FINAL DE ANO

Eis que chegamos ao final do ano de 2010. Para mim 2010 terá a marca da saudade deixada por minha avó, que foi oló há poucas semanas, nesse dezembro que termina amanhã. Terá, também, a marca da batalha que travamos em prol da eleição da primeira mulher presidente do Brasil e a marca do último dos oito anos de governo do primeiro operário presidente do Brasil, revolucionário por conta da inversão que siginificou a impressão de suas medidas. Passamos a pensar grande, deixamos de lado a visão elitista e acadêmica que nos regeu durante séculos e a despedida desse homem, no dia primeiro de janeiro, vai ser emocionante demais, fazendo com que 2011 comece sob a égide também da saudade e da esperança.

Mas o que quero lhes trazer hoje, nesse último texto de 2010, depois desse hiato gerado pela correria do final do ano – meu último texto foi publicado no dia 17 de dezembro – é uma homenagem com cara de cartão postal dirigido a todos vocês, meus poucos mas fiéis leitores, que me lêem.

2010 não foi, como não tem sido a vida, um ano tranqüilo. A situação que enfrento intramuros é capaz de estabelecer um permanente desafio que – é como penso – exige de mim a exata medida entre o medo e a esperança, entre a angústia e o ânimo, entre o ateísmo e a fé, entre o branco e o preto, entre o fogo e a tempestade, entre a baunilha e o sal. Mais que nunca, e tem sido assim a cada dia que passo, valho-me da lição de um de meus mestres e a cada tristeza ergo o meu copo ao humor – essa é a grandeza que o samba me ensinou.

Muita gente foi (e é) fundamental para que esse enfrentamento aconteça de forma a não me desestabilizar. E ainda que eu siga permanentemente em estado de visível desequilíbrio, como a esperança que dança na corda bamba de sombrinha, acordo diariamente disposto a assistir, sorrindo, o show continuar de mãos dadas com a esperança-equilibrista.

Mas a homenagem que presto hoje vai pra Marcela, minha amada Manguaça, que aparece na foto que ilustra este texto acarinhando meu vira-latas. Ninguém mais foi mais a expressão do carinho do que ela. Não me faltou, nunca, seu abraço, seu cafuné, seus dedos me enxugando o choro, seu colo e seu ombro paciente e doce. Filha de uma moça igualmente imprescindível, filha de um moço que talvez já tenha conhecido minha avó de mais perto, irmã de um sujeito que não nega o berço – ele também um poço de afeto -, a Manguaça recebe, daqui, minha mais profunda declaração pública de gratidão por tudo que é, por tudo que representa, por tudo que faz.

Desejo a vocês, que me lêem, um ano-manguaça. Se no ano-novo todos vocês tiverem que seja dez por cento do que essa moça representou pra mim nesse 2010, o ano de 2011 será um ano fabuloso. E não me ocorre palavra melhor e mais adequada do que “fabuloso”. Porque é isso que ela é: quase que um troço de fábula, indizível, concretização dos melhores desejos em termos de gente.

A todos, muita saúde. Muita disposição para os enfrentamentos que a vida exige. Muito ânimo, muita paz, muito amor, muito axé.

Até 2011!

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AINDA SOBRE O PAULO, O MAGNÍFICO DO RIO-BRASÍLIA

Conforme lhes contei aqui e aqui, o Rio-Brasília tem, em seu magnífico staff, um único garçom, o Paulo. Paulo para uns, Paulinho para outros, Chico Xavier – ou simplesmente “médium” – para os mais gozadores, o sujeito é um Nunes, o ex-camisa 9 da Gávea: absolutamente desastrado no trato com a bola mas capaz de fazer um caminhão de gols para delírio da assistência. O que quer dizer que cada ida ao fabuloso bar da Almirante Gavião (não confundir jamais com a lanchonete da mesma calçada) significa testemunhar atuações de antologia. Como a de ontem.

