O BOM E VELHO RIO-BRASÍLIA

O Rio-Brasília, já lhes disse isso diversas vezes, é meu buteco de estimação. Além de ficar a exatos 120 metros de minha casa, é perfeito no que diz respeito à estrutura (azulejos antigos, balcão farto, bebida gelada etc) e ao atendimento. O Paulo, o único garçom da casa, é o pior garçom do Brasil (quiçá do mundo) mas é um excelente garçom. É surdo, bebe mais que toda a clientela, treme horrores, quebra diversos copos e garrafas por dia, derrama metade do maracujá no trajeto entre o balcão e a mesa mas é de uma gentileza comovente. Estive lá anteontem, uma vez mais, na companhia de Felipinho Cereal, Luiz Antonio Simas (acompanhado de sua senhora) e Vidal, a Lenda. Minha menina deu-me o visto para descer com uma condição:

– Já não bastam as 14 horas na rua ontem?! Vê lá, hein?! Vá rápido e traga o Vidal pra beber um uisquinho com você aqui…

Uma doçura que me emociona. A frase “traga o Vidal pra beber” deveu-se a uma de minhas frases clássicas que uso em caso de extrema necessidade:

– Eu preciso ir, sabe? O Vidal não tá nada bem… – dita com uma expressão gravíssima, uma máscara de corredor de UTI.

Ela sabe que é mentira em 90% dos casos mas funciona sempre.

Ao chegar no bar – eis o que eu queria lhes contar – a mesma assistência.

Taí uma das características marcantes de qualquer bom e clássico botequim. A assistência. Vejam vocês que os bares incensados pela imprensa têm sempre um público de museu, e explico: são pessoas estranhas ao ambiente e que chegam em levas intermináveis, ora de van (há quem organize expedições aos bares em vans), ora guiados pelo GPS do automóvel.

Já os tradicionais, não.

Não têm público de museu. Têm, mais que freqüentadores, figurantes fixos. Aqueles que, quando não aparecem no pedaço, merecem a frase:

– Fulano faltou hoje.

Pois o Rio-Brasília é assim. E lembrei-me de lhes contar isso por conta da atuação do Vidal na noite de domingo. Muito provavelmente para ver aflorar minha veia crítica deu de perguntar:

– Quem é esse, Edu? E aquele? E aquele outro? – por aí.

Felipinho Cereal me ajudou nas respostas. Lembrei-me de um detalhe: em um desses botequins clássicos – como o descrito aqui por meu irmão, Fernando Szegeri – poucas vezes se sabe o nome dos figurantes. O que vale é mesmo o apelido.

Lá estava no domingo o Benito di Paula Preto – “com a mesma camisa há três dias”, apontou o Cereal. O sujeito é os cornos do cantor friburguense, aquele cabelão, aquela barbicha. Antes de prosseguir quero lhes contar um troço.

Papai é um homem que anda com uma carteira imaginária de frases prontas no bolso. E sempre – eu disse sempre! – que papai passa em frente a um botequim e vê, lá, sentado numa das mesas ou mesmo de pé no balcão, uma pobre alma solitária bebendo sua cerveja, ele solta em tom de lamento:

– Coitado… Todos os dias esse homem está aí. Não tem família! Não tem família!

Pois estava no Rio-Brasília, também, a Sem Família. Trata-se de uma mulher na casa de seus 45 anos e freqüentadora diária. Parece um daqueles vendedores de bilhete de loteria dos botequins: passa a noite indo de mesa em mesa, filando um cigarro aqui, um gole de cerveja ali, até que é resgatada, todas as noites, pelo filho. Há, é preciso dizer, outras duas com o mesmo comportamento: são a Sem Família I e a Sem Família II. Há também a Cássia Eller da Tijuca, moradora do prédio em cima do bar. Pelo que conta Felipinho Cereal, um observador nato, mora com outra mulher e as duas adotaram uma criança que – vejam vocês! – também tem apelido: Chicão, por conta do nome do filhote da roqueira falecida. Outra figura clássica: o Bigodinho, vizinho do Cereal. Também o Taxista, que todos os dias – todos! – comparece com a mulher e o casal de filhos. Outro que estava lá diariamente – mas sumiu – é o Pica-Pau. Depois que se envolveu num imbróglio que beirou as vias de fato com o Felipinho Cereal e o Espanhol, seu tio, sumiu para sempre. O Felipinho, inclusive, já é chamado pela assistência de Exterminador de Aves, por conta disso. Pois ficamos ali legendando os personagens para delírio do Vidal. Pagamos a conta – e uma vez mais coube a cada um menos de dez reais – e fomos pra casa, eu e meu dentista.

