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HÁ 30 ANOS…

Há exatos 30 anos, 13 de dezembro de 1981, tinha eu apenas 12 anos de idade. Rubro-negro convertido por intervenção de Zico aos cinco – leia aqui – eu já tinha, àquela altura, ao menos duas finais de campeonato assistidas in loco, absolutamente marcantes no meu portfólio de torcedor: o Campeonato Carioca de 1978 (quando Rondinelli pôs por terra o plano de meu pai, entenda isso aqui) e o primeiro Campeonato Brasileiro, em 1980, num eletrizante 3 a 2 contra o Atlético Mineiro.

O título brasileiro de 1980 deu ao Flamengo a oportunidade de disputar a Libertadores da América em 81, o que foi feito com maestria: sagramo-nos campeões… e a final do Mundial Interclubes, em dezembro, no Japão, era o objetivo maior.

Sou capaz de me enxergar de calças curtas, camisa do Flamengo, na São Francisco Xavier 84, na vila onde moravam meus avós (eu morava no 90, prédio ao lado), pedindo ao meu pai, no final daquele 12 de dezembro:

– Posso ficar acordado pra ver o Flamengo hoje?

Na vila, éramos rubro-negros eu e o Ricardo (filho do seu Mário, de quem já lhes falei aqui) – temos a mesma idade, vivíamos naquele dia a expectativa da grande final…

Sobre isso – temos a mesma idade e vivíamos naquele dia a expectativa da grande final – é que quero lhes falar na manhã deste 13 de dezembro de 2011.

A Rádio Globo AM transmitiu, ontem, a partir da meia-noite (mesmíssimo horário do jogo de 81), na íntegra (na íntegra!!!!!), a narração de Flamengo 3 x 0 Liverpool.

Eu fui, meus poucos mas fiéis leitores, um menino de novo, ouvindo do início ao fim a narração emocionada de Jorge Curi e de Waldir Amaral, os comentários de Ruy Porto e as reportagens – vejam vocês! – de Kleber Leite. Acompanhando também pelo twitter a movimentação dos rubro-negros no decorrer da partida, deparei-me com a seguinte frase, de Dyó Menezes:

“Na voz, no grito quase sem fôlego de Jorge Curi, a profundidade do que o rádio representa.”

Absoluta verdade.

Ouvir, 30 anos depois, a mesma partida pelo rádio (pelo rádio!, pelo rádio!), foi mágico.

Do morro de São Carlos, fogos de artifício – eram quase duas da manhã!

Da janela de um prédio vizinho ao meu, um senhor de idade gritou Mengooooo!, com a voz embargada e com a bandeira do Flamengo nas mãos.

Pelas ondas do rádio, Jorge Curi torcia desbragadamente pelo Flamengo.

Os jogadores foram entrevistados à beira do campo, dentro do vestiário, sem a assepsia e a frieza das coletivas patrocinadas de hoje em dia.

Éramos mais bonitos em 81. E não se trata de saudosismo ou nostalgia.

Hoje, pois, é dia de sair às ruas com o manto rubro-negro. É dia de festejar os 30 anos dessa conquista histórica – e me considero um sujeito de sorte por ter o 13 de dezembro de 81 muito vivo na memória.

No filme abaixo, alguns dos heróis de minha infância – Andrade, Adílio, Cantareli, Júnior, Nunes e Zico.

E se você quiser reviver as mesmas emoções daquele jogo, segundo a segundo, clique aqui. São 106 minutos e 5 segundos de Brasil em estado bruto. De emoção à flor da pele. De Flamengo até morrer.

A eles – todos eles, ao time todo! – minha homenagem.

Até.

