Arquivo da tag: Comida di Buteco

COMIDA DI BUTECO 2015 – VAI COMEÇAR ESSE LIXO

Há mais de 15 anos escrevi uma carta aberta aos organizadores desse festival (esse câncer que conspurca, ano após ano, centenas de botequins pelo Brasil afora) chamado Comida di Buteco, falso desde o nome (esse di diz tudo). A carta está aqui.

Nunca deixei de combater o bom combate a fim de demonstrar, com todas as letras, o quão nocivo, pernicioso e maléfico o tal festival é.

Em 2015 o festival começará depois de amanhã, sexta-feira, 10 de abril. E virá, nesse ano, com o que os organizadores estão chamando de “versão frutas”, o que significa dizer que obrigaram todos os incautos participantes a utilizarem alguma fruta nos petiscos (também tenho nojo desse nome, prefiro tira-gosto) que concorrerão ao prêmio. Vê-se, também por aí, que os caras não entendem picas de botequim. Porque tirando o limão (o da casa, o do mictório e o que rega o pernil) não conheço tira-gosto nenhum que se valha de uma fruta, seja ela qual for.

E mais: os organizadores, querendo criar um climinha de suspense (é bem o focinho deles, essa babaquice), proibiram os bares de divulgarem sua participação antes da sexta-feira. Eu, que não meço esforços para exibir a desfaçatez desses palhaços travestidos de conhecedores e admiradores de botequim (eis que são inimigos ferrenhos da coisa), publico, aqui (já o fiz no Facebook) a lista dos bares participantes com seus respectivos (pausa para o vômito) petiscos. Leiam com calma, meus comentários em negrito após cada um dos concorrentes.

Angu do Gomes: Tilápia empanada no coco e molho de açaí; “molho de açaí”, e eu fico daqui matutando, sabendo o quanto conspurcam o açaí no Rio de Janeiro (qualquer manuara, qualquer paraense, chora diante do açaí que é servido por aqui) que diabo será isso…;

Antigamente: Miniburguer de camarão sobre focaccia com geleia de manga; a simples leitura da coisa – “miniburger de camarão sobre focaccia com geléia de manga” já me dá engulhos. Pense em hambúrguer e você pensará em carne bovina (o dito hambúrguer de frango já é, além de uma mentira, uma merda). Agora pense num hambúrguer de camarão. Não dá!;

Art Chopp: Banana verde frita com rocambole de carne moída; mais um que me enoja só de ler. Banana verde me remete (pra usar um termo que os foodies adoram) à comida funcional (outra expressão que essa gente ama). Tudo a ver com botequim, não? Não;

Baixo Araguaia: Porção de banana envolta em bacon, linguiça toscana e filé mignon assado na brasa, com polenta frita em cama de rúcula com tomate; “porção de banana envolta em bacon” já é de fazer o cu cair da bunda. Agora, isso aí “em cama de rúcula” chega a um nível de ridículo que me faltam as palavras para seguir comentando esse troço;

Baixo Gago: Jabá com jerimum com molho branco e banana empanada com orégano e moscada; pobre carne-seca com abóbora que vai ganhar um “molho branco”. Me chama a atenção a “moscada” em vez da noz-moscada. Será que os foodies acham chique essa intimiadade com a especiaria? Ou será mesmo uma porrada de mosca pousada sobre o jabá?;

Bar da Frente: Bolinho de milho recheado com camarão e queijo, e molho de taperebá; a participação do Bar da Frente, que não precisa participar disso na minha humílima opinião, me dói. Há até bem pouco tempo, há muitas testemunhas, falava-se muito mal do festival do lado de dentro do balcão de lá. Mas enfim…;

Bar da Gema: Dois mini cachorros-quentes, um de linguiça artesanal, outro de língua desfiada com tomate cereja confitado. Vem com crispy de batata doce, catchup de maçã e maionese de laranja; gosto muito da Luiza e do Leandro… mas “mini cachorro-quente”, pra mim, no máximo em festa de criança. “Tomate cereja confitado” “crispy de batata doce” com “catchupe de maçã e maionese de laranja” pode ser servido em qualquer lugar: menos num botequim;

Bar da Portuguesa: Salada de bacalhau com grão de bico, palmito e maçã; outro que não compreendo o que faz num festival desses. Entretanto, convenhamos, é de todos o menos esquisito;

Bar da Foca: Três rolinhos de tapioca de carne e três de frango acompanhada de três molhos: manga apimentada, abacaxi apimentado e gorgonzola; a mania insuportável do diminutivo (os foodies adoram). Os molhos de manga apimentada, abacaxi pimentado e gorgonzola me dão a certeza de muita flatulência saindo do cu da foca;

Bar do Bahiano: Iscas de tilápia com dois molhos: manga, laranja e maracujá; maionese, limão e coentro; iscas… outra mania insuportável dessa gente… e maionese. Insuportável;

Bar do Camarão: Kibe suíno com queijo e bacon, acompanhado de geléia de laranja; se é suíno não é kibe, porra;

Bar do David: Costela de porco com abacaxi, pimenta e hortelã; um dos menos piores;

Bar do Mariano: Duas trouxinhas de carne seca com lascas de queijo e banana, finalizadas com açaí, mel e granola; “trouxinhas” (ah, os diminutivos…) e eu ia parar por aqui quando vi “finalizadas com açaí, mel e granola”. Um jurado que entender minimamente do riscado dará zero pra uma merda dessas;

Bar do Momo: Sanduíche de pernil com maionese defumada e picles de carambola. Acompanha geleia de pimenta e batida de maracujá; o Bar do Momo, que deixa de ser bar um pouco mais a cada dia, vai servir “maionese defumada”“picles de carambola” “geléia de pimenta”. O maior pecado é chamar isso de “O bêbado e a equilibrista”. Um desrespeito com uma obra-prima;

