, brandindo os braços diante da alegria daquele encontro. Disse-me o Neco, sorrisão estampado no rosto?

– Como você tá, velhão?

Fui um derramado – troço, confesso, corriqueiro.

Saí dissertando justamente sobre isso, sobre a necessidade, imperiosa e urgente, do ânimo absoluto diante do intransponível. Repeti, de certa forma, o que venho dizendo aos meus, aos mais-de-perto, aos que constituem a muralha que protege minha cidadela. Aos que não terão, jamais, dedos apontados em minha direção, aos que jamais proferirão, diante de mim, sentenças prontas e fabricadas por sistemas que nunca me disseram nada ao coração – sistemas que dão valor ao que conheço apenas como palavra e letra fria: arrependimento, culpa, remorso.

Essa tática simples – e ao mesmo tempo difícil pacas de aplicar! – de manter-me pronto diante do intransponível rendeu-me, até hoje, mais de 42 anos depois de ter vindo ao mundo diante do morro do Borel, um bocado de histórias bonitas pra contar. Sempre preferi o riso à lágrima (embora eu chore cada vez mais, puramente de emoção diante da beleza das coisas, das saudades que guardo), o bom-humor à carranca, o braço aberto à sisudez, a leveza à dor, por aí.

Sempre fui bom nisso. De certa forma sempre preguei ou executei atos visando à transformação ou derrubada da ordem estabelecida, sempre fui revolucionário. De certa forma sempre expressei minhas idéias, pensamentos e opiniões opostos ou profundamente diferentes dos da maioria que, por isso mesmo, freqüentemente se sentiu ameaçada. De certa forma sempre agi de maneira a perturbar, tumultuar as instituições, sempre fui contra a ordem, desejei o caos, fui perturbador e agitador. Subversivo, além de polemista e dissidente de mim mesmo.

Mamãe conta – é uma de suas histórias preferidas, dessas que todas as famílias têm – que quando fui a meu primeiro jogo no Maracanã sozinho, completamente sozinho, sem meu pai, ela ficou me esperando chegar na varanda do apartamento. O jogo começara às nove, pouco depois das onze dobrei a esquina. Mamãe conta (lembro-me muito vagamente disso) que eu percebi que ela estava à minha espera, e ela apagou as luzes e foi pro quarto, fingir que estava dormindo. Conta, mais, que eu entrei, bati em seu quarto e a convoquei pra uma conversa na sala. Em resumo, eu disse a ela que eu nunca mais sairia sozinho se isso significasse preocupação pra ela. E que eu achava uma tremenda sacanagem ela acabar com minha alegria, deixando-me também preocupado com sua preocupação, algo assim. Pois quando mamãe termina de contar isso, ela diz (mamãe é muito pouco parcial…):

– Que lição! Que lição! Que lição que o Edu me deu!

Fato é que, dia desses, convoquei mamãe pra uma conversa de novo. Deitei-me em seu colo, chorei pra burro, falei de mim. Que lição! Que lição! Que lição que mamãe me deu! Subvertendo o tempo, fui ali, já velho, a criança indefesa, de calças curtas e camisa listrada, no colo quente da melhor mãe do mundo: pedindo conselho, pedindo perdão, pedindo sua benção.

Que nunca – eis o que eu queria lhes dizer -, mesmo diante do que parece intransponível, me faltou.

Até.

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O PRIMEIRO OLHAR

É evidente que eu não me lembro do slide do meu primeiro olhar nem dos primeiros olhos que cruzaram com os meus. Foram os de minha mãe, entretanto. Mamãe, que me esperou com medo e ansiedade – como lhes contei aqui – até hoje tem olhos de dar à luz quando me vê. Lembro-me, com impressionante nitidez, dos olhos e do olhar de minha bisavó diante de mim, atrás dos óculos – olhos de sabedoria e de um carinho infinito. Lembro-me dos olhos e do olhar de minha avó diante do primeiro neto. Lembro-me dos olhos e do olhar de cada uma das mulheres com quem cruzei pelo caminho. Olhos de cumplicidade, muitas vezes. Olhos de oceanos de medo e olhos de cais e de segurança. Olhos da babá. Olhos das empregadas de mamãe, olhos da mulher de mármore que me convocava, às vezes, pro quarto dos fundos. Os olhos das professoras, os olhos das passistas que meu pai me mostrou tantas vezes, em tantos carnavais, os olhos de minha comadre que foi minha mãe noutra altura, os olhos de minhas afilhadas e os olhos de suas mães, tão generosas, que me entregaram suas melhores porções. Todos refletidos nos meus olhos de menino, hoje com ptose – mas de menino, ainda. Meus olhos pequenos, permanentemente úmidos e prontos pra chorar. Os olhos da primeira namorada, os olhos da menina com quem descobri o amor, os olhos de susto e de surpresa. Os olhos, esses labirintos que, dizem, diminuindo a potência e os mistérios do olhar, são o espelho da alma. São mais que isso. São o infinito, os olhos. São os olhos que denunciam, são os olhos que entregam, são os olhos que põem por terra, muitas vezes, o dissimular dos gestos e das falas. Não me esqueço dos olhos, de todos os olhos. E não me esqueço, e isso é impressionante, de meu próprio olhar – quase sempre boiando e em busca da luz dos olhos alheios. Não me esqueço, sobretudo, dos olhos que meus olhos viram quando vi o desejo plantado nos olhos que cruzaram os meus. São meus olhos, repositório dos meus registros, permanentemente em busca dessa luz que me impulsiona, que me renova, que me mantém vivo, que olha pra trás com olhos de gratidão e que olha pra frente com olhos de esperança. São meus olhos, querendo balbuciar o inexprimível. São meus olhos, que não me traem. São meus olhos encharcados, como agora, em busca dos olhos que me acalentam. São meus olhos, melhores intérpretes de mim, meus tradutores, poço misterioso que guarda meus amores e minhas dores. São meus olhos suburbanos, tijucanos, minha retina que também não me trai. São meus olhos que me dizem, hoje, a cada manhã, pra que eu siga em frente, ainda que eu tropece, em busca dos olhos capazes de me apagar filmes geniais, rebobinar o século, meus velhos carnavais, minha melancolia. Buarquianamente. É o que tenho feito, cumpridor obediente que sou da sina que me foi entregue, como roteiro, no longínquo abril de 69. Foram necessários quase treze anos pra que esses olhos chegassem mais perto, e um pouco mais de vinte e oito, depois de sua chegada, pra que eu os descobrisse. Quando eu os vi, pela primeira vez, eu já sabia.

