O ÚLTIMO ADEUS DO ERNESTO

Quem me lê sabe, conforme contei aqui, que na semana passada matou-se o Ernesto. Foram – o texto é rico em detalhes – mais de 25 anos de um silêncio aterrador imposto pelo próprio pobre-diabo. Um silêncio que, e é isso que quero lhes contar, não compareceu ao velório-gurufim do sujeito.

Providenciou-se, a pedido do de cujus, um aparelho de som portátil que tocou, repetidas vezes, o samba-hino que fez ecoar “envelheci mas continuo em exposição, a ex-mulher me chama de sardinha de balcão” pelos corredores das capelas. A assistência do velório era composta pelos mesmos que freqüentavam o balcão que assistiu, durante anos, ao pobre-diabo beber (e sofrer) calado. E pela viúva (estado civil renegado pelo morto) que, a bem da verdade, não sabia bem o que fazia ali.

Quando eu cheguei ao Caju deparei-me com a seguinte cena: o defunto cercado por bêbados inconsoláveis, diversos copos americanos apoiados nas bordas do caixão, enfeitadas com paninho de renda branca, o aparelho de som equilibrado na proa, sobre a cabeça do Ernesto, e a Jurema, a “ex-mulher” (estado civil requerido pelo morto), sentada sozinha num banquinho de madeira encarando um a um. Não recebeu, registre-se, um só cumprimento. Em compensação, uma saraivada de olhares de ódio.

Danilo, garçom do Bar do Marreco, o bar de fé de Ernesto, exercia o ofício mesmo no cemitério. Atravessava constantemente a rua para buscar cerveja no trailler diante da última morada e servia, com competência, os inconsoláveis que, por sua vez, tinham uma sede de anteontem. Seu  Brasil, síndico do buteco da Haddock Lobo com a Caruso, ficou responsável pelo pagamento da dolorosa. Mais que isso, organizava, com sua autoridade incontestável, o furdunço. Não permitia fotografias, a pedido de Jurema (e diga-se que foi o único pedido da “ex-mulher” que foi atendido). Os demais – “tirem essa música”, “respeitem o Ernesto” (este, de um cinismo agudo) e por aí – foram solenemente ignorados.

A certa altura chegou um mulato trazendo no ombro uma coroa gigantesca de flores (a primeira e única). A seu lado, um sujeito com vitiligo carregava o cavalete. Dezenas de pares de olhos acompanharam a operação. Montou-se o cavalete ao lado do caixão e o mulatão apoiou a coroa. Eis a inscrição da fita rôxa: “Saudades eternas de tua filha Zafira e de teu genro Castilho”. Foi demais para a assistência. Como cães famintos diante de um naco de carne, partiram pra cima da última homenagem. Descontrolado – não consegui saber quem tomou a iniciativa -, alguém enterrou a coroa na cabeça de Jurema. Eu só ouvia os gritos:

– Dança bambolê com essa porra, sua vaca!

– Toma a bóia pra não se afogar no mar de merda, vagabunda!

E só seu Brasil, mais uma vez, conseguiu controlar a malta. Houve uma pequena reunião num dos cantos da capela e tomou-se a decisão: puseram de volta a coroa no cavalete sem a fita, que foi furiosamente arrancada. Improvisou-se, com papel higiênico, nova dedicatória: “De teus amigos de balcão, a derradeira homenagem”.

Jurema chorava e seu choro despertava as mais variadas reações. A grande maioria cochichava… “são lágrimas de crocodilo”. Um outro, bêbado de forma aviltante – que se dizia kardecista -, tentava contornar a revolta coletiva dizendo “sempre chega a hora do arrependimento”. Tudo esfumou-se quando chegou seu Cláudio, freguês assíduo do mesmo buteco, trazendo duas quentinhas numa sacolinha branca. Estacou diante da popa do caixão e disse, de olhos marejados:

– O torresmo e a moela…

Foi a mais impactante cena da cerimônia. Era mais um pedido de Ernesto que seria atendido pelos companheiros de botequim. Deu-se o surreal. A assistência discutia a melhor posição dos pratos no interior da urna funerária de madeira quando decidiram o inconcebível. Uma freqüentadora assídua do mesmo balcão-confessionário abriu a boquinha do morto. Outro, com extremo e desnecessário cuidado, pôs, com as mãos, um punhado de torresmo e outro de moela sob a língua do de cujus. Neste momento – e me perdoem a franqueza em nome da precisão do início ao fim – Jurema vomitou.

