Arquivo da tag: Bar Madrid

O MOLEQUE FUTEBOL – PARTE 2

Publiquei, anteontem, retomando a rotina de pousar os cotovelos no balcão imaginário do buteco, “O moleque futebol – parte 1”, aqui. E eis-me aqui, novamente, para a parte 2, que pretendo que seja a parte final.

Assim terminei o texto de terça-feira: “Até que veio a sexta-feira, véspera da final da Libertadores de 2019.”. É sobre o que quero lhes contar, sobre a sexta-feira e sobre o sacrossanto sábado.

Eu já havia decidido, na quinta-feira, que não trabalharia na sexta: tenso demais, noites mal dormidas, uma expectativa de 38 anos guardada no incorrigível coração rubro-negro – não iria trabalhar.

Acordei cedo, pus Leonel no carro – minha sogra a tiracolo pra qualquer emergência de ordem médica – e tomamos o rumo da Gávea. Eu queria porque queria apresentar Leonel à sede do Clube de Regatas do Flamengo.

Tinha um porquê. Para além da graça de levá-lo ao Flamengo pela primeira vez, eu queria repetir, sob outra ótica, o que vivi em 2009, na véspera do Flamengo x Grêmio que fez o Flamengo hexacampeão brasileiro, no Maracanã, quando também estive na Gávea. Aqui, trecho do texto em que relato aquele sábado:

* o sábado foi, de novo, rubro-negro do início ao fim. Fomos à Gávea pela manhã e foi bonito demais ver a sede do Flamengo abarrotada de gente de todo o Brasil (eu, Candinha, minha menina e o Henrique). Foi bonito demais ver o sorriso do moleque diante dos troféus conquistados pelo Flamengo, e eu já era, àquela altura, o menino de calças curtas e de camisa listrada de mãos dadas com meu pai. Lá encontramos com Flavinho e Betinha, e ela trazendo no colo, junto do peito, o Felipe, com apenas 28 dias de vida, de boné rubro-negro e tudo! Leo Boechat e seu primo, Jean Boechat, o mais recente cidadão tijucano (o malandro apaixonou-se, de vez, pela Tijuca!), juntaram-se a nós e fomos à crise belga na Adega do Pimenta, onde a Sra. Boechat compareceu levando a Helena, uma de minhas afilhadas. De lá, partimos para São Judas Tadeu, no Cosme Velho, onde fizemos os devidos trabalhos;” . Esse texto, na íntegra, pode ser lido aqui.

Pois bem. Em 2009, encontrei a Betinha na Gávea com Felipe, seu filhote, no colo – ele com 28 dias de vida. Em 2019, dez anos depois, também na véspera de uma decisão, eu queria estar na Gávea com meu filho no colo, e ao lado de sua madrinha – justamente a Betinha. A vida dá voltas e faz desenhos bonitos demais.

Muita emoção, na Gávea. Muita.

Fui apresentar (!) a estátua do Zico a Leonel e chorei como se fosse ele, Arthur Antunes Coimbra, em carne e osso, diante de mim. Beijei a estátua, Leonel a beijou, fizemos fotos, minha sogra fingia achar tudo normal, Leonel refastelou-se naquele espaço, passou a achar (imaginei) que o mundo é muito mais divertido em vermelho-e-preto.

Correu a sexta-feira, mal dormi e no sábado, de novo, tomei Leonel pelas mãos para levá-lo à igreja de São Judas Tadeu, o padroeiro do Mais-Querido. Eu e ele de Flamengo. No trajeto, ele na cadeirinha no banco traseiro, fui cantando o hino, gritos da torcida, namorando seus olhos pelo retrovisor, embaçando a vista, até que estacionei no pátio interno da paróquia, no Cosme Velho.

Não eram 8 da manhã ainda e a igreja parecia arquibancada do Maracanã em dia de jogo cheio: só se via camisa do Flamengo, Leonel entrou em êxtase diante da multidão vestida de rubro-negro, rezei com ele no colo, fomos à gruta, acendi vela, e não segurei a emoção quando o levei, já na saída, pra ganhar a benção do padre:

– Meu filho, que Jesus te abençoe, que Nossa Senhora Aparecida te cubra de bençãos, que São Judas Tadeu guarde teu coraçãozinho e [pondo a mão no peito do maragatinho] que você lute hoje, meu filho, pra que você se sagre campeão com o Flamengo!

Eu, com minha guia vermelha-e-preta à mostra, soluçava diante do padre para assombro do moleque, que me olhava com olhos de o-que-foi-papai?

Foi chegando a hora do jogo.

Tomei o rumo do bar.

Ancorei no balcão do Bar Madrid, a bandeira em volta do pescoço, cerveja, o maracujá da casa (o meu preferido dentre os maracujás da cidade – eu ia dizer o melhor da cidade mas cada um tem o seu melhor e eu não vou repetir a postura abjeta dos jabazeiros do Instagram).

Sobre a bandeira, um parênteses. Tal bandeira pertencia a meu avô materno, Milton – torcedor do Flamengo, o que foi pela primeira e última vez ao Maracanã em 1950, na final contra o Uruguai. Não sei se procede ou não, mas meu avô dizia que bandeira oficial era essa, com o símbolo vermelho sobre fundo preto – ele maldizia a que trazia o CRF em branco. Em ocasiões especiais, como era o caso, eu a tiro do armário – onde fica muitíssimo bem acondicionada.