Ontem eu tive a honra e o prazer de conhecer pessoalmente Idelber Avelar. Depois de ler, no twitter, que o professor tinha vontade de vir ao Rio de Janeiro para conhecer outro mestre, Luiz Antonio Simas (o Idelber vive nos Estados Unidos), meti o bedelho e costurei, humildemente, o encontro. Na Tijuca, evidentemente. Eis que então às 16h ancorei no balcão do buteco ao lado de meu compadre Leo Boechat. Estávamos a caminho do bar quando estrilou meu celular. Era Álvaro Costa e Silva, o Marechal, que seguramente soubera do encontro pelo próprio twitter. Tentou disfarçar:
– Ô, meu Edu! Tudo bem? Estou querendo muito beber uma boa batida de gengibre, podes me dar uma dica?
Fui direto:
– Rio-Brasília, imediatamente.
Minutos depois, chega o Marechal (e comprovando minha desconfiança, o bom e velho lobo da imprensa não bebeu uma gota sequer de batidade de gengibre… o caboclo queria mesmo era estar entre nós). Um pouco mais e chega o Idelber, gentilíssimo, trazendo uma mala de presentes para mim e para o Simas, que chegou em seguida. Estrilou de novo meu celular: era Diego Moreira, convocado no ato. Com sua chegada formou-se a mesa de seis.
E lá estava, é evidente, o Paulo – o único garçom da casa. E o bom Paulo deu, de novo, um show (fico feliz com a presença dos demais à mesa que poderão servir como testemunhas do que vou contar).
Bebíamos, industrialmente, Antarctica. A certa altura o Idelber manifesta o desejo de uma cachaça. Eu convoco o Paulo à mesa:
– Velho, quais as cachaças que você tem aí?
Ele sorri.
Os doze olhos à mesa percorrem os rostos da assistência. Clima tenso, com exceção do Diego que não consegue manter a linha diante do garçom – o sujeito explode de rir ao primeiro sinal da presença do Paulo. Eu insisto:
– Quais, Paulo?
Ele pensa um pouco e diz:
– Não sei.
Sou paciente:
– Tem Seleta?
Ele sorri e responde dando pulinhos:
– Genebra? Tem!
– Não, Paulo! Seleta! Se-le-ta! – já gritando.
– Tem, tem, tem!
– Duas doses, por favor! – o Marechal queria também.
Vimos o Paulo tomar a direção do bar. Como um luminoso de neon, a garrafa de Seleta se destacava na prateleira. E vimos o magnífico (que é como papai se refere a qualquer garçom) completamente perdido diante da coleção de garrafas, e nesse momento já éramos seis guinchando de rir à mesa. Luiz Antonio Simas, sóbrio, ainda disse:
– Ele incorporou o personagem. Só pode ser de sacanagem!
Paulo foi à cozinha e chamou a preta. Foi ela que apontou a garrafa. E veio à mesa uma dose.
– São duas, Paulo! – disse o Marechal.
Rindo, como quem dá uma boa notícia, ele respondeu:
– Só tem essa.
Passado mais um tempo Idelber e Marechal manifestaram vontade de outra cachaça.
– Paulo, e aí? Quais cachaças ainda têm?
Ele sorriu de novo:
– Seleta! – e disse isso com ar de gênio.
– Tu não disse que tinha acabado?
– Disse.
– E então?
Ele sorriu.
Fui ao balcão. Voltei.
– Traga duas doses de Boazinha, por favor.
E vieram à mesa dois copos americanos até a boca de cachaça, doses inéditas.
– Mas que doses são essas, Paulo?! Enlouqueceu?! – eu disse.
E ele, novamente com ares de um gênio que tem sacadas incríveis ao longo do dia, disse piscando o olho:
– É uma boa dose. Dose boa. Dose de Boazinha! – e riu de si mesmo como um louco.
Por conta de compromissos, precisei partir às 19h.
Tão logo eu saiba mais sobre a atuação do Paulo até a saída dos cinco, lhes conto tudo por aqui.
Até.