Bar do Omar: Carne de sol de contrafilé com aipim regado na manteiga de garrafa e farofa de banana e cebolinha; esse é outro… morro de saudade do Bar do Omar quando ele era apenas o Bar do Omar. Já tentou até servir comida japonesa depois de sua primeira participação, uma das seqüelas inevitáveis desse festival…;

Bar dos Amigos: Carne de porco acebolada, desfiada, com cubos de abacaxi; “cubos” é uma outra tara dessa raça dos foodies;

Bar du Bom: Dupla de croquete de jiló com rabada acompanhada de dois molhos: chutney de goiabada e chutney de manga; “chutney” no botequim… simplesmente inconcebível;

Bar Original do Brás: Cubos de salmão à milanesa com pedacinhos de manga; “cubos”“pedacinhos”. Em Brás de Pina, que sacrilégio…;

Bar Palhinha: Croquete de baroa recheado com brie ao molho de frutas frescas e geleia de pimenta; quando li “brie”“frutas frescas” parei;

Bar Urca: O premiado camarão na moranga do bar, agora em forma de petisco; o Bar Urca, que cobra R$ 11,00 por uma cerveja, não é botequim há milênios. É, no máximo, uma mureta;

Bar Varnhagen: Pastel de carne assada com banana; outro horror… pobres passarinhos, que estacionam naquela esquina, que terão de aturar as insuportáveis caravanas que percorrem os bares todos;

Bartman: Contrafilé gratinado com gorgonzola, recheado com abacaxi e queijo parmesão; inimaginável e certamente intragável;

Bicho Carpinteiro: Porção de medalhão de frango com recheio de brie, envolto em bacon temperado na cerveja. Acompanha molho de laranja; “recheio de brie envolto”. E mais não se precisa dizer;

Bode Cheiroso: Camarões empanados em crosta de castanha do caju, acompanhados dos molhos cítrico e de maracujá; por amor ao Lelê, não comento. Mas lamento sua participação profundamente – e já tive oportunidade de lhe dizer isso pessoalmente;

Boteco Carioquinha: Rabo de boi desfiado, marinado na cerveja puro malte, escondido em creme de batata e polenta, polvilhado com coco; rabo “escondido em creme”“marinado na cerveja puro malte” é outra bizarrice que não merece mais do que uma gargalhada de escárnio;

Boteco da Enny: Ragu de ossobuco com polenta em chutney de goiaba; “em chutney”? Os foodies, eles são insuperáveis;

Botequim Rio Antigo: Espetinhos de filé mignon com banana, empanados com parmesão e acompanhados de molho especial de pimenta; filé, banana, parmesão. Não dá;

Botero: Guisado de porco com especiarias servido com pãozinho caseiro e três copinhos: chutney de jiló e limão confit, farofinha crocante de coco, vinagrete de maracujá e pimenta; “pãozinho caseiro”, “três copinhos”“chutney”“confit” com “farofinha crocante”, parei – e vomitei – por aqui;

Cachambeer: Cupim no bafo marinado na cerveja, gengibre, laranja e alho, servidos com lascas de pêssego. Acompanha farofa de cuscuz de milho incrementada com bacon, alho torrado, coentro, tomate, cebola roxa, manteiga de garrafa e molho especial; por amor ao Marcelão, também não comento.

Café e Bar Super Guanabara: Pastéis de carne seca com damasco; damasco no botequim. Haja!;

Caldo Beleza: Carne de sol puxada na manteiga de garrafa servida no abacaxi; “puxada”, mais um verbete da turma da gourmetização, haja!;

Constança Bar: Alcatra desfiada, creme de manga e cebola caramelizada; carne, manga e cebola. Haja!;

Enchendo Linguiça: Bochechas suínas marinadas com um toque alaranjado, assadas na estufa de linguiça e servida com migas; “com um toque alaranjado” e parei por aqui;

Galeto Sat’s: pastéis abertos cobertos com frango chili reduzido ao molho de cachaça e pêssegos em calda; pastel aberto não dá, definitivamente não dá. Nem os fiéis freqüentadores daquele balcão, em Copacabana, conseguem defender a iniciativa. Haja!;

Gracioso: Coxinha de galinha; aguardando, ansioso, pra saber qual a fruta que vai dentro da coxinha;

Mani & Oca: Dois escondidinhos: um de graviola, carne seca e queijo coalho; outro de porquinho, mandioca e coco polvilhado com amendoim; “porquinho” – por que tudo no diminutivo, caralho?! – e parei por aqui;

Mestre Sala: Discos de massa leve recheados com linguiça de cordeiro, queijo serra da canastra e caqui maçã; “discos”? Quando eu digo que eles são insuperáveis…

Opus: Cinco bolinhos de pernil acompanhados de pasta de abacate; “pasta de abacate” não dá. Mais um portentoso bar que se deixa conspurcar;

Ora pro Nobis: Frango empanado com granola especial e chutney de abacaxi; granola – tolerável, no máximo, no café-da-manhã – de novo. Haja!;

Os Imortais: Dois bolinhos de arroz recheados com camembert e tangerina, e dois bolinhos de feijão com frango ao curry e abacaxy. Acompanha catchup de goiabada; impossível não vomitar com isso. O catchup de goiabada é a cereja no bolo fecal travestido de tira-gosto;

Pavão Azul: Angu com carne de porco desfiada, geleia de damasco e requeijão cremoso gratinado; outro forte candidato a causar violentas golfadas no idiota que pedir esse troço;

Pontapé Beach: Porção de ovos abertos recheados de dois sabores (bacalhau e camarão), servidos com molho especial de frutas e pimentas; ovo com sabor de bacalhau e camarão. Parei por aqui;

Sabor da Morena: Croquete de filé de costela com farinha de banana e molho de tamarindo; nojento;

Santo Remédio: Pranchinha de jiló no parmesão para uma moela surfista e envolvida em chutney de manga; “pranchinha” e “moela surfista” já fazem dessa merda a campeã no quesito babaquice. Inconcebível;

Sobral da Serra: Rostie de palmito pupunha com lascas de bacalhau, sobre fatia de presunto parma. Acompanha molho agridoce de abacaxi. “com lascas” e parei por aqui.

