>MARIA DE LOURDES E O DELEGADO – V (FINAL)

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A conversa entre o delegado e Maria de Lourdes foi breve. E foi breve porque Uzeda foi prático. Contou, timtim por timtim, sobre o telefonema que recebera de “uma vizinha”. Disse, com todas as letras, que estava ali apenas para dar uma satisfação ao apelo da senhora que parecera em pânico diante do ocorrido naquela noite na qual os seus patéticos pedidos  – “me chama de assassina!” – assombraram a vizinhança. Disse, mais, que o caso estava encerrado do ponto de vista policial; que não havia prova alguma capaz de fazê-lo reabrir as investigações; que, entretanto, já que ele estava ali, não custava procurar saber o porquê de tão estranho apelo durante a noite. Disse isso sem conseguir esconder o riso que escapava pelo canto da boca. Os olhos do delegado não desgrudavam do corpo de Maria de Lourdes. Ela, por sua vez, deu de chorar. Enxugou a lágrima do olho direito com a mãozinha direita fechada, como se fora um bebê. Fungou. E disse:
– Não sei, delegado… Não sei o que foi que me deu…
E daí vocês todos ficam a pensar: e aí? E aí? E aí?
E aí que nem todo final de história é imprevisível.
Maria de Lourdes continuou a chorar, ajoelhou-se diante do delegado e o delegado pensou “ajoelhou, tem que rezar”.
Foi engolido pela menina. Ergueu-se, depois de uns 15 minutos, ergueu e abotoou a calça, ajeitou o cinto – recusou, com medo do barulho, o convite feito por ela, de boca cheia, “me bate com o cinto, me bate” – e pediu um copo d´água. Ela foi a cozinha, limpou a boca com um pano de prato, e quando voltou à sala trazendo a água, perguntou:
– O senhor falou com o Alexandre sobre isso? Ele ficou muito assustado…
Ele fez um “arrã” durante um gole.
– Ele… ele… ele me acusou de alguma coisa?
– Negativo.
Fez força para disfarçar o alívio que varreu sua coluna.
Ele tomou a direção da porta. E disse, grave:
– Juízo, menina.
Ela piscou o olho, abriu a porta e acompanhou com os olhos o delegado dobrar o corredor para descer as escadas. Foi para a janela.
Viu quando Uzeda surgiu no jardim interno cercado pelas vizinhas em estado de excitação agudíssima. Não conseguiu ouvir nada mas ficou ali, com um sorriso escancarado acompanhando a cena. Ele tomou a direção da delegacia e quando sumiu, na esquina, gargalhou feito Exu Caveira chamando a atenção das condôminas.
À noite, subiu Alexandre, aliviadíssimo.
E é isso.
Há mais, há muito mais para ser contado sobre Maria de Lourdes.
Com o tempo, trago ela de volta pra cá.

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>MARIA DE LOURDES E O DELEGADO – IV

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Maria de Lourdes abriu os olhos faltando pouco para o meio-dia e assustou-se – eis a verdade – com o cenário que lhe serviu de descanso. Passou a vista na Bíblia Sagrada e a fechou com fúria. Pôs o porta-retrato de volta sobre a cômoda, fez festinha no rosto dos pais, e dirigiu-se ao banheiro para tomar banho. Dormiu nua. Ainda enrolada na toalha foi à sala, recolheu os copos da véspera, deu um jeitinho na casa – tinha horror à idéia de ter uma empregada doméstica – e vestiu-se. “Vou almoçar no Salete…”, pensou alto. Assim que abriu a porta deu de cara com dona Abigail. A imagem daquela moça de saia florida, camiseta de malha branca e chinelos brancos, os cabelos soltos e sem sutiã, fez tremer a vizinha, que disse:
– Parece que o Bigode tem um recado para você. – o tom era de ameça.
Maria de Lourdes, cheirando a alfazema, cabelos ainda molhados, desceu as escadas sem uma resposta.
Ao chegar à portaria – e ela passaria pelo porteiro sem dizer um “a” – Bigode levantou-se. Entregou o cartão que guardava no bolso e disse, olhando para o chão:
– O doutor delegado esteve aqui hoje cedo, dona Maria de Lourdes. Pediu que a senhora entre em contato com ele.
– Obrigada, Bigode. O Alex está aí?
– Foi à praia, dona Maria de Lourdes.
– Obrigada.
Tomou a calçada, virou à direita e, ao dobrar a esquina da Afonso Pena, carregou imaginariamente cerca de vinte cabeças que torceram o pescoço para acompanhá-la. Ela não anda, ela dança. Pernas perfeitas, um par de pés estonteantes, e aqueles cabelos molhados que davam a ela uma aura ainda mais sensual, como se isso fosse possível. Quadris igualmente perfeitos, seios firmes sob a blusa, ouviu mas fez que não ouviu:
– Mas tá demais essa menina, puta que me pariu! – um coroa bebericando uma dose de uísque no Bar do Chico.
Todos assentiram, ouviram-se pequenos ganidos e diversos “é verdade”, até que entrou no Salete. Sentou-se sozinha numa das primeiras mesas, pediu duas empadas e uma Coca-Cola. Houve um falatório de garçons e de fregueses, e um deles levou um tapa na orelha da mulher:
– O que é que foi, Adalberto? Tem idade pra ser tua filha, cachorro!
Maria de Lourdes sorriu o mais bonito dos sorrisos, ouviu a reprimenda. Iluminou o salão. Intimidou a nesga de sol que atravessava o toldo. Ergueu o queixo, ajeitou o cabelo e quando deu a primeira mordida na empada, lenta, pensada, teatral, o pobre do Adalberto soltou um “meu Deus!” que fez a mulher abandonar a mesa. O casal morava no quarto andar do mesmo edifício. Passou por ela e disse:
– Já procurou o delegado, Maria de Lourdes? – e tomou o rumo de casa.
Adalberto foi atrás, deixando duas notas de 50 sobre a mesa.
– Desculpa, viu?
Maria de Lourdes riu feito Exu-Caveira.
Comeu as duas empadas, pediu um filé de frango com salada de tomate, outra garrafa de Coca-Cola, pagou a despesa e decidiu que iria dar uma caminhada na Praça Afonso Pena. De lá mesmo ligou, do celular, para a delegacia. Tinha o telefone vermelho do delegado. Deu-se o diálogo:
– Alô? Doutor Uzeda? É Maria de Lourdes, da Pardal Mallet… Aconteceu alguma coisa? Soube que o senhor esteve no prédio hoje pela manhã… – fazia voz de criança.
– Isso é o que eu quero perguntar a você, moça. Podemos trocar meia-dúzia de palavras? Pessoalmente?
– O senhor está me deixando nervosa, delegado…
– Rotina, Maria de Lourdes, rotina. Posso vê-la hoje? Fico aqui até umas cinco da tarde…
Ela sabia que alguém – não sabia quem – tinha comentado com o delegado sobre a novidade sonora da véspera. Disse:
– Pode, claro. Mas…
– Pois não.
– Ah, delegado… Não me sinto bem na delegacia, sabe…?
– Posso voltar à sua casa, Maria de Lourdes. Pela manhã não consegui encontrá-la. Toquei sua campainha durante uns bons minutos…
– Estava dormindo, doutor. Pode ser, então. A que horas?
– Cinco?
– Cinco.
– Até às cinco, menina.
– Um beijo, delegado… – e ele começou a suar do outro lado da linha.

O passeio foi de pouco mais de meia-hora. O bastante para enlouquecer os aposentados da pracinha, para tirar do prumo os clientes do Boteco do America, do Salão America, de toda a assistência que viu a moça passar. Os passeios de Maria de Lourdes, importante que se diga, são como os mais tenebrosos fenômenos naturais: há sempre vítimas, apaixonados repentinamente, neguinho que jura largar mulher e filhos, batidas de carro, trombadas entre pedestres, um troço de louco.

Ao chegar ao edifício, pouco antes das duas e meia, disse ao Bigode (e lá estavam as velhas, de plantão):

– Boa tarde. Às cinco o delegado vem me ver, tá? Pode deixar ele subir. E diga ao Alex que mais tarde eu procuro por ele.

Subiu afrontando as idosas com aquela beleza torrencial.

Às cinco em ponto, Uzeda na área. Foi recebido com honras de Chefe de Estado. As três velhas, e outras e outros vizinhos se acotovelavam no pequeno jardim interno, o cheiro de curiosidade tomava conta da pacata rua. Deu um “boa tarde” geral, foi abrindo caminho com gentileza e ao avistar o Bigode recebeu o anúncio:

– Ela avisou que o senhor viria, doutor. Pode subir.

Ele agradeceu e tomou o elevador. Ao aproximar-se da porta, a mesma se abriu:

– Muito prazer, delegado. Fique à vontade.

Maria de Lourdes vestia um short cor-de-rosa e uma blusinha de algodão, branca. Sem sutiã.

– Com licença, Maria de Lourdes… – entrou pigarreando.

A conversa não levou mais do que 40 minutos.     

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>NOVIDADES, A REVIRAVOLTA – III