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AS ATUAÇÕES DO PAULO

Ontem lhes contei, aqui, sobre os personagens que compõem a assistência do Rio-Brasília, esse portento tijucano de escol. Fiz brevíssima apresentação do Paulo, o único garçom da casa, uma espécie de Nunes, o ex-camisa 9 da Gávea: atua de forma destrambelhada mas salva o sujeito sempre que a coisa aperta. Sobre o Paulo, também manifestou-se o bravo Álvaro Costa e Silva, nosso bom Marechal, aqui. E é sobre ele que quero lhes contar hoje. Sobre suas atuações, pra ser mais preciso.

E para que vocês que me lêem possam construir seus cenários particulares exibo, abaixo, uma foto do Paulo ao lado de Breno Boechat, no dia em que este último fez sua última incursão ao bar antes de sua viagem para o Canadá, onde fica até meados do primeiro semestre de 2011.

Notem bem: nesse dia, 27 de novembro de 2010, o Paulo usava uma boina de feltro cinza. Foi colocá-la sobre a cabeça e um gozador do pedaço bradou:

– Ô, Chico Xavier, materializa um maracujá aqui na minha mesa.

Deu-se a explosão de gargalhadas, quando o Breno me pediu:

– Tira uma foto minha com o médium!

Pois bem, feita a apresentação plástica e visual da figura, vamos ao que quero lhes contar.

Antes, porém, uma informação: o bom e doce Professor Diego Moreira, um dos expoentes do bairro, é testemunha de meu carinho no trato com o Paulo. Confesso que não tenho nenhuma paciência com o modus operandi do operário do buteco. Como lhes disse ontem, é completamente surdo, trabalha à base de doses indecentes de cachaça, treme as mãos agudamente, derruba tudo o que encontra pela frente mas é aquele negócio… quando chega perto trazendo o pedido é aquela figura digna de piedade e idolatria. Vou mesmo lhe contar sobre suas atuações, e começo com uma digna de registro.

Na sexta-feira passada fui com minha menina assistir ao show do João Bosco. Já quase em casa, na volta, ela disse para minha satisfação:

– Vamos beber um maracujá no Rio-Brasília?

Fomos.

E quando lá chegamos, lá estava o bom Paulo. Poucas vezes vi um magnífico (é como papai chama os graçons) fazer tanto salamaleque. Ele parecia, juro, um mestre-sala diante da cabine dos jurados. Estendeu-me a mão, beijou a mão da moça que me ensinou a sorrir, rodopiou, disse frases que eu não entendi, até que sentamos. E atenção, paulistas, para o que eu vou dizer: assim que risquei o Zippo e acendi meu cigarro, Paulo gingou em direção ao balcão e me estendeu um cinzeiro (e ele nunca havia feito isso, era mesmo para impressioná-la). Trouxe (e também pela primeira vez), guardanapos, palitos, azeite, sal, pimenta do reino, sendo que não pedimos rigorosamente nada pra comer.

– Dois maracujás, por favor!

Novos jogos de corpo, rapapés teatrais, uma afetação indescritível. Ela disse, depois do primeiro gole:

– É sempre assim?

– Não. Nunca.

E eis a frase que só mesmo uma mulher:

– Ah, que fofo.

Os marmanjos que me lêem e que já conhecem a peça devem estar guinchando de rir, mas vamos em frente.

Dia desses eu estava com o Felipinho Cereal no Bar do Marreco, que fica a exatos 220m a pé do Rio-Brasília (como seu preciso do início ao fim, eis o mapa aqui). Bebíamos de pé no balcão quando adentrou o recinto justamente o Paulo. Estava disposto a comprar cigarros para um freguês do Rio-Brasília. Cumprimentou-nos e disse ao Danilo, o barman que trabalha pro Marreco:

– Me vê um crshjwjkhsmill. – inaudível.

O Danilo, que já não é muito bom na comunicação, disse:

– Hã?

– Um maço de crshjwjkhsmill. – inaudível de novo.

Eu e o Felipinho já rolávamos, como bolas de gude, pelo chão. Fui voluntário:

– O que você quer, Paulo?

Ele riu, já manjando o clima.

– Um maço de cigarro… o nome parece com camelo, sei lá…

O Felipinho, sem fôlego, em meio à explosão ruidosa e prolongada do riso, disse:

– Camel, Danilo! Camel!