Manterei distância disso tudo com a satisfação do dever cumprido. Até.

15 Comentários

Arquivado em botequim

MAIONESE E COMIDA DI BUTECO, PARCERIA JABALÂNDIA

Acabo de receber de um amigo jornalista o seguinte release (pausa para o vômito) enviado a ele pela Imagem Corporativa, “o parceiro brasileiro da Public Relations Organization International (PROI), maior e mais tradicional rede global de agências independentes de comunicação corporativa, com atuação em 26 países das Américas, Europa e Ásia”.

Trata-se do anúncio da premiação oferecida pela maionese Hellmann´s, ingrediente que não existe em nenhum buteco que se preze, para os bares participantes do festival da Jabalândia em Campinas (entenda as regras do festival lendo isso aqui). Eis o texto do e-mail (em itálico) com meus singelos comentários.

“Os bares participantes desta edição do Comida di Buteco terão um motivo a mais para caprichar no seu petisco este ano. Hellmann’s distribuirá cerca de R$ 100 mil em prêmios para as melhores receitas preparadas com a verdadeira maionese.

“Este é o segundo ano de participação de Hellmann’s no Comida di Buteco, evento que é um sucesso e tem tudo a ver com a marca – é feito para pessoas que apreciam comida saborosa e sem complicação, como Hellmann’s”, explica a gerente de marketing da marca, Bianca Shen.”

Segundo a gerente de marketing, idônea para tratar do assunto, o festival tem tudo a ver com a marca. Em apertada síntese, nada tem a ver com botequim de verdade.

“Os prêmios serão distribuídos entre os bares das 15 cidades participantes do festival. Além da premiação oficial do Comida di Buteco, os dez bares com melhor classificação no evento, e que tiverem maionese na receita do petisco, receberão as quantias de R$ 3 mil, R$ 2 mil e R$ 1 mil – primeiro, segundo e terceiro lugares, respectivamente.

Este ano, dos 320 botecos de todas as cidade participantes, 65% terão a presença de maionese em suas receitas – um crescimento significativo em relação aos 48% do ano anterior. “As pessoas estão descobrindo o potencial gastronômico de Hellmann’s. Ao contrário do que muita gente pensa, o produto não talha nem perde o paladar e também não inibe o sabor da receita quando vai ao fogo. Pelo contrário, um toque de maionese pode dar um sabor a mais aos pratos ou petiscos mais variados”, completa Bianca.”

Chega a ser patética a dica da gerente de marketing, aventurando-se a falar sobre comida. O crescimento do número de bares que se rendem ao jabá apenas prova, de forma inequívoca, que esse festival (pernicioso, perigoso, abjeto!) é a morte da verdadeira tradição da comida de botequim! Desde quando, meus poucos mas fiéis leitores, maionese Hellmann´s tem potencional gastronômico?! Vamos em frente:

“Na cidade de Campinas, os botecos Bar do André o Rei do Mé, Bar do Carioca e Rei do Joelho são alguns do que vão oferecer petiscos com o delicioso ingrediente, em criações como carioquinha esperto, moela de macabu e lanche do rei.

Sobre o Comida di Buteco

Com a missão de resgatar e valorizar a culinária de raiz brasilieira, o concurso gastrômico Comida di Buteco – realizado desde 2000, chega em 2011 a 15 cidades do país, simultaneamente. São 329 botecos concorrendo ao prêmio de melhor boteco da cidade. Os resultados do Comida di Buteco são tão saborosos quanto os tira-gostos concorrentes. Apenas em 2010, foram vendidos 197.900 petiscos nas 11 cidades onde foi realizado. Além disso, o concurso vem contribuindo de forma relevante para a consolidação do “boteco” como um dos mais expressivos locais de prática da sociabilidade nacional e demarcando novos roteiros urbanos através da boa culinária de raiz. É um projeto que enaltece a cultura  nacional sob a rica matriz da gastronomia.”

Pesquem a mentira e a sordidez da coisa: se a missão do festival é “resgatar e valorizar a culinária de raiz brasileira” (e o termo “de raiz” me causa engulhos) por que é que a maionese Hellmann´s entra no jogo?!

“Sobre Hellmann’s

Hellmann’s oferece diversos sabores de maioneses e molhos para salada, além de ketchup e mostarda. O objetivo da marca é oferecer produtos simples e descomplicados, feitos de ingredientes naturais, agregando sabor, textura diferenciada e prazer às refeições. As maioneses e molhos para salada Hellmann’s não contêm gorduras trans, são fonte natural de gorduras boas, contêm ácidos graxos essenciais que não são produzidos naturalmente pelo organismo – ômega 3 e 6 -, além de vitaminas importantes. O portfólio de Hellmann’s também traz produtos light e com baixo teor de colesterol.”

“Agregando sabor, textura diferenciada e prazer às refeições”? Parei por hoje.

Até.