Alguém virou as duas palmas das mãos de Ernesto para cima. E, como um sacerdote pagão, pôs um dos pratos sobre a mão esquerda, o outro sobre a direita. Explodiram as palmas no ambiente.

Um funcionário da Santa Casa adentrou a capelinha e fez um sinal. Era o momento de fechar o caixão. Guinchos de choro, urros de saudade, e foi quando eu parti. Fui, confesso, o único. Sou um poltrão na hora de encarar esse momento. Ninguém arredou o pé.

Mentira minha. Seu Brasil, aos prantos, deu a ordem em direção à “ex-mulher”:

– Agora, fora! Chispa daqui.

A massa considerou ofensivo à memória de Ernesto a presença de Jurema no instante do enterro propriamente dito. Eu estava fazendo sinal pro táxi quando ouvi a voz por trás de mim:

– O senhor me dá uma carona, moço?

Abri a porta, entrei no banco da frente e disse ao motorista:

– Tijuca, por favor.

E lancei um olhar de profundo desprezo em direção à “ex-mulher”.

O Ernesto não me perdoaria a gentileza imerecida.

Até.

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O ERNESTO

O Ernesto, coitado, é um personagem e tanto. Desses que, uma vez descrito minuciosamente para quem não o conhece, geram a inevitável frase dita pelo interlocutor às gargalhadas:- Ah! Esse sujeito não existe!

Mas o Ernesto existe, coitado. Bebe, todos os dias pela manhã, no Bar do Marreco, na esquina da Haddock Lobo com a Caruso, na Tijuca:

– Para me suportar… – diz o infeliz, com o olhar longe, ao final do primeiro gole.

A bossa é a seguinte: Ernesto é casado com a Jurema há mais de 40 anos. Sempre foi um duro, um pé-rapado, um pobre-diabo na melhor acepção da palavra. É tratado pela Jurema – e desde o casamento – como um traste. O casal – o maior anti-casal da paróquia – teve apenas uma filha, a  Zafira. Esta, por sua vez, já está casada e mora em Portugal. Quando vem ao Brasil, três vezes por ano, hospeda-se num hotel de luxo na orla de Copacabana e faz questão de receber, dia após dia, para o almoço, para o jantar, a mãe. Apenas a mãe.

– Como vai aquele traste, mamãe? – é sempre a primeira pergunta da filhota no primeiro instante.

A mãe, espetaculosa, é sustentada pela única filha, que casou-se, aos 21 anos, com um magnata português, o Castilho (e pensem bem no absurdo que é isso, nada mais anti-magnata que um português de bigodão). Manda, mês a mês, uma boa quantia para dona Jurema. Esta, por sua vez, atendendo orientação de Zafira, repassa ao marido (um despachante em franca decadência há mais de 20 anos) uma mesada modestíssima que permite ao pobre-coitado passar o dia bebendo o que há de pior no botequim mais perto de casa. Outro naco da mesada que vem d´além-mar tem destino certo: custear o tratamento do Ernesto.

Quando em 1982, logo após a tragédia do Sarriá, o sujeito ameaçou o suicídio por conta do choque com a eliminação do escrete, houve festa no modesto apartamento. Jurema não escondia a ansiedade. E todas as manhãs fazia a indagação:

– Vai ou não vai, criatura?

A filha, que soubera da novidade pela mãe – já morando em Setúbal – ligava todas as noites:

– E aí, mãezinha? Cumpriu a promessa, o traste?

Ernesto assistia àquela ansiedade pelo próprio suicídio com uma angústia nunca dantes vista. Até que em dezembro de 82, com o lançamento de Thriller, o álbum de Michael Jackson, deu-se o inusitado.

Ernesto assistiu, impactado, na noite daquele longínquo domingo, ao vídeo-clipe do astro americano. Jurema ficou boquiaberta com a cena: o pobre-diabo não desgrudava os olhos da TV, suas mãos tremiam, e ela não perdeu a oportunidade quando os cadáveres começaram a sair das tumbas do cenário macabro:

– Vai ou não vai juntar-te a eles, infeliz?

