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O CONTRATO DO COMIDA DI BUTECO

Eu sou um sujeito – é um de meus jargões preferidos – preciso do início ao fim. Além disso, sou advogado. E, por vício de profissão, faço questão de provar, sempre que possível (a prova negativa, a título de ilustração, é impossível), tudo aquilo que digo. Dito isso, vamos ao que quero lhes dizer hoje.

Estávamos a poucas semanas da abertura oficial desse pernicioso festival que atende pelo nome de Comida di Buteco. Pelo twitter, eu disse uma ou outra coisa sobre o festival e o perfil do festival (@_comidadibuteco) começou a me desmentir (sempre se dirigindo a outros usuários, jamais a mim, através do perfil @butecodoedu). Foi um tal de “onde você leu tal informação?”, “não procede esta informação”, e outras evasivas do mesmo gênero. Pois bem, enquanto não consegui acesso ao contrato, ao regulamento e a seus 4 anexos, não sosseguei. Breve pausa: fico pensando no quanto é importante correr atrás de provas que dêem sustento ao que dizemos, fico pensando no modus operandide nossa imprensa meia-boca, fico feliz quando posso dizer, calcado em provas irrefutáveis, que acho isso e aquilo de determinada coisa. Voltemos.O festival, que diz por aí que prima pela simplicidade, que apenas zela pela cultura dos botequins, que preserva a cultura dos locais nos quais se realiza esse horror, obriga seus “convidados” – os bares participantes! – a um sem fim de regras que, só por serem regras, são a própria negação da cultura desse troço tão arraigado no dia-a-dia do brasileiro. Ainda mais sendo as regras que são. Vamos a elas. E prestem bastante atenção. Vocês podem clicar nas imagens para que possam ler, com mais clareza, as cláusulas do troço.

Vale dizer que o contrato aqui exposto diz respeito ao Comida di Buteco do Rio de Janeiro. Embora eu suponha que no resto do Brasil seja o mesmo contrato (são mais 14 cidades conspurcadas por eles), não me atrevo a afirmar isso.

Os bares participantes – vejam quanta formalidade! – devem entregar até 30 de novembro (ou seja, 7 meses antes) xerox da identidade e do CPF de um dos sócios, contrato social, cartão do CNPJ e alvará de funcionamento emitido pelo Poder Público. Devem, ainda, entregar devidamente assinados o contrato e seus anexos I, II, III e IV.

Devem se comprometer, ainda, a comparecer à sessão de fotos que será marcada pelos organizadores a fim de que sejam fotografados os pratos concorrentes e os sócios dos bares. Como a comissão organizadora é generosa, são oferecidas duas datas. E o que acontece se o dono do bar, por acaso, não comparece em uma das duas datas?! Ora, ela pagará a diária do fotógrafo (que deverá ser o mesmo indicado pela comissão organizadora – não há menção ao valor desta diária…) para que o mesmo se desloque até o bar para a sessão de fotos.

Dizem, os organizadores, que não serão aceitas incrições de “refeições”, apenas de petiscos.

E mais: os “caros parceiros” (sim, eles chamam os participantes sujeitos à tirania do festival de “parceiros”) são obrigados a comparecer à “reunião de abertura” e convidados para o que eles chamam de “desafio Doritos” (Doritos é um dos patrocinadores do negócio). Os participantes que fizerem “o petisco de Doritos” concorrem ao prêmio de R$ 5.000,00 “em verba para investimento no local.”.

Aí acima temos a explicação do “desafio Doritos” e do desafio Hellmann´s. Vejam que graça: “A Maionese Hellmann´s também fará uma premiação em dinheiro. Porém estarão participando os botecos que utilizarem o produto na própria receita do petisco concorrente.”. O Doritos oferecerá R$ 5.000,00. A Hellmann´s, “uma premiação em dinheiro”. De quanto? O contrato não fala.

Alguém aí sabe de algum buteco de verdade que usa Doritos ou maionese em suas receitas? Pois é. Viva a Jabalândia.

O próximo item é mais impactante, quando se trata das “obrigações de cada boteco participante”. Vamos destrinchá-las.

Chama muito minha atenção o item “a”, vejamos. Cada participante é obrigado a dizer, “de forma clara e detalhada”, suas receitas, seus ingredientes e o modo de preparar o prato. Pra que, hein?! Um dos participantes disse-me, com todas as letras, que o Comida di Buteco visa, em futuro próximo, comercializar os chamados “petiscos” concorrentes. Não tenho prova disso. Os organizadores negam. Mas pra quê – me pergunto – dar a receita detalhadamente, o passo-a-passo? E o segredo? E aquela dica, aquele fundamental passo da receita… por que querem saber, os organizadores, isso tudo? Não soa estranho a vocês?

O item “e” é Jabalândia total! Os bares participantes devem permitir a “distribuição e afixação de peças gráficas de divulgação do Comida di Buteco distribuídas e autorizadas pelo CDB e permitir ações de merchandising dos seus patrocinadores, especialmente distribuição de produtos, brindes, afixação de placas e peças gráficas, banners e/ou outros materiais de divulgação, durante toda a duração do concurso, nas dependências internas e nos arredores dos botecos, em caráter de exclusividade.”. Bacana, não?

Fico me perguntando: o que será considerado “arredores dos botecos”? A rua? O espaço público? Quem já foi a um dos bares participantes sabe: eles transformam o bar numa espécia de arraial da Jabalândia: bandeirolas de festa junina, banners imensos, cartazes, toalhas de papel padronizadas, e tome jabá, tome jabá, tome jabá!

Estão sentindo o drama? Pois ainda não viram nada.

Vejam o item “g” das obrigações… O Comida di Buteco proíbe – proíbe! – os seus “parceiros” de participarem de festivais congêneres. Proíbe! Salvo se prévia e expressamente autorizado pelos organizadores. Mas peraí… Eles não estão aí para divulgar a cultura do botequim? Não deveriam incentivar a participação em mais e mais palhaçadas da mesma natureza? Não, meus poucos mas fiéis leitores… Eles tomam conta da situação, compreendem?

E o que dizer do item “h” que obriga o participante a participar de um treinamento (isso, treinamento!) oferecido por “entidade com notório conhecimento na área de alimentos e bebidas e/ou hotelaria, em parceria com o Comida di Buteco”? O nome disso é padronização – e isso me dá um nojo absurdo! Quer dizer que o pé-sujo (e não há pé-sujo participando do circo, graças aos deuses…) deve receber treinamento de uma entidade qualquer escolhida pelo Comida di Buteco? E o respeito à cultura? É balela, balela pura!

O item “i” é outro nojo. Os bares devem permitir que “artistas plásticos realizem instalação artística no(s) banheiro(s) do boteco, a qual deverá nele(s) permanecer pelo período definido pelo CDB, não podendo o proprietário do estebelecimento se opor à montagem ou à desmontagem da referida instalação”. Vomitaram? Mas os banheiros não são também julgados?! Ocorre que os proprietários são obrigados a permitirem essa babaquice nos seus banheiros… Eu fico pensando na reação do Marreco (Bar do Marreco), do Paulo (Almara), do Chico (Bar do Chico), da Martha (Bode Cheiroso) diante dessa imposição… O mesmo item “i” deixa claro que existe, na encolha (vocês já viram isso na mídia?) um concurso em paralelo chamado “Arte no Banheiro”. Só que a arte do banheiro não é a arte do banheiro do participante, sacaram? Ela é imposta pelos organizadores…

O item “j” legaliza a presença do poder de polícia do Comida di Buteco, que poderá manter promotores e patrocinadores nas dependências dos bares participantes.

Bacana, né? Tem mais.

Os organizadores, no item “m” das obrigações impostas, obrigam os participantes a permitirem fotografia do bar, de sua fachada, do banheiro (!!!!!), dos proprietários, dos funcionários e dos clientes (!!!!!).