3 Comentários

Arquivado em botequim

O CONTRATO DO COMIDA DI BUTECO

Eu sou um sujeito – é um de meus jargões preferidos – preciso do início ao fim. Além disso, sou advogado. E, por vício de profissão, faço questão de provar, sempre que possível (a prova negativa, a título de ilustração, é impossível), tudo aquilo que digo. Dito isso, vamos ao que quero lhes dizer hoje.

Estávamos a poucas semanas da abertura oficial desse pernicioso festival que atende pelo nome de Comida di Buteco. Pelo twitter, eu disse uma ou outra coisa sobre o festival e o perfil do festival (@_comidadibuteco) começou a me desmentir (sempre se dirigindo a outros usuários, jamais a mim, através do perfil @butecodoedu). Foi um tal de “onde você leu tal informação?”, “não procede esta informação”, e outras evasivas do mesmo gênero. Pois bem, enquanto não consegui acesso ao contrato, ao regulamento e a seus 4 anexos, não sosseguei. Breve pausa: fico pensando no quanto é importante correr atrás de provas que dêem sustento ao que dizemos, fico pensando no modus operandide nossa imprensa meia-boca, fico feliz quando posso dizer, calcado em provas irrefutáveis, que acho isso e aquilo de determinada coisa. Voltemos.O festival, que diz por aí que prima pela simplicidade, que apenas zela pela cultura dos botequins, que preserva a cultura dos locais nos quais se realiza esse horror, obriga seus “convidados” – os bares participantes! – a um sem fim de regras que, só por serem regras, são a própria negação da cultura desse troço tão arraigado no dia-a-dia do brasileiro. Ainda mais sendo as regras que são. Vamos a elas. E prestem bastante atenção. Vocês podem clicar nas imagens para que possam ler, com mais clareza, as cláusulas do troço.

Vale dizer que o contrato aqui exposto diz respeito ao Comida di Buteco do Rio de Janeiro. Embora eu suponha que no resto do Brasil seja o mesmo contrato (são mais 14 cidades conspurcadas por eles), não me atrevo a afirmar isso.

Os bares participantes – vejam quanta formalidade! – devem entregar até 30 de novembro (ou seja, 7 meses antes) xerox da identidade e do CPF de um dos sócios, contrato social, cartão do CNPJ e alvará de funcionamento emitido pelo Poder Público. Devem, ainda, entregar devidamente assinados o contrato e seus anexos I, II, III e IV.

Devem se comprometer, ainda, a comparecer à sessão de fotos que será marcada pelos organizadores a fim de que sejam fotografados os pratos concorrentes e os sócios dos bares. Como a comissão organizadora é generosa, são oferecidas duas datas. E o que acontece se o dono do bar, por acaso, não comparece em uma das duas datas?! Ora, ela pagará a diária do fotógrafo (que deverá ser o mesmo indicado pela comissão organizadora – não há menção ao valor desta diária…) para que o mesmo se desloque até o bar para a sessão de fotos.

Dizem, os organizadores, que não serão aceitas incrições de “refeições”, apenas de petiscos.

E mais: os “caros parceiros” (sim, eles chamam os participantes sujeitos à tirania do festival de “parceiros”) são obrigados a comparecer à “reunião de abertura” e convidados para o que eles chamam de “desafio Doritos” (Doritos é um dos patrocinadores do negócio). Os participantes que fizerem “o petisco de Doritos” concorrem ao prêmio de R$ 5.000,00 “em verba para investimento no local.”.

Aí acima temos a explicação do “desafio Doritos” e do desafio Hellmann´s. Vejam que graça: “A Maionese Hellmann´s também fará uma premiação em dinheiro. Porém estarão participando os botecos que utilizarem o produto na própria receita do petisco concorrente.”. O Doritos oferecerá R$ 5.000,00. A Hellmann´s, “uma premiação em dinheiro”. De quanto? O contrato não fala.

Alguém aí sabe de algum buteco de verdade que usa Doritos ou maionese em suas receitas? Pois é. Viva a Jabalândia.

O próximo item é mais impactante, quando se trata das “obrigações de cada boteco participante”. Vamos destrinchá-las.

Chama muito minha atenção o item “a”, vejamos. Cada participante é obrigado a dizer, “de forma clara e detalhada”, suas receitas, seus ingredientes e o modo de preparar o prato. Pra que, hein?! Um dos participantes disse-me, com todas as letras, que o Comida di Buteco visa, em futuro próximo, comercializar os chamados “petiscos” concorrentes. Não tenho prova disso. Os organizadores negam. Mas pra quê – me pergunto – dar a receita detalhadamente, o passo-a-passo? E o segredo? E aquela dica, aquele fundamental passo da receita… por que querem saber, os organizadores, isso tudo? Não soa estranho a vocês?

O item “e” é Jabalândia total! Os bares participantes devem permitir a “distribuição e afixação de peças gráficas de divulgação do Comida di Buteco distribuídas e autorizadas pelo CDB e permitir ações de merchandising dos seus patrocinadores, especialmente distribuição de produtos, brindes, afixação de placas e peças gráficas, banners e/ou outros materiais de divulgação, durante toda a duração do concurso, nas dependências internas e nos arredores dos botecos, em caráter de exclusividade.”. Bacana, não?

Fico me perguntando: o que será considerado “arredores dos botecos”? A rua? O espaço público? Quem já foi a um dos bares participantes sabe: eles transformam o bar numa espécia de arraial da Jabalândia: bandeirolas de festa junina, banners imensos, cartazes, toalhas de papel padronizadas, e tome jabá, tome jabá, tome jabá!

Estão sentindo o drama? Pois ainda não viram nada.