Desde esse dia que Ernesto não diz um “a”. Sua única frase é a matinal “para me suportar”, dita após o primeiro gole de cachaça.

Em janeiro de 83 a filha veio com a novidade para a mãe:

– Mamãe, fique com este cartão. É de um psiquiatra que me foi recomendado. Encaminhe o traste para uma consulta. Castilho já tratou dos detalhes que nos interessam. Em questão de meses, anote!, papai leva adiante a idéia do suicídio! Mandarei, todos os meses, o valor dos honorários do doutor!

Há exatos 27 anos, portanto, dá-se o seguinte: três vezes por semana despenca-se o pobre-diabo para Copacabana, para o consultório do doutor  Ribeira. E há 27 anos a cena é a mesma. Ernesto entra mudo e sai calado. Como um sabujo, obedece à esposa, toma o 413, salta na avenida e toma a direção do suntuoso consultório. Doutor Ribeira, seguindo uma técnica pouco ortodoxa, passa o tal vídeo-clipe na TV diante do divã e a cena é a mesma desde a primeira consulta: olhos estacados pra fora da órbita, mãos que tremem de forma descompassada, suores tremendos. Ao final da exibição do filme, à moda de dona Jurema, já de pé, doutor Ribeira faz a pergunta com a supressão do adjetivo:

– Vai ou não vai juntar-te a eles?

E eis o que eu queria lhes contar desde o início…

Ernesto matou-se ontem à noite, horas depois do bar fechar as portas. Foi encontrado hoje cedo, por volta das 5h30min. Junto com o copo americano cheio de cachaça, ingeriu dois vidrinhos de chumbinho. Deixou, no bolso da camisa, um bilhete, sua única manifestação inteligível desde 1983:

“Meus amigos de bar, meus amigos de balcão, meus amigos de copo. Peço perdão pelo silêncio aterrador que impus a mim mesmo já se vão sei lá quantos anos. No bolso direito da minha bermuda tem algum dinheiro. Dá, e sobra, para pagar o pendura do mês de dezembro. Como última homenagem, se é que mereço alguma homenagem, peço uma coisa muito simples. Não quero ouvir Thriller na última morada. Quero que alguém leve um portátil e deixe tocando, durante todo o meu velório, aquele que será meu hino fúnebre. Envelheci mas continuo em exposição, a ex-mulher me chama de sardinha de balcão, eu digo sempre que melhor que apodrecer ao lado dela é ir mofando entre o torresmo e a moela. O tal dinheiro que está no bolso direito compra, também, uma porção de torresmo e uma de moela. Peço que ponham dentro do meu caixão. E que cantem. E que cantem alto. Jurema, essa vaca, não ficará viúva. Ela é, desde que nos casamos, minha ex-mulher. Porque lá em casa a barra era violenta, eu padecia entre a mostarda e pimenta. Obrigado por tudo.”

E graças à mágica que cerca todo e qualquer botequim, o bar e a assistência, hoje cedo, eram um só cenário de desolação. O velório está marcado para hoje, às 17h, depois de o corpo ser liberado pelo IML. Jurema, que nem deu por falta do marido à noite – dormiam em quartos separados há muitos anos – , foi comunicada hoje cedo do acontecido.

– Demorou, o filho da puta. – foi só o que disse.

Às 17h o bar fechará as portas. E o gurufim blanquiano do Ernesto promete.

Até.

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A POSSE DA COMANDANTE ROUSSEFF

No dia primeiro de janeiro desse 2011 que se inicia, a Mansão dos Zampronha abriu seus salões, em tarde de gala, para que assistíssemos, poucos e bons, à cerimônia da posse da presidenta eleita, Dilma Rousseff. E é sobre a cerimônia de posse que quero lhes dizer hoje, neste primeiro texto do ano.

Confirmando todas as previsões que apontavam para uma altíssima carga de emoção durante a cerimônia, a Mansão dos Zampronha foi praticamente alagada pelas lágrimas que correram de todos os olhos atentos à tela da TV.

