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O MENINO BENJAMIN

Quando escrevi o texto que publiquei anteontem, lhes contei:

“(…) e fechando a semana de beleza intensa, outra notícia de me-derrubar: Luiz Antonio Simas e Candinha, pais do pequeno Benjamin, deram-me a incumbência de apadrinhar o moleque, o que me fez chorar quase o dia inteiro ontem. Eu não tenho mais, disse isso a eles, a coisa mais bonita que eu sempre pude oferecer aos meus afilhados, que é a dinda… Mas serei, lá vai mais uma certeza, o melhor padrinho do mundo pro garoto. A vocês, meus irmãos Simas e Candinha, minha gratidão, meu respeito e minha emoção mais pura.”

E talvez não tenha sido preciso do início ao fim pela primeira vez – explico.

A incumbência que me foi dada – a de ser padrinho do moleque – tem uma peculiaridade que ainda não lhes contei: eu serei, segundo me foi dito, o padrinho de rua do garoto, ou, como também me disse o pai, seu padrinho de carioquismo – e ambos os títulos me comovem sobremaneira. A cerimônia de batismo, absolutamente ecumênica e carioca, sincrética e simples, será no Aconchego Carioca, quintal de tantas domingueiras – na Tijuca, é claro.

Mal sabem os pais, entretanto – ou sabem… e é claro que sabem, eles que são dois craques, sensíveis da sola dos chinelos à raiz dos cabelos (no caso do pai, dos poucos que lhe restam…) – que esse presente que acabam de me dar, que é a honra de apadrinhar o menino, me chega num momento em que vivo absolutamente só e sem nada – é como me sinto. Quase seis meses depois do desaparecimento da Dani ainda não (re)aprendi a viver.

E é assim, eis a confissão que quero lhes fazer nessa manhã de Natal, eis a confissão que faço a Candinha e a Luiz Antonio Simas, que recebo o pequeno Benjamin: com a alma renovada pela gargalhada do menino, com a mesma disposição que ele tem, aos nove meses, de, engatinhando, engatilhar as pernas e os joelhos em busca do primeiro passo. Benjamin, filho de Exu, por Exu protegido – foi o que disse o Ifá – há de ter, no padrinho de rua, filho de Ogum como seu pai, um padrinho dedicado que, de certa forma, nasce e cresce junto com ele.

Como se não bastasse seu pai, um brasileiro máximo, um carioca apaixonado por São Sebastião do Rio de Janeiro, como se não bastasse a mãe, a candura e a dedicação em pessoa, Benjamin terá do dindo o que, sei, seus pais esperam. No que depender de mim, Benjamin saberá, desde tenra idade, que tenra também é nossa terra e tenro também é nosso chão. Saberá respeitar os mais-velhos, os cabeça-branca, saberá que nascemos e vivemos numa cidade e num país moldados pelas mãos calejadas de tanto bater tambor, de tanto cortar cana-de-açúcar, numa cidade que guarda nas pedras pisadas do cais o monumento de nossa alma tantas vezes fustigada e lanhada pelo chicote do feitor. Benjamin caminhará pelas ruas como quem samba, bordejará como um choro do Pixinguinha, saberá driblar as agruras da vida como nos ensinou, a todos, o Anjo das Pernas Tortas. Benjamin, filho de Exu e por ele protegido, reconhecerá em mim o irmão de fé de seu próprio pai, e eu serei, como me ensinaram os mais-velhos, o padrinho (o pai-pequeno) que ele sonhou antes de voltar à Terra. Benjamin há de saber quem foi o Velho Lua, há de se orgulhar de ser bisneto de Luiz Grosso a quem nem eu mesmo conheci, mas a quem reconheci, desde o primeiro encontro, nos olhos claros de seu pai de sangue. Benjamin há de saber do jongo, do candomblé, da umbanda, da macumba e do xambá, e há de sorrir – eu sei que ele vai sorrir! – quando der de frente com o São Jorge, com o Ogum que guarda minha casa e que guardou, durante muitos anos, o congá de sua bisavó, nos terreiros de encantaria que foram o quintal de seu pai. Há de respeitar, o menino Benjamin, as árvores e os rios, a pedrinha miudinha, o tempo quieto e as mais violentas ventanias. Benjamin há, no que depender de mim, de louvar, permanentemente, nossa ancestralidade, os orixás e os encantados.