Vejam o item “g” das obrigações… O Comida di Buteco proíbe – proíbe! – os seus “parceiros” de participarem de festivais congêneres. Proíbe! Salvo se prévia e expressamente autorizado pelos organizadores. Mas peraí… Eles não estão aí para divulgar a cultura do botequim? Não deveriam incentivar a participação em mais e mais palhaçadas da mesma natureza? Não, meus poucos mas fiéis leitores… Eles tomam conta da situação, compreendem?

E o que dizer do item “h” que obriga o participante a participar de um treinamento (isso, treinamento!) oferecido por “entidade com notório conhecimento na área de alimentos e bebidas e/ou hotelaria, em parceria com o Comida di Buteco”? O nome disso é padronização – e isso me dá um nojo absurdo! Quer dizer que o pé-sujo (e não há pé-sujo participando do circo, graças aos deuses…) deve receber treinamento de uma entidade qualquer escolhida pelo Comida di Buteco? E o respeito à cultura? É balela, balela pura!

O item “i” é outro nojo. Os bares devem permitir que “artistas plásticos realizem instalação artística no(s) banheiro(s) do boteco, a qual deverá nele(s) permanecer pelo período definido pelo CDB, não podendo o proprietário do estebelecimento se opor à montagem ou à desmontagem da referida instalação”. Vomitaram? Mas os banheiros não são também julgados?! Ocorre que os proprietários são obrigados a permitirem essa babaquice nos seus banheiros… Eu fico pensando na reação do Marreco (Bar do Marreco), do Paulo (Almara), do Chico (Bar do Chico), da Martha (Bode Cheiroso) diante dessa imposição… O mesmo item “i” deixa claro que existe, na encolha (vocês já viram isso na mídia?) um concurso em paralelo chamado “Arte no Banheiro”. Só que a arte do banheiro não é a arte do banheiro do participante, sacaram? Ela é imposta pelos organizadores…

O item “j” legaliza a presença do poder de polícia do Comida di Buteco, que poderá manter promotores e patrocinadores nas dependências dos bares participantes.

Bacana, né? Tem mais.

Os organizadores, no item “m” das obrigações impostas, obrigam os participantes a permitirem fotografia do bar, de sua fachada, do banheiro (!!!!!), dos proprietários, dos funcionários e dos clientes (!!!!!).

O item “n” prevê a desclassificação do bar cujo proprietário falte à chamada “reunião de abertura”.

O item “o” exige que pelo menos a metade dos funcionários dos bares participantes participem do treinamento a que se alude no item “h”.

O item “p” volta a obrigar o comparecimento na “reunião de fechamento de avaliação do evento”.

O item “q” – atenção!, atenção!, atenção! – diz que os organizadores poderão fazer, a seu exclusivo critério, cinco “eventos privativos ao longo do ano com cada boteco participante.”. Fica claro, ali, o que seja “evento privativo”? Não. Mas cheira mal.

E o item “r”? Tanto o Comida di Buteco quanto seus patrocinadores “poderão utilizar livre e gratuitamente a receita do tira-gosto concorrente do concurso Comida di Buteco e/ou do concurso Doritos, podendo, por exemplo, incluí-la em seus sites e/ou livro de receitas a ser eventualmente publicado”. Sacaram a pavimentação da estrada da Jabalândia? O sujeito, no ato da inscrição, é obrigado a dar o passo-a-passo de sua receita, de sua criação. Em contrapartida (sem qualquer contrapartida, afinal a utilização será livre a gratuita), o Comida di Buteco poderá publicar seu livro de receitas… O que lhes parece?

E como se não bastassem as 18 obrigações impostas aos participantes, temos ainda o capítulo que trata das proibições, das vedações. A primeira?

Os bares não podem permitir “ações de merchandising de empresas que não sejam patrocinadoras oficiais do Comida di Buteco.”. Aqui, uma rápida: desde quanto botequim, buteco, promove ação de merchandising? Em linhas gerais, sabemos que a Bohemia – péssima cerveja – patrocina o Comida di Buteco aqui no Rio. O buteco, que ao longo dos 12 meses do ano, por exemplo, recebe inventivo da Brahma, ou de outra cerveja qualquer, durante os 30 dias de duração do festival não pode exibir ostensivamente a marca de seu patrocinador, apenas do patrocinador da Jabalândia… Sacaram a crueldade? O quão pernicioso é o mecanismo dos caras? Eles fazem uma ressalva quanto a isso… Mas proibem ações extraordinárias durante o festival… Por que?! Jabá, jabá, jabá!

E se eles impõem 18 obrigações aos participantes, comprometem-se a apenas 3 coisas: “dar ampla assistência aos botecos concorrentes”, “resolver, junto ao público participante, qualquer tipo de dúvida” e “divulgar ostensivamente o concurso”. Que tal? Quem ganha com isso?!

Confesso a vocês que o que se segue é abjeto demais para que eu me debruce, ao menos por ora, e minuciosamente, sobre as demais cláusulas do contrato de adesão ao festival.

Mas o que se vê – e o que se lê! – é de uma calhordice revoltante. Eles próprios, organizadores, reconhecem que “muitas vezes não se encontram amparados por legislação específica”. Reconhecem, mais, “que constituem verdadeiros direitos e segredos estratégicos para o desenvolvimento do seu negócio”

O quê mais tem a desenvolver como negócio o Comida di Buteco?

A tal venda de produtos congelados nos supermercados? – como me foi ventilado.

A publicação de um livro de receitas com sua marca?

Como uma das atividades econômicas da empresa Comida di Buteco é – 47.89-0-99 – Comércio varejista de outros produtos não especificados anteriormente – tudo me soa muito mal nesse contrato.

As disposições finais estão abaixo.

E que não me desmintam mais uma vez, os organizadores.