O discurso de Dilma Rousseff, feito logo após a posse formal, foi – tenham absoluta certeza disso – absolutamente histórico. Não apenas por ter sido o primeiro discurso de uma mulher eleita presidente do Brasil. Não apenas por ter sido feito por uma mulher que, há cerca de quarenta anos, estava presa nos porões da ditadura militar que afligiu o Brasil por longos vinte e um anos, tendo sido barbaramente torturada pelo Exército durante vinte e dois dias. Mas principalmente porque ela, a Comandante Dilma Rousseff, já formalmente empossada – o que significa dizer que ali falava a Presidência da República Federativa do Brasil – rendeu homenagens (com a voz visivelmente embargada) a todas as vítimas do regime covarde que fez sangrar o Brasil durante mais de duas décadas.

“Queria dizer a vocês que eu dediquei minha toda a minha vida à causa do Brasil. Entreguei, com muitos aqui presentes, minha juventude ao sonho de um país justo e democrático. Suportei as adversidades mais extremas, infligidas a todos que ousamos enfrentar o arbítrio. Não tenho qualquer arrependimento, tampouco não tenho ressentimento ou rancor. (…). Muitos da minha geração, que tombaram pelo caminho, não podem compartilhar a alegria deste momento. Divido com eles esta conquista e rendo-lhes minha homenagem.”

Meus poucos mas fiéis leitores… Foi neste momento que a casa (a mansão) caiu. Foi impossível resistir ao choro que tomou de assalto as dezenas de olhos grudados na tela da televisão. Ver e ouvir Dilma Rousseff, orgulhosa, altiva e segura homenageando a todos os que lutaram contra a ditadura foi emocionante demais. Profundamente significativo. E histórico.

Seguiu-se o chororô durante a revista da tropa, quando os comandantes das Forças Armadas prestaram reverência a ela. Estava ali, diante de nós, sendo virada mais uma página da História do Brasil. A mesma mão que torturou e que matou, batia continência para a primeira mulher presidente do país.

Como me disse Aldir Blanc, segundos após o final da cerimônia, por telefone, “se o governo de Dilma for dez por cento do que foi seu discurso, estamos feitos!”.

Até.

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FINAL DE ANO

Eis que chegamos ao final do ano de 2010. Para mim 2010 terá a marca da saudade deixada por minha avó, que foi oló há poucas semanas, nesse dezembro que termina amanhã. Terá, também, a marca da batalha que travamos em prol da eleição da primeira mulher presidente do Brasil e a marca do último dos oito anos de governo do primeiro operário presidente do Brasil, revolucionário por conta da inversão que siginificou a impressão de suas medidas. Passamos a pensar grande, deixamos de lado a visão elitista e acadêmica que nos regeu durante séculos e a despedida desse homem, no dia primeiro de janeiro, vai ser emocionante demais, fazendo com que 2011 comece sob a égide também da saudade e da esperança.

Mas o que quero lhes trazer hoje, nesse último texto de 2010, depois desse hiato gerado pela correria do final do ano – meu último texto foi publicado no dia 17 de dezembro – é uma homenagem com cara de cartão postal dirigido a todos vocês, meus poucos mas fiéis leitores, que me lêem.

2010 não foi, como não tem sido a vida, um ano tranqüilo. A situação que enfrento intramuros é capaz de estabelecer um permanente desafio que – é como penso – exige de mim a exata medida entre o medo e a esperança, entre a angústia e o ânimo, entre o ateísmo e a fé, entre o branco e o preto, entre o fogo e a tempestade, entre a baunilha e o sal. Mais que nunca, e tem sido assim a cada dia que passo, valho-me da lição de um de meus mestres e a cada tristeza ergo o meu copo ao humor – essa é a grandeza que o samba me ensinou.

Muita gente foi (e é) fundamental para que esse enfrentamento aconteça de forma a não me desestabilizar. E ainda que eu siga permanentemente em estado de visível desequilíbrio, como a esperança que dança na corda bamba de sombrinha, acordo diariamente disposto a assistir, sorrindo, o show continuar de mãos dadas com a esperança-equilibrista.