Benjamin, que já hoje vive mais à vontade na rua do que em casa, há de respeitar as esquinas e gostar de futebol. Há de, como seu pai Exu, entender que o branco e o preto, que a dor e a alegria, que a claridade e o breu, são tênues diferenças que só os mais sabidos compreendem.

Benjamin há de saber da Dani, minha menina, ela também comadre de seus pais, e vai entender que muito do que vai em mim foi por ela plantado e é por ela, pela saudade que ela deixou, mantido. Há de entender, o homem Benjamin, que as mulheres são tudo e que não somos nada…

Há de ser, como são seus pais, um brasileiro máximo. E cresceremos muito, e cresceremos juntos, e seremos, também, irmãos de fé.

De novo, mais uma vez, minha mais profunda gratidão a Candinha e a Luiz Antonio Simas. Vocês, meus amados irmãos, me salvam.

Até.

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DANIELLI PUREZA, UM PRÊMIO

Vira-e-mexe digo pra mim mesmo a frase com que um de meus orixás vivos, Aldir Blanc, encerrou uma de suas cartas dirigidas ao jornalista Arthur Dapieve, aqui: “Milhões e milhões de pessoas vivem e morrem sem conhecer esse sentimento.”. Aldir se referia, ali, ao amor que nutre pela sua mulher, e a frase é exatamente perfeita se aplicada a mim, que vivi com minha menina, desaparecida desde 09 de julho de 2011, uma história de amor dessas que chegam a doer de tão bonitas e intensas.  Eu, que tão despudoradamente venho, desde sempre!, contando aqui as nossas (e agora minhas…) histórias, estou chegando ao fim de uma semana que me foi emocionante como há muito eu não atravessava.

Na terça-feira fui surpreendido com um e-mail que me foi enviado pelo Sergio Barreto, Diretor de Pesquisa & Desenvolvimento do Ometz Group, que (retirado daqui“opera nos segmentos de educação e comunicação. Está presente em mais de 70 municípios brasileiros e também na Argentina e EUA. Hoje, fazem parte de sua holding 15 empresas e mais de 19 mil profissionais. Com a abertura do sistema de franquias, em 2000, e a criação da Lexical, em 2003, a companhia vivenciou o maior crescimento da sua história até então. Também em 2003, a empresa inovou e abriu sua primeira unidade offshore, destinada ao ensino de inglês para funcionários de plataformas de petróleo. Em 2005, a empresa deu seu primeiro grande passo em direção ao segmento de comunicação, com a produção do longa-metragem That´s All About Fame, que compõe o material didático da Wise Up. A composição do Ometz Group como holding se deu em 2008, com a criacão e o crescimento consolidado de várias empresas e áreas do grupo. Na área educacional, o Ometz Group atua com foco em todas as classes sociais por meio de seu mix de marcas, composto por Go Getter, Wise Up, Lexical e You Move. A Wise Up é hoje líder no segmento de ensino de inglês para adultos na América Latina. Para dar respaldo aos nossos mais de 400 franqueados, o Ometz Group dispõe de três empresas, a Wise Up Franchising – franqueadora das marcas Wise Up, Lexical, You Move e Go Getter – a Sparta Consulting – que oferece às franquias soluções específicas de gestão – e o Hunting Winners, que representa hoje a solução de integração entre os profissionais que atuam nas mais de 400 unidades da rede. No âmbito da comunicação, o Ometz Group atua nos segmentos audiovisual, publicitário, editorial e de telecomunicações. A Mindset Films é a produtora do Grupo e dentre os trabalhos já realizados, estão cinco longa-metragens que compõem o material didático de nossas escolas. A Yeah! é uma agência de publicidade que atende clientes no Brasil e exterior e é também responsável pelas ações de comunicação das empresas do Ometz Group. A Skopos Editora é responsável pela criação e distribuição dos materiais didáticos das escolas de idiomas do Grupo, e o Ring One é um Contact Center que atua de forma inteligente e em tempo real.”.