Ao contrário do que pensam uns e outros, não estou aqui para destruir ou impedir o êxito do festival. Eu não tenho esse poder – e ainda que o tivesse, faria apenas o que venho fazendo.

Meu papel – e o exerço por dever de consciência – é apenas o de dizer: não caiam nessa esparrela, enxerguem o lobo por trás da pele de cordeiro, não sejam partícipes de uma ação perniciosa que luta contra – e com armas muito cruéis – uma de nossas mais caras tradições.

Até.

33 Comentários

Arquivado em botequim

ISSO É COMIDA DI BUTECO?

Recebi, ontem à noite, e-mail de uma de minhas poucas mas fiéis leitoras – de Belo Horizonte. Trata-se de uma moça que, à minha moda, revolta-se com a invasão de sua cidade por parte da horda de consumidores e seguidores da moda imposta pela mídia brasileira por conta do nefasto, nocivo e pernicioso festival Comida di Buteco, o festival da Jabalândia (leiam aqui).

E eu, que já havia inaugurado a série através da qual pretendo exibir as criações grotescas dos bares e botequins que se rendem às garras do festival aqui, volto à carga hoje pondo no balcão virtual o prato concorrente no festival em Belo Horizonte, nascedouro do troço, do Bar da Cida.

Eu, que não conheço o Bar da Cida e tampouco a própria Cida, falarei muito à vontade sobre o Floramar, que eles, organizadores, chamam de tira-gosto. O Floramar é, a foto é clara, uma gororoba de tremendo mau gosto que mais se assemelha a um outdoor disfarçado de tira-gosto. 

Trata-se de “carne de sereno, mandioca, cebola, alho, suco de siriguela, cogumelo fatiado, maionese, amido de milho, vinho, azeite, couve-flor, pimenta biquinho e cheiro verde”. Perderam o fôlego ou vomitaram lendo os ingredientes?

A foto – ah, a Jabalândia… – exibe a marca Hellmann´s (a maionese é uma das patrocinadoras da coisa) e a cerveja Bohemia, há muitos anos intragável.

Como os meus botequins de fé servem pratos que se resumem a uma palavra, duas no máximo (torresmo, pele, ovo colorido, carne-seca, lingüiça, por aí…), acho inacreditável a imposição do festival. Daí temos, além desse horror exposto hoje, “farofa de feijão andu com bacon puxado na manteiga de garrafa” (puxado?), “ossobuco desmanchado e carne de sol perfumados com limão siciliano em cama de angu e nacos de requeijão de raspa” (desmanchado?, perfumados?, cama?, nacos?), “lombo assado na maionese” (na maionese?), “surubim em cubos” (em cubos?) e um bolinho de carne-de-sol “finalizado com maionese” (finalizado com maionese?).

Se no Bar do Marreco, no Almara, no Bar do Chico, no Pink, no Columbinha, em qualquer outro do mesmo nível (todos portentosos butecos tijucanos), eu sonhar em pedir um desses troços no balcão, serei olhado com uma desconfiança irreversível.

Diante disso, resta-me dizer: fujam dos bares que participarão do festival, evitem esbarrar com os histéricos e com as histéricas no interior dos bares, onde eles terão chegado em vans alugadas para fazer o roteiro proposto pelos organizadores, não sejam idiotas a ponto de ficarem por aí conjugando o verbo proposto pelo festival – “Eu boteco, tu botecas, nós Comida di Buteco” -, não permitam que esse evento conspurque sua cidade e seu botequim preferido. Eu, ao menos, tenho imenso orgulho de dizer (e sou grato por isso) que os meus butecos de fé não participam dessa roleta-russa que visa, precipuamente, o lucro de quem, em pele de cordeiro, faz o papel do lobo devastador do sistema capitalista.
Até.

    

1 comentário

Arquivado em botequim

ISSO É COMIDA DI BUTECO?

Ontem iniciei mais uma cruzada contra esse engodo que atende pelo nome Comida di Buteco – leiam aqui. Pois volto à carga hoje – e será assim durante os 30 dias de duração do troço – para exibir uma ignomínia sem tamanho, exaltada, é claro, pelo Festival da Jabalândia.

Um dos participantes do circo, aqui no Rio de Janeiro (e outras 14 cidades estão sendo, ao mesmo tempo, conspurcadas pelo negócio), é o Bar 20, em Ipanema, na zona sul. No site do Comida di Buteco lê-se que o tal bar concorre com um petisco (tenho nojo desse nome) chamado “20 Salpicá”, e o nível da piada que cerca o nome da horrenda criação é um bom indicativo da qualidade de coisa (“vim te salpicar”). O que diz o site (vejam aqui) sobre o concorrente?

Que trata-se de um “salpicão de feijão com palha de carne-seca e vários ingredientes”. Que tal? A foto está abaixo. 

É justo na desonesta informação – “vários ingredientes” – que se esconde o tesouro do Reino da Jabalândia. Como a maionese Hellmann´s patrocina o evento no Rio de Janeiro (e como se sabe um bom buteco não pode dispensar a maionese nos pratos que oferece, não é mesmo?), lá está ela. Esse troço é, na verdade, um patê de feijão com maionese Hellmann´s.

O site de notícias R7 (aqui) revela o que os organizadores escondem. Lê-se lá:

“A escolha dos ingredientes foi feita pelo gastrônomo e realizador do concurso, Eduardo Maya.

– O objetivo do concurso Comida di Buteco é resgatar a culinária de raiz do Brasil. Por isso busquei em nossos ancestrais colonizadores portugueses e índios os ingredientes que hoje conhecemos bastante na composição da feijoada.”

Ora, a “culinária de raiz do Brasil” (a expressão também me causa engulhos) usa maionese e eu não sabia! “Nossos ancestrais colonizadores portugueses e índios” usavam maionese e eu não sabia!