Mas a homenagem que presto hoje vai pra Marcela, minha amada Manguaça, que aparece na foto que ilustra este texto acarinhando meu vira-latas. Ninguém mais foi mais a expressão do carinho do que ela. Não me faltou, nunca, seu abraço, seu cafuné, seus dedos me enxugando o choro, seu colo e seu ombro paciente e doce. Filha de uma moça igualmente imprescindível, filha de um moço que talvez já tenha conhecido minha avó de mais perto, irmã de um sujeito que não nega o berço – ele também um poço de afeto -, a Manguaça recebe, daqui, minha mais profunda declaração pública de gratidão por tudo que é, por tudo que representa, por tudo que faz.

Desejo a vocês, que me lêem, um ano-manguaça. Se no ano-novo todos vocês tiverem que seja dez por cento do que essa moça representou pra mim nesse 2010, o ano de 2011 será um ano fabuloso. E não me ocorre palavra melhor e mais adequada do que “fabuloso”. Porque é isso que ela é: quase que um troço de fábula, indizível, concretização dos melhores desejos em termos de gente.

A todos, muita saúde. Muita disposição para os enfrentamentos que a vida exige. Muito ânimo, muita paz, muito amor, muito axé.

Até 2011!

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AINDA SOBRE O PAULO, O MAGNÍFICO DO RIO-BRASÍLIA

Conforme lhes contei aqui e aqui, o Rio-Brasília tem, em seu magnífico staff, um único garçom, o Paulo. Paulo para uns, Paulinho para outros, Chico Xavier – ou simplesmente “médium” – para os mais gozadores, o sujeito é um Nunes, o ex-camisa 9 da Gávea: absolutamente desastrado no trato com a bola mas capaz de fazer um caminhão de gols para delírio da assistência. O que quer dizer que cada ida ao fabuloso bar da Almirante Gavião (não confundir jamais com a lanchonete da mesma calçada) significa testemunhar atuações de antologia. Como a de ontem.

Ontem eu tive a honra e o prazer de conhecer pessoalmente Idelber Avelar. Depois de ler, no twitter, que o professor tinha vontade de vir ao Rio de Janeiro para conhecer outro mestre, Luiz Antonio Simas (o Idelber vive nos Estados Unidos), meti o bedelho e costurei, humildemente, o encontro. Na Tijuca, evidentemente. Eis que então às 16h ancorei no balcão do buteco ao lado de meu compadre Leo Boechat. Estávamos a caminho do bar quando estrilou meu celular. Era Álvaro Costa e Silva, o Marechal, que seguramente soubera do encontro pelo próprio twitter. Tentou disfarçar:
– Ô, meu Edu! Tudo bem? Estou querendo muito beber uma boa batida de gengibre, podes me dar uma dica?
Fui direto:
– Rio-Brasília, imediatamente.
Minutos depois, chega o Marechal (e comprovando minha desconfiança, o bom e velho lobo da imprensa não bebeu uma gota sequer de batidade de gengibre… o caboclo queria mesmo era estar entre nós). Um pouco mais e chega o Idelber, gentilíssimo, trazendo uma mala de presentes para mim e para o Simas, que chegou em seguida. Estrilou de novo meu celular: era Diego Moreira, convocado no ato. Com sua chegada formou-se a mesa de seis.
E lá estava, é evidente, o Paulo – o único garçom da casa. E o bom Paulo deu, de novo, um show (fico feliz com a presença dos demais à mesa que poderão servir como testemunhas do que vou contar).
Bebíamos, industrialmente, Antarctica. A certa altura o Idelber manifesta o desejo de uma cachaça. Eu convoco o Paulo à mesa:
– Velho, quais as cachaças que você tem aí?
Ele sorri.
Os doze olhos à mesa percorrem os rostos da assistência. Clima tenso, com exceção do Diego que não consegue manter a linha diante do garçom – o sujeito explode de rir ao primeiro sinal da presença do Paulo. Eu insisto:
– Quais, Paulo?
Ele pensa um pouco e diz:
– Não sei.
Sou paciente:
– Tem Seleta?
Ele sorri e responde dando pulinhos:
– Genebra? Tem!
– Não, Paulo! Seleta! Se-le-ta! – já gritando.
– Tem, tem, tem!
– Duas doses, por favor! – o Marechal queria também.
Vimos o Paulo tomar a direção do bar. Como um luminoso de neon, a garrafa de Seleta se destacava na prateleira. E vimos o magnífico (que é como papai se refere a qualquer garçom) completamente perdido diante da coleção de garrafas, e nesse momento já éramos seis guinchando de rir à mesa. Luiz Antonio Simas, sóbrio, ainda disse:
– Ele incorporou o personagem. Só pode ser de sacanagem!
Paulo foi à cozinha e chamou a preta. Foi ela que apontou a garrafa. E veio à mesa uma dose.
– São duas, Paulo! – disse o Marechal.
Rindo, como quem dá uma boa notícia, ele respondeu:
– Só tem essa.
Passado mais um tempo Idelber e Marechal manifestaram vontade de outra cachaça.
– Paulo, e aí? Quais cachaças ainda têm?
Ele sorriu de novo:
– Seleta! – e disse isso com ar de gênio.
– Tu não disse que tinha acabado?
– Disse.
– E então?
Ele sorriu.
Fui ao balcão. Voltei.
– Traga duas doses de Boazinha, por favor.
E vieram à mesa dois copos americanos até a boca de cachaça, doses inéditas.
– Mas que doses são essas, Paulo?! Enlouqueceu?! – eu disse.
E ele, novamente com ares de um gênio que tem sacadas incríveis ao longo do dia, disse piscando o olho:
– É uma boa dose. Dose boa. Dose de Boazinha! – e riu de si mesmo como um louco.
Por conta de compromissos, precisei partir às 19h.
Tão logo eu saiba mais sobre a atuação do Paulo até a saída dos cinco, lhes conto tudo por aqui.
Até.