Tive mais uma síncope, como tantas ao longo da semana passada, quando chegaram ao Bar Madrid, de surpresa, Morena e Leonel – os dois de vermelho-e-preto, os dois de Flamengo e, sendo a Morena torcedora do Athlético Paranaense, isso me comoveu ainda mais.

Acabo de decidir que amanhã escreverei a parte 3, a parte final, sobre o jogo, sobre a assistência que comigo esteve no CTI das Almas, o buteco no qual assisti a todas as partidas decisivas da Libertadores em 2019.

Tinha que ser lá. Por mandinga, por tradição, por força do rito.

Terminar a noite completamente encharcado pela chuva que desabou na cidade na reta final da épica partida abraçado com a Morena – éramos a expressão do êxtase, da alegria, da mágica que foi aquele jogo – foi a coroação de um tempo que eu não vivia há pelo menos 10 anos, desde a conquista de 2009, ou sabe-se lá se não há 38 anos.

Quando eu não sonhava com a Morena.

Quando eu não sonhava com um filho.

Quando eu não era tão feliz quanto sou agora.

Até.

Deixe um comentário

Arquivado em futebol

CHAMA, MANOLO! SALVE, O BAR MADRID!

Havia, na rua Almirante Gavião, a exatos 100 metros da minha casa, um bar, um portentoso bar chamado Rio-Brasília, então tocado pelo Joaquim e pela Terezinha. Ali, manhãs de domingo ensolaradas, porres homéricos, afogamento de tristezas e mágoas, celebração de encontros e de encantamentos, uma carne assada com coradas de ganhar fama em todos os cantos da cidade, uma cerveja (de milho!) gelada de dar gosto, amigos, desafetos, assentamento de respeito e palco de manhãs, tardes e noites de não-se-esquecer.

Em meados de 2008 – lá se vão sete anos – o Rio-Brasília fechou e reabriu logo depois, tocado por quem não entendia do riscado (e posteriormente trocou de mãos mais uma vez, dessa vez para mãos ainda mais inábeis).

Vivi, faço a confissão pública agora, sete anos de luto.

Desapareceram os azulejos negros e azuis (conheça-os aqui, em texto de 2006) que revestiam as paredes, desapareceram as mesas de mármore, desapareceu o piso hidráulico no qual tantas vezes pisei e pisamos todos, amigos meus.

Nunca mais aconteceram as noites mágicas que tantas vezes vivemos ali. Vejam aqui, aqui, aqui e aqui vídeos de minha gente (Fernando Szegeri, Luiz Antonio Simas) cantando com a Beth Carvalho em alta madrugada de uma terça-feira depois de uma noite de segunda absolutamente inesquecível – aqui, o relato da noite. Vejam aqui, vídeo lindo!, aula do meu irmão e meu compadre, Luiz Antonio Simas, em 20 de maio de 2007, cantando o hino da África também em alta madrugada (notem as cadeiras empilhadas no fundo), para assombro da assistência.

E nunca mais houve mágica naquele canto escondido da Tijuca porque mãos erradas assumiram a condução do negócio.

Pisei pela última vez no Rio-Brasília no dia 19 de setembro de 2008, quando ele já estava fechado – no dia da inauguração do novo bar do Joaquim e da Terezinha, na mesma calçada. Aqui, as últimas imagens do bar, neste dia em que eu e o Felipinho Cereal fomos lá chorar nossas pitangas.

Eis que a grande nova é que o Felipinho, juntamente com seu primo, o André, comprou o que sobrou do Rio-Brasília.

Sábio que eles são – filhos de espanhóis que tocaram, durante muitos anos, o legendário El Faro, em Copacabana – os dois estão tratando de fazer pequena obra no Rio-Brasília com o intuito de reabrir o bar já neste próximo sábado (leiam aqui sobre o El Faro, texto do próprio Felipinho, de setembro de 2009). Felipinho começou a trabalhar, com 13 anos, justamente no El Faro, ao lado do tio (Celestino, pai do André – leiam aqui sobre o Espanhol) e do pai, Manolo, que já foi oló.

No final do texto que indiquei acima, escreveu o Felipinho: “Fica aqui a minha saudade do bar que foi minha casa, e que plantou-me na memória incontáveis momentos bacanas.”.

Felipinho perdeu o pai garoto, aos 18 anos.

Pois vai, o pequeno grande homem, fazer renascer o velho Manolo – seu pai.

Pois vai, o pequeno grande homem, matar a saudade do bar que foi sua casa e fazer renascer os incontáveis momentos mágicos que ele tem plantados na memória.

Vai nascer o Bar Madrid.

BAR MADRID

Eu, comovido feito o diabo, estou contando as horas pra ver o bar aberto.

O Simas, um sacerdote que eu respeito demais (e que cuida de mim), já tratou de arriar um ebó pra proteger a casa. Com a presença invisível e mágica do Manolo, com a assistência certa e permanente do Espanhol (que se despencará de Jaconé pra Tijuca incontáveis vezes, posso apostar!), com a sabedoria dos dois primos, não tem como dar errado.

Ali, carta só pro carteado – não esperem carta de cerveja, essa babaquice que macula os bares da minha cidade. Ali, será servido pela primeira vez o glorioso drink DBS, a bebida oficial da família Seixas. Ali, naquele canto sagrado e profano da Tijuca, minha aldeia, mortos e vivos erguerão os copos em louvação à magia e ao encantamento que sobrevivem graças à tenacidade e à verdade que gente feito eles dois não deixam morrer.

Saravá!

Até.

2 Comentários

Arquivado em botequim, Tijuca