No R7 a descrição é mais fiel e, portanto, nos dá a exata dimensão do horror que o Bar 20 oferece: “salpicão feito com feijão, milho, pimenta, cenoura, tomates secos, pimentões sortidos e maionese aromatizada com suco de laranja. É servido com palha de carne seca e torradas”.

Por isso eu repito: fujam dos bares que participarão do festival, evitem esbarrar com os histéricos e com as histéricas no interior dos bares, onde eles terão chegado em vans alugadas para fazer o roteiro proposto pelos organizadores, não sejam idiotas a ponto de ficarem por aí conjugando o verbo proposto pelo festival – “Eu boteco, tu botecas, nós Comida di Buteco” -, não permitam que esse evento conspurque sua cidade e seu botequim preferido. Eu, ao menos, tenho imenso orgulho de dizer (e sou grato por isso) que os meus butecos de fé não participam dessa roleta-russa que visa, precipuamente, o lucro de quem, em pele de cordeiro, faz o papel do lobo devastador do sistema capitalista.

Até.

3 Comentários

Arquivado em botequim

VAI COMEÇAR O FESTIVAL JABALÂNDIA

A expressão “jabalândia” foi criada por meu chapa, Julio Bernardo, que mantém um blog, bastante polêmico, sobre gastronomia – aqui. E eu a uso sempre que me refiro ao festival Comida di Buteco, para o qual enviei carta aberta em maio de 2010 (leiam aqui), jamais respondida, diga-se, muito embora uma das sócias do empreendimento, Maria Eulália Araújo, tenha me batido o telefone, no ano passado, como já lhes contei:

“Foi simpática e incisiva durante o telefonema. Disse-me, entre outras coisas, que eu havia sido injusto quando escrevi o que escrevi ontem, aqui; que eu, como jornalista (foi o que ela disse, depois corrigi o equívoco), deveria apurar tudo sobre o festival para depois escrever sobre ele; que é uma luta colocar o “festival na rua”; que as críticas que fiz, noutras oportunidades, deveriam ser relevadas, eis que as indicações dos bares participantes das últimas edições, aqui no Rio, haviam sido feitas por “especialistas no assunto”, como Guilherme Studart e Moacyr Luz (por isso lembrei-me do tal projeto, citado no início); que minha crítica à inclusão de bares com redes de franquia ou com filiais não era de todo correta, pois no ano passado apenas duas casas (Academia da Cachaça e Siri) se enquadravam nessa condição. E convidou-me para uma conversa na semana que vem; e, por fim (houve mais, mas estou aqui fazendo apertada síntese), que eu desonrava minha participação no júri do ano passado esculhambando o festival.”

Bom, vamos aos fatos e ao que quero lhes contar hoje.

Justiça seja feita (sou, além de preciso do início ao fim, justíssimo): os organizadores do festival (que tem entre seus patrocininadores a maionese Hellmann´s, a Nestlé e o biscoito Doritos que, como se sabe, são ingredientes fundamentais a qualquer comida de botequim…, além das cervejas Bohemia, Itaipava e Kaiser, a TV Globo e a Band, O Boticário e a cachaça Ypióca) não inscreveram nenhum bar com filial (uma crítica minha ferrenha, desde a primeira edição), ao menos no Rio de Janeiro. Não sei quanto às outras cidades (são 15 cidades participando do troço) – se você que me lê puder me ajudar quanto a isso, agradeço.

O festival começa hoje, 15 de abril, e vai até o dia 15 de maio, o que significa dizer que no dia de meu aniversário, 27 de abril, como se já não bastasse dividir a data com o inacreditável Dia Municipal do Teatro de Bonecos, iniciativa do vereador Eliomar Coelho (como lhes contei aqui), a cidade estará, ainda, conspurcada por esse pernicioso festival.

Se você me considera um radical, um incapaz de tecer qualquer crítica sem o coração à frente, leia – recomendo com entusiasmo! – o que escreveu, sobre o Comida di Buteco, Luiz Antonio Simas, Historiador maiúsculo, professor as 24h do dia, um de meus mestres, aqui. Fala, Simas:

“O que esse Comida di Buteco propõe, infelizmente, se inscreve numa inversão perigosa: é um exemplo bem acabado – e assustadoramente corriqueiro – de submissão da cultura à economia. Explico.

A ideia do festival me parece ser a de transformar o que seria cultura de botequim em um bom negócio para todos. Tento acreditar, sinceramente, nas boas intenções do babado e é possível que os envolvidos no evento achem de fato que estão valorizando o boteco. Sinto dizer que não estão.

O problema é que ao invés de entender a economia como parte constitutiva da cultura – esse poderoso campo que engloba nossos atos e nos define como homens humanos – essa perspectiva inverte tudo e transforma a cultura em parte constitutiva da economia – esse campo que, quando determinante, nos define como meros consumidores, desumanizados por conseguinte.

Insisto: a economia é que deveria ser encarada como um dos aspectos da cultura. O festival transforma a cultura em um mero elemento submetido aos ditames do mercado. Quando isso acontece, o que era cultura perde toda a carga de representações de modos de viver dos homens e se transforma, esvaziada de sua dimensão vital, em simples evento ou entretenimento, como queiram.

O Comida di Buteco é isso: um evento, desprovido de qualquer outro valor que não seja o de movimentar a economia da cidade, divulgar os patrocinadores, difundir a imagem dos participantes e aumentar o faturamento dos restaurantes envolvidos – objetivos legítimos, diga-se de passagem, ainda que não me comovam e que eu lhes faça sérias restrições.