O Vidal, à certa altura, já na terceira dose de uísque – foi-se embora minha garrafa de Blue Label – contou pra minha menina minha atuação quanto à apresentação dos figurantes. E ela, de voleio:

– E tu acha que falam o quê do Edu? Ele também está lá todos os dias, todos os dias!

De olhos baixos – aqueles olhos-faróis, verdíssimos, perdição de suas pacientes – ele disse:

– É… pouco antes do Edu chegar a Cássia Eller da Tijuca comentou sobre a ausência da Baleia de Gravata. Foi quando o Benito di Paula Preto perguntou a ela se a referência era ao Maracujá-Kojak.

Até.

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NOEL ROSA – 100 ANOS

Eis que amanhã Noel Rosa faz 100 anos. Não vou fazer do balcão virtual do BUTECO oratório para chorumelas ou arengas contra a calhordice da prefeitura calhorda do Rio de Janeiro que ignora solenemente a data. É uma vergonha, é verdade, mas não se poderia mesmo esperar nada diferente de uma administração que parece querer marcar sua atuação por conta da chamada operação “choque de ordem”.

O povo carioca, entretanto, é mestre na arte da subversão da ordem. E historicamente dispensa o auxílio do poder constituído para fazer suas festas que também historicamente sempre lhe foram sonegadas, boicotadas, proibidas até.

Amanhã, portanto, é dia do carioca sair às ruas (como sempre, aliás…) e brindar à memória de Noel. Beber, cantar, jogar porrinha, fazer samba, fazer troça, incorporar o espírito do homem que em tão pouco tempo de vida nos deixou um legado que está aí, quase um século depois, vivo e impregnado no imaginário popular.

O BUTECO fica, portanto, até segunda-feira, exibindo Noel através do traço inconfundível do mestre Loredano, um homem que, como o Poeta da Vila, ama o Rio de Janeiro inifinitas vezes mais que qualquer administrador oportunista como os que ora ocupam os cargos de comando da cidade.

Como dica para amanhã indico a roda de samba que outro carioca máximo, Rodrigo Ferrari, fará em frente à livraria FOLHA SECA, na rua do Ouvidor 37. Mas o ponto alto, quero crer, será mesmo na Vila Isabel, no Boulevard 28 de Setembro, onde viveu Noel Rosa. É lá que ele “vaga na noite e no dia, vive na Terra e no céu”.

Até.

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O ESPÓLIO DE MINHA AVÓ – II

Prossigo hoje escarafunchando o baú que ganhei de presente de mamãe por ocasião da morte de minha avó, conforme lhes contei ontem, aqui.

Vovó tinha 8 anos de idade nesta impactante fotografia, tirada no dia 19 de fevereiro de 1933, um domingo, uma semana antes do início do Carnaval. A foto foi tirada no jardim da casa na qual moravam meus bisavós, Eugenio Augusto Monteiro de Barros (é o quarto da esquerda para a direita, na fila mais alta da fotografia, de camisa branca e braços cruzados) e Mathilde Veloso Monteiro de Barros (a terceira da esquerda para a direita, na fila mais baixa, de saia preta e camisa branca), na rua Marquês de São Vicente 186, na Gávea. A casa, é claro – como ocorre em uma cidade que pouco valoriza sua memória – não existe mais, e ficava quase em frente ao terreno no qual se localiza, hoje, a PUC. À certa altura (depois apuro isso com afinco) meu bisavô vendeu a casa para, sabiamente, mudar-se com a família para a Tijuca (e dizia-se Engenho Velho, à época).

Algumas coisas me chamam a atenção na fotografia que pode ser vista, maior, com um simples clique sobre ela. Antes, uma breve pausa.