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AS ATUAÇÕES DO PAULO

Ontem lhes contei, aqui, sobre os personagens que compõem a assistência do Rio-Brasília, esse portento tijucano de escol. Fiz brevíssima apresentação do Paulo, o único garçom da casa, uma espécie de Nunes, o ex-camisa 9 da Gávea: atua de forma destrambelhada mas salva o sujeito sempre que a coisa aperta. Sobre o Paulo, também manifestou-se o bravo Álvaro Costa e Silva, nosso bom Marechal, aqui. E é sobre ele que quero lhes contar hoje. Sobre suas atuações, pra ser mais preciso.

E para que vocês que me lêem possam construir seus cenários particulares exibo, abaixo, uma foto do Paulo ao lado de Breno Boechat, no dia em que este último fez sua última incursão ao bar antes de sua viagem para o Canadá, onde fica até meados do primeiro semestre de 2011.

Notem bem: nesse dia, 27 de novembro de 2010, o Paulo usava uma boina de feltro cinza. Foi colocá-la sobre a cabeça e um gozador do pedaço bradou:

– Ô, Chico Xavier, materializa um maracujá aqui na minha mesa.

Deu-se a explosão de gargalhadas, quando o Breno me pediu:

– Tira uma foto minha com o médium!

Pois bem, feita a apresentação plástica e visual da figura, vamos ao que quero lhes contar.

Antes, porém, uma informação: o bom e doce Professor Diego Moreira, um dos expoentes do bairro, é testemunha de meu carinho no trato com o Paulo. Confesso que não tenho nenhuma paciência com o modus operandi do operário do buteco. Como lhes disse ontem, é completamente surdo, trabalha à base de doses indecentes de cachaça, treme as mãos agudamente, derruba tudo o que encontra pela frente mas é aquele negócio… quando chega perto trazendo o pedido é aquela figura digna de piedade e idolatria. Vou mesmo lhe contar sobre suas atuações, e começo com uma digna de registro.

Na sexta-feira passada fui com minha menina assistir ao show do João Bosco. Já quase em casa, na volta, ela disse para minha satisfação:

– Vamos beber um maracujá no Rio-Brasília?

Fomos.

E quando lá chegamos, lá estava o bom Paulo. Poucas vezes vi um magnífico (é como papai chama os graçons) fazer tanto salamaleque. Ele parecia, juro, um mestre-sala diante da cabine dos jurados. Estendeu-me a mão, beijou a mão da moça que me ensinou a sorrir, rodopiou, disse frases que eu não entendi, até que sentamos. E atenção, paulistas, para o que eu vou dizer: assim que risquei o Zippo e acendi meu cigarro, Paulo gingou em direção ao balcão e me estendeu um cinzeiro (e ele nunca havia feito isso, era mesmo para impressioná-la). Trouxe (e também pela primeira vez), guardanapos, palitos, azeite, sal, pimenta do reino, sendo que não pedimos rigorosamente nada pra comer.