O problema – gravíssimo! – é que a cultura, quando transformada e empobrecida em mero evento, morre. O festival, sob o pretexto de valorizar o botequim, joga contra exatamente o que diz querer valorizar.

Quando digo que a cidade tem alma, uso evidentemente uma metáfora para demonstrar que a cidade tem cultura. O botequim é, pois, um dos elementos constitutivos da cultura carioca. Certa feita escrevi o seguinte sobre o tema:

O buteco é a casa do mal gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposição das fraquezas, da dor de corno, da festa do novo amor, da comemoração do gol, do exercício, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar. É a República de fato dos homens comuns…

É o nosso jeito, a nossa maneira, de recriar o mundo, inventar a vida, beber o passado, digerir o presente e projetar futuros. Nos definimos, dessa forma, como membros do nosso grupo e criadores de cultura – humanizados, portanto.

O Comida di Buteco cumpre muito bem o objetivo de agitar a cidade, movimentar a economia, colocar as pessoas na rua e o escambau. Não consigo, porém, deixar de ouvir uma voz, vinda sabem os deuses de onde [será o rugir do rótulo da maionese patrocinadora da coisa ?] , que parece inverter as lições do velho vagabundo:

– Não sois homens! Consumidores é que sois!

Tolo é quem pensa que o homem é desprovido da humanidade que lhe define quando morre. Mesmo morto, defuntinho da silva, o homem segue vivo na memória da sua gente, como dinamizador, pela lembrança, da tradição.

O homem só é desprovido de sua radical humanidade – morto, sem vitalidade -quando deixa de criar cultura e vira um reles espectador de uma vida que já não lhe é mais pertencimento.”

Diante disso, resta-me dizer: fujam dos bares que participarão do festival, evitem esbarrar com os histéricos e com as histéricas no interior dos bares, onde eles terão chegado em vans alugadas para fazer o roteiro proposto pelos organizadores, não sejam idiotas a ponto de ficarem por aí conjugando o verbo proposto pelo festival – “Eu boteco, tu botecas, nós Comida di Buteco” -, não permitam que esse evento conspurque sua cidade e seu botequim preferido. Eu, ao menos, tenho imenso orgulho de dizer (e sou grato por isso) que os meus butecos de fé não participam dessa roleta-russa que visa, precipuamente, o lucro de quem, em pele de cordeiro, faz o papel do lobo devastador do sistema capitalista.

Até.

7 Comentários

Arquivado em botequim

COMIDA DI BUTECO 2011 VEM AÍ

Eis que estamos às vésperas do Carnaval e, mantendo uma tradição já de muitos anos, o malfadado festival Comida di Buteco começa a pôr as mangas e a maionese de fora. E quem me lê sabe o quanto eu, desde sempre, sentei a borduna na iniciativa: basta uma clicada aqui e o Google abrirá diversas possibilidades para que você, que nunca leu nada meu a respeito do troço, entenda o porquê de minha aguda implicância com o projeto (escrevi “projeto” e tive ânsia de vômito). Mas vamos em frente.

Antes de continuar a escrever, dêem uma olhada no slogan(nova pausa para nova ânsia) do festival em 2011:

Vou escrever para que o nojo emerja (leiam em voz alta e sintam a boçalidade da idéia): “Eu boteco, tu botecas, nós comida di buteco”.

Em 28 de maio de 2010 escrevi uma carta aberta dirigida aos pilotos do trator de botequins, aqui. O fiz porque – a leitura do texto deixa isso claro – uma das organizadoras do negócio, Sra. Eulália, ligou-me indignada, no dia 13 de maio de 2010, com minhas críticas (todas sempre muito bem fundamentadas, modéstia à parte), ficou de marcar uma conversa olho no olho para que ela expusesse suas razões e nada aconteceu. Ou seja, agiu como agem quase todos os que são criticados: tratam de desqualificar o crítico, as críticas. Não suportam experimentar a não-adulação.

Este ano, em 2011, vai ser mais divertido expôr para vocês o quão maléfico é o festival que se orgulha disso que segue abaixo:

“Em 2008, o concurso entrou no conceituado Guia 4 Rodas (Editora Abril) e passou a ser realizado em diversas cidades do interior de Minas Gerais e em outros estados. Neste ano também, dois novos sócios se uniram ao projeto: Ronaldo Perri e Flávia Rocha, com a missão de expandir o conceito a outras praças.”

Notem bem: o Comida di Buteco é um “conceito”, e isso já diz muito sobre o nascedouro da idéia e seus objetivos.

“Os números atuais do Comida di Buteco impressionam, o evento está presente em 11 cidades e, só em Belo Horizonte, o público participante é estimado em cerca de 800 mil pessoas por edição, com mais de 160 mil votos nos pratos participantes (Vox Populi / 2010).”

Os números do Big Brother Brasil, o maior lixo da recente história da TV brasileira, também impressionam.

“A festa “A Saideira” – que tradicionalmente marca o encerramento e a premiação do concurso – se tornou um dos eventos mais esperados da cidade e recebe mais de 26.500 botequeiros nos dias em que é realizado.”

A festa “A Saideira”, no ano passado, trouxe o Bob´s para servir os otários que conjugam o verbo proposto pelo festival em 2011.

“O Comida di Buteco se tornou também um fenômeno de comunicação. Em 2010, a mídia espontânea do projeto superou o valor de 16 milhões de reais, tendo o Comida di Buteco figurado nos principais veículos da mídia nacional e importantes publicações internacionais, como o NYTimes e La Nacion.”

Basta, não?

Afinal de contas, buteco e New York Times, buteco e La Nación, têm tudo a ver…

Seria cômico se não fosse trágico.

Volto – é claro – ao tema.

Até.

7 Comentários

Arquivado em botequim