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OS ASSOMBROS

Um dos registros mais bacanas que tenho veio com um CD encartado no livro Um homem iluminado, biografia do Tom Jobim escrita por sua irmã, Helena. O CD foi só mais uma idéia genial desse gênio que é Chico Buarque de Holanda. Helena, que pedira ao Chico para escrever o prefácio do seu livro, recebeu de volta um CD com alguns registros do irmão, Tom Jobim, mostrando melodias ao piano para seu parceiro – um troço lindo, comovente, uma sacada incrível do Chico. É o que consta da faixa 01 do CD:

“Helena, querida, aqui é o Chico. A leitura dos originais do seu livro me comoveu e me levou a fuçar a minha fitoteca atrás da voz do Tom. Encontrei essas gravações caseiras onde seu irmão me mostrava músicas novas pra eu colocar letra. Você me pediu um prefácio. O prefácio foi assim, na voz e no piano do Tom.”

As demais faixas mostram Tom Jobim quase sempre calibradíssimo (Chico também, em algumas, ouvindo e dando seus pitacos), inspiradíssimo, e, num determinado momento – é o que lhes direi e mostrarei – surpreso.

Ao mostrar a melodia de Luiza para o Chico (que acabou sendo letrada pelo próprio Tom, apenas), dá-se que pouco mais de 2min depois do início da gravação, ouve-se uma contida gargalhada dada por Tom Jobim, um riso de gôzo, de prazer, e ele diz:

– Essa eu juro que não fui eu quem fiz…

Visivelmente impactado com a própria criação. Com a beleza da melodia – e Tom Jobim dá de falar em francês, enquanto executa a canção ao piano. É evidente que trata-se de uma brincadeira do Tom (sinto-me ridículo explicando isso, mas o mundo anda tão estranho, as pessoas parecem usar antolhos, tudo é levado a ferro e fogo, e não duvido nada, por exemplo, que haja alguém capaz de enxergar, na gargalhada e na frase, uma prova efetiva de que Tom Jobim estava servindo de cavalo pra algum espírito trazer a melodia à Terra!). Fato é que o sentimento que provocou a frase – aí sim! – é muito comum, muito, muito!

Daí dei de divagar, de digressionar, e não tenho feito outra coisa, e cada vez com mais afinco, com mais apuro. Sou, de uns tempos pra cá, funcionário dedicado e exclusivo a serviço de mim mesmo, patrão implacável a exigir do empregado empenho máximo. Quantas vezes – esse, o foco de minha divagação depois de ouvir o Tom – nos surpreendemos diante desse susto, desse assombro, desse desassossego?

Não estou nem a falar do déjà vu, também corriqueiro: falo de algo mais concreto (porque mais evidente, embora inexplicável), mais intenso, mais bruto. Algo tão intangível quanto a saudade do que não vivemos ou, o que pode ser ainda mais angustiante, a saudade do por vir, algo que Vinicius de Moraes sugeriu quando escreveu “essa mão que tateia antes de ter”.

O que fazer diante desses assombros? O que fazer e como administrar essa angústia do querer-viver o que não se justifica pelos parâmetros quase sempre mesquinhos que utilizamos para balizar o que sentimos, o que fazemos, o que produzimos? Tom Jobim, ali, parecia assombrar-se com a beleza da melodia por ele composta dias antes – daí a blague que fez.

Tudo muito confuso – reconheço. Idéias lançadas, sem ordem, sobre o criado-mudo imaginário a meu lado.

Mas que fique aqui, como registro – para que eu volte ao tema e às minha reflexões. Fiquem, por enquanto, com este assombroso registro jobiniano.

Até.

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