– Não tem isso não.

Seu Brasil, síndico do pedaço, estendeu o indicador em direção ao box de cigarros e disse:

– E que porra é aquele ali, ô imbecil!

– Ah! Ninguém compra essa porra!

Resolvemos o problema do Paulo.

Pra terminar: também na semana passada sentei-me no Rio-Brasília com o Vidal, a Lenda, e com Lúcio Lemos, bissexto na área, mais assíduo no circuito Botafogo, onde trabalha. Papo vai, maracujá vem, papo vem, maracujá de novo, o Lúcio sinaliza em direção ao Paulo. É um carinhoso, o Lúcio:

– Ô, Paulinho, quebra uma pra mim? Compra um Carlton ali no Estudantil pra mim?

Eu senti quando o caboclo tremeu na base. O olhar de esguelha em minha direção foi indisfarçável. Lúcio estendeu a nota de cinco reais e vimos partir o Paulo para sua marcha de não mais que 30m, trajeto ida e volta em menos de cinco minutos.

Quarenta minutos depois chega o Paulo. Imediatamente ele põe sobre a mesa um maço de Lucky Strike. O Lúcio:

– Não tinha Carlton?

O Paulo:

– Não sei.

O Lúcio:

– Por que você trouxe Lucky Strike?

O Paulo:

– Não sei.

Este, meus poucos mas fiéis leitores, é o Paulo.

Quando voltei lá, no dia seguinte, disse-me o pobre-coitado:

– De hoje em diante só saio pra comprar cigarro levando a embalagem pra comprar igual…

Até.

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O BOM E VELHO RIO-BRASÍLIA

O Rio-Brasília, já lhes disse isso diversas vezes, é meu buteco de estimação. Além de ficar a exatos 120 metros de minha casa, é perfeito no que diz respeito à estrutura (azulejos antigos, balcão farto, bebida gelada etc) e ao atendimento. O Paulo, o único garçom da casa, é o pior garçom do Brasil (quiçá do mundo) mas é um excelente garçom. É surdo, bebe mais que toda a clientela, treme horrores, quebra diversos copos e garrafas por dia, derrama metade do maracujá no trajeto entre o balcão e a mesa mas é de uma gentileza comovente. Estive lá anteontem, uma vez mais, na companhia de Felipinho Cereal, Luiz Antonio Simas (acompanhado de sua senhora) e Vidal, a Lenda. Minha menina deu-me o visto para descer com uma condição:

– Já não bastam as 14 horas na rua ontem?! Vê lá, hein?! Vá rápido e traga o Vidal pra beber um uisquinho com você aqui…

Uma doçura que me emociona. A frase “traga o Vidal pra beber” deveu-se a uma de minhas frases clássicas que uso em caso de extrema necessidade:

– Eu preciso ir, sabe? O Vidal não tá nada bem… – dita com uma expressão gravíssima, uma máscara de corredor de UTI.

Ela sabe que é mentira em 90% dos casos mas funciona sempre.

Ao chegar no bar – eis o que eu queria lhes contar – a mesma assistência.

Taí uma das características marcantes de qualquer bom e clássico botequim. A assistência. Vejam vocês que os bares incensados pela imprensa têm sempre um público de museu, e explico: são pessoas estranhas ao ambiente e que chegam em levas intermináveis, ora de van (há quem organize expedições aos bares em vans), ora guiados pelo GPS do automóvel.

Já os tradicionais, não.

Não têm público de museu. Têm, mais que freqüentadores, figurantes fixos. Aqueles que, quando não aparecem no pedaço, merecem a frase:

– Fulano faltou hoje.

Pois o Rio-Brasília é assim. E lembrei-me de lhes contar isso por conta da atuação do Vidal na noite de domingo. Muito provavelmente para ver aflorar minha veia crítica deu de perguntar:

– Quem é esse, Edu? E aquele? E aquele outro? – por aí.