Meus bisavós tiveram seis filhos, pela ordem de nascimento: Maria Florinda, que morreu muito nova, aos 15 anos, vítima do tétano (dia desses falo sobre ela, que inspirou minha avó, sua irmã, a dar seu nome à minha mãe), Francisco de Paula Monteiro de Barros (tio Chico), Carlinda (tia Linda), Silvio Augusto (tio Silvio), Mathilde (minha avó) e Carlos Henrique (tio Hique).

Havia (ainda há, parece) uma espécie de pacto entre os Monteiro de Barros: o primogênito de todo Eugenio Augusto seria obrigatoriamente um Francisco de Paula, e todo primogênito de um Francisco de Paula seria obrigatoriamente um Eugenio Augusto, e vejam vocês se isso não justifica, de certo modo, o transtorno obsessivo compulsivo (TOC) que me persegue.

Vamos aos personagens da fotografia, sempre da esquerda para a direita: na primeira fila, a mais baixa, dona Lina, mãe de minha bisavó, avó de vovó, bisavó de minha mãe. A seu lado, dona Adelina. A seu lado, minha bisavó, Mathilde (elegante, elegante!, a dona da casa), mãe de vovó e avó de minha mãe. A seu lado, o doutor Oscar, personagem mítica da filha (falarei sobre ele em brevíssimo!). E a seu lado, fechando a fila, Francisco de Paula, o primogênito de meu bisavô, que se casaria, em 1942, com a tia Noêmia (sobre a tia Noêmia, recomendo vivamente um de meus textos preferidos sobre a família, DEBUTE NO ENGENHO NOVO, de primeiro de setembro de 2006, aqui). Notem que tanto o doutor Oscar quanto o tio Chico têm, nas mãos, uma caneca de cerveja preta.

Na segunda fila: não consegui descobrir quem são as duas primeiras. O baixinho que vem depois é o Soony, que está no colo de Alzira, sua mãe, irmã de minha bisavó, a tia Zirota (e sobre minha tia Zirota, a que voava, também recomendo a leitura de MINHA PRIMEIRA VIAGEM, de 24 de janeiro de 2008, aqui). Os demais não consegui identificar.

Logo acima da tia Zirota, erguendo um copo, está Carlinda, minha tia Linda. A seu lado, em pé, dona Mathilde, minha avó, com apenas 8 anos. O menino ao lado de minha avó é Carlos Henrique, meu tio Hique.

Os três primeiros da fila de cima também não consegui saber quem são. Logo depois, meu bisavô. A seu lado, tio Procter, inglês, marido de Alzira (minha tia Zirota), com Marylou no colo, irmã do Soony.

Vamos ao que quero lhes contar hoje. Não… não quero lhes contar mais nada hoje. E que fiquem aí, registrados os personagens de muitas das histórias que lhes contarei nos próximos dias. Como quase todo mundo que mantém relação afetiva com seus ancestrais, tenho um corolário de histórias que beiram a ficção envolvendo toda essa gente aí da fotografia.

Desfiando esse novelo aqui, publicamente, aplaco a saudade que sinto de todos eles, dos que conheci e dos que me são vivos por conta da memória de tudo aquilo que ouvi ao longo de 41 anos de vida. Como diz um de meus mestres, Aldir Blanc, é na saudade “que tudo que amei sobrevive”.

Até.

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O ESPÓLIO DE MINHA AVÓ

(dedicado a meus irmãos, Fernando Braga Goldenberg e Cristiano Braga Goldenberg, e a minha mãe, Mariazinha)

Mamãe viveu ontem, ao lado de minha menina, de certa forma (infinitamente menos dolorosa, é verdade), o drama de “arrumar o quarto de um filho que já morreu”. Esteve na casa de vovó, na Tijuca evidentemente, para tratar das coisas práticas que o evento morte exige. Eu, um poltrão (como diria minha bisavó), evitei a tarefa. Mas vamos ao que quero lhes contar, sempre norteado pela lição de grandeza que o samba me ensinou: erguer o copo ao humor (apud Aldir Blanc).

Minha infância é povoada de mulheres. Bisavós, