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FALTAM 21 DIAS…

Faltam exatamente 21 dias. Às nove e meia da manhã do dia 18 de fevereiro estará aberto, oficial e subversivamente, o Carnaval no Rio de Janeiro. Digo subversivamente porque nasceu, o Cordão da Bola Preta, de forma absolutamente subversiva. Proibidos pelo Chefe da Polícia de então, os cordões (uma espécie de dissidência e de versão esculhambada dos blocos e das sociedades) no Carnaval de 1919, nasceu na extinta Galeria Cruzeiro, no Centro do Rio, da cabeça de um bando de malucos, o Cordão da Bola Preta, que faria seu primeiro desfile (ou seu primeiro baile, como preferem alguns) no dia 31 de dezembro de 1918. Em 2012, então, com 92 anos e alguns meses de vida, fará, o glorioso cordão, mais um desfile pelas ruas do Centro.

Sobre o Cordão da Bola Preta, nos conta Jota Efegê, em seu Figuras e coisas do Carnaval carioca:

“Nas proximidades do carnaval que, naquela época (1918), começava a ferver desde outubro nos festejos da Penha, o folião K. Veirinha erguendo seu copo de chope resolveu desafiar o chefe de polícia: “Vamos formar um cordão!” E, mostrando sua disposição de luta contra a autoridade, concluiu: “Ele disse que vai fechar todos os cordões, mas o nosso ele não fecha! O nosso é de bola preta!” Toda a turma, já com duas ou três altas pilhas de cartões na mesa, topou a parada e resoluta, pondo em alvoroço o Bar Nacional, da famosa Galeria Cruzeiro, prorrompeu em vivas seguidos.

Nascia, desse modo, em meio de uma reunião boemia, que acontecia normalmente, todas as tardes, o já hoje tradicional Cordão da Bola Preta, conhecido em todo o Brasil e também no estrangeiro. Ficava, igualmente, consagrado como folião, pois que já o era desde rapazola, o Álvaro Gomes de Oliveira, conhecido no Clube dos Democráticos como Trinca Espinha, apelido mais tarde substituído pelo de K. Veirinha.

À guisa de biografia

Antigamente, todos os associados de destaque dos grêmios carnavalescos adquiriam um pseudônimo sempre precedido de aristocrático Lord. Assim, Álvaro de Oliveira que, ainda garoto, de menor idade, conseguiu ser sócio dos Democráticos quando o alvi-negro tinha sede no Largo do Machado, ganhou sua alcunha. Deram-na, mais tarde, já na Rua do Hospício (hoje Buenos Aires), para onde o clube se transferiu, uma bem divertida: Lord Trinca Espinha. Continuou com ele da Rua dos Andradas e também na do Passeio, locais onde os valorosos ‘carapicus’ estiveram instalados.

Só em 1918, depois da terrível epidemia de ‘influenza espanhola’, da qual, conseguindo escapar, ficou, no entanto, bastante magro, esquelético, perdeu sua antonomásia. Um amigo, vendo-o em tal estado exclamou: “Puxa, você parece uma caveira”. À tarde, na costumeira chopada do Bar Nacional, a turma homologou definitivamente o apelido: “Viva o K. Veirinha!” Nunca mais se deixou de chamá-lo por esse diminutivo ou de completar seu verdadeiro nome com ele: “o Álvaro K. Veirinha”.

K. Veirinha enfrenta o chefe Leal

Carnavalesco de quatro costados, integrante de um grupo do qual faziam parte, entre outros, os irmãos Oliveira Roxo (Jair, Jorge, Joel), Chico Brício, Archimedes Guimarães (Fala Baixo), Álvaro de Oliveira era desassobrado. Ao ler nos jornais uma portaria do chefe de polícia, Dr. Aurelino Leal, achou o momento propício para mostrar sua coragem. Rigorosa, ameaçadora, a publicação dizia: “Os grupos e cordões que perturbarem a ordem pública terão suas licenças cassadas, sendo os perturbadores presos e processados, na forma da lei”. Proibia, ainda, mais adiante, de maneira igualmente decisiva, a fundação de grupos similares.

Longe de se amedrontar e disposto a topar uma parada com o “chefão” temido, o grupo das alegres reuniões chopísticas de um dos bares da galeria Cruzeiro seguiu coeso o líder K. Veirinha. Iriam, todos, desobedecer o mandachuva. Alugaram a sede do Clube dos Políticos, na Rua do Passeio, e na noite de 31 de dezembro de 1918, com um “maixético e rebolativo baile” (como era de praxe qualificar as festas dançantes carnavalescas) consumavam a deliberação. Iniciava, assim, o hoje famosíssimo Cordão da Bola Preta e sua brilhante e vitoriosa trajetória.

Tradição da Bola Preta

O sucesso da noitada de nascimento do Cordão da Bola Preta, com o salão apinhado e a fachada do clube feericamente iluminada, abriu-lhe caminho fácil nos meios carnavalescos. Seus iniciadores (K. Veirinha, Chico Brício, Vaselina, Pato Rebolão, Fala Baixo, Porrete e outros) puderam levar à frente o foliônico grêmio sempre com seus bailes excessivamente concorridos. Sem instalação definitiva, realizando seus fandangos na Rua 13 de Maio, no Palace Clube, na Cinelândia, num salão do antigo Liceu de Artes e Ofícios, acabou, por fim, rico e poderoso, com a sede própria que ora possui.

Álvaro de Oliveira viu, desse modo, triunfar sua iniciativa ao mesmo tempo que se firmava uma tradição levando o nome do cordão até ‘as estranjas’ como fator preponderante do fascínio do nosso Carnaval. Os turistas que aqui chegam para conhecer o nosso famoso tríduo de Momo desembarcam na Praça Mauá ou no Galeão perguntando pelo baile do Teatro Municipal e também pelo do ‘Bôle Preete”. Coisa que, inegavelmente, apesar do seu feitio boêmio, desprendido, envaidece o K. Veirinha, fundador e sócio número um, benemérito, na prestigiosa agremiação.

Saudosista, mas não muito

Afastado das homéricas “farras” dos áureos tempos em que o Carnaval carioca conseguia dividir durante o ano inteiro a cidade em três facções: ‘baetas’, ‘gatos’ e ‘carapicus’, Álvaro de Oliveira é agora um homem tranqüilo. O folião K. Veirinha hoje é apensa um assistente da festa de Momo. Às vezes, matando saudades, aparece no cordão e vê seus sócios vibrando, entoando o hino feito pelo maestro Vicente Paiva e Nelson Barbosa para empolgar a moçada: “Quem não chora não mama, segura, meu bem, a chupeta. Lugar quente é na cama ou, então, no Bola Preta”.

Recorda, vendo a animação reinantes bons tempos. Lamenta não encontrar ali a ‘velha turma’, em grande parte desaparecida, ou, como ele, fora da ‘linha de fogo’. Orgulha-se, porém, de ver seu cordão vibrante, nascido de uma rebeldia momentânea, resultado da desobediência ao ‘chefão’, abrilhantando de maneira decisiva a maior festa da Cariocolândia. Caminhando para o meio século de existência o Cordão da Bola Preta, sólido e vitorioso, faz também (reconhece ele feliz e exultante), a consagração de seu apelido: K. Veirinha.”

Eu já lhes contei, incontáveis vezes, o que é representa, pra mim, a saída do Bola Preta (vejam, aqui, vídeo gravado no dia 20 de janeiro de 2009, eu, Gabriel Cavalcante no cavaquinho, Leal no tamborim e Tiago Prata no sete cordas, na Folha Seca, cantando Bola Preta, choro de Jacob do Bandolim com letra póstuma de Aldir Blanc contando toda a história do cordão, que pode ser lida – e ouvida, na voz de Aldir -, aqui). Mas esse ano, nesse ano de 2012, vai ser diferente…

Anseio, com a ansiedade de um menino, pela sexta-feira da véspera. Pela noite que será, eu sei, passada em claro. Pelas primeiras luzes do sábado, pelo primeiro gole, ainda dentro de casa, pelo trajeto até o Centro. E o Bola Preta, subvertendo de cara a lógica e o trajeto de tantos anos, não partirá da Cinelândia, mas da Candelária. Vai ser ali, diante da imponente Candelária, a concentração do Bola Preta que, a se confirmar o crescimento ano a ano que se vê nas ruas, arrastará mais de dois milhões de foliões pelo asfalto quente da Rio Branco em direção à Cinelândia, palco de tantas manifestações da força do povo do Rio de Janeiro.

Anseio pelo Sábado de Carnaval, pelo primeiro grito do Bola Preta, para dar início ao processo pagão e milagroso que a festa momesca impõe aquele que se entrega, de corpo e alma, aos ritos carnavalescos. Como disse, certa vez, o mestre Luiz Antonio Simas, “o carnaval não é uma festa dos alegres, mas sim dos tristes.”. Disse mais, o professor: “O carnaval é um período marcado pelo símbolo da máscara, onde se inaugura a idéia de esquecimento do que efetivamente somos. Desde os primórdios da festa, a função social do carnaval é promover a inversão dos valores do cotidiano. O homem veste-se de mulher, o careta toma porres homéricos e por aí vai. O carnaval é o tempo do esquecimento necessário. (…). O que está presente no carnaval é, antes de tudo, a pulsão de morte. Matamos o que somos o resto do ano, repletos de horários, compromissos, burocracias e por aí vai. O lugar dos alegres é o camarote da cervejaria, a feijoada do Amaral e outras merdas do gênero. O grande folião, tenha certeza disso, é um triste.”. Outro sujeito a quem respeito, Claudio Renato, cravou na mosca: “Carnaval é a festa dos tristes, dos refugiados, dos abandonados, dos enganados, dos humilhados, dos ultrajados, dos vencidos, dos lusitanos, dos nostálgicos, dos moribundos, dos desempregados, dos deserdados, dos órfãos. Carnaval é a festa máxima do povo brasileiro.”. E, pra encerrar as citações que dão mais peso ao que lhes escrevo, Fernando Szegeri (Divagações cinerárias, em 22 de fevereiro de 2007, aqui):