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O menino Alexandre não pregou os olhos, a noite inteira. Estava, portanto, acordado quando o pai acordou, o único porteiro daquele edifício. Moravam num pequeno apartamento no terreno dos fundos, e às 7 da manhã, enquanto preparava o café, seu Bigode perguntou ao filho, em estado de choque num dos banquinhos à mesa:
– Que cara é esse, moleque? Parece que viu assombração. – de costas.
– Pior que isso, pai.
Bigode desligou o fogo.
Era um pai atencioso, preocupado, e sobretudo um empregado dedicadíssimo. Não gostava nada daquela história entre o filho e Maria de Lourdes, a órfã, mas acatara, na condição de empregado, o aviso que lhe dera a condômina do 201 – “eu estou apaixonada pelo seu filho, algum problema?”. De mais a mais, achava que o filho “estava bem grandinho” (expressão usada com freqüência).
– O que houve, filho?
– Maria de Lourdes, pai. Ontem, enquanto namorávamos, pediu para que eu a chamasse de “assassina”.
O velho Bigode, que no fundo tinha orgulho da performance do filho – os gritos da menina davam a ele a certeza de que o filho era um garanhão – perguntou:
– A troco de quê?! – e fez o sinal da cruz.
– Não sei, pai. Mas fiquei com medo daquilo.
Efetivamente Alexandre não pregara o olho, assombrado com a cena que protagonizara. Maria de Lourdes, fora de si, implorando pelo grito inimaginável, depois ajoelhada diante da fotografia dos pais mortos, e aquilo deixou o surfista “com a pulga atrás da orelha”, foi o que ele disse ao pai.
– Vá dormir, filho. A menina não bate mesmo muito bem. Você está impressionado… Ou você acha que…
– Não sei, pai. Não sei.
Às 07h30min, Bigode ancorou na portaria modestamente decorada.
Dona Leontina e dona Abigail, moradoras do segundo andar, estavam sentadas no banco de praça que havia no jardim interno. Saltaram, juntas, e estacaram diante do empregado:
– Chamamos o delegado da 18a., seu Bigode! – disseram juntas.
Antes que ele esboçasse reação, a mais velha disse, abanando-se com o leque:
– Ele precisa, ao menos, saber o que aconteceu. Ontem à noite a menina passou dos limites…
A outra assentiu, com a cabeça. E completou:
– Assumiu o crime! Assumiu! Eu nunca acreditei nesse trololó de suicídio!
– Calma no Brasil! As senhoras estão exagerando… – tentou contornar, o Bigode.
Chininha, da janela do primeiro andar, sem que lhe fosse pedido palpite, disse olhando para baixo:
– Exagerando? A demônia esperou um ano e fez a confissão! Aceitam um bolinho?
As duas, em estado de êxtase, disseram que sim. E em menos de 10 minutos eram três as velhotas esperando o delegado.
Ele chegou a pé, da Visconde de Iguatemi, e flagrou as três mastigando o bolo. De boca cheia, Abigail ergueu as mãos céu:
– Graças a Deus!
As outras duas:
– Graças a Deus!
Ele tirou os óculos escuros, recusou um quadradinho do bolo, e sentou-se no banquinho:
– E então? O que houve de tão grave? Qual a reviravolta no caso, dona Abigail? – perguntou em nítido tom de deboche.
O delegado, Uzeda, até que achou divertido atravessar a Barão de Iguatemi, beber uma cerveja gelada no Aconchego Carioca, atravessar a Vicente Licínio, dobrar à direita na Campos Sales e entrar, à esquerda, na aprazível Pardal Mallet, para ouvir a “novidade sobre o caso do suicídio do casal da Pardal Mallet” que aquela senhora, aflita, prometera por telefone.
As três, alternando as atuações, relataram ao delegado os fatos (auditivos) da noite da véspera.
E eis o fato: Uzeda fizera um esforço tremendo para disfarçar os sentimentos que foram brotando: uma excitação imediata diante da lembrança da estrutura física da menina, uma inveja profunda do filho do porteiro, e apenas o suor, que gotejava de sua testa, denunciava algum efeito diante do relato das três. As três perguntaram em uníssono:
– E aí, doutor?
Ele fechou os olhos, lambeu os beiços, e disse, em direção ao porteiro:
– Seu filho está aí, seu Bigode? – ele fez questão de checar o nome do porteiro antes de sair da delegacia.
– Está sim, senhor.
– Posso vê-lo?
– Pode sim, doutor. Venha comigo, por favor.
O pai bateu à porta e deu de cara com o filho na mesma posição, no banquinho à mesa:
– Bom dia, filho. O doutor delegado quer falar com você…
– Mas, pai… você chamou o delegado?! – a expressão era de pânico.
O próprio Uzeda, depois de pedir licença e entrar no pequeno imóvel, disse:
– Não, Alexandre. Foi a dona Abigail… Mas eu já te explico tudo. O senhor pode nos deixar a sós, seu Bigode?
Ele sentou-se num banquinho ao lado do menino, contou sobre o telefonema, sobre o relato das três senhoras, e Alexandre foi lacônico:
– É. Foi isso mesmo. Fiquei com medo… Mas acho que foi maluquice dela, sabe? Não posso acreditar que…
Uzeda o interrompeu:
– Você gosta da moça, Alexandre?
– Gosto.
– Apaixonado? Há quanto tempo vocês estão juntos?
Ele foi sincero. Não havia paixão, havia tesão – “e muito”, ele emendou. Contou sobre a noite da véspera da morte dos pais – e as investigações não encontraram nem sombra de qualquer indício capaz de complicar a vida do menino -, sobre o afastamento de Maria de Lourdes durante os meses em que esteve com o tio hospedado em sua casa, sobre o começo do que ele chamou de “transa entre nós”, foi até detalhista sobre o comportamente da órfã durante o sexo e Uzeda, um homem na casa dos 50 anos, afagou a cabeça do garoto assim que se levantou. Excitadíssimo – “que potranca, meu Deus!”, pensou – disse, apenas:
– Vou falar com ela. Relaxe, viu? E nossa conversa morre aqui.
– Arrã. – foi só o que ele disse.
Uzeda voltou à portaria. Bigode nervoso. Abigail, Chininha e Leontina excitadíssimas. As três, ao mesmo tempo:
– E aí, doutor?
O porteiro, cabisbaixo, foi o eco:
– E aí, doutor?
Uzeda nem se dirigiu a elas. Apoiando as duas mãos na mesa do porteiro, anunciou:
– Vou subir pra conversar com a moça, O.K.?
Ele fez que sim. Acompanhou o delegado até o elevador e perguntou baixinho, fora do alcance das três senhoras:
– Tudo bem com o menino, doutor?
– Ótimo! Ótimo! – e deu dois tapinhas no ombro do empregado pouco antes de entrar no elevador.
Tocou a campainha e ajeitou-se. Estava – é um detalhe importante – excitadíssimo.
Maria de Lourdes dormia em posição fetal abraçada ao porta-retrato dos pais. A seu lado, a Bíblia Sagrada, a tal de páginas em alta gramatura, douradas, aberta em Números, 35:30: “Todo aquele que matar alguma pessoa, conforme depoimento de testemunhas, será morto; mas uma só testemunha não testemunhará contra alguém, para que morra.”.
O delegado tocou exatas cinco vezes com intervalos de dois minutos entre um toque o outro. A moça não acordou. Ele desceu de escadas e disse ao porteiro – as três velhotas cercando o empregado:
– Ela pode ter saído antes do senhor pegar no serviço, certo? Ou pode estar dormindo. Peça a ela que me procure. – e estendeu seu cartão.
Maria de Lourdes só acordou ao meio-dia.

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A CADA TRISTEZA, ERGUER NOSSO COPO AO HUMOR

O título de hoje – a cada tristeza, erguer nosso copo ao humor – é um de meus orikis preferidos. Da lavra de Aldir Blanc, para música de Moacyr Luz, se aplicado diuturnamente representa remédio valoroso contra as dores que nos assolam, a todos, dia após dia. Dito isso, parece-me desnecessário dizer que é evidente que a tragédia que se abateu sobre a população da região serrana do Rio de Janeiro – com mais de 600 mortos (por enquanto) – não merece piada. Mas no seu entorno, soube de uma, realíssima. Preservando a identidade dos elementos envolvidos – e eu soube do ocorrido na noite de quarta-feira – vamos aos fatos.

Antonio estava preocupadíssimo com a situação na serra fluminense. Até que, ouvindo os noticiários, lembrou-se de que dona Iaiá, mãe de sua madrasta, dona Yoyô, morava em Nova Friburgo. Abateu-se sobre ele – um poltrão meteorológico – um terror de proporções de tromba d´água. Não que ele morresse de amores por dona Iaiá, com quem trocara – o quê?! – duas ou três palavras ao longo da vida. Não que ele morressse de amores por dona Yoyô, com quem mantinha a clássica relação de implicância entre enteados e madrastas. Ocorre que, instigado pelos apelos de solidariedade, aterrado diante das imagens da tragédia, ele decidiu “fazer um bonito” – foi o que pensou em voz alta antes de tirar o telefone do gancho:

– Alô? Yolanda? É o Toninho! – e ajeitava o próprio cabelo diante do espelho, sentindo-se o mais solidário dos parentes.

A madrasta derreteu-se. Não falava com o enteado havia muitos meses. Ela e o pai moram em Niterói, Antonio no Grajaú (onde, inclusive, trabalha) e o lufa-lufa do dia-a-dia fazia com que os encontros fossem raríssimos, escassos. Ela foi – como sempre – dramática:

– Oh, Toninho! Que saudade! Hoje mesmo comentei sobre você com seu pai! Como estão as coisas? – mentiu.

E ele, mudando o tom de voz:

– Mal, Yolanda… – e deu uma fungada sonora, artificial, para dar cores de choro à fala.

Do outro lado da Baía de Guanabara, do outro lado da linha, o tom de preocupação:

– Mas o que houve, meu filho? – e quando ela disse “meu filho” ele estendeu o dedo médio, esticado ao lado dos dobrados indicador e anelar, em direção ao bocal do telefone, ele odiava essa intimidade.

– Como o que houve, Yolanda?! Mais de seiscentos mortos e você me pergunta o que houve?! – fingiu que se assoava.

Ela muxoxou do outro lado:

– Tsc. É verdade… E fora isso, Toninho? – despreocupadíssima.

Aquela frieza da madrasta que punha por terra seu plano de fingir-se solidário começou a irritá-lo:

– Fora isso?! Yolanda… – assoou o nariz mais forte.

– Você está chorando, Toninho? Desembucha, menino! O que aconteceu?

Ele achou que era a hora:

– É que… ah, Yolanda, nem sei como fazer a indagação… Como está dona Iaiá depois dos temporais? – sentou no banquinho ao lado do criado-mudo e abriu um sorriso de dever cumprido.

Um silêncio terrível do outro lado da linha angustiou o sujeito. Ele insistiu:

– Yoyô? – foi dengoso.

– Sim, Antonio. – ela foi fria.

– Notícias de dona Iaiá?

Deu-se um suspiro e veio a resposta:

– Antonio, mamãe morreu em 2008.

Ele, um homem de raciocínio rápido, ergueu-se novamente. E diante do espelho, mandou de voleio:

– Morreu?! Morreu?!

E ela:

– Morreu.

Ele, aos gritos:

– Morreu pra você, filha ingrata! Morreu pra você! Pra mim, Yolanda, saiba disso, dona Iaiá está viva, está presente, dona Iaiá é imortal, Yolanda! Imortal!

E desligou com fúria, batendo o telefone no gancho e do gancho o tirando novamente, segundos depois. A pobre da madrasta ainda insistiu, por uma meia-hora, mas só deu sinal de ocupado. Encontraria com o pai, e com a madrasta, sabe-se lá quando. Foi o que decidiu, entre envergonhado e orgulhoso de si mesmo.

Até.       

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A SESSÃO DE DESCARREGO DE MARIA DE LOURDES – II

Menos de seis meses depois da morte de Otília e Alonso, o delegado da 18a. Delegacia Policial, da Praça da Bandeira, deu o caso por encerrado. Suícidio. A vizinhança, é verdade, custou a crer. Afinal, aquele casal religioso, temente a Deus, de formação moral sólida, não combinava com a mais romântica das despedidas. E deu-se, de fato, por conta da suspeita de suicídio, um fuzuê danado na Pardal Mallet na manhã da tragédia. O IML recolheu os corpos, peritos vasculharam o apartamento, e a morte por conta do vazamento do gás não podia mesmo ser atribuída àquela menina, 21 anos de idade, pacatíssima, a única que vivia naquele apertado dois quartos na Tijuca. Atônita, Maria de Lourdes acompanhou, aos prantos, o recolhimento dos cadávares e deu, na medida do possível, seu depoimento (fora chamada outras duas vezes à delegacia) comovido e convincente. Depuseram também o porteiro do edifício, o pastor da igreja freqüentada pelo casal, os vizinhos do segundo andar, a diretora do colégio da órfã, alguns funcionários das padarias de propriedade de Alonso e a batata já estava mais que assada quando decretou-se: foi, mesmo, suicídio.

Um tio de Maria de Lourdes, irmão mais velho de Otília, Reginaldo, viúvo e advogado aposentado, que vivia em Mar de Espanha, em Minas, chegou para o enterro e passou exatos seis meses com a sobrinha no Rio de Janeiro cuidando da papelada. Filha única, herdeira universal, Maria de Lourdes herdou as três padarias do pai (mantidas em sociedade com Otília), vendidas por um bom dinheiro para um consórcio que se formou entre os gerentes das três unidades, coisa de quase um milhão de reais. Herdou, ainda, o apartamento da Pardal Mallet, uma casa de veraneio na Ilha do Governador (também vendida) e o saldo bancário, polpudo, do suicida (que não mantinha conta conjunta com a esposa). Ultimado o inventário, que tramitou rapidíssimo em razão da simplicidade da sucessão, Reginaldo voltou para Mar de Espanha deixando a sobrinha à vontade para procurá-lo sempre que precisasse. Voltou, diga-se, extasiado com a beleza da menina (e sentindo-se ligeiramente incomodado com seus próprios pensamentos). Passou a ter uma frase-padrão com os amigos no botequim:

– Minha sobrinha carioca… vou lhes contar… uma coisa! Uma coisa! – e dava-se a masturbação mental coletiva naquela cidade de moças sem-jeito.

Maria de Lourdes passou os seis meses subseqüentes à tragédia ao lado do tio. Trocou – o quê?! – uma meia-dúzia de palavras com um, com outro, com uma vizinha, com irmãos da igreja que foram fazer uma visitinha, e mesmo com Alexandre, o filho do porteiro, permitiu-se apenas um “obrigada” diante do protocolar “meus pêsames” no final daquela tarde. Saiu para fazer compras (mudou o guarda-roupas, antes recatadíssimo), para inteirar-se da rotina com os bancos, passeou bastante mostrando para o tio a cidade que, a bem da verdade, ela bem pouco conhecia também. Passou, entretanto, os seis meses, fervendo por dentro. Não esquecera, nem por um minuto, a volúpia insana daquela manhã fatídica. Guardou-se, porém, com a resignação e com a máscara que apreendera naqueles 21 anos de cultos e cultos e cultos e cultos. O tio fora embora num domingo à noite. Já na segunda-feira – as notícias na Tijuca correm como água rio abaixo – Maria de Lourdes recebeu a visita do pastor da igreja que freqüentava com seus pais. Queria, o canalha, convencer a menina a doar para a igreja o dízimo da herança. Foi posto pra correr por uma possessa. Disse atrocidades ao pastor enquanto o sujeito, de terno e gravata, pasta executiva na mão, aguardava o elevador. E bateu a porta com um ódio que os vizinhos, assombrados com o espetáculo, nunca tinham visto brotando daquela moça.

Na segunda à tarde, quase à noitinha, postou-se na janela. Esperou Alexandre aparecer e repetiu o “psiu” de seis meses antes. O rapaz subiu. Deu uma desculpa qualquer ao pai – “vai ver ela precisa de ajuda” – e já chegou em ponto de bala diante da porta do apartamento. Aquela potranca – e mais potranca que nunca, uma égua de haras paulista – já o aguardava apenas com um camisão. Fechou a porta e abriu os lábios, que sugaram Alexandre de uma maneira que só os seis meses de hiato poderiam explicar.

Poucos minutos depois, bate à porta uma das vizinhas de corredor. Maria de Lourdes abre apenas a portinhola, apenas o rosto à mostra:

– Tudo bem, filha? – disse a velha.

– Te chamei? O que é que tu quer? – e deu de rir, feito Exu-Caveira, batendo a portinhola com o mesmo ódio oferecido ao pastor.

A cena deu-se, dia após dia, sem tirar nem pôr. Houve, é evidente, evoluções. E revoluções. Maria de Lourdes disse, com todas as letras, “eu estou apaixonada pelo seu filho, algum problema?”, e fez com que o porteiro nunca mais perguntasse nada ao filho. Adestrando suas fantasias como quem adestra um cão, a menina passou a fazer uso de serviços delivery, para tudo: pizza aos domingos, galão de água duas vezes por semana, galeto, comida japonesa, comida chinesa, flores, e ela engolia, despudoradamente, os entregadores que satisfaziam seu apuro visual. “Só um boquetinho, coisa rápida”, ela dizia. Não se sentia traindo o namorado desse jeito, ajoelhada e com pressa. Diz-se até que na pizzaria da Doutor Satamini, aos domingos, havia grossa pancadaria entre os motoqueiros já que todos queriam servir a “boca do 201 da Pardal Mallet”.

Mas o pior deu-se quando Maria de Lourdes percebeu certo gosto pela dominação. Um dia pediu um tapa ao Alexandre. O surfista já curtia o troço e sentou a mão na carinha linda da potranca. Mais à frente, pediu que ele a xingasse. A princípio o repertório era o trivial. Um “piranha” pra cá, um “puta” pra lá, um “cachorra” com o som do estalo do bofetão por trás, um “vadia”, por aí.

A agressão verbal, o xingamento (e ela exigia o tom de ódio na voz do rapaz), a purificava. A submissão, a exposição voluntária para a agressão ainda que teatral, a sacralizava. E assim seguia a rotina daqueles dois.

Eis que no dia do primeiro aniversário de morte dos pais da menina, quando ela completaria 22 anos, quando sua fama de devassa subia e descia as escadas do edifício, ganhava as calçadas, as esquinas, o entorno, o bairro, deu-se o inesperado. Poder-se-ia dizer, até, que a vizinhança já estava habituada (ainda que horrorizada) com aquela trilha sonora, com aquela enxurrada de baixo calão. O choque maior, entretanto, veio naquele dia.

