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BOTAFOGO

(para Alfredo Barroso da Costa Lima Jr.)

A primeira imagem que me vem à cabeça quando penso no Botafogo, a mais ancestral das imagens, é a de um escudo que havia na cozinha de azulejos azuis e brancos até a metade da parede da casa de meus avós, na casa 4 da vila da rua São Francisco Xavier 84. Não era um escudo qualquer. Era um escudo todo ele feito de palitos de fósforo, a estrela solitária reluzindo na parede ao lado da porta que interligava a cozinha à sala e à escada, de mármore, já que a casa ficava no segundo andar.

Ah, essa casa de ancestrais memórias, de ancestrais lembranças – dentre elas, esse escudo do Botafogo que me impressionava demais por conta das centenas de palitos de fósforo que desenhavam o símbolo do time de minha bisavó, que morava com meus avós.

Vovó dizia que não tinha time. Meu avô, que esteve no Maracanã na final de 1950 e nunca mais voltou a um estádio de futebol por força do trauma, era Flamengo. Minha bisavó, Mathilde, que lá morava com a irmã, minha tia Idinha, é que era Botafogo (as duas, aliás).

E minha bisavó, uma notável contadora de histórias, me repetia, como em ladainha, sempre que estávamos na cozinha e eu apontava para o tal escudo:

– A maior goleada da história do futebol foi do Botafogo! 24 a zero! 24 a zero!

Sua irmã, a tia Idinha, gemia ao seu lado:

– Vinte e quatro! Vinte e quatro!

Eram Botafogo, também, seus filhos – meus tios: tio Carlos Henrique, tio Chico e tio Sílvio.

Guardo deles, no que diz respeito ao futebol, uma particular lembrança: os três reunidos (paparicavam, de forma olímpica, minha bisavó) se lamuriando, em coro, contra o jejum de títulos do Botafogo (que duraria, ai deles se soubessem, 21 longos anos).

No último sábado, à noite, depois da surpreendente derrota do Botafogo para o Bahia, o relógio marcava 23h20min quando estrilou meu celular. De Manaus, o Alfredo – um dos presentes que a grande rede me deu. Alvinegro de quatro costados, chorava como criança quando eu atendi. E gania, do outro lado da linha, a mais de 4.000 quilômetros de distância:

– Por que o Botafogo faz isso comigo?

Lembrei-me, vá entender, quando desligamos, de meus tios, de minha bisavó, de minha tia Idinha, todos mortos.

Fui dormir sob o impacto daqueles soluços violentos e sonoros do Alfredo. Sob o signo da saudade de todos os meus mortos, daquela vila, daquele tempo, daquele escudo.

Saudade sobretudo daquele escudo de fósforos que formavam a estrela solitária do Botafogo.

Lembrei-me do verso de Aldir Blanc  – “estrela é só um incêndio na solidão” -, liguei o “incêndio” do samba aos fósforos do escudo e fui dormir assim, com uma nostalgia paquidérmica, dessas que – tenho certeza e certa inveja… – somente um botafoguense sabe curtir.  

Até.

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