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VASCO X FLAMENGO

No próximo domingo, 04 de dezembro, chega ao final a edição 2011 do Campeonato Brasileiro, e só no domingo, justo na última rodada, é que será conhecido o novo campeão brasileiro, sendo que apenas dois times têm condições de conquistar a taça: Corinthians, em primeiro lugar na tabela, e Vasco da Gama. Quem me lê sabe – e quem não sabe pode ler este texto aqui – que eu nutro intensa simpatia pelo Vasco da Gama. Com o Flamengo fora da disputa do título, o natural seria, no meu caso, torcer pelo êxito do Vasco da Gama: meu irmão (ao meu lado na foto abaixo) é Vasco, meu pai é Vasco, meu avô Oizer (também na fotografia) era Vasco, um de meus orixás vivos é Vasco, uma de minhas comadres é Vasco, uma de minhas afilhadas é Vasco, e eu tenho pelo Vasco – vá saber a razão disso – um sentimento que carrega até um pouco de inveja (invejo o comportamento da mais cafona das torcidas, o que me comove…).

Ocorre que a situação é a seguinte: o Vasco da Gama só conquista o título se vencer o Flamengo e se o Corinthians perder para o Palmeiras. Mas eu nem preciso pensar na segunda condição, eis que a primeira me impede de seguir torcendo pelo time da cruz-de-malta. Soma-se a isso o fato de que o Flamengo está em ferrenha disputa com mais cinco times (Coritiba, Internacional, Figueirense, São Paulo e Botafogo) por uma das vagas para a Libertadores 2012. Ou seja: há chance zero de eu torcer para que o Vasco da Gama seja o campeão de 2011 (e peço publicamente desculpas aos meus mais-chegados vascaínos que me viram, em mais de uma oportunidade, envergando a camisa do Vasco em dias de jogos de suma importância para os cruzmaltinos).

Confesso que me seria muito prazeroso ver o título ficar no Rio de Janeiro pelo terceiro ano consecutivo: o Flamengo venceu em 2009, o Fluminense em 2010 e não seria ruim ver o Vasco sagrar-se o campeão – não fosse pelo trágico encontro do próximo final de semana.

Falei em trágico e quero lhes contar sobre a rodada de ontem.

Estava assistindo ao jogo do Flamengo no tradicionalíssimo bar do Marreco, na Tijuca. Na TV grande, claro. Na pequenina, nos fundos do bar, passava o jogo do Vasco contra o Fluminense. Bar lotado. Eu, de camisa do Flamengo. Vencíamos por uma a zero quando o Fluminense empatou – o Vasco vencia também por uma a zero. O Corinthians, em Florianópolis, também vencia, pelo mesmo placar, o Figueirense. Foi o Fluminense empatar e os rubro-negros, que lotavam o bar, explodiram:

– Ô, ô, ô, ô… vice de novo! – e urravam.

Eu, na minha.

Terminou o jogo do Corinthians que, àquela altura, era o campeão com uma rodada de antecedência. Terminou o do Flamengo – e vencemos! Iniciou-se uma confusão entre os jogadores do Vasco e do Fluminense, e ali estava vivo o espírito combativo que faz de cada jogo uma guerra – às favas o fairplay! Até que aos 45 do segundo tempo, desfeita a confusão, o Vasco desempata o jogo. Desempata o jogo, esfria a festa antecipada do Corinthians, e eu passo a ser um possesso diante do olhar atônito dos meus irmãos-de-fé, dos rubro-negros frustrados diante do gol que eu comemorava.

Domingo que vem será um dia para os de pulso forte, de coração de aço. Será também o início do recesso de um mês sem futebol (quando os finais de semana são insossos). E que os deuses do futebol, sempre maiores que os deuses do marketing que tentam nos usurpar o futebol que amamos, zelem por nós.

Não posso encerrar sem indicar mais um golaço de meu irmão Luiz Antonio Simas, justamente sobre os malefícios da turma dos neo-amantes do esporte bretão – aqui.

Até.

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AGÜENTA, CORAÇÃO FLAMENGO!

Só quem é Flamengo sabe o que significa essa volta de Zico à Gávea (e calem-se os detratores de plantão, os seca-pimenteira, os membros da torcida arco-íris, os que não têm nada a ver com o mais querido do Brasil). Podem, entretanto, ouvir calados a canção Saudades do Galinho gravada em 1983, no LP Pintando o oito, de Moraes Moreira. Vai dedicada a todos os rubro-negros, vivos e mortos! Ouça aqui!