O item “n” prevê a desclassificação do bar cujo proprietário falte à chamada “reunião de abertura”.

O item “o” exige que pelo menos a metade dos funcionários dos bares participantes participem do treinamento a que se alude no item “h”.

O item “p” volta a obrigar o comparecimento na “reunião de fechamento de avaliação do evento”.

O item “q” – atenção!, atenção!, atenção! – diz que os organizadores poderão fazer, a seu exclusivo critério, cinco “eventos privativos ao longo do ano com cada boteco participante.”. Fica claro, ali, o que seja “evento privativo”? Não. Mas cheira mal.

E o item “r”? Tanto o Comida di Buteco quanto seus patrocinadores “poderão utilizar livre e gratuitamente a receita do tira-gosto concorrente do concurso Comida di Buteco e/ou do concurso Doritos, podendo, por exemplo, incluí-la em seus sites e/ou livro de receitas a ser eventualmente publicado”. Sacaram a pavimentação da estrada da Jabalândia? O sujeito, no ato da inscrição, é obrigado a dar o passo-a-passo de sua receita, de sua criação. Em contrapartida (sem qualquer contrapartida, afinal a utilização será livre a gratuita), o Comida di Buteco poderá publicar seu livro de receitas… O que lhes parece?

E como se não bastassem as 18 obrigações impostas aos participantes, temos ainda o capítulo que trata das proibições, das vedações. A primeira?

Os bares não podem permitir “ações de merchandising de empresas que não sejam patrocinadoras oficiais do Comida di Buteco.”. Aqui, uma rápida: desde quanto botequim, buteco, promove ação de merchandising? Em linhas gerais, sabemos que a Bohemia – péssima cerveja – patrocina o Comida di Buteco aqui no Rio. O buteco, que ao longo dos 12 meses do ano, por exemplo, recebe inventivo da Brahma, ou de outra cerveja qualquer, durante os 30 dias de duração do festival não pode exibir ostensivamente a marca de seu patrocinador, apenas do patrocinador da Jabalândia… Sacaram a crueldade? O quão pernicioso é o mecanismo dos caras? Eles fazem uma ressalva quanto a isso… Mas proibem ações extraordinárias durante o festival… Por que?! Jabá, jabá, jabá!

E se eles impõem 18 obrigações aos participantes, comprometem-se a apenas 3 coisas: “dar ampla assistência aos botecos concorrentes”, “resolver, junto ao público participante, qualquer tipo de dúvida” e “divulgar ostensivamente o concurso”. Que tal? Quem ganha com isso?!

Confesso a vocês que o que se segue é abjeto demais para que eu me debruce, ao menos por ora, e minuciosamente, sobre as demais cláusulas do contrato de adesão ao festival.

Mas o que se vê – e o que se lê! – é de uma calhordice revoltante. Eles próprios, organizadores, reconhecem que “muitas vezes não se encontram amparados por legislação específica”. Reconhecem, mais, “que constituem verdadeiros direitos e segredos estratégicos para o desenvolvimento do seu negócio”

O quê mais tem a desenvolver como negócio o Comida di Buteco?

A tal venda de produtos congelados nos supermercados? – como me foi ventilado.

A publicação de um livro de receitas com sua marca?

Como uma das atividades econômicas da empresa Comida di Buteco é – 47.89-0-99 – Comércio varejista de outros produtos não especificados anteriormente – tudo me soa muito mal nesse contrato.

As disposições finais estão abaixo.

E que não me desmintam mais uma vez, os organizadores.

Ao contrário do que pensam uns e outros, não estou aqui para destruir ou impedir o êxito do festival. Eu não tenho esse poder – e ainda que o tivesse, faria apenas o que venho fazendo.

Meu papel – e o exerço por dever de consciência – é apenas o de dizer: não caiam nessa esparrela, enxerguem o lobo por trás da pele de cordeiro, não sejam partícipes de uma ação perniciosa que luta contra – e com armas muito cruéis – uma de nossas mais caras tradições.

Até.

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ISSO É COMIDA DI BUTECO?

Recebi, ontem à noite, e-mail de uma de minhas poucas mas fiéis leitoras – de Belo Horizonte. Trata-se de uma moça que, à minha moda, revolta-se com a invasão de sua cidade por parte da horda de consumidores e seguidores da moda imposta pela mídia brasileira por conta do nefasto, nocivo e pernicioso festival Comida di Buteco, o festival da Jabalândia (leiam aqui).

E eu, que já havia inaugurado a série através da qual pretendo exibir as criações grotescas dos bares e botequins que se rendem às garras do festival aqui, volto à carga hoje pondo no balcão virtual o prato concorrente no festival em Belo Horizonte, nascedouro do troço, do Bar da Cida.

Eu, que não conheço o Bar da Cida e tampouco a própria Cida, falarei muito à vontade sobre o Floramar, que eles, organizadores, chamam de tira-gosto. O Floramar é, a foto é clara, uma gororoba de tremendo mau gosto que mais se assemelha a um outdoor disfarçado de tira-gosto. 

Trata-se de “carne de sereno, mandioca, cebola, alho, suco de siriguela, cogumelo fatiado, maionese, amido de milho, vinho, azeite, couve-flor, pimenta biquinho e cheiro verde”. Perderam o fôlego ou vomitaram lendo os ingredientes?

A foto – ah, a Jabalândia… – exibe a marca Hellmann´s (a maionese é uma das patrocinadoras da coisa) e a cerveja Bohemia, há muitos anos intragável.

Como os meus botequins de fé servem pratos que se resumem a uma palavra, duas no máximo (torresmo, pele, ovo colorido, carne-seca, lingüiça, por aí…), acho inacreditável a imposição do festival. Daí temos, além desse horror exposto hoje, “farofa de feijão andu com bacon puxado na manteiga de garrafa” (puxado?), “ossobuco desmanchado e carne de sol perfumados com limão siciliano em cama de angu e nacos de requeijão de raspa” (desmanchado?, perfumados?, cama?, nacos?), “lombo assado na maionese” (na maionese?), “surubim em cubos” (em cubos?) e um bolinho de carne-de-sol “finalizado com maionese” (finalizado com maionese?).

Se no Bar do Marreco, no Almara, no Bar do Chico, no Pink, no Columbinha, em qualquer outro do mesmo nível (todos portentosos butecos tijucanos), eu sonhar em pedir um desses troços no balcão, serei olhado com uma desconfiança irreversível.

Diante disso, resta-me dizer: fujam dos bares que participarão do festival, evitem esbarrar com os histéricos e com as histéricas no interior dos bares, onde eles terão chegado em vans alugadas para fazer o roteiro proposto pelos organizadores, não sejam idiotas a ponto de ficarem por aí conjugando o verbo proposto pelo festival – “Eu boteco, tu botecas, nós Comida di Buteco” -, não permitam que esse evento conspurque sua cidade e seu botequim preferido. Eu, ao menos, tenho imenso orgulho de dizer (e sou grato por isso) que os meus butecos de fé não participam dessa roleta-russa que visa, precipuamente, o lucro de quem, em pele de cordeiro, faz o papel do lobo devastador do sistema capitalista.
Até.

    

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ISSO É COMIDA DI BUTECO?

Ontem iniciei mais uma cruzada contra esse engodo que atende pelo nome Comida di Buteco – leiam aqui. Pois volto à carga hoje – e será assim durante os 30 dias de duração do troço – para exibir uma ignomínia sem tamanho, exaltada, é claro, pelo Festival da Jabalândia.

Um dos participantes do circo, aqui no Rio de Janeiro (e outras 14 cidades estão sendo, ao mesmo tempo, conspurcadas pelo negócio), é o Bar 20, em Ipanema, na zona sul. No site do Comida di Buteco lê-se que o tal bar concorre com um petisco (tenho nojo desse nome) chamado “20 Salpicá”, e o nível da piada que cerca o nome da horrenda criação é um bom indicativo da qualidade de coisa (“vim te salpicar”). O que diz o site (vejam aqui) sobre o concorrente?

Que trata-se de um “salpicão de feijão com palha de carne-seca e vários ingredientes”. Que tal? A foto está abaixo. 

É justo na desonesta informação – “vários ingredientes” – que se esconde o tesouro do Reino da Jabalândia. Como a maionese Hellmann´s patrocina o evento no Rio de Janeiro (e como se sabe um bom buteco não pode dispensar a maionese nos pratos que oferece, não é mesmo?), lá está ela. Esse troço é, na verdade, um patê de feijão com maionese Hellmann´s.

O site de notícias R7 (aqui) revela o que os organizadores escondem. Lê-se lá:

“A escolha dos ingredientes foi feita pelo gastrônomo e realizador do concurso, Eduardo Maya.

– O objetivo do concurso Comida di Buteco é resgatar a culinária de raiz do Brasil. Por isso busquei em nossos ancestrais colonizadores portugueses e índios os ingredientes que hoje conhecemos bastante na composição da feijoada.”

Ora, a “culinária de raiz do Brasil” (a expressão também me causa engulhos) usa maionese e eu não sabia! “Nossos ancestrais colonizadores portugueses e índios” usavam maionese e eu não sabia!

No R7 a descrição é mais fiel e, portanto, nos dá a exata dimensão do horror que o Bar 20 oferece: “salpicão feito com feijão, milho, pimenta, cenoura, tomates secos, pimentões sortidos e maionese aromatizada com suco de laranja. É servido com palha de carne seca e torradas”.

Por isso eu repito: fujam dos bares que participarão do festival, evitem esbarrar com os histéricos e com as histéricas no interior dos bares, onde eles terão chegado em vans alugadas para fazer o roteiro proposto pelos organizadores, não sejam idiotas a ponto de ficarem por aí conjugando o verbo proposto pelo festival – “Eu boteco, tu botecas, nós Comida di Buteco” -, não permitam que esse evento conspurque sua cidade e seu botequim preferido. Eu, ao menos, tenho imenso orgulho de dizer (e sou grato por isso) que os meus butecos de fé não participam dessa roleta-russa que visa, precipuamente, o lucro de quem, em pele de cordeiro, faz o papel do lobo devastador do sistema capitalista.

Até.

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VAI COMEÇAR O FESTIVAL JABALÂNDIA

A expressão “jabalândia” foi criada por meu chapa, Julio Bernardo, que mantém um blog, bastante polêmico, sobre gastronomia – aqui. E eu a uso sempre que me refiro ao festival Comida di Buteco, para o qual enviei carta aberta em maio de 2010 (leiam aqui), jamais respondida, diga-se, muito embora uma das sócias do empreendimento, Maria Eulália Araújo, tenha me batido o telefone, no ano passado, como já lhes contei:

“Foi simpática e incisiva durante o telefonema. Disse-me, entre outras coisas, que eu havia sido injusto quando escrevi o que escrevi ontem, aqui; que eu, como jornalista (foi o que ela disse, depois corrigi o equívoco), deveria apurar tudo sobre o festival para depois escrever sobre ele; que é uma luta colocar o “festival na rua”; que as críticas que fiz, noutras oportunidades, deveriam ser relevadas, eis que as indicações dos bares participantes das últimas edições, aqui no Rio, haviam sido feitas por “especialistas no assunto”, como Guilherme Studart e Moacyr Luz (por isso lembrei-me do tal projeto, citado no início); que minha crítica à inclusão de bares com redes de franquia ou com filiais não era de todo correta, pois no ano passado apenas duas casas (Academia da Cachaça e Siri) se enquadravam nessa condição. E convidou-me para uma conversa na semana que vem; e, por fim (houve mais, mas estou aqui fazendo apertada síntese), que eu desonrava minha participação no júri do ano passado esculhambando o festival.”

Bom, vamos aos fatos e ao que quero lhes contar hoje.

Justiça seja feita (sou, além de preciso do início ao fim, justíssimo): os organizadores do festival (que tem entre seus patrocininadores a maionese Hellmann´s, a Nestlé e o biscoito Doritos que, como se sabe, são ingredientes fundamentais a qualquer comida de botequim…, além das cervejas Bohemia, Itaipava e Kaiser, a TV Globo e a Band, O Boticário e a cachaça Ypióca) não inscreveram nenhum bar com filial (uma crítica minha ferrenha, desde a primeira edição), ao menos no Rio de Janeiro. Não sei quanto às outras cidades (são 15 cidades participando do troço) – se você que me lê puder me ajudar quanto a isso, agradeço.

O festival começa hoje, 15 de abril, e vai até o dia 15 de maio, o que significa dizer que no dia de meu aniversário, 27 de abril, como se já não bastasse dividir a data com o inacreditável Dia Municipal do Teatro de Bonecos, iniciativa do vereador Eliomar Coelho (como lhes contei aqui), a cidade estará, ainda, conspurcada por esse pernicioso festival.

Se você me considera um radical, um incapaz de tecer qualquer crítica sem o coração à frente, leia – recomendo com entusiasmo! – o que escreveu, sobre o Comida di Buteco, Luiz Antonio Simas, Historiador maiúsculo, professor as 24h do dia, um de meus mestres, aqui. Fala, Simas:

“O que esse Comida di Buteco propõe, infelizmente, se inscreve numa inversão perigosa: é um exemplo bem acabado – e assustadoramente corriqueiro – de submissão da cultura à economia. Explico.

A ideia do festival me parece ser a de transformar o que seria cultura de botequim em um bom negócio para todos. Tento acreditar, sinceramente, nas boas intenções do babado e é possível que os envolvidos no evento achem de fato que estão valorizando o boteco. Sinto dizer que não estão.

O problema é que ao invés de entender a economia como parte constitutiva da cultura – esse poderoso campo que engloba nossos atos e nos define como homens humanos – essa perspectiva inverte tudo e transforma a cultura em parte constitutiva da economia – esse campo que, quando determinante, nos define como meros consumidores, desumanizados por conseguinte.

Insisto: a economia é que deveria ser encarada como um dos aspectos da cultura. O festival transforma a cultura em um mero elemento submetido aos ditames do mercado. Quando isso acontece, o que era cultura perde toda a carga de representações de modos de viver dos homens e se transforma, esvaziada de sua dimensão vital, em simples evento ou entretenimento, como queiram.

O Comida di Buteco é isso: um evento, desprovido de qualquer outro valor que não seja o de movimentar a economia da cidade, divulgar os patrocinadores, difundir a imagem dos participantes e aumentar o faturamento dos restaurantes envolvidos – objetivos legítimos, diga-se de passagem, ainda que não me comovam e que eu lhes faça sérias restrições.

O problema – gravíssimo! – é que a cultura, quando transformada e empobrecida em mero evento, morre. O festival, sob o pretexto de valorizar o botequim, joga contra exatamente o que diz querer valorizar.

Quando digo que a cidade tem alma, uso evidentemente uma metáfora para demonstrar que a cidade tem cultura. O botequim é, pois, um dos elementos constitutivos da cultura carioca. Certa feita escrevi o seguinte sobre o tema:

O buteco é a casa do mal gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposição das fraquezas, da dor de corno, da festa do novo amor, da comemoração do gol, do exercício, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar. É a República de fato dos homens comuns…

É o nosso jeito, a nossa maneira, de recriar o mundo, inventar a vida, beber o passado, digerir o presente e projetar futuros. Nos definimos, dessa forma, como membros do nosso grupo e criadores de cultura – humanizados, portanto.

O Comida di Buteco cumpre muito bem o objetivo de agitar a cidade, movimentar a economia, colocar as pessoas na rua e o escambau. Não consigo, porém, deixar de ouvir uma voz, vinda sabem os deuses de onde [será o rugir do rótulo da maionese patrocinadora da coisa ?] , que parece inverter as lições do velho vagabundo:

– Não sois homens! Consumidores é que sois!

Tolo é quem pensa que o homem é desprovido da humanidade que lhe define quando morre. Mesmo morto, defuntinho da silva, o homem segue vivo na memória da sua gente, como dinamizador, pela lembrança, da tradição.

O homem só é desprovido de sua radical humanidade – morto, sem vitalidade -quando deixa de criar cultura e vira um reles espectador de uma vida que já não lhe é mais pertencimento.”

Diante disso, resta-me dizer: fujam dos bares que participarão do festival, evitem esbarrar com os histéricos e com as histéricas no interior dos bares, onde eles terão chegado em vans alugadas para fazer o roteiro proposto pelos organizadores, não sejam idiotas a ponto de ficarem por aí conjugando o verbo proposto pelo festival – “Eu boteco, tu botecas, nós Comida di Buteco” -, não permitam que esse evento conspurque sua cidade e seu botequim preferido. Eu, ao menos, tenho imenso orgulho de dizer (e sou grato por isso) que os meus butecos de fé não participam dessa roleta-russa que visa, precipuamente, o lucro de quem, em pele de cordeiro, faz o papel do lobo devastador do sistema capitalista.

Até.

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COMIDA DI BUTECO 2011 VEM AÍ

Eis que estamos às vésperas do Carnaval e, mantendo uma tradição já de muitos anos, o malfadado festival Comida di Buteco começa a pôr as mangas e a maionese de fora. E quem me lê sabe o quanto eu, desde sempre, sentei a borduna na iniciativa: basta uma clicada aqui e o Google abrirá diversas possibilidades para que você, que nunca leu nada meu a respeito do troço, entenda o porquê de minha aguda implicância com o projeto (escrevi “projeto” e tive ânsia de vômito). Mas vamos em frente.

Antes de continuar a escrever, dêem uma olhada no slogan(nova pausa para nova ânsia) do festival em 2011:

Vou escrever para que o nojo emerja (leiam em voz alta e sintam a boçalidade da idéia): “Eu boteco, tu botecas, nós comida di buteco”.

Em 28 de maio de 2010 escrevi uma carta aberta dirigida aos pilotos do trator de botequins, aqui. O fiz porque – a leitura do texto deixa isso claro – uma das organizadoras do negócio, Sra. Eulália, ligou-me indignada, no dia 13 de maio de 2010, com minhas críticas (todas sempre muito bem fundamentadas, modéstia à parte), ficou de marcar uma conversa olho no olho para que ela expusesse suas razões e nada aconteceu. Ou seja, agiu como agem quase todos os que são criticados: tratam de desqualificar o crítico, as críticas. Não suportam experimentar a não-adulação.

Este ano, em 2011, vai ser mais divertido expôr para vocês o quão maléfico é o festival que se orgulha disso que segue abaixo:

“Em 2008, o concurso entrou no conceituado Guia 4 Rodas (Editora Abril) e passou a ser realizado em diversas cidades do interior de Minas Gerais e em outros estados. Neste ano também, dois novos sócios se uniram ao projeto: Ronaldo Perri e Flávia Rocha, com a missão de expandir o conceito a outras praças.”

Notem bem: o Comida di Buteco é um “conceito”, e isso já diz muito sobre o nascedouro da idéia e seus objetivos.

“Os números atuais do Comida di Buteco impressionam, o evento está presente em 11 cidades e, só em Belo Horizonte, o público participante é estimado em cerca de 800 mil pessoas por edição, com mais de 160 mil votos nos pratos participantes (Vox Populi / 2010).”

Os números do Big Brother Brasil, o maior lixo da recente história da TV brasileira, também impressionam.

“A festa “A Saideira” – que tradicionalmente marca o encerramento e a premiação do concurso – se tornou um dos eventos mais esperados da cidade e recebe mais de 26.500 botequeiros nos dias em que é realizado.”

A festa “A Saideira”, no ano passado, trouxe o Bob´s para servir os otários que conjugam o verbo proposto pelo festival em 2011.

“O Comida di Buteco se tornou também um fenômeno de comunicação. Em 2010, a mídia espontânea do projeto superou o valor de 16 milhões de reais, tendo o Comida di Buteco figurado nos principais veículos da mídia nacional e importantes publicações internacionais, como o NYTimes e La Nacion.”

Basta, não?

Afinal de contas, buteco e New York Times, buteco e La Nación, têm tudo a ver…

Seria cômico se não fosse trágico.

Volto – é claro – ao tema.

Até.

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A BOA E VELHA RABADA

Uma de minhas obsessões, quem me lê sabe, é a revista RIOSHOW, de O GLOBO, encartada no jornalão às sextas-feiras, mesmo dia em que se dá o debate político do PSOL no Buraco do Lume e a Santa Ceia, almoço festivo que reúne parte da pinacoteca psoliana na rua do Rosário. Pois estava eu, dia desses, a almoçar na rua do Rosário quando aproximou-se de mim um de meus poucos mas fiéis leitores. Disse-me o dito cujo:

– Posso lançar gasolina sobre você?

Eu estava mastigando. Engoli, estendi a mão e disse, já excitadíssimo:

– Pode!

– Sabe quem começou com as papagaiadas hoje repetidas à mancheia por, por exemplo, Roberta Sudbrack?

– Não.

– Luciana Fróes.

E retirou-se, o leitor-bombeiro.

E não é que hoje a revista RIOSHOW de hoje traz matéria de capa assinada por ela?

capa da revista RIOSHOW de O GLOBO de 04 de junho de 2010

A matéria é lastimável e vou lhes dizer o por quê. O foco é a rabada, prato vendido nos butecos da cidade, quase que diariamente, como no BAR DO MARRECO, por exemplo, aqui, por coisa de sete, oito, nove reais no máximo. E o que faz Luciana Fróes ao apresentar a rabada? Sentados? Vamos lá.

Logo no início da matéria, esculhamba o nome do prato (ela diz, “ô, nominho!”) e diz que a rabada “ganhou um banho de loja e hoje pode ser vista em nove entre dez cardápios bacaninhas da cidade” e “de shape novo, visual caprichado e em boas e novas companhias”. A quantidade de clichês, usados à larga pela massa cheirosa, já dá o tom da matéria-jabaculê.

E quais são os “cardápios bacaninhas da cidade”? Luciana Fróes indica dez endereços (todos na zona sul, evidentemente, basicamente Leblon e Ipanema). Dentre eles – e lembrem-se do que eu já disse sobre a casa… – o ASTOR, recentemente inaugurado em Ipanema, importado de São Paulo, equivocadamente adulado como a “verdadeira esquina carioca” por quem não entende nada do riscado. E como é servida a rabada do ASTOR? Em duas versões, nos conta a matéria: a versão completa (rabada desfiada, polenta e agrião) a R$ 37,00 e a que é “servida em simpáticas cocottes, as panelinhas de ferro francesas” – ou seja, um miserê – a R$ 19,00.

Luciana Fróes, que acha que “queue de boeuf” – rabada em francês – “soa mais bonito”, exalta, ainda, um bolinho (eu disse UM BOLINHO) – servido no GARCIA & RODRIGUES, no Leblon, que “nem de longe lembra rabada” e que custa R$ 47,70.

A massa cheirosa só pode estar de sacanagem.

Eis aí, meus poucos mas fiéis leitores, mais um caso evidente de usurpação de um hábito do povo, de sua cultura (a que sempre causou asco e repúdia por parte da massa cheirosa), por parte da elite que tem vergonha e nojo do Brasil. Em apertada síntese: pegam a rabada, transformam a rabada em objeto de fetiche, jogam o preço nas alturas e por aí vai…

Quero ver essa gente encarar a boa e velha rabada num dos botequins mais vagabundos aos quais eu não resisto. Com cara de rabada. Gosto de rabada. E com preço de rabada.

Até.

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