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DONA OLÍVIA, GLÓRIA TIJUCANA

A vida é mesmo cheia de surpresas e, durante essa semana, uma delas caiu-me no colo e foi – confesso! – motivo de muita alegria. Vou lhes contar, é o motivo que me traz aqui ao blog pela primeira vez em 2015.

No dia 24 de janeiro, um sábado, voltando da praia (tenho chegado na praia antes das 06h da manhã), decidi subir e descer a Estrada das Canoas e o Alto da Boa Vista para testemunhar, a cada quilômetro rodado, que o Rio humilha. Meu destino? A Praça Xavier de Brito, na Tijuca, uma das mais agradáveis da cidade que completa, em 2015, 450 anos. Mais precisamente o Bar do Pavão, numa das mais aprazíveis esquinas da cidade. E sempre que vou ao Bar do Pavão toco na casa amarela onde mora a dona Olívia (foto abaixo), amiga de minha avó paterna desde que meu pai era “um molecote”, é como ela se refere ao velho Isaac.

Dona Olívia é portuguesa mas veio para o Brasil ainda pequenina. Aqui casou-se com o seu Antônio, um tremendo boa-praça, botafoguense daqueles roxos, e infelizmente vítima do Mal de Parkinson. Moram, os dois, numa simpática casa ao lado do Bar do Pavão (parede com parede), e a dona Olívia, companheira exemplar que é, dedica-se a cuidar do companheiro de uma vida inteira com denodo, fé e certa dose de sofrimento – façam uma idéia.

Sofrimento que não se sobrepõe à alegria que é a dona Olívia.

E quero lhes contar uma história, apenas uma (são muitas, mas por ora quero lhes deixar com essa), que mostra bem quem é essa portuguesa, carioca maiúscula, tijucaníssima, heroína dos nossos 450 anos!

Dona Olívia em foto

Certa feita, há muitos anos (o Bar do Pavão está ali, naquela esquina, há muitos anos, muitos!), a vizinhança (não se esqueçam nunca de que o maior problema da Tijuca, o único, eu diria, é o tijucano) deu de implicar com o Bar do Pavão por conta dos mais patéticos, quadrados, reacionários e conservadores motivos. Armou-se abaixo-assinado, até, para denunciar o Bar do Pavão aos órgãos fiscalizadores da Prefeitura do Rio. Abriu-se processo administrativo, teve visita de fiscal, aplicação de multas, sanções, o processo correu até que um dia a dona Olívia recebeu a visita de um de seus vizinhos, um general-de-pijama cheio de pompa.

– É o seguinte, dona Olívia. O processo para cassar o alvará do Pavão está correndo mas bateram o martelo lá na inspetoria. Para que nossa denúncia ganhe força definitiva e caráter implacável contra esse bar é necessário que tenhamos a sua assinatura. Parece que a legislação exige que a senhora, vizinha de parede do Pavão, concorde com nosso pleito! – e quase bateu continência.

Dona Olívia sequer respirou:

– Pois não assino. E mais, e mais! Vou autorizar o uso da calçada em frente à minha casa para mesas, cadeiras e ombrelones! Passe bem! – e bateu o portão no nariz do pernóstico vizinho.

E a dona Olívia, meus poucos mas fiéis leitores, não satisfeita com a atitude, ainda permite (até hoje, e eu sou testemunha!) que, quando cheio o bar, seus clientes usem o banheiro de sua casa – para desespero da vizinhança mesquinha.

Dona Olívia é, por isso, uma heroína, uma tijucana máxima, uma figura absolutamente imprescindível para manter viva a chama da carioquice!

E vamos à surpresa.

Recebi, dia desses, e-mail de um sujeito chamado Humberto Hermeto Pedercini Marinho. Apresentou-se assim, o Humberto: “Cara, eu sou arquiteto, mas também gosto muito de desenho, pintura. Resolvi – instigado por um amigo – investir mais na arte. A sugestão de postar um desenho por dia (vou completar uns 6 caderninhos de aquarela até o final do ano) foi dele, e estou cumprindo… O legal é que, além de divulgar meu trabalho, me ajuda a desenvolver as técnicas uma vez que sou completamente autodidata nessa área… Além disso, parece que vai formatando umas idéias na cabeça… Suas fotos e seus textos (comendo o rabo da Globo principalmente) acabam inspirando alguns desenhos. Se vc olhar esse aqui verá que tem tudo a ver com o q vc escreve. Abração e use o desenho à vontade!”.