Alexandre subira para uma comemoração especial. A moça recusara o convite para um jantar – “faço questão que seja aqui”. Após os salamaleques, após o presente que o garoto comprara, após a garrafa de espumante que beberam juntos, foram para a cama, ela já entrelaçada no tronco do surfista, que sentia o calor úmido da parceira na altura do abdomen, ele já sem camisa, ela praticamente nua. Deitaram, e pela primeira vez, na cama mantida no quarto do casal suicida. Sobre a cômoda, diante do pé da cama, um porta-retrato fazia com com que ambos, pai e mãe, testemunhassem a cena. Apoiado, diga-se, numa Bíblia Sagrada, dessas com páginas espessas e douradas. O troço pegava fogo. As janelas, mantidas abertas de propósito por Maria de Lourdes, apenas a cortina impedindo o alcance dos olhos alheios. Começou o espetáculo:

– Sua vaca! – e explodia um tapa.

Trepavam, suavam, urravam, e ele mantendo a linha:

– Vagabunda! Cadela suja! – outro bofetão de cinema.

Prestes a gozar, olhos vidrados, unhas cravadas nas costas saradas do surfista, Maria de Lourdes pediu aos gritos:

– Me bate, Alexandre! Me bate! Na cara! Na cara!

Ele, fora de si, atendeu.

– Com mais força! Mais ódio! Me cospe! Me cospe! – tudo atendido.

Gozaram juntos. Ele uivava como um lobo dentro dela, e ela também. Tinha, é preciso que se diga, orgasmos múltiplos, a órfã. E enquanto gozava, gemia, mordia o bíceps de Alexandre, pediu com a voz mais rouca, transfigurada (ele quase não reconheceu):

– Me chama de assassina, Alexandre. De assassina! As-sas-si-na!

Ele livrou-se dela num sem-pulo. De pé, ao lado da cama, vendo Maria de Lourdesem estado de êxtase absoluto, os olhos revirados como os de uma boneca de pano em frangalhos, vestiu-se às pressas e pode perceber quando ela, de joelhos, sem parar de gritar, passou a olhar fixa e insanamente para o retrato dos pais. Foi descendo as escadas, aos atropelos, ouvindo “me chama de assassina!, de assassina!”, até que cederam os apelos inéditos, que deram vez às gargalhadas mais agudas que ele jamais ouvira – feito Exu-Caveira.

Não se falava noutro assunto naquele condomínio, na manhã seguinte.

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>MARIA DE LOURDES, A EVANGÉLICA – I

>

Rua Pardal Mallet, na Tijuca, pacatíssima rua entre as movimentadas Campos Sales e Afonso Pena. Ali nasceu, há 21 anos, Maria de Lourdes, filha de Otília e Alonso. Filha única, diga-se. Cresceu, a menina, com uma obrigação que durante um bom tempo representou praticamente um trauma em sua vidinha:
– Quando perguntarem seu nome, filha, diga Maria de Lourdes com “u”, igualzinho ao nome da tua avó! – pregava o pai.
E a menina, coitada, foi uma cumpridora fiel da determinação paterna. Na escolinha, no ginásio, durante as brincadeiras com as meninas na calçada, bastava alguém perguntar-lhe o nome e a resposta vinha, quase-mediúnica, automática:
– Maria de Lourdes, com “u”.
Já aos 15 anos a menina chamava a atenção.
– Uma potra! – dizia salivando, a vizinhança.
E era (e é), de fato, uma potranca.
Morena, esguia, seios fartos e firmes a dispensar retoques ainda que imaginários, pernas (ah, as coxas…) esculpidas à mão, uma batata reluzente, um quadril desejado por mil mãos, um rosto mais-que-perfeito, um sorriso estonteante, cabelos lisos, olhos levemente puxados e pretos, o fato – em resumo – é que Maria de Lourdes era objeto de desejo até dos que não a conheciam. Era dessas que pareciam fabricadas pelo sonho coletivo – a mulher em estado bruto.
Havia, entretanto, um empecilho a obstar a sanha dos homens do pedaço: Otília e Alonso eram evangélicos. E sendo evangélicos, e tendo uma única filha, faziam da menina um bibelô privado evidentemente privado de tudo o que sugerisse desvio. Alonso era dono de três padarias no bairro, trabalhava das 5 da manhã às 8 da noite. Otília, dona de casa. A única obrigação do casal era a educação, rigorosa, de Maria de Lourdes. E a obediência à igreja, é claro. Iam à igreja rigorosamente todos os dias – e lá ia Maria de Lourdes, desde bebezinha, acompanhando os pais. A igreja era uma dessas facções ligadas a um pastor picareta, mas o casal mantinha a vista obnubilada para o noticiário policial. O casal mantinha, em casa, um bunker cristão: bíblias espalhadas por todos os cômodos, a TV sintonizada sempre na estação ligada à máfia evangélica, o rádio que era ligado apenas no horário da benção da água, fotos de pastores, apóstolos, missionários, tudo espalhado pelos cômodos do apartamento, e foi nessa meiúca que foi crescendo a diabólica Maria de Lourdes.
Eu disse “diabólica” mas é claro que o adjetivo só nasce e só faz sentido através do prisma dos olhos com antolhos de seus pais. Maria de Lourdes era normalíssima.

Mais que normalíssima – eis o cerne do que quero lhes contar – era gostosa.

Quando completou 16 anos (tem aí o início do drama da menina) os pais a mandaram, cheios de um orgulho tremendo (e como os evangélicos usam e abusam da palavra “tremendo”), para uma colônia de férias cristã, em Campo Grande. Sessenta jovens (30 moças e 30 moços) guiados por 10 monitores passariam 30 dias num sítio de propriedade da igreja da qual faziam parte os pais de Maria de Lourdes.

Foi – está no diário da moça, mantido em segredo – um período modorrento. A agenda era a mesma: acordar às 06h, fazer a higiene, fazer o desjejum, orar (evangélicos não rezam), assistir a uma palestra, almoçar, fazer a sesta, estudar a Bíblia Sagrada, lanchar, orar, fazer a higiene, orar, jantar, orar e dormir. E ao lado de 59 jovens fanáticos, guiada por 10 monitores determinados, Maria de Lourdes sentiu-se estranhíssima. Tinha pensamentos pagãos, não dormia à noite, e uma imagem a perseguia: a de Alexandre, o filho do porteiro de seu prédio. Surfista, corpo atlético, dois anos mais velho que ela – e só lá, em Campo Grande, deu-se conta de que sentia aguda falta da presença daquele menino na calçada do edifício, quase sempre de bermuda e sem camisa, o tórax de Tarzan (apud Nelson Rodrigues) à mostra, o cabelo parafinado, os pés descalços, as mãos enormes, do qual sempre desviava a vista.

Voltaram, os jovens.

Otília e Alonso foram buscar a menina no Planetário, na Gávea, ponto de desembarque do ônibus da excursão. Era um domingo. A mãe foi efusiva ao abraçar a filha:

– Gostou, Maria de Lourdes?

Antes que a menina respondesse o pai a puxou pelo braço e disse:

– E aí, filha? Aproveitou? Vamos direto ao culto! Ao culto!

Maria de Lourdes, no banco de trás, sentia o coração badalando as amígdalas. Foi praticamente muda durante o trajeto até a Tijuca, dizendo apenas uma sucessão de “arrã” para cada pergunta dos pais. Foi saudada, a menina, ao chegar à igreja.

Os pais estranharam muito quando Maria de Lourdes vomitou, em fortes golfadas, durante a pregação do pastor.

– Desidratação, na certa… – resmungou a mãe.

Vomitara de nojo, entretanto.

E assim foi seguindo a vida da pequena família. Maria de Lourdes não esqueceria jamais o instante da chegada no edifício depois daquele domingo. Teve um surto de umidade quando viu Alexandre no portão, pouco antes do carro entrar na garagem. Lançou, sobre ele, um olhar rápido (que a fez tremer no banco traseiro) – e percebeu o sorriso do garoto em sua direção.

No dia em que completou 21 anos – e Maria de Lourdes era, então, uma potra no auge da raça – deu-se a tragédia – ou o milagre. Durante a noite da véspera a menina entrara na suíte de seus pais. Sem ser notada, abriu a porta do pequeno banheiro, teve o zelo de fechar o basculante, e abriu o bico do gás do aquecedor. Fechou, com mais cuidado ainda, a porta do quarto de seus pais. Foi à cozinha, molhou dois panos de chão e vedou a porta do minúsculo quarto que dava para o pequeno corredor.

Às sete da manhã postou-se na janela que dava frente para a rua. Encharcou-se quando viu Alexandre saindo com a prancha. Fez um “psiu” baixíssimo, o suficiente para chamar a atenção do garoto. Cruzaram os olhares. Ele, incrédulo, apontou pro próprio peito estufado e disse “eu?”. E ela fez sinal de “suba!” com o indicador da mão direita. Alexandre encostou a prancha na parte interna do edifício e subiu, descalço, pela escada, em direção ao segundo andar. Excitadíssimo, diga-se. Há anos sonhava com a atenção de Maria de Lourdes e dedicava horas ao próprio e solitário deleite com aquela potranca no pensamento. A moça o aguardava de portas abertas, com um sorriso no rosto ainda mais escancarado que a porta. Ele estacou aquele metro e oitenta de músculos diante dela:

– Bom dia, Alexandre… – quase sussurrando.

– Tudo bem? E… cadê seus pais, Malu?

Aquela intimidade do “Malu” a fez sentir-se ainda mais suada.

– Saíram. – disse, cínica.

– Não voltam?

– Só no meio da tarde.

Maria de Lourdes atracou-se com o cara que, àquela altura, não acreditava naquilo que vivia. Entraram e ela disse:

– Hoje é meu aniversário…

– Eu sei! – ele disse, mentindo.

– Quero você de presente.

E tirou o pijama (Maria de Lourdes dormia de pijama), e ficou nua, e abaixou a bermuda do rapaz, e foram horas de um sexo brutal feito no sofá da sala, na cama da menina, de pé, na cozinha, e a pujança dos 23 anos de Alexandre premiaram a evangélica com um amor tremendo que a deixou tremendo por muito tempo, ainda depois de ele ter saído sob o pretexto da chegada iminente de Otília e Alonso.

Ela ainda foi à janela, deu um adeus emoldurado por suspiros de ai-Jesus, viu Alexandre dobrar a esquina, vestiu-se, ajeitou os cabelos, retirou os panos de chão do vão da porta, entrou no quarto, certificou-se de que só mexera na maçaneta com as mãos cobertas pela malha do pijama, pôs os panos de volta e ligou pro 190. Deu as coordenadas à atendente, disse ter acordado e visto a porta do quarto dos pais fechada, os panos vedando a saída do ar, o cheiro de gás no corredor e esperou cerca de 20 minutos até a chegada da patrulha.

– Seu nome, menina! – disse o policial, já invadindo o apartamento.