Fiz questão de transcrever a descrição que consta do site da empresa justamente para que vocês possam ter exata dimensão do tamanho do grupo, do qual Dani fez parte desde que voltou ao Brasil, em 1999.

E isso – exata dimensão – é o que me dá a iniciativa que me foi anunciada por e-mail:

“Edu: A partir de 2012 todo ano vamos entregar o Prêmio Danielli Pureza para a escola que demonstrar excelência na educação e na formação de profissionais. O prêmio será entregue na Ometz Conference no dia 06 de janeiro às 15 h, em São Paulo. Gostaria que você entregasse este prêmio no ano da sua criação. É uma maneira de homenageá-la e também de ter certeza de que todas as gerações de professores e coordenadores do Ometz Group saibam da importância que ela teve na história do grupo e de seu crescimento. Com certeza ele não seria possível na área educacional sem a presença da nossa Dani. O premio terá o formato dos desenhos abstratos que a Dani fazia quando estava em reunião, refletindo sobre problemas e suas soluções. Eram desenhos abstratos que ganhavam forma à medida que a reunião caminhava. Ainda não tenho a arte final mas quando tiver te mando. Acho que sempre aprendemos coisas quando as pessoas nos deixam, foi assim com a morte do meu pai e da minha mãe – e este prêmio que levará seu nome pelo menos enquanto eu ainda estiver por aqui para entregá-lo – é uma forma de deixá-la sempre como legado, como forma de dizer sim à vida,tão apaixonada que a Dani sempre foi e é, por educação e pessoas.”

Eu, meus poucos mas fiéis leitores, não preciso, em absoluto, do que quer que seja para ter exata dimensão da mulher que foi e que é a minha garota, hoje bambeando no infinito e me deixando absolutamente perdido por aqui. Mas perceber sua grandeza, também para os outros, é uma experiência indizível, emocionante, dessas de derrubar e amolecer o mais duro dos corações (o que está longe de ser o meu caso, um derretido na mais ampla acepção da palavra).

Ontem à tarde, estando eu ancorado no balcão do Bar Rebouças, chegou-me por e-mail a arte-final do prêmio que entregarei no dia 06 de janeiro, em São Paulo. Fui, ali, diante da beleza da coisa, um homem em frangalhos tomado por uma emoção que até então eu não experimentara. Assim foi apresentada a arte-final, pela agência que a criou:

“No segundo dia da Conference, todos os coordenadores do P&D se reunirão para premiar a escola que, durante 2011, demonstrou maior comprometimento com a educação e a qualidade de ensino. Este prêmio será batizado de “Prêmio Danielli Pureza”, uma homenagem a essa que foi um grande exemplo de zelo pela qualidade dentro das unidades. Seus rabiscos abstratos e num primeiro momento sem sentido, logo tomavam forma e surpreendiam a todos, tal qual sua inexplicável alegria em meio a tantas dificuldades de saúde se vertiam em surpreendentes resultados em seu trabalho. Sempre acompanhada de seu sorriso cativante, Pureza fez do prazer de formar pessoas uma cura tão implacável, que nem o pior dos cânceres poderia detê-la. Um traço simples, puro, retrata toda a grandeza e de seu olhar. Mechas de cabelo feitos em rabisco de mão saem do topo de sua cabeça, representando o quanto sua visão ia além de qualquer debilidade física, ao longo do caminho tornam-se raízes que representam a profundidade de sua dedicação e por fim tomam a forma de mãos que escrevem, mãos que lecionam, como as de Pureza, que tinha em mãos a cura do maior câncer da humanidade: a falta de conhecimento.”.

Ora, bolas… eu, me conhecendo como eu me conheço, já antevejo como será a cerimônia de entrega do prêmio…

Eu terei – sei que terei! – a capacidade mágica, encantada, misteriosa, movido por um misto de saudade, de amor, de alegria e de orgulho, de tornar quase-sagrado o certificado, que há de levar para o(a) vencedor(a) do prêmio, em 2012 e nos demais anos seguintes, o axé, a força, a energia e a grandeza da minha menina.

Meu coração, em ligeiro descompasso, abalado e revigorado diante da beleza em estado bruto que essa iniciativa representa, há de suportar o tranco.

Até.

P.S. 1: torno público meu agradecimento e minha gratidão a esse homem que pensou na homenagem, Sergio Barreto, uma das pessoas que Dani, enquanto esteve por aqui, mais amou e admirou – amor e admiração que permanecem, tenho certeza -, a Flávio Augusto, Presidente do Ometz Group, que com Dani conviveu, profissionalmente, por mais de 12 anos, e a cada um dos funcionários que, também tenho certeza, vibram diante da justíssima lembrança que a eterniza, também, entre eles;

P.S. 2: se você quiser ver e ouvir o Sergio Barreto apresentando, conversando e entrevistando a dona do sorriso mais bonito do mundo, assista isso aqui;

P.S. 3: no dia seguinte ao que recebi tão bonita notícia, o artista plástico Mello Menezes enviou-me um desenho da Dani absolutamente genial, igualmente emocionante, e sobre ele – seu fim! – falarei mais adiante;

P.S. 4: e fechando a semana de beleza intensa, outra notícia de me-derrubar: Luiz Antonio Simas e Candinha, pais do pequeno Benjamin, deram-me a incumbência de apadrinhar o moleque, o que me fez chorar quase o dia inteiro ontem. Eu não tenho mais, disse isso a eles, a coisa mais bonita que eu sempre pude oferecer aos meus afilhados, que é a dinda… Mas serei, lá vai mais uma certeza, o melhor padrinho do mundo pro garoto. A vocês, meus irmãos Simas e Candinha, minha gratidão, meu respeito e minha emoção mais pura.

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UMA NOITE IMPERIANA

– E aí, Edu! Como foi na Cinelândia?

Foi o que me perguntou, aflito e ansioso pelas notícias, às nove e quarenta da manhã de hoje, o Favela.

Eu poderia ser sucinto, como nunca fui, e responder do alto do orgulho que só os boêmios têm:

– Comecei bebendo uma cervejinha com o João Bosco às seis e cheguei em casa às seis…

Como jamais – com a ênfase szegeriana – fui sucinto, vamos aos fatos.

Às seis da tarde bateu-me um fio (acordei velho, velhíssimo… quem, meu Deus, nas novas gerações, bate um fio para alguém?????), conforme o combinado, o João Bosco. Encontramo-nos no Odeon, pusemos o papo em dia – aliás, belíssimo papo e prenúncio de uma noite histórica, até que estrilou meu telefone. Era papai.

Papai, que recusa-se, como um teimoso incorrigível, a sair de casa à noite, rendeu-se a meu convite e ao amor que sente pelo Império Serrano e foi, com mamãe, para a festa da verde-e-branco de Madureira.

Isaac Goldenberg e Mariazinha Goldenberg, Teatro Rival, 16 de janeiro de 2008

Meu pai estava visivelmente emocionado – ele negará isso até a morte, mas estava -, assim como minha mãe, que derrubou-se à certa altura. Vou lhes contar.

Durante todo o show – que foi belíssimo e emocionante – papai marejava os olhos, cutucava a mim e ao Fefê e dizia em tom paternal:

– Aprendam, meus filhos… Isso é uma escola de samba!

Até que senti as unhas de mamãe cravadas em meu braço.

Jorginho do Império cantava, à capela:

“Uma pequena notável
Cantou muito samba
É motivo de carnaval
Pandeiro, camisa listrada
Tornou a baiana internacional
Seu nome corria chão
Na boca de toda gente

Que grilo é esse?
Vou embarcar nessa onda
É o Império Serrano que canta
Dando uma de Carmem Miranda

Cai, cai, cai, cai
Quem mandou escorregar
Cai, cai, cai, cai
É melhor se levantar, oi…”

Bem a calhar o refrão.

Mamãe estava derrubada, olhos cheios d´água, como cheio de balões esteve, ontem, o céu de Madureira, e disse:

– O primeiro carnaval do Fefê…

E quando seus olhos deitaram-se sobre os meus, lembramos, em comovido silêncio, que era esse um dos sambas que ela cantava, formosa que sempre foi, para me fazer dormir.

Leiam Reminiscências do Carnaval, por favor, escrito em 04 de fevereiro de 2005, há quase três anos, portanto, e vejam que não minto, que sou preciso do início ao fim. Leiam, por favor… aqui, porque é comovente demais a percepção e a confirmação de nossa própria coerência!

João Bosco, Teatro Rival, 16 de janeiro de 2008

As apresentações, todas, foram belíssimas. Além do próprio Jorginho do Império, se apresentaram Moyseis Marques acompanhado por Tiago Prata, Cláudio Jorge, Dorina, Wanderley Monteiro, Nilze Carvalho, Andréia Caffé (a grande surpresa da noite, salve Nova Iguaçu!!!!!) o Jongo da Serrinha comandado por uma sempre iluminada Tia Maria, a Velha Guarda Show do Império Serrano, Zé Luiz, João Bosco, a bateria da verde-e-branco com seus agogôs inconfundíveis e se o objetivo da escola foi angariar axé… estejam certos… o Império Serrano vai pisar forte, fortíssimo, na avenida!

Desnecessário dizer que o Teatro Rival, em uníssono, cantou Oguntê, Marabô, Caiala, Sobá, Oloxum, Ynaê, Janaína e Yemanjá, e que transformou-se em misterioso mar de lágrimas que brotavam dos olhos dos presentes à festa – dessas de não se esquecer jamais.

Danielli Pureza e João Bosco, rua Álvaro Alvim em frente ao Teatro Rival, 16 de janeiro de 2008

Agora prestem atenção.

Saímos do Rival, tontos de felicidade, e sentamos diante do teatro – havia mesas espalhadas pela rua – para mais um bocado de cerveja, que a sede era de anteontem. A escalação da mesa: eu, Dani, João Bosco, Simas, Candinha, Mussa, Elaine, Prata, Luísa, Moutinho e Flávia.

Acontece, meus poucos mas fiéis leitores, que quando a noite é mágica as surpresas se sucedem, a boniteza fica sendo cada vez mais presente e a berzundela não cessa.

Havia uma mesa, ao lado da nossa, na qual bebiam, e jogavam conversa fora, uns cinco, seis malandros. Todos na faixa dos cinqüenta anos – eu conhecia apenas o Ivan Milanez -, os caboclos foram se chegando, como só em buteco mesmo, e começaram a puxar sambas, um atrás do outro – meus amigos testemunharão a meu favor! -, um mais bonito que o outro, até que um deles – Careca, foi como ele se apresentou – disse:

– Canto os sambas do Império de 1948 até hoje, se vocês quiserem!

Sacou de um pandeiro, mandou ver, cantou Silas de Oliveira que nenhum de nós conhecia, cantaram e dançaram jongo nas pedras pisadas daquela rua, durante a madrugada, e o furdunço só terminou quando o dono do bar em frente pediu arrego.

João Bosco, Ivan Milanez, Careca e amigos na rua Álvaro Alvim em frente ao Teatro Rival, 16 de janeiro de 2008

Despedimo-nos, todos rigorosamente embriagados pela beleza da estreladíssima noite de quarta-feira, e foi o João que propôs, às três da manhã:

– Vamos comer um javali no Capela?

De lá saímos, em estado bruto de felicidade, às cinco e meia da manhã, com mesas e cadeiras empilhadas, Miro e Cícero a postos aguardando a debandada, o sol forçando a barra da noite, e eu me despedi de todos, um por um, agradecendo pela graça do encontro e pela força da noitada.

Luiz Antonio Simas, Marcelo Moutinho, Flávia, Elaine, Alberto Mussa e João Bosco, Nova Capela, Lapa, Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 2008

Disse no ouvido do João, antes de entrar no táxi, blanquianamente:

– Eu gosto quando alvorece porque parece que está anoitecendo…

E ele, de volta:

– E gosto quando anoitece que só vendo porque penso que alvorece…

Fui, pelo caminho, cantando:

“… e então parece que eu pude
mais uma vez, outra noite,
reviver a juventude.
Todo boêmio é feliz
porque quanto mais triste
mais se ilude.
Esse é o segredo de quem,
como eu, vive na boemia:
colocar no mesmo barco
realidade e poesia.
Rindo da própria agonia,
vivendo em paz ou sem paz,
pra mim tanto faz
se é noite ou se é dia.”

Até.

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SIMAS E SEU PESADELO DA HORA

Ontem à noite estive, na doce companhia do Simas e da Candinha – uma santa – jantando no Huan Lian, restaurante chinês escondido e encravado na Praça da Bandeira, na Tijuca (onde mais eu jantaria?), tremenda descoberta minha e da Dani, comandado pelo Lin e por sua família. Éramos, como sempre acontece, os únicos ocidentais no pedaço. Fartamo-nos com um Pato à Cantão que custou R$40,00. Eu disse isso – o preço – só pra contar que no restaurante metido à besta do Eike Batista, na Lagoa, a mesmíssima iguaria custa pra lá de R$200,00. Pose – como diria o Manoelzinho Mota, com a licença do Simas – é foda. Pigarreio, arroto (o pato) e sigo.

Enquanto jantávamos, eu gemia de saudade da minha garota, viajando a trabalho. Até que eu disse, com o olhar distante, fixado no mais feio lustre de toda a Tijuca, violáceo com detalhes prateados, quiçá da China:

– Detesto dormir sem ela… Não tenho ânimo sequer pra vestir o pijama quando chego em casa…

Foi eu dizer essa frase e a Candida, que chegou a deixar cair sobre a mesa o osso da coxa do pato que chupava, lamentou, grave, fazendo bico e revirando os olhinhos:

– Por que é que você foi falar essa palavra, Edu?!

Eu ia responder, quando o Simas, feito um possesso, tomou a direção do banheiro.

– Que palavra, Candinha?

Ela, checando se ele a ouvia:

– Pijama.

– Pijama?

– Desde que eu dei ao meu irmão, no Natal, um pijama de presente, que o Luiz Antonio reclama um pijama pra ele… É tipíco dele, Edu, um ciumento…

Pausa explicativa: a Candida nunca – com a ênfase szegeriana – chama o marido de Simas. Assim como a Luísa nunca – idem, idem – chama o Prata de Prata.

Volta o Simas à mesa.

caricatura de Luiz Antonio Simas, por Stocker

Tem os olhos vermelhos, a face afogueada. Senta-se. Senta-se e dá um murro na mesa. Entre dentes, num acesso de bruxismo às escâncaras, mas num tom bruno, diz baixinho:

– Você usa pijamas?

Antes mesmo de eu responder, ele emenda:

– Aliás, você tem pijamas?

Eu, não mentindo, mas provocando de leve, respondi como se puxasse pela memória:

– De seda ou de algodão?

Tomei um chute da Candida – que calçava um All Star estampado com personagens de hitórias em quadrinhos – por baixo da mesa.

– Você tem dos dois? – perguntou o Simas, aflito.

– Sem contar os de flanela…

– Flanela? – e danou de chorar feito criança.

Candida me deu outro bico e nem disfarçou:

– Tá satisfeito?

E ficou fazendo cafuné na careca do marido.

Eis aí, meus poucos mas fiéis leitores, um espetáculo kafkiano.

Não há, no alto da cabeça do protagonista de hoje – ou mesmo do lado, atrás – um único projeto de fio de cabelo. Não há a mais remota expectativa de um fio de cabelo. Não há a esperança, mesmo distante, da mais remota penugem. Um tufo, que seja. Nada. O Leo Boechat, por exemplo, é uma Rapunzel ao lado do Simas. Daí a barbaridade que foi assistir a Candinha fazendo carinho com os dedinhos naquela superfície árida como se enrolasse cachinhos imaginários.

Simas foi amansando.

Da aparente revolta passou ao estado de tristeza absoluta.

Fez beicinho.