“A verdade, meus amigos, é que o folião é, acima de tudo, um altivo. Daquela altivez de que nos fala Pièrre Verger ao observar que Pai Balbino, um humilde vendedor de quiabos na feira de Água dos Meninos, portava-se com a dignidade de um rei, por ser filho de Xangô. Daquela soberba que nos percorre o corpo e a alma depois de uma noitada boa de amor, ao encontrar de manhã no elevador a vizinha carola do 1201.

O folião, na quinta, sexta-feira que precedem os dias de Carnaval, encara as pessoas na rua, no ânibus, com uma acachapante superioridade. Tem pena de seu patrão, despreza o seu senhorio. Ele sabe, no seu íntimo, que a cidade lhe pertence, que as coisas na verdade não são como parecem na maioria dos dias; que a superioridade que o capataz lhe cospe reitaradamente às faces é uma ilusão que lhe custará caro. São chegados os dias em que tudo assume a sua feição verdadeira, em que as máscaras cinzentas que foram impostas à realidade são impiedosamente arrancadas. Essa efêmera mas irrefutável prova sobre o verdadeiro estatuto das coisas lhe propicia um inexprimível sentimento duplo de superioridade: por ter consciência desta realidade e por saber-se o senhor livre e soberano de seu próprio destino.

É por isso que ao folião repugnam as insuportáveis pessoas que simplesmente ignoram o Carnaval. Não as que o odeiam. Ele compreende que para os que se arvoram em donos das coisas e dos destinos nos outros trezentos e sessenta e um dias, a visão crua da realidade absolutamente diversa lhes seja insuportável. Aos que francamente detestam o Carnaval o folião responde com um sorriso de aviso: não tentem interferir no desvelamento essencial desses dias; contenham-se nos limites da sua mentira. Mas aos que ignoram o Carnaval, que estampam em suas faces lânguidas e mortas a sua estupidez indiferente, o folião devota, muito mais que piedade, um ódio secreto, um desprezo absoluto pela incapacidade de exercerem um atributo tão fundamental e tão simples de sua humanidade.”.

É isso, meus poucos mas fiéis leitores.

Faltam 21 dias. E eu serei, nesses dias que antecedem o Sábado de Carnaval, um ansioso à espera da apoteose das apoteoses.

Até.

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PINGOS NO IS

Já fui obrigado, uma vez, vejam aqui, a colocar, como se diz corriqueiramente, pingos nos is para que eu fosse – como dizer? – compreendido. Aliás, é curioso ler o texto a que me refiro, PINGOS NO IS, de 21 de julho de 2009, para ver como recebi, a bordunadas, o Claudio Renato, hoje freqüentador mais que assíduo deste BUTECO e mesmo das mesas às quais me sento por aí.

Volto, hoje, 11 de fevereiro de 2010, ao mesmo tema: PINGOS NO IS. E serei didático, e serei cândido, e serei discreto – como poucas vezes fui neste balcão a cada dia que passa mais e mais freqüentado (antes que me lancem as pedras, estou a falar de quantidade, apenas). Vou, inclusive, evitar citar nomes quando me for conveniente por uma única razão: saberão, os destinatários do recado, que é a eles que me refiro, o que me basta, franca e sinceramente. Não sou de criar polêmica a troco de nada e citar os nomes que não citarei serviria, apenas, como mote para que os bombeiros que tentam apagar o fogo com gasolina entrassem em ação. Feito o não tão curto intróito, vamos ao que interessa.

Sou um homem simples, profundamente simples, não tenho posses, não exerço qualquer cargo que me dê status ou algo que o valha e não tenho poder a ponto de fazer com que as pessoas queiram me lustrar a bola brilhante que ostento presa no pescoço. Não tenho, portanto, qualquer puxa-saco em torno de mim. E por que lhes digo isso? E por que venho, aqui, diante do balcão imaginário do BUTECO, colocar os tais pingos nos is mais uma vez? Vou explicar.