– Dois maracujás, por favor!

Novos jogos de corpo, rapapés teatrais, uma afetação indescritível. Ela disse, depois do primeiro gole:

– É sempre assim?

– Não. Nunca.

E eis a frase que só mesmo uma mulher:

– Ah, que fofo.

Os marmanjos que me lêem e que já conhecem a peça devem estar guinchando de rir, mas vamos em frente.

Dia desses eu estava com o Felipinho Cereal no Bar do Marreco, que fica a exatos 220m a pé do Rio-Brasília (como seu preciso do início ao fim, eis o mapa aqui). Bebíamos de pé no balcão quando adentrou o recinto justamente o Paulo. Estava disposto a comprar cigarros para um freguês do Rio-Brasília. Cumprimentou-nos e disse ao Danilo, o barman que trabalha pro Marreco:

– Me vê um crshjwjkhsmill. – inaudível.

O Danilo, que já não é muito bom na comunicação, disse:

– Hã?

– Um maço de crshjwjkhsmill. – inaudível de novo.

Eu e o Felipinho já rolávamos, como bolas de gude, pelo chão. Fui voluntário:

– O que você quer, Paulo?

Ele riu, já manjando o clima.

– Um maço de cigarro… o nome parece com camelo, sei lá…

O Felipinho, sem fôlego, em meio à explosão ruidosa e prolongada do riso, disse:

– Camel, Danilo! Camel!

– Não tem isso não.

Seu Brasil, síndico do pedaço, estendeu o indicador em direção ao box de cigarros e disse:

– E que porra é aquele ali, ô imbecil!

– Ah! Ninguém compra essa porra!

Resolvemos o problema do Paulo.

Pra terminar: também na semana passada sentei-me no Rio-Brasília com o Vidal, a Lenda, e com Lúcio Lemos, bissexto na área, mais assíduo no circuito Botafogo, onde trabalha. Papo vai, maracujá vem, papo vem, maracujá de novo, o Lúcio sinaliza em direção ao Paulo. É um carinhoso, o Lúcio:

– Ô, Paulinho, quebra uma pra mim? Compra um Carlton ali no Estudantil pra mim?

Eu senti quando o caboclo tremeu na base. O olhar de esguelha em minha direção foi indisfarçável. Lúcio estendeu a nota de cinco reais e vimos partir o Paulo para sua marcha de não mais que 30m, trajeto ida e volta em menos de cinco minutos.

Quarenta minutos depois chega o Paulo. Imediatamente ele põe sobre a mesa um maço de Lucky Strike. O Lúcio:

– Não tinha Carlton?

O Paulo:

– Não sei.

O Lúcio:

– Por que você trouxe Lucky Strike?

O Paulo:

– Não sei.

Este, meus poucos mas fiéis leitores, é o Paulo.

Quando voltei lá, no dia seguinte, disse-me o pobre-coitado:

– De hoje em diante só saio pra comprar cigarro levando a embalagem pra comprar igual…

Até.

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O BOM E VELHO RIO-BRASÍLIA

O Rio-Brasília, já lhes disse isso diversas vezes, é meu buteco de estimação. Além de ficar a exatos 120 metros de minha casa, é perfeito no que diz respeito à estrutura (azulejos antigos, balcão farto, bebida gelada etc) e ao atendimento. O Paulo, o único garçom da casa, é o pior garçom do Brasil (quiçá do mundo) mas é um excelente garçom. É surdo, bebe mais que toda a clientela, treme horrores, quebra diversos copos e garrafas por dia, derrama metade do maracujá no trajeto entre o balcão e a mesa mas é de uma gentileza comovente. Estive lá anteontem, uma vez mais, na companhia de Felipinho Cereal, Luiz Antonio Simas (acompanhado de sua senhora) e Vidal, a Lenda. Minha menina deu-me o visto para descer com uma condição:

– Já não bastam as 14 horas na rua ontem?! Vê lá, hein?! Vá rápido e traga o Vidal pra beber um uisquinho com você aqui…

Uma doçura que me emociona. A frase “traga o Vidal pra beber” deveu-se a uma de minhas frases clássicas que uso em caso de extrema necessidade:

– Eu preciso ir, sabe? O Vidal não tá nada bem… – dita com uma expressão gravíssima, uma máscara de corredor de UTI.