Felipinho Cereal me ajudou nas respostas. Lembrei-me de um detalhe: em um desses botequins clássicos – como o descrito aqui por meu irmão, Fernando Szegeri – poucas vezes se sabe o nome dos figurantes. O que vale é mesmo o apelido.

Lá estava no domingo o Benito di Paula Preto – “com a mesma camisa há três dias”, apontou o Cereal. O sujeito é os cornos do cantor friburguense, aquele cabelão, aquela barbicha. Antes de prosseguir quero lhes contar um troço.

Papai é um homem que anda com uma carteira imaginária de frases prontas no bolso. E sempre – eu disse sempre! – que papai passa em frente a um botequim e vê, lá, sentado numa das mesas ou mesmo de pé no balcão, uma pobre alma solitária bebendo sua cerveja, ele solta em tom de lamento:

– Coitado… Todos os dias esse homem está aí. Não tem família! Não tem família!

Pois estava no Rio-Brasília, também, a Sem Família. Trata-se de uma mulher na casa de seus 45 anos e freqüentadora diária. Parece um daqueles vendedores de bilhete de loteria dos botequins: passa a noite indo de mesa em mesa, filando um cigarro aqui, um gole de cerveja ali, até que é resgatada, todas as noites, pelo filho. Há, é preciso dizer, outras duas com o mesmo comportamento: são a Sem Família I e a Sem Família II. Há também a Cássia Eller da Tijuca, moradora do prédio em cima do bar. Pelo que conta Felipinho Cereal, um observador nato, mora com outra mulher e as duas adotaram uma criança que – vejam vocês! – também tem apelido: Chicão, por conta do nome do filhote da roqueira falecida. Outra figura clássica: o Bigodinho, vizinho do Cereal. Também o Taxista, que todos os dias – todos! – comparece com a mulher e o casal de filhos. Outro que estava lá diariamente – mas sumiu – é o Pica-Pau. Depois que se envolveu num imbróglio que beirou as vias de fato com o Felipinho Cereal e o Espanhol, seu tio, sumiu para sempre. O Felipinho, inclusive, já é chamado pela assistência de Exterminador de Aves, por conta disso. Pois ficamos ali legendando os personagens para delírio do Vidal. Pagamos a conta – e uma vez mais coube a cada um menos de dez reais – e fomos pra casa, eu e meu dentista.

O Vidal, à certa altura, já na terceira dose de uísque – foi-se embora minha garrafa de Blue Label – contou pra minha menina minha atuação quanto à apresentação dos figurantes. E ela, de voleio:

– E tu acha que falam o quê do Edu? Ele também está lá todos os dias, todos os dias!

De olhos baixos – aqueles olhos-faróis, verdíssimos, perdição de suas pacientes – ele disse:

– É… pouco antes do Edu chegar a Cássia Eller da Tijuca comentou sobre a ausência da Baleia de Gravata. Foi quando o Benito di Paula Preto perguntou a ela se a referência era ao Maracujá-Kojak.

Até.

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NOEL ROSA – 100 ANOS

Eis que amanhã Noel Rosa faz 100 anos. Não vou fazer do balcão virtual do BUTECO oratório para chorumelas ou arengas contra a calhordice da prefeitura calhorda do Rio de Janeiro que ignora solenemente a data. É uma vergonha, é verdade, mas não se poderia mesmo esperar nada diferente de uma administração que parece querer marcar sua atuação por conta da chamada operação “choque de ordem”.

O povo carioca, entretanto, é mestre na arte da subversão da ordem. E historicamente dispensa o auxílio do poder constituído para fazer suas festas que também historicamente sempre lhe foram sonegadas, boicotadas, proibidas até.

Amanhã, portanto, é dia do carioca sair às ruas (como sempre, aliás…) e brindar à memória de Noel. Beber, cantar, jogar porrinha, fazer samba, fazer troça, incorporar o espírito do homem que em tão pouco tempo de vida nos deixou um legado que está aí, quase um século depois, vivo e impregnado no imaginário popular.

O BUTECO fica, portanto, até segunda-feira, exibindo Noel através do traço inconfundível do mestre Loredano, um homem que, como o Poeta da Vila, ama o Rio de Janeiro inifinitas vezes mais que qualquer administrador oportunista como os que ora ocupam os cargos de comando da cidade.