– Maria de Lourdes, moço. Maria de Lourdes, com “u”.

Até.

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O ÚLTIMO ADEUS DO ERNESTO

Quem me lê sabe, conforme contei aqui, que na semana passada matou-se o Ernesto. Foram – o texto é rico em detalhes – mais de 25 anos de um silêncio aterrador imposto pelo próprio pobre-diabo. Um silêncio que, e é isso que quero lhes contar, não compareceu ao velório-gurufim do sujeito.

Providenciou-se, a pedido do de cujus, um aparelho de som portátil que tocou, repetidas vezes, o samba-hino que fez ecoar “envelheci mas continuo em exposição, a ex-mulher me chama de sardinha de balcão” pelos corredores das capelas. A assistência do velório era composta pelos mesmos que freqüentavam o balcão que assistiu, durante anos, ao pobre-diabo beber (e sofrer) calado. E pela viúva (estado civil renegado pelo morto) que, a bem da verdade, não sabia bem o que fazia ali.

Quando eu cheguei ao Caju deparei-me com a seguinte cena: o defunto cercado por bêbados inconsoláveis, diversos copos americanos apoiados nas bordas do caixão, enfeitadas com paninho de renda branca, o aparelho de som equilibrado na proa, sobre a cabeça do Ernesto, e a Jurema, a “ex-mulher” (estado civil requerido pelo morto), sentada sozinha num banquinho de madeira encarando um a um. Não recebeu, registre-se, um só cumprimento. Em compensação, uma saraivada de olhares de ódio.

Danilo, garçom do Bar do Marreco, o bar de fé de Ernesto, exercia o ofício mesmo no cemitério. Atravessava constantemente a rua para buscar cerveja no trailler diante da última morada e servia, com competência, os inconsoláveis que, por sua vez, tinham uma sede de anteontem. Seu  Brasil, síndico do buteco da Haddock Lobo com a Caruso, ficou responsável pelo pagamento da dolorosa. Mais que isso, organizava, com sua autoridade incontestável, o furdunço. Não permitia fotografias, a pedido de Jurema (e diga-se que foi o único pedido da “ex-mulher” que foi atendido). Os demais – “tirem essa música”, “respeitem o Ernesto” (este, de um cinismo agudo) e por aí – foram solenemente ignorados.

A certa altura chegou um mulato trazendo no ombro uma coroa gigantesca de flores (a primeira e única). A seu lado, um sujeito com vitiligo carregava o cavalete. Dezenas de pares de olhos acompanharam a operação. Montou-se o cavalete ao lado do caixão e o mulatão apoiou a coroa. Eis a inscrição da fita rôxa: “Saudades eternas de tua filha Zafira e de teu genro Castilho”. Foi demais para a assistência. Como cães famintos diante de um naco de carne, partiram pra cima da última homenagem. Descontrolado – não consegui saber quem tomou a iniciativa -, alguém enterrou a coroa na cabeça de Jurema. Eu só ouvia os gritos:

– Dança bambolê com essa porra, sua vaca!

– Toma a bóia pra não se afogar no mar de merda, vagabunda!

E só seu Brasil, mais uma vez, conseguiu controlar a malta. Houve uma pequena reunião num dos cantos da capela e tomou-se a decisão: puseram de volta a coroa no cavalete sem a fita, que foi furiosamente arrancada. Improvisou-se, com papel higiênico, nova dedicatória: “De teus amigos de balcão, a derradeira homenagem”.

Jurema chorava e seu choro despertava as mais variadas reações. A grande maioria cochichava… “são lágrimas de crocodilo”. Um outro, bêbado de forma aviltante – que se dizia kardecista -, tentava contornar a revolta coletiva dizendo “sempre chega a hora do arrependimento”. Tudo esfumou-se quando chegou seu Cláudio, freguês assíduo do mesmo buteco, trazendo duas quentinhas numa sacolinha branca. Estacou diante da popa do caixão e disse, de olhos marejados:

– O torresmo e a moela…

Foi a mais impactante cena da cerimônia. Era mais um pedido de Ernesto que seria atendido pelos companheiros de botequim. Deu-se o surreal. A assistência discutia a melhor posição dos pratos no interior da urna funerária de madeira quando decidiram o inconcebível. Uma freqüentadora assídua do mesmo balcão-confessionário abriu a boquinha do morto. Outro, com extremo e desnecessário cuidado, pôs, com as mãos, um punhado de torresmo e outro de moela sob a língua do de cujus. Neste momento – e me perdoem a franqueza em nome da precisão do início ao fim – Jurema vomitou.

Alguém virou as duas palmas das mãos de Ernesto para cima. E, como um sacerdote pagão, pôs um dos pratos sobre a mão esquerda, o outro sobre a direita. Explodiram as palmas no ambiente.

Um funcionário da Santa Casa adentrou a capelinha e fez um sinal. Era o momento de fechar o caixão. Guinchos de choro, urros de saudade, e foi quando eu parti. Fui, confesso, o único. Sou um poltrão na hora de encarar esse momento. Ninguém arredou o pé.

Mentira minha. Seu Brasil, aos prantos, deu a ordem em direção à “ex-mulher”:

– Agora, fora! Chispa daqui.

A massa considerou ofensivo à memória de Ernesto a presença de Jurema no instante do enterro propriamente dito. Eu estava fazendo sinal pro táxi quando ouvi a voz por trás de mim:

– O senhor me dá uma carona, moço?

Abri a porta, entrei no banco da frente e disse ao motorista:

– Tijuca, por favor.

E lancei um olhar de profundo desprezo em direção à “ex-mulher”.

O Ernesto não me perdoaria a gentileza imerecida.

Até.

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