Eis aí o desenho – sensacional! – que o Humberto publicou no Instagram e me enviou por e-mail, em alta resolução, para que eu possa presentear a dona Olívia (o que farei já na semana que vem).

Dona Olívia

Viva a carioquice! Viva a dona Olívia e viva o Humberto!

Até.

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BAR DO PAVÃO

Saiu hoje, à tarde, o resultado final da eleição promovida pelo blog Tribuneiros para eleger os melhores em 17 categorias (vejam quais, aqui) – o que eles chamaram Prêmio Tribuneiro de Gastronomia. Como eu digo sempre, em relação a eleições do mesmo gênero, trata-se de uma bobeira divertidíssima. E é achando uma tremenda graça que recomendo a vocês que dêem uma olhada no resultado, aqui.

Notem que a Tijuca levou a melhor em 06 categorias (se fosse como a Fórmula Um, que tem o Mundial de Construtores, e se houvesse o Prêmio Tribuneiro de Gastronomia – Seção Bairros, a Tijuca seria a acachapante vencedora!!!!!). O Fiorino levou a melhor em quatro categorias. O Aconchego Carioca em uma e o Mitsuba também, em uma.

Foi citadíssimo, entretanto sem ganhar qualquer dos prêmios, o Bar do Pavão.

E é sobre o Bar do Pavão, comandado pelo casal Jô e Pavão, que quero lhes falar hoje.

Situado na rua Doutor Otávio Kelly 53, na Tijuca, colado à praça Xavier de Brito, uma das mais bonitas (ou a mais bonita, acho que a mais bonita) praças do melhor bairro do Rio, o Bar do Pavão é, sem dúvida, um grande bar.

São inúmeras as razões que fazem do Pavão uma parada obrigatória.

Bar do Pavão, Tijuca, RJ, fotografia de Marina Furtado Couto

O Pavão, a nível de elemento humano (dia desses conto a vocês o que vem a ser isso), já vale a visita. Uma grande figura do bairro. Bom de papo, boa companhia, cuida pessoalmente de tudo o que serve. Do chope (cada vez melhor na insuspeitada opinião de um freqüentador assíduo – bem mais que eu -, o Vidal), das cachaças, das carnes esplendorosas que ele serve e que ele mesmo assa, da feijoada dos sábados, do cozido dos domingos (todas as fotos de hoje foram tiradas em um domingo no Pavão), dos sanduíches, dos freqüentadores e dos vizinhos.

Falei em vizinhos e preciso lhes falar da dona Olívia e do seu Antônio, vizinhos de parede e de calçada do bar. Só indo lá pra entender o por quê disso. Perguntem ao Pavão ou à dona Jô pela dona Olívia. E eles dirão quem é essa figura fundamental para que tudo, ali, naquela esquina, seja como de fato é.

A praça Xavier de Brito compõe o cenário. O Bar do Pavão fica numa esquina (como os grandes bares!), ocupa toda a calçada sem incomodar ninguém, tem um toldo azul e amarelo que ajuda as frondosas árvores no fornecimento da necessária sombra, fica diante de um imóvel tombado pela Prefeitura (entendam tudo isso, lendo isso aqui), e não é nada difícil passar um dia inteiro, ali, bebendo, comendo e batendo papo sem perceber a hora (quem?) passar.

Bar do Pavão, Tijuca, RJ, fotografia de Marina Furtado Couto

Nos finais de semana, a coisa fica mais grave. Aos sábados, o Pavão serve uma feijoada que vou-te-contar. Aos domingos, um cozido que só-vendo.

Quando eu estive lá com a Marina (autora das fabulosas fotos que ilustram o texto de hoje) e com o Leo Gola (cunhado do onipresente Fernando José Szegeri), no dia em que fizemos estas fotos (amanhã conto a vocês o por quê), o Pavão estava num dia inspiradíssimo.

Chegamos cedo – e é fundamental, sempre, chegar cedo se a intenção for entender o espetáculo que é aquilo tudo ali – e pudemos ver o Pavão tratando do cozido como quem trata do primeiro filho.

Sua faca iluminou-se como mágica.

Bar do Pavão, Tijuca, RJ, fotografia de Marina Furtado Couto

O chope desceu belíssimo, com espessa espuma, e meus dois queridos, de São Paulo, fizeram juras de amor ao Rio de Janeiro, à Tijuca e ao Bar do Pavão.

Uma parada – quero repetir – mais-que-obrigatória.

Até.

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