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O CASAMENTO DO DEDECO

Conforme lhes contei aqui, no texto Estephanio´s Bar – uma história, durante todo o período em que mantivemos, eu, meu irmão e nosso sócio, o bar na esquina das ruas dos Artistas com a Ribeiro Guimarães, vivemos histórias absolutamente impressionantes, daquelas que, contadas, geram na assistência a aura da incredulidade absoluta. Como são, entretanto, muitas as testemunhas de tudo o que foi vivido, essa aura sempre derrete, se desintegra, e o que passa a reinar, na cabeça do ouvinte, da ouvinte, dos leitores e das leitoras dessas histórias, é uma ponta de inveja do não-vivido. Hoje, cumprindo a promessa que fiz, conto a primeira das muitas histórias que tenho pra contar. Quero lhes contar sobre o casamento do Dedeco, cidadão que atende pelo nome de André Menezes, freqüentador mais-que-assíduo do bar. Faço uma pequena pausa.

Não apenas o Dedeco era contumaz freqüentador do Estephanio´s. Se havia uma característica que era comum a todos os freqüentadores do bar, era essa: as pessoas não iam lá uma, duas, três vezes por semana. As pessoas iam todos os dias ao bar. Era um troço impressionante… A tarde começava a cair e as pessoas – as mesmas, todos os dias! – começavam a chegar, lotavam o bar, e lá ficavam, muitas delas, até os primeiros raios de sol. Voltemos ao Dedeco (mas ainda não ao casamento).

O Dedeco tinha um bordão, um cartão de visita, uma marca. Sabe-se lá o porquê, dava de sentar-se à mesa de quem geralmente não conhecia e dava seu show particular. Apresentava-se, erguia o brinde e de repente cravava os olhos naquele ou naquela que seria sua vítima. Olhos fixos nos olhos do pobre-diabo, indicador espetado praticamente no nariz alheio, dizia devagar:

– Você não vale nada, sua vida é uma mentira e você sabe porque é que eu estou falando isso… – e saía.

Eu vi essa cena, meus poucos mas fiéis leitores, centenas de vezes. E vi discussões começarem entre os que dividiam mesa com o alvo do Dedeco, vi os que se ajoelhavam diante dele e perguntavam atônitos – “do que você está falando, o que é que você sabe?” -, vi namoros desabando, casamentos sendo desfeitos, vi o caos. Todos nós, assíduos, esperávamos ansiosos pelo número que era, convenhamos, como diria o homem do Baú da Felicidade, muito bem bolado. Mas voltemos ao tema de hoje.

Dedeco e Drica decidiram casar (escrevo muitíssimo à vontade mesmo estando, os dois, hoje, separados, ainda mais porque que ambos não sofrem do mal que acomete gente que renega o passado, como demonstrei aqui). Pigarreio e volto. Casamento entre os freqüentadores do bar era, é claro, sempre um evento magnânimo. Convites distribuídos, casa de festa no Méier contratada, bufê, bebidas, chegou o grande dia. Eu diria, sem medo do erro, que mais da metade da assistência era de gente do Estephanio´s (que ficou, claro, às moscas na noite do enlace).

As pessoas chegando, aquele teatro comum às cerimônias congêneres, todos ainda sóbrios cumprindo seu papel social e a noite foi avançando. A noite foi avançando, as pessoas foram bebendo e eu percebia, nitidamente, o choque e o horror nos olhos das famílias dos noivos. Não havia mais, à certa altura, a pose, a postura, o comportamento adeqüado a um casamento entre aquela metade dos convidados. Até que o Dedeco, visivelmente alcoolizado, anunciou, ao microfone, o início da cerimônia civil. Numa idéia infeliz (tenho certeza de que hoje ele reconhece o equívoco), Dedeco convidou um amigo, também freqüentador do Estephanio´s, para fazer o discurso de abertura do casamento propriamente dito. O sujeito tinha acabado de passar num concurso para o cargo de Juiz Federal. E foi, faço a confissão (e a exposição), um dos mais modorrentos discursos que jamais ouvi. Exaltando suas próprias qualidades, relatando sua rotina de estudos, a dificuldade das provas e o êxito final, o pobre-coitado tentou traçar, sem nenhum sucesso, um paralelo com a vida e a rotina de um casal. Nunca vi, confesso de novo, tantos bocejos, gracejos e risinhos de deboche durante um discurso público. O que eu sei é que terminada a cerimônia, enfim declarados marido e mulher, os noivos, deu-se, mais à vontade, a esbórnia, o furdúncio, a autenticidade sem máscaras dos convidados.