Como dica para amanhã indico a roda de samba que outro carioca máximo, Rodrigo Ferrari, fará em frente à livraria FOLHA SECA, na rua do Ouvidor 37. Mas o ponto alto, quero crer, será mesmo na Vila Isabel, no Boulevard 28 de Setembro, onde viveu Noel Rosa. É lá que ele “vaga na noite e no dia, vive na Terra e no céu”.

Até.

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O ESPÓLIO DE MINHA AVÓ – II

Prossigo hoje escarafunchando o baú que ganhei de presente de mamãe por ocasião da morte de minha avó, conforme lhes contei ontem, aqui.

Vovó tinha 8 anos de idade nesta impactante fotografia, tirada no dia 19 de fevereiro de 1933, um domingo, uma semana antes do início do Carnaval. A foto foi tirada no jardim da casa na qual moravam meus bisavós, Eugenio Augusto Monteiro de Barros (é o quarto da esquerda para a direita, na fila mais alta da fotografia, de camisa branca e braços cruzados) e Mathilde Veloso Monteiro de Barros (a terceira da esquerda para a direita, na fila mais baixa, de saia preta e camisa branca), na rua Marquês de São Vicente 186, na Gávea. A casa, é claro – como ocorre em uma cidade que pouco valoriza sua memória – não existe mais, e ficava quase em frente ao terreno no qual se localiza, hoje, a PUC. À certa altura (depois apuro isso com afinco) meu bisavô vendeu a casa para, sabiamente, mudar-se com a família para a Tijuca (e dizia-se Engenho Velho, à época).

Algumas coisas me chamam a atenção na fotografia que pode ser vista, maior, com um simples clique sobre ela. Antes, uma breve pausa.

Meus bisavós tiveram seis filhos, pela ordem de nascimento: Maria Florinda, que morreu muito nova, aos 15 anos, vítima do tétano (dia desses falo sobre ela, que inspirou minha avó, sua irmã, a dar seu nome à minha mãe), Francisco de Paula Monteiro de Barros (tio Chico), Carlinda (tia Linda), Silvio Augusto (tio Silvio), Mathilde (minha avó) e Carlos Henrique (tio Hique).

Havia (ainda há, parece) uma espécie de pacto entre os Monteiro de Barros: o primogênito de todo Eugenio Augusto seria obrigatoriamente um Francisco de Paula, e todo primogênito de um Francisco de Paula seria obrigatoriamente um Eugenio Augusto, e vejam vocês se isso não justifica, de certo modo, o transtorno obsessivo compulsivo (TOC) que me persegue.

Vamos aos personagens da fotografia, sempre da esquerda para a direita: na primeira fila, a mais baixa, dona Lina, mãe de minha bisavó, avó de vovó, bisavó de minha mãe. A seu lado, dona Adelina. A seu lado, minha bisavó, Mathilde (elegante, elegante!, a dona da casa), mãe de vovó e avó de minha mãe. A seu lado, o doutor Oscar, personagem mítica da filha (falarei sobre ele em brevíssimo!). E a seu lado, fechando a fila, Francisco de Paula, o primogênito de meu bisavô, que se casaria, em 1942, com a tia Noêmia (sobre a tia Noêmia, recomendo vivamente um de meus textos preferidos sobre a família, DEBUTE NO ENGENHO NOVO, de primeiro de setembro de 2006, aqui). Notem que tanto o doutor Oscar quanto o tio Chico têm, nas mãos, uma caneca de cerveja preta.

Na segunda fila: não consegui descobrir quem são as duas primeiras. O baixinho que vem depois é o Soony, que está no colo de Alzira, sua mãe, irmã de minha bisavó, a tia Zirota (e sobre minha tia Zirota, a que voava, também recomendo a leitura de MINHA PRIMEIRA VIAGEM, de 24 de janeiro de 2008, aqui). Os demais não consegui identificar.