Tenho amigos – e que são poucos. Tenho, entretanto, muita gente querida à minha volta. Gente a quem quero bastante bem, gente que – sei – quer e deseja meu bem. Como sei, também, que a postura eventualmente polemista que envergo no dia-a-dia me rende um punhado de gente que me quer pelas costas (há, ainda, os que aproveitam essa oportunidade para descer o sarrafo na minha pacífica pessoa). E rende também um bocado de gente (são estranhamente poucas pessoas…) que não me quer bem e que me diz isso, assim, na lata, cotovelo no balcão, diante de mim. Pois bem.

Exerço – já disse isso aqui dezenas de vezes – mesmo a postura polemista no BUTECO. Assim como exerce, o BUTECO, não eu!, postura vigorosamente debochada no TWITTER (aqui), que não serve pra quase nada a não ser pra isso mesmo, fazer pilhéria.

Vai daí que ontem fiz uma piada particular que exibi publicamente no BUTECO. Escrevi: “Tomem nota aí: os intelectuais vão acabar com o IMPÉRIO SERRANO.”.

Eis que me bateu o telefone, há pouco, um de meus poucos mas fiéis leitores. Em aguda oposição ao papel que cumprem os bombeiros de plantão, fez apenas o desabafo de alguém que não compreende como é que podem, as pessoas, levar tão a ferro e fogo o que esse polemista que vos escreve escreve (é de propósito, e acho que não tem a vírgula, que não sei usar com perfeição) e o que o BUTECO propaga no exibidor de painés que é o TWITTER.

Ontem, durante pequeno evento sócio-etílico-cultural, acusaram-me de arrebanhar uma manada de puxa-sacos (ou algo assim, não estou em busca da transcrição literal do que foi dito). E isso – eis o que é triste – depois que parti em direção à minha casa.

Hoje, me contou meu interlocutor, Carlos Andreazza, outrora assíduo deste balcão virtual, desceu o lenho na minha pacífica pessoa. Disse a ele, meu interlocutor – e digo agora, de público -, que retirar o link para o blog do Andreazza do menu à dirteita do painel do BUTECO – já expliquei aqui a razão, não quero repetir – não foi apenas uma decisão que serve para o menu. Eu, que prezo o Andreazza como apenas ele, quero crer, sabe (eis aí um exemplo de alguém que diz o que pensa sem a máscara podre do anonimato – e se ele, como já tentaram me sugerir, vale-se do anonimato noutras ocasiões não me interessa, até porque não creio nessa hipótese), não leio mais o TRIBUNEIROS por razões simples que nem me caberia elencar (mas vou fazê-lo, ainda que em apertada síntese): (01) estamos em ano de eleição e somos agudamente opostos no terreno da política, (02) estamos nos aproximando do Carnaval e somos agudamente opostos no terreno da compreensão do que seja, hoje, o esquema que envolve as escolas de samba, (03) eu jogo no bicho e sou ferrenho defensor desse saudável hábito, mais uma aguda oposição, e por aí vai. Portanto, não me interessa fazer aqui a minha defesa (se é que preciso dela), até mesmo porque só contesta aquele que conhece os termos da exordial (estou advogadíssimo).

Ontem, meu irmão Luiz Antonio Simas virou-se pra mim e disse:

– Fiquei triste com o que você escreveu.

Não era pra ter ficado – foi o que pensei, franca e sinceramente.

Conheço muitos imperianos – de fé alguns, de ocasião, outros – e tenho por eles, e pela escola, profundo respeito. Não preciso elencar mais do que dois imperianos – Luiz Antonio Simas e meu amado pai – para dar cores de verdade ao que digo.

A frase que publiquei ontem no BUTECO – polêmica em estado bruto, meus poucos mas fiéis leitores – e que o BUTECO publicou no TWITTER – pilhéria em estado bruto, meus poucos mas fiéis leitores – não é, exatamente, de minha autoria.

Foi dita (e seguida de outras tantas que prefiro omitir pra não aumentar o volume do fogo) por um imperiano. E por um imperiano de fé. Foi aqui reproduzida, portanto, em tom de piada particular e porque concordo com ela na exata medida em que foi dita (explico mais abaixo).

Tendo dado as explicações que entendo cabíveis, despeço-me para só voltar amanhã. Aviso, desde já, aos curiosos de plantão, aos bombeiros adeptos da gasolina como comubustível diante do incêndio, que não vai adiantar NADA (com a ênfase szegeriana) me perguntarem – por e-mail, por comentário (serão vetados), por telefone ou ao vivo – quem foi o autor da frase (com a qual concordo integralmente, até porque no contexto em que foi dita representa uma brincadeira que só quem sai de casa com o bom-humor guardado no bolso entende).

Até.

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