Em determinado momento (é o que quero lhes contar, precisamente), o salão foi invadido por homens e mulheres de preto (eram os responsáveis pela casa de festas). Havia chegado o momento de terminar a brincadeira. Acontece, meus poucos mas fiéis leitores, que os freqüentadores do Estephanio´s não conheciam (não conhecem, ainda, quero crer) limite. E deu-se o seguinte: Dedeco, já bem bêbado, tentou negociar com o gerente da casa a prorrogação da festa, a aquisição de mais bebida. Nada feito. Horrorizados com aquela horda, os responsáveis veteram qualquer possibilidade de negociação. E começaram a acender as luzes, desligaram o som, mandaram entrar o povo da faxina, todos esses procedimentos básicos para que as pessoas normais entendam que é hora de ir embora.

Dedeco consultou meu irmão:

– Podemos continuar a festa no Estephanio´s?

Fefê não pensou duas vezes.

Dedeco, possesso, deu ordem aos mais-chegados, convocados para um semi-círculo no meio do salão:

– Vamos à cozinha. Todos os salgados estão pagos. Quero que vocês recolham as caixas de salgadinho! Vocês, meninas, por favor, peguem as bandejas de doces!

Olhando pra outro grupo, disse:

– Vocês, por favor… Todas as bebidas de garrafa, uísque, vodka, cachaça, espumante, vinho, estão pagas. Vamos arrancá-las das mesas, imediatamente.

E fez o anúncio:

– Todos ao Estephanio´s!

Mas o povo era, já lhes disse, barra pesada. Havia abacaxis e melancias enfeitados, sobre as mesas: foram levados. O bolo, gigantesco, também foi carregado e posto na mala do táxi do Paulinho, motorista que serviu, durante muitos anos, aos clientes e amigos do bar (ele, claro, estava entre os convidados). Percebia-se, nos olhos dos seguranças da casa, uma mistura de pavor, de insegurança, de medo em estado bruto. Um dos seguranças ainda tentou conter um mais-afoito que achou uma brilhante idéia levar as toalhas e talheres pro Estephanio´s. O tal orador – eis aí sua principal função durante a festa – deu uma carteirada no sujeito e a pilhagem foi bem sucedida.

Fato concreto é que às oito da manhã o bar ainda estava completamente lotado. E não havia – eis o mistério da fé daquela gente – uma única gota de álcool, um mísero salgado para ser comido, uma réstia de doce para recompor o pH.

Até.

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DESABAFO DE UM EX-AMIGO

Excepcionalmente eu não cumprirei com a palavra empenhada. Fiquei de prosseguir contando sobre a aventura amorosa passageira entre Dedeco e Valéria Cristina mas não farei isso, ao menos hoje.

Recebi pungente email de um homem que se declarou “um ex-amigo do Dedeco”. Felipe Millem é seu nome. Tudo toma corpo e cores de verdade maiores justamente porque não sei quem é. Não o conheço. Mas é de um tom tão pungente, é de uma minúcia tão capaz de comover o leitor, que entendi por bem reproduzir o email na íntegra. O título do email era justamente o título de hoje, “Desabafo de um ex-amigo”. Vejam que tristes as sendas que o Dedeco percorre.

“A cada história do Dedeco que vou tomando conhecimento, minha repulsa por este ser abjeto vai atingindo patamares estratosféricos.