Até.

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ESSA GAGUEIRA INFANTIL

Sou viniciano até a alma. Impressionam-me, há anos – desde a primeira vez, quando li, ainda moleque – os versos “Resta essa imobilidade, essa economia de gestos / Essa inércia cada vez maior diante do Infinito / Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível / Essa irredutível recusa à poesia não vivida” do “O Haver”, poema-prece de Vinícius de Moraes que pode ser ouvido aqui, na voz do próprio com comovente violão e voz de Edu Lobo ao fundo. Impressiona-me, a bem da verdade, todo o poema-prece, ao qual já dei, ao longo da vida, as mais diversas interpretações, como deve ser, mesmo, com qualquer grande poema. Acho pouco provável – a obra é sempre maior que o homem que a produz – que o próprio Vinícius tivesse uma única explicação (como se fosse possível explicar o que inexplicável) para “O Haver”. O fato é que tenho lido e ouvido, muitas vezes, “O Haver”.

Passei ontem, depois de muitos anos, minha primeira sexta-feira absolutamente só, em casa. Vivi, de forma brutal, a tal “intimidade perfeita com o silêncio”. Fui respeitoso com a noite, falei (sozinho) baixo, tive medo e me mantive, durante horas, imóvel entre os móveis dispostos de forma inédita e no cenário novo que a Vida desenhou pra mim. Fui, como em tantas outras oportunidades ao longo de meus 42 anos de vida, um menino querendo balbuciar o inexprimível. Chovia, fazia barulho, restava-me, naquele momento, a comunhão com os sons da rua e eu experimentei, de certa forma, a angústia da simultaneidade do tempo.  Chorei diante da beleza – porque a Vida, meus poucos mas fiéis leitores, é de uma boniteza indizível… Sonhei. Busquei transfigurar a realidade, subvertê-la, e enxerguei, alta madrugada, “essa pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas dão o nome de esperança”. Serei – sei que serei – capaz de “caminhar dentro do labirinto”. Serei – sei que serei – capaz de levantar “depois de cada queda”. E terei – sei que terei – “essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo infantil de ter pequenas coragens”.

Quero da Vida – como se fosse permitido fazer pedidos que sempre soam tolos diante do grande segredo que a caracteriza – as coisas mais simples. Quero manter-me assim: com medo – o medo é fundamental, desde que não nos paralise! – e com coragem.

Quero seguir caminhando. Amando, precipuamente. Vivendo meus arremessos ao passado como uma homenagem a tudo o que já vivi. Tolo é o homem que maldiz seu passado, tolo é o homem que maldiz qualquer acontecimento vivido, tolo é o homem que nega as experiências enfrentadas, eis que somos, hoje e agora, resultado do acúmulo de tudo – rigorosamente tudo – o que vivemos.

Tolo, também, é o homem que se prende ao que foi vivido, fazendo do passado as grades que o impedem de seguir em frente.

Eu quero mais – como diz o samba, de novo e sempre ele! – é botar meu bloco na rua.

Amanhã, domingo, vou ao Bar do Chico, cenário de minhas domingueiras desde há séculos, celebrar a Vida, celebrar a arte de todos os meus encontros e erguer um brinde a tudo o que já vivenciei ao longo de minhas existências a fim de que eu possa celebrar, ao lado dos meus, a festa que é uma de minhas marcas.

Esse brasileiro máximo que atende pelo nome de Luiz Antonio Simas costuma dizer que “terreiros e botequins são espaços de ritualização da vida; vida sem rito é falsa feito cerveja sem álcool e preto velho sem cachimbo.”.

Vamos, pois, amanhã, a esse rito pagão que tanto me comove.

Chinelo nos dedos, maracujá à mesa, muita Brahma gelada enchendo os engradados, muitos amigos nessa comunhão pagã que me comove, e se alguém perguntar por mim… diz que fui por aí.

Até.

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