Ela sabe que é mentira em 90% dos casos mas funciona sempre.

Ao chegar no bar – eis o que eu queria lhes contar – a mesma assistência.

Taí uma das características marcantes de qualquer bom e clássico botequim. A assistência. Vejam vocês que os bares incensados pela imprensa têm sempre um público de museu, e explico: são pessoas estranhas ao ambiente e que chegam em levas intermináveis, ora de van (há quem organize expedições aos bares em vans), ora guiados pelo GPS do automóvel.

Já os tradicionais, não.

Não têm público de museu. Têm, mais que freqüentadores, figurantes fixos. Aqueles que, quando não aparecem no pedaço, merecem a frase:

– Fulano faltou hoje.

Pois o Rio-Brasília é assim. E lembrei-me de lhes contar isso por conta da atuação do Vidal na noite de domingo. Muito provavelmente para ver aflorar minha veia crítica deu de perguntar:

– Quem é esse, Edu? E aquele? E aquele outro? – por aí.

Felipinho Cereal me ajudou nas respostas. Lembrei-me de um detalhe: em um desses botequins clássicos – como o descrito aqui por meu irmão, Fernando Szegeri – poucas vezes se sabe o nome dos figurantes. O que vale é mesmo o apelido.

Lá estava no domingo o Benito di Paula Preto – “com a mesma camisa há três dias”, apontou o Cereal. O sujeito é os cornos do cantor friburguense, aquele cabelão, aquela barbicha. Antes de prosseguir quero lhes contar um troço.

Papai é um homem que anda com uma carteira imaginária de frases prontas no bolso. E sempre – eu disse sempre! – que papai passa em frente a um botequim e vê, lá, sentado numa das mesas ou mesmo de pé no balcão, uma pobre alma solitária bebendo sua cerveja, ele solta em tom de lamento:

– Coitado… Todos os dias esse homem está aí. Não tem família! Não tem família!

Pois estava no Rio-Brasília, também, a Sem Família. Trata-se de uma mulher na casa de seus 45 anos e freqüentadora diária. Parece um daqueles vendedores de bilhete de loteria dos botequins: passa a noite indo de mesa em mesa, filando um cigarro aqui, um gole de cerveja ali, até que é resgatada, todas as noites, pelo filho. Há, é preciso dizer, outras duas com o mesmo comportamento: são a Sem Família I e a Sem Família II. Há também a Cássia Eller da Tijuca, moradora do prédio em cima do bar. Pelo que conta Felipinho Cereal, um observador nato, mora com outra mulher e as duas adotaram uma criança que – vejam vocês! – também tem apelido: Chicão, por conta do nome do filhote da roqueira falecida. Outra figura clássica: o Bigodinho, vizinho do Cereal. Também o Taxista, que todos os dias – todos! – comparece com a mulher e o casal de filhos. Outro que estava lá diariamente – mas sumiu – é o Pica-Pau. Depois que se envolveu num imbróglio que beirou as vias de fato com o Felipinho Cereal e o Espanhol, seu tio, sumiu para sempre. O Felipinho, inclusive, já é chamado pela assistência de Exterminador de Aves, por conta disso. Pois ficamos ali legendando os personagens para delírio do Vidal. Pagamos a conta – e uma vez mais coube a cada um menos de dez reais – e fomos pra casa, eu e meu dentista.

O Vidal, à certa altura, já na terceira dose de uísque – foi-se embora minha garrafa de Blue Label – contou pra minha menina minha atuação quanto à apresentação dos figurantes. E ela, de voleio:

– E tu acha que falam o quê do Edu? Ele também está lá todos os dias, todos os dias!

De olhos baixos – aqueles olhos-faróis, verdíssimos, perdição de suas pacientes – ele disse:

– É… pouco antes do Edu chegar a Cássia Eller da Tijuca comentou sobre a ausência da Baleia de Gravata. Foi quando o Benito di Paula Preto perguntou a ela se a referência era ao Maracujá-Kojak.

Até.

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