É triste constatar o nível de torpeza que alcançou sua alma distorcida.

Mais triste ainda é lembrar que este sujeito já foi, um dia, uma pessoa de bem, temente a Deus e que sabia de cor a cartilha da saudosa “Tradição, Família e Propriedade”.

Lembro-me de nosso tempo no glorioso Colégio Militar. Dedeco (ainda atendendo pelo seu nome André Menezes), era um aluno brilhante, arrancava os mais sinceros elogios dos professores e oficiais, o que, contudo, despertava a ira de seus colegas de turma. Esses, incapazes de alcançá-lo no seu intelecto (à época, voltado para o Bem), passaram a achincalhá-lo constantemente na hora do recreio, fazendo comentários jocosos sobre sua obesidade e de seu já iniciante processo de erosão capilar. Com isso, aquele André Menezes foi se retraindo, cheio de mágoas, tornando-se uma pessoa reclusa e rancorosa, mas ainda com alguma bondade restante em seu coração ferido.

Certa vez, em um ano que especificamente não me recordo, eu não estava indo muito bem em matemática, pra falar a verdade, minhas notas em exatas sempre foram de um monocromático vermelho capaz de irritar os olhos de quem abria meu boletim, pois nunca fui bem com números. André Menezes, com uma compaixão franciscana, talvez também por eu ser o único da sala a não zombar de sua forma roliça, ofereceu-se para a árdua tarefa de tentar me ensinar porque raios eu tinha que aprender a fazer operações matemáticas com letras e não com números.

Em um sábado de manhã, André Menezes aceitou o desafio hercúleo de tentar mostrar o caminho da sabedoria para um intelecto rudimentar (o meu). Também foi um desafio para o André desbravar seu pequeno universo, consistente na Tijuca e Vila Isabel, para tomar o rumo da radial oeste em direção ao bairro pobre da Piedade, no qual eu residia.

Depois de algumas horas de ensinamento, finalmente consegui entender que o “x” em uma equação era somente um número comum, usando uma fantasia de letra e o objetivo daquela maldita matéria era descobrir a “identidade secreta do número” (termo encontrado pelo André para me fazer entender, eis que tinha consciência de minha curta sabedoria, assim como minha predileção por gibis de super-heróis).

Chegada a hora do almoço, minha santa mãe perguntou-nos se o André Menezes iria almoçar conosco, eu prontamente disse que sim, pois a única forma que a minha mente tosca encontrou de agradecer ao sábio gordinho era, lógico, oferecer-lhe uma lauta refeição.

Para tanto, o André Menezes pediu para ligar para a santa mãe dele, para avisar que “iria almoçar na casa dos outros”, tendo ela aceitado com velada alegria, pois, naquele sábado, o maior bife servido em um almoço, finalmente, seria o dela.

Sentamo-nos à mesa então. Meu pai sempre à cabeceira, de onde comandava a família com mão de ferro, sob a rígida moral de família mineira, de um lado eu e o André e do outro minha santa mãe e minha irmã.

Súbito, meu pai proferiu um brado retumbante: “Hoje, temos à mesa um novo coleguinha para cear conosco, quem fará as preces?” Meu pai disse esta frase já olhando para mim, esperando que eu tomasse a iniciativa e me oferecesse para fazer as orações, no que permaneci em um silêncio de velório, pois jamais tinha conduzido uma prece na família, uma vez que, assim como com números, nunca fui muito bem com palavras.

André Menezes, do alto de sua percepção Sherlockiana, conseguiu entender aquela situação constrangedora e, imediatamente, começou a entoar, de improviso, uma prece em louvor a Nossa Senhora.

As palavras proferidas por André Menezes foram de uma fé tão contundente que conseguiram extrair pesarosas lágrimas até dos olhos de meu pai, secos como o sertão, eis que criado com a máxima mineira de que “homem não chora”.

Após aquela prece maravilhosa, ceamos cheios de alegria em nossos corações suburbanos, elevados em nossa fé no Senhor.