Deixou cair uma única lágrima do olho direito, que enxugou com o dedo médio da mão esquerda.

E falou, trêmulo, como que discursando, enquanto bebericava o chá de jasmim:

– Candida… me prometa que de amanhã não passa! Ou não durmo nunca mais, Candida! Um homem que dorme sem pijamas é um homem sem-caráter. É um nu. É um indecente indigno! Quero pijamas, Candidas! Vários! Vários! – foi num crescendo.

Ela, doce, sorrindo em direção ao Lin (frase na testa: não ligue, senhor, meu marido é um desequilibrado):

– Prometo, Luiz Antonio…

– Quantos, Candida?

– Quantos você quer, Luiz Antonio?

E ele, de primeira:

– Somando todos, Edu… Quantos você tem?

– Uns vinte.

– Quero quarenta, Candida. No mínimo!

Como se vê, um doente.

Até.

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MULHERES E SUAS OBSESSÕES

Eu e Simas passamos, há uns dias, pela mesmíssima experiência, levados, cada um, respectiva e obviamente, pelas mãos de nossas garotas, Dani Sorriso Maracanã e Candida. Deu-se assim a descoberta da coincidência: bateu-me o telefone o Simas, e aflitíssimo – notei pela respiração curta e ofegante.

– Onde você está?

– No shopping.

– Meu Deus!

– E você?

– No shopping.

– Meu Deus! Fazendo o quê?

– Comprando um colchão com a Candida. E você?

– Comprando um colchão. Sem a Dani mas a mando dela. Meu Deus…

– Daqui a uma hora no Rio-Brasília, Edu, por favor.

– Ok!

E nos encontramos, de fato, no Rio-Brasília.

Eu, quando cheguei, já encontrei o simpático casal à mesa. Candida, candidamente sorvia Coca-Cola de canudinho, e o Velho Simas, vermelhíssimo, no maracujá. Ergueu-se o Simas, quando me viu, e deu-me um abraço que só os irmãos dão, cochichando-me ao pé do ouvido:

– Uma fortuna! Uma fortuna!

– Nem me diga! Nem me diga, Simão!

Sentei-me, pedi um maracujá pra mim, e puxei da carteira, revoltado, um panfleto.

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– Simas, veja se isso é possível! A Dani enlouqueceu, camarada! Com o dinheiro desse colchão eu passaria o carnaval à base de uísque, pagando tudo pros amigos, gastando, gastando, e ainda me sobraria para uma viagem ao nordeste, eu e ela, pra descansar dos quatro dias de folia!

O Simas bateu os olhos no panfleto e parecia aterrado com o que lia.

– Desde 1898?

– Pra você ver…

– Cinco zonas de suporte especializadas que proporcionam uma melhor adaptação anatômica?

– Pra tu ter noção da coisa… Se eu me mexer à noite, malandro, e meu cotovelo, por exemplo, entrar na zona da coxa da minha garota, fudeu, eu acordo praticamente aleijado…

– Parecido com o meu! Também tem tecnologia HardFoam?!?!?!?!

– Mas é claro! Dani fazia questão disso!

– Candida também, caralho… – e Candinha continua chupando o canudinho prestando tremenda atenção ao nosso desabafo.

– Edu! E há zonas de suporte especializadas estrategicamente localizadas e fileiras de molas mais firmes que dão o suporte anatômico correto às zonas críticas do corpo?

– Há. Claro que há. O que eu não sei, sinceramente, é quais são as zonas críticas do meu corpo – eu disse alisando a barriga proeminente.

– Nem eu – devolveu o Simas coçando, acintosamente, o saco…

– Luiz Antonio! – ralhou Candida.

Ele fez que não ouviu.

– Simão… E por falar em molas…

– Dani também fez questão de molas ensacadas?

– Evidentemente! A recomendação foi expressa! Não importa a marca! Não importa a cor! Não importa nada! Nada! Tem que ter molas ensacadas!

Eis aí, meus poucos mas fiéis leitores, o instante em que interrompo a verídica narrativa para uma breve digressão, que fiz, de pé, e com veemência, para um Rio-Brasília atento.