Logo acima da tia Zirota, erguendo um copo, está Carlinda, minha tia Linda. A seu lado, em pé, dona Mathilde, minha avó, com apenas 8 anos. O menino ao lado de minha avó é Carlos Henrique, meu tio Hique.

Os três primeiros da fila de cima também não consegui saber quem são. Logo depois, meu bisavô. A seu lado, tio Procter, inglês, marido de Alzira (minha tia Zirota), com Marylou no colo, irmã do Soony.

Vamos ao que quero lhes contar hoje. Não… não quero lhes contar mais nada hoje. E que fiquem aí, registrados os personagens de muitas das histórias que lhes contarei nos próximos dias. Como quase todo mundo que mantém relação afetiva com seus ancestrais, tenho um corolário de histórias que beiram a ficção envolvendo toda essa gente aí da fotografia.

Desfiando esse novelo aqui, publicamente, aplaco a saudade que sinto de todos eles, dos que conheci e dos que me são vivos por conta da memória de tudo aquilo que ouvi ao longo de 41 anos de vida. Como diz um de meus mestres, Aldir Blanc, é na saudade “que tudo que amei sobrevive”.

Até.

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O ESPÓLIO DE MINHA AVÓ

(dedicado a meus irmãos, Fernando Braga Goldenberg e Cristiano Braga Goldenberg, e a minha mãe, Mariazinha)

Mamãe viveu ontem, ao lado de minha menina, de certa forma (infinitamente menos dolorosa, é verdade), o drama de “arrumar o quarto de um filho que já morreu”. Esteve na casa de vovó, na Tijuca evidentemente, para tratar das coisas práticas que o evento morte exige. Eu, um poltrão (como diria minha bisavó), evitei a tarefa. Mas vamos ao que quero lhes contar, sempre norteado pela lição de grandeza que o samba me ensinou: erguer o copo ao humor (apud Aldir Blanc).

Minha infância é povoada de mulheres. Bisavós, tias, avós, a parentalha toda (e fomos sempre uma família, digamos, regida pelo matriarcado – refiro-me à linhagem de mamãe) virava e mexia soltava uma frase que era, na verdade, o brandir de um brasão imaginário:

– Somos parentes do Barão de Paraopeba!

Isso era usado em qualquer situação. Encerrava-se uma discussão com algum vizinho com essa sentença fatal:

– Somos parentes do Barão de Paraopeba!

Pequena pausa: isso me vinha sempre à cabeça, anos depois, quando eu ouvia o anúncio “ninguém, ninguém, ninguém segura o Khalil!” (entendam isso, aqui).

O Barão de Paraopeba era, para mim, na mais tenra infância, um mito. Vamos em frente.

Antes, porém, nova pausa: peço ao meu dileto e fraterno Diego Moreira, especialista na arte de escarafunchar o passado das famílias, que me auxilie com os graus de parentesco daqui por diante. Vamos lá.

Romualdo José Monteiro de Barros era o nome do Barão de Paraopeba. Teve, o dito cujo, 11 (onze) filhos, sendo que o mais velho era o Desembargador Francisco de Paula Monteiro de Barros. Este, por sua vez, teve 08 (oito) filhos, um deles Eugenio Monteiro de Barros, nascido na fazenda Boa Esperança, de propriedade do Barão, em Congonhas do Campo, MG, em 20 de agosto de 1835. Vida que segue, Eugenio Monteiro de Barros casou-se, já no Rio de Janeiro, com Francisca Carolina Werna da Fonseca Monteiro de Barros, nascida em 25 de maio de 1845, tendo morrido a dona Chica em 28 de fevereiro de 1918. Eis que dona Chica era outra personagem de minha infância. E isso porque as minhas velhotas particulares tinham uma outra frase impactante:

– Cadê o postal que a Isabel mandou pra Chica?

Era essa frase ser lançada no ar e havia sempre um atropelo em direção a uma das cômodas de um dos cômodos da casa de minha biasavó.