Até.

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NOS FLA X FLUS É O AI JESUS

Quando a torcida mais cheirosa do Brasil, na insuspeita opinião de Lulu Santos, ergueu nas arquibancadas uma faixa na qual se lia “Nos Fla x Flus é o ai-Jesus” – frase surrupiada do hino rubro-negro – senti cheiro de sangue. O primeiro tempo terminou num 3 a 1 pro Fluminense que – por conta do odor, que não passava – não chegou a me assustar ou mesmo desanimar. Até porque o Felipinho Cereal, dado a previsões certeiras, dizia a cada gol que o tricolor das Laranjeiras perdia:

– O Flamengo vai ganhar o jogo.

Luiz Antonio Simas, também à mesa, fazia que “sim” com a cabeça, lustrando imaginariamente a careca que reluzia dentro do Estudantil.

Vai daí que, com um jogador a menos, o Flamengo foi o Flamengo de novo. A bambilândia carioca torcida do Fluminense, que passou a semana inteira arrotando com a arrogância costumeira troços do tipo “o time está acertadinho”, “temos a defesa menos vazada”, “gol, se sofrermos, será apenas um” e outro bichos, foi saindo de fininho, antes mesmo do apito final, depois de ver sua rede balançar gloriosas cinco vezes, quatro delas no segundo tempo, selando a vitória histórica do Flamengo por 5 a 3.

Os tricolores do Estudantil, em número infinitamente menor, também foram deixando o bar arrotando – já não tão arrogantes – besteiras do tipo “foi apenas um amistoso”, “esse jogo não valeu nada”, por aí.

Ó. Estão ouvindo daí?

Tsc.

Até.

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SALVE, JÚNIOR!

No dia 25 do mês passado, quando o quadragenário Rodrigo Ferrari comemorou, é óbvio, quarenta anos, na festa pública que houve na rua do Ouvidor – como lhes contei aqui – um dos presentes me fez, em questão de segundos, voltar a ter nove anos de idade, vestindo calças curtas e camisa de malha listrada, sandália de dedo e olhos brilhando.

Pausa: eu disse festa pública porque houve, no dia 28, dia exato de seu nascimento, a festa privada, mais fechada que cabaço de Honório Gurgel, para uns poucos eleitos, não mais que vinte. Eu poderia, aqui, dar o nome de um por um, mas o próprio Digão me fez o apelo quando despedimo-nos naquela noite chuvosa de terça-feira:

– Edu… Não conte nada sobre essa festa, ok? Não quero magoar a quem não chamei…

E pra rimar, eu gritei no corredor de mármore, fazendo eco:

– OK!

Dito isso, em frente.

Eu dizia que um dos presentes me arremessou, numa guinada, num tranco, em direção ao passado. E refiro-me a uma pessoa presente, e não a um simples presente que o aniversariante teria recebido. Preciso fazer nova pausa já que falei em presente.

Disse-me o Digão, muxoxando, no domingo, dia seguinte ao da festa pública:

– Ganhei pouquíssimos presentes…

E eu:

– É?

– Muita gente com aquele papinho “a lembrancinha vem depois”… Muita gente que me prometeu coisas e não cumpriu…

Ele chegou a me dar os nomes… Mas não os revelarei, é claro, já que sou um poço de discrição.

Enfim, o drama de sempre, conforme eu já havia dito aqui, quando comemorei meu aniversário.

O presente a que me refiro, atende pelo nome de Leovegildo Lins da Gama Júnior. Sim, ele mesmo. O Júnior. Figura fácil pela cidade, já o encontrei na praia, já o encontrei no Maracanã, já o encontrei em diversas rodas de samba pelo Rio, mas nunca – eis o mistério da fé – o impacto foi tão grande quanto naquela tarde.

Seria a emoção que já me causava a passagem dos quarenta anos do poço artesiano de doçura? Seria o cenário, seria o fato de estarmos ali, naquele canto sagrado da cidade, onde mora o verdadeiro axé do Rio de Janeiro? Não sei. Ainda agora, dias depois, não sei.

Sei apenas que bati os olhos no cara e voltei às cadeiras azuis do Maracanã numa tarde de 1978. Segurei firme nas mãos da minha garota – e naquele longínquo 1978 eram as mãos de meu pai que me davam a segurança de que eu precisava – e disse, já de olhos cheios d´água:

– Quero ir falar com ele… – e apontei.

A Sorriso Maracanã, que me conhece como poucos, disse sorrindo:

– Vai lá, meu amor…

E matou-me quando completou, sacando que eu, sozinho, faria merdas olímpicas:

– Eu vou com você…

Notem que o Felipinho Cereal, de posse de sua câmera, foi um craque. Sacou o lance e flagrou o momento em que o Júnior, craque eterno do mais-querido, responsável por lances e conquistas cravadas em mim, inabaláveis e indestrutíveis, com um sorriso, uma paciência e um carinho que só os ídolos têm, consola o menino de olhos cheios d´água que foi até ele apenas para agradecer.

Eduardo Goldenberg e Junior, rua do Ouvidor, 25 de agosto de 2007

Não pela fotografia que minha Dani tirou de nós, segundos antes, ela que aparece ao fundo, entre nós dois.

Mas por tudo.

Até.

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O RIO AMANHECEU CANTANDO

Hão de me perdoar os vascaínos (Aldir, Fefê, papai), os tricolores (Léo Huguenin, Vidal), os botafoguenses (Zé Colméia, Zé Sérgio), os americanos (Antônio Bulhões, mamãe, seu Osório). O Rio amanheceu cantando nessa segunda-feira. O Flamengo venceu a partida de ontem espetacularmente, com um gol aos 47 minutos do segundo tempo, e livrou-se, definitivamente, do fantasma da segunda divisão. “Grande coisa”, dirão os detratores de plantão. E eu gritarei “grande coisa mesmo” de pé no banquinho imaginário. Em tom solene, de missa pagã, eu, Betinha, Flavinho, Dalton, Lelê, Marquinho, Cabreira, tendo à frente um São Jorge montado no cavalo e um santinho de São Judas Tadeu, vibramos e gritamos, gritamos e choramos, choramos e comemoramos a alegria de ser rubro-negro.

E eu comecei dizendo “hão de me perdoar” justamente por isso.

A cidade nunca é tão encantada quando no dia seguinte de uma vitória do Flamengo. Nunca. Tem mais sorriso na cara do povo, tem mais “bom dia” e “boa tarde” ecoando pelas esquinas. E tem mais orgulho nos olhos de cada um.

Novamente os detratores dirão que o time é uma porcaria. E eu grito de volta “é mesmo!”, mas há um diferencial. Houve um diferencial e eu nem quero discutir se seu nome é Joel Santana. De uns jogos pra cá, precisamente nos últimos sete jogos, cinco vitórias e dois empates, o Flamengo teve a seu favor a famosa e decantada mística do manto rubro-negro.

Gols espíritas, bola esbarrando num jogador e indo pro gol, trombadas que viraram lances de perigo, e eis que ontem, no final do jogo, o limitadíssimo Obina acerta uma bomba e dá a vitória ao Flamengo, e o Estephanio´s veio abaixo. Era o que sempre pedíamos, os torcedores contritos diante da TV: a vitória da raça rubro-negra.

E uma conclusão: não havendo condição de disputar o título, e não tínhamos mesmo, com aquele elenco que nem na minha mesa de botão eu escalaria, é bom demais esse fugir desesperadamente do rebaixamento. O campeonato ganha emoção, tintas de tragédia, cores de drama épico, e a gente aproveita tudo, da primeira à última rodada.

E ontem, de pé, depois do jogo, rezando a oração a São Judas Tadeu, fui um homem de fé.

Dei, inclusive – há testemunhas! – de beber ao Jorge, o santo, que há de me perdoar a intimidade (com a licença do Aldir).

Deus me perdoe

essa intimidade

Jorge me guarde

no coração…

Até.

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