Falo tendo a Dani como parâmetro, mas sei que o troço vale para qualquer mulher.

Dani viveu décadas dormindo feliz. Dormiu em colchões de mola, em colchões de espuma, em esteiras quando necessário, em sofás quando não tinha jeito, em colchonetes ordinários quando era essa a única opção. Nunca, jamais, em tempo algum reclamou da noite reparadora. Nunca. Mas bastou ver – e aonde eu não sei! – uma propaganda – e eu sempre digo que a propaganda e o marketing são a raiz da infelicidade humana – de colchões com molas ensacadas que tornou-se, o tal produto, sua obsessão olímpica.

Eu, inclusive, se solteiro fosse – fica minha dica – sairia no Bola Preta fantasiado de mola ensacada, uma fantasia simples, bastaria um lençol em volta do corpo, dizendo no ouvido das moças “oi, sou uma mola ensacada, vem dormir comigo que você jamais vai se arrepender” e outras merdas do mesmo gênero. Eu comeria, tenho uma inabalável certeza quanto a isso, várias foliãs, várias, mesmo sendo esse feio que eu sou.

Daí as mulheres, facilmente levadas no bico – que expressão velha! que expressão caquética! -, passam a PRECISAR de um colchão de molas ensacadas para serem mulheres felizes. O marido não mais importa. O namorado é um ninguém. Tudo passa a girar em volta desse mito que é o colchão de molas ensacadas. Choram, fazem beicinho, passam a rolar na cama à noite como nunca dantes atribuindo a insônia à ausência de molas ensacadas, um inferno.

Mas eis que então, colchão escolhido, Dani mandou-me à loja. Lá fui eu, triste, mas fui, que um pedido da minha menina eu não nego.

Entro no loja e vem a vendedora, que não sabe que estou ali com ordens a cumprir. Por coincidência, me aponta o colchão escolhido pela Dani, o que, aliás, torna ainda mais evidente o quanto é agressiva a publicidade da coisa. Estende-me o folheto.

Eu faço:

– Oh!

E ela sorri aquele sorriso peguei-mais-um-otário.

– Gostou, senhor?

– Hum. Mais ou menos.

Ela se decepciona e quase me agride:

– Como?! São fabricados desde 1898!

– Foda-se, minha senhora. Há muita merda fabricada desde muito antes disso…

Ela, com metas a cumprir, finge que não ouve a agressão.

– Mas, senhor… Mas ele é feito de molas ensacadas, e a ação independente das molas asseguram que os movimentos de sua companheira não lhe incomodem durante seu decanso…

– Minha senhora, mas à noite eu quero é rosetar! Se ela dança, eu danço!

Ela vai enrubescendo de ódio mas mantém a fleuma:

– As bordas do colchão são super firmes para sentar…

– Eu sento em poltrona, porra!

Rola uma lágrima dos olhos da vendedora, que range os dentes, num acesso de bruxismo à plena luz do dia.

Até que eu morro de pena e dou o golpe final. Como um possesso, viro o panfleto e aponto.

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Finjo estar emocionado. Forjo o choro. E pergunto, já fungando, assoando o nariz, lencinho tirado do bolso na mão.

– O que houve, senhor?

– Como é seu nome?

– Cilene, senhor… O que aconteceu? Fui ríspida com o senhor?

– Não, em absoluto… Se a senhora tivesse me dito antes, dona Cilene…

– Dito o quê?

– Se eu soubesse, dona Cilene, que o doutor Vincent Lucido dorme em um colchão King Koil porque seu desenho anatômico se adapta corretamente ao seu corpo e proporciona o suporte que ele necessita e o conforto que ele quer… – assôo o nariz com força, fazendo um barulho asqueroso – E que é esse o colchão que ele recomenda a todos os seus pacientes…

– O senhor conhece o doutor… ? … como é mesmo o nome dele…?

Eu faço que sim com a cabeça e nos encaminhamos para a formalização da compra.

Contei essa história pro Simas que, diante de uma incrédula Candida – “Vocês, homens, não nos entendem nunca…” – rolava de rir nas calçadas da rua Almirante Gavião.

Até.

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