Vamos em frente. Eugenio Monteiro de Barros e Francisca Monteiro de Barros tiveram 08 (oito) filhos. Um deles? Francisco de Paula Monteiro de Barros, nascido em 12 de fevereiro de 1871. Foi este Francisco (que já tem nome idêntico ao Desembargador lá do começo da história) que casou-se, em 17 de setembro de 1892, com Leonor Isabel de Sá Caminha. Dentre os filhos que tiveram, nasceu meu bisavô, Eugenio Augusto Monteiro de Barros (tenho histórias dele pra contar, a quem não conheci, mas fica pra outro dia, vamos em frente), no dia 22 de novembro de 1893. Meu bisavô exerceu durante muitos anos o alto cargo de contador da Companhia de Navegação Costeira, foi presidente da União dos Empregados do Comércio do Rio de Janeiro, deputado federal classista tendo assinado a Constituição de 1934 e casou-se em 17 de maio de 1913 (mesmíssimo dia em que nasceu, anos depois, minha mãe), com a dona Mathilde Veloso, minha amada bisavó, que passou a assinar Mathilde Veloso Monteiro de Barros, ela filha de Francisco Veloso, português, e de Julia Pinheiro Veloso, egressa de São João da Barra.

Agora é que eu preciso do Diego! Eu sou o quê da dona Francisca, meu Deus?! Isso deixa para lá, vamos em frente.

As velhotas se engalfinhavam, de vez em quando, em busca de ver, de tocar, de ler o tal “postal que a Isabel mandou pra Chica”.

É que a dona Francisca, a Chica, era amicíssima da dona Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon. Filhota de Dom Pedro II, Isabel casou-se com o Conde d´Eu dando origem aos atuais herdeiros da coroa imperial, os Orléans e Bragança. Eis o fato: dona Chica era muito amiga da Princesa Isabel.

Isabel deixou o Brasil com 43 anos de idade (e se eu estiver errado me corrijam) em 17 de novembro de 1889, pouco depois da proclamação da República. Consta que teria partido “aos soluços, sob as ordens e intimações do tenente-coronel João Nepomuceno Mallet”.

Consta das lendas familiares que Chica traficava feijão preto pra França, a fim de matar as saudades que Isabel sentia do Brasil, do Rio de Janeiro. Consta, ainda, que eram muitas as correspondências mantidas guardadas sabe-se lá por quem.

E eis o que eu queria lhes contar.

Vovó mantinha em casa um dos postais – o tal, o tal! – e mamãe, ontem à noite e a pedido meu, fez de mim o fiel depositário do que é, pra nós, um documento.

O postal, datado de 08 de outubro de 1915, foi enviado de Paris e traz, na frente, uma fotografia de Isabel, onde se lê:

“Saudosos agradecimentos, Isabel Condessa d´Eu”

No verso, lê-se:

“Minha querida Chica: quanto lhe agradeço suas boas acções por ocasião do dia 29 de julho! (…) na saudosa Cathedral! Quantas recordações!

Não me lembro se você já tem esta photographia. Em todo caso lhe mando e com ella nossas lembranças muito affectuosas.

Isabel Condessa d´Eu.

O Silva Costa lhe fará entregar os 500$ que lhe serão úteis queridíssima!”

É, de fato, emocionante, estar com o cartão em mãos, 95 anos depois dele ter sido expedido de Paris, manuscrito pela Princesa Isabel, de ter chegado às mãos da dona Francisca (segundo minhas parcas contas, minha tataravó), de ter ficado tantos anos com minha bisavó, Mathilde, e outros tantos com minha avó, também Mathilde.

É desse patrimônio, imaterial e afetuoso, que é feito o espólio de minha avó.

E tem sido tão fascinante o revirar do baú que me foi entregue que tenho ouvido, em estado febril, o alarido das velhotas em êxtase diante das lembranças que guardo dentro de mim, agora amparadas pelos documentos, pelas fotografias, pelos bilhetes e pelas cartas que mamãe me entregou.

Com o passar dos dias, se os deuses assim permitirem, divido muitas coisas com vocês, contando as histórias que cresci ouvindo e que ainda hoje me assombram de deslumbramento de tanto amor que minha família semeou.

Até.

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