Taí Edu, um relato de quem conheceu o André Menezes, ser humano íntegro, antes de assumir o alter ego deste vilão Dedeco, tão retratado em suas colunas.

Rogo a Deus todos os dias, para novamente tocar sua alma perdida, para que ele volte a ser aquele gorducho, de moral ilibada, que se confessava e comungava como todo bom Cristão deve fazer, espalhando a palavra do Senhor por onde passava e não a luxúria e a vilania, o que certamente o conduzirá para o açoite inclemente da espada de fogo do Todo-Poderoso.

Felipe Millem é um Valente da Fé.”

Até.

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DEDECO E VALÉRIA CRISTINA

A pedidos, prossigo a história de ontem do Dedeco.

Mandei aflito email para o escrivão de polícia que me mandou a foto do Dedeco sendo abatido por um porrete de proporções olímpicas e o mesmo, gentilíssimo (e ele é da polícia, vejam isso!), enviou-me email com riqueza de detalhes. Contou-me que por mera curiosidade e por obrigações advindas das investigações que foram iniciadas com relação ao registro da ocorrência de agressão que o Dedeco cometeu, ficou sabendo de muita coisa. Grampos clandestinos, campana, e o romance de Dedeco e Valéria Cristina, curto mais intenso, foi devassado. Estamos, é bom lembrar, em 2002.

Valéria Cristina foi à Delegacia Policial e obteve, depois de passar R$50,00 pro escrivão de plantão dentro de um papelucho dobrado, o telefone do Dedeco. Diante da evidente ligação que Valéria Cristina faria pro Dedeco, o talo escrivão acionou o departamento competente da DP e foi feito, em poucos dias, o grampo na linha telefônica do embusteiro.

Primeira ligação gravada:

“Alô?”

“André?”

“Isso. Quem fala?”

“Valéria Cristina…”

(som vindo de Valéria Cristina soltando fumaça do cigarro)

“Quem?”

“Valéria Cristina… namorada do cara com quem você se meteu numa briga anteon…”

“Oi, amor…”

(Dedeco tosse)

“Vocêzinho tá melhor?… Ele te bateu tanto…”

(voz de choro de Valéria Cristina)

“Mais ou menos… Um pouco dolorido ainda…”

“Quero vê-lo. Posso ir até sua casa? Você mora só?”

“Moro, gata. Moro. Venha sim…”

“Vou levar band-aid, gazes, água boricada, mercúrio cromo, um tubinho de Satya… tá?”

“Gata (pigarro) posso lhe pedir um favor?”

“Dois, André…”

“Então vou pedir três…”

“Peça, querido…”

“Traga um pacote de Carlton, uma cartela de camisinha e um tubinho de KY. Anota aí o endereço.”

(a gravação é interrompida aqui)

Vejam bem, acompanhem bem, como é fino, como é baixo, sujo, como é sem luz esse André.

Prometo amanhã seguir no mesmo caminho. Conto-lhes mais.

Até.

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ANIMAL PLANET

Vejam vocês que colosso é a internet, que colosso é ter um blog, que colosso é essa interação entre o que escreve – eu, a precisão em pessoa – e os que lêem. Recebi ontem à noite de um cidadão que identificou-se como um leitor assíduo do Buteco esta foto. Foto que, os mais atentos já notaram, mostra o Dedeco sendo espancado com um porrete como se fora uma foca à beira de ser abatida, daí o título Animal Planet, irresistível, até porque o Dedeco é um animal.

O leitor, a quem agradeço de público, foi o autor da fotografia. Escrivão de polícia, estava de plantão numa madrugada quente de 2002 quando adentraram a Delegacia um cidadão e o Dedeco. Vejam bem, vejam bem!

O meu colaborador obviamente, naquela madrugada, e até bem recentemente, não sabia quem era um nem quem era o outro. Mas de tanto ler o Buteco, de tanto bater os olhos nas fotos do Dedeco, deu nele uma luz. Pensou, disse-me ele… “ué… aquela foto que tenho daquele gordo careca sendo espancado na DP não é do Dedeco?”.

E era. Vejam que lindíssima coincidência.

Contou-me o fato.

Policiais militares faziam a ronda noturna de praxe quando passaram de carro pela 28 de Setembro e perceberam estranho movimento numa birosca já quase na Praça Barão de Drummond. Pararam. Saltaram. E deram de cara com dois elementos engalfinhados e uma mulher em prantos no balcão do bar. Eis a situação.

Dedeco, um ser sem luz alguma desde há muito (e notem a pança do Dedeco que não existe mais), entrara na tal birosca pra comprar cigarro.

No balcão bebiam apenas duas pessoas, um casal.

O Dedeco compra o cigarro e se dirige ao homem: “O senhor tem fogo?”, ao que ele disse, “Não”.

A mulher, fumante, disse, “Mas eu tenho…”, e o Dedeco, dando um tapinha de leve no ombro da moça emendou “Eu também, vambora, deixa esse merda aí”.

Pronto.

Bêbado, o Dedeco não soubera avaliar o risco de mais uma investida imunda.

Brigavam quando os policiais passaram.

E aí um deles disse pro outro: “Aê… tá mó noite fraca… vamo levar esses dois elementos pra DP… lá a gente pede pro Delega aquele porrete (e riu, o policial)… a gente ficha o careca por agressão e entrega a piaba na mão do cara aê…”.

O outro, “Já é”.

E assim foi.

Dedeco foi fichado (notem que está diante da fita métrica), fotografado, interrogado, até que apanhou como um condenado.

Detalhezinho que o meu leitor contou-me: de tanto apanhar, o Dedeco ficou bastante desfigurado, e isso mexeu demais com o coração de Valéria Cristina, que considerou Luís Felipe, o namorado, um grosso desalmado. Valéria Cristina esteve na DP dias depois e pediu, gentilmente, para ver o Boletim de Ocorrência.

Tomou nota do telefone do Dedeco.

E deu pra ele durante alguns meses.

Até.

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PIEDADE

Há aqueles ditos populares que dizem que o Sargento Garcia jamais prenderá o Zorro, que uma vaca jamais tossirá etc etc etc. E há, no Estephanio´s, aquela inapelável verdade: o Dedeco jamais namorará. E eu, ouvindo esse vaticínio, trepo no banquinho imaginário e urro “jamais mesmo! jamais mesmo! jamais mesmo!”. Pois bem.

Estava eu, ontem, justamente no Estephanio´s, na companhia da Guerreira, do Flavinho, da Betinha e do Marquinho, assistindo ao jogo do Flamengo.

E eis que entra o Dedeco no bar.

A tiracolo, vejam vocês, uma moça. Quando eu digo “a tiracolo”, quero dizer de mãos dadas. E os nossos dez olhos deixaram a TV órfã. O Flavinho, cuspindo o chope que tinha no palato sobre a mesa, pôs as duas mãos sobre meus ombros e disse:

– Meu Deus, essa é a namorada do Dedeco…

Eu, solidário no susto, cuspi sobre a mesma poça de chope o chope que tinha na boca. E eu só fui capaz de dizer um “o quê?!” que foi ouvido de muito longe.

Vejam que eu estou tentando ser fidelíssimo ao baque coletivo. Minha cabeça, que deu voltas e voltas diante da visão do improvável, gerou uma visão ainda mais absurda. O juiz que apitava o jogo interrompeu a partida. O narrador emudeceu. A torcida vaiava o Dedeco. E eu fiquei ali, olhos cravados no André Menezes, esperando sua reação. Percebam que tudo isso, a entrada do André Menezes no recinto, as golfadas de chope, o susto coletivo, tudo isso se deu em poucos segundos. E veio a mim o André. Sozinho.

Abraçou-me e percebeu, sei que percebeu, a temperatura siberiana do meu corpo. Disse-me apenas um “faaala, Edu!”, como sempre, e mais nada. Depois fez um gestinho com o indicador chamando a moça. E disse-lhe apenas o nome, mais nada (não direi seu nome aqui).

E foram, os dois, a uma outra mesa.

E eu pro Flavinho:

– Tem certeza?

– Absoluta.

– Mas ele não disse nada…

– Vergonha. Ele é um tímido.

E quero dividir com vocês as cenas de náusea.

O Flamengo perdia de um a zero e eu não vi, nem quando passou o replay, o gol de empate do Flamengo. Só tinha olhos para aquela mesa.

Dedeco, como um autômato, alisava as costas da moça com a mão direita, que ostentava um anel de prata no dedo médio. E ela, tadinha, daí o título Piedade para este texto, sorria revirando os olhinhos atrás das lentes dos óculos embaçados, já que o Dedeco lhe dizia coisas que eu não entendia enquanto punha seu nariz em atrito com o nariz da menina e o Flavinho, incrédulo, me dizendo:

– Putz… beijinho de esquimó é demais…

E a mão esquerda do embusteiro entrelaçada com a mãozinha da menina sobre seu colo.

Os garçons, Erasmo, Léo, Maurício, guinchavam de rir no balcão do bar, apontando acintosamente pro casal. A Guerreira e a Betinha teciam comentários que eram, obviamente, sobre aquela cena deprimente. O Marquinho, que tem no André uma espécie de guru, o que faz dele um garoto de futuro sombrio, babava como um desdentado com fome quando fica com água na boca e, logicamente, deixa pender aquele visgo de saliva pelo queixo.

O André, biltre em último grau, sorria em direção a mim e fazia, com a mão que afagava a região dos pulmões da moça, aquele gesto que imita um ganso mergulhando a cabeça na lagoa, causando-me ainda mais repúdio.

Tive ímpetos de ir à mesa falar com ela. Impediu-me o Flavinho, com uma frase sábia:

– Deixa, Edu. Vamos ver que direção toma esse trem. O que não vai faltar é história pra você contar depois.

E não fui, então, à mesa.

E saí sem me despedir do casal.

Até.

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DEDECO NO BUTECO

Doces figuras, ontem o Buteco do Edu recebeu, com pompa e cirscunstância, o Dedeco, que passa assim a integrar a estreita lista dos laureados.

Nota fiscal da noite, iniciada às 19h, pela ordem do serviço:

– 03 garrafas casco escuro de Original
– uma porção de copa com limão
– uma porção de amendoim
– uma porção de azeitonas pretas temperadas no azeite com pimenta calabresa
– 01 garrafa de Bohemia de trigo
– 01 porção de canapés de carne crua com pimenta do reino, sal, cebola e salsinha
– 02 garrafas de Bohemia preta
– 01 Canapé do Léo, de novo, de longe, o destaque da noite.

Foi, devo lhes confessar, um sufoco convencer o Dedeco a deixar o buteco e rumar pro Estephanio´s para assistirmos ao jogo Brasil e Argentina.

O que acabamos fazendo, na agradabilíssima companhia de Fefê, Isaac, Flavinho, Zé Colméia, Mauro, Miguel Salgado, Vidal, Cachorro, e mais uma pá de gente que lotou a esquina do bar.

Cheguei ao bar com uma bomba lançada pelo Fernando de Castro: em depoimento à justiça italiana, Galvão Bueno, ouvido durante investigações sobre o acidente fatal que matou Ayrton Senna, confessou reiteradas vezes que pouco tinha a acrescentar ao deslinde da questão, embora fosse, e disse isso sempre de boca cheia, “o amigo mais íntimo e próximo do piloto”.

Diante dessa afirmação e com dados sobre o quão desagradável é o locutor da TV Globo, peritos começam a trabalhar firmemente a hipótese de que, na verdade, Ayrton Senna cometeu suicídio.

Fecha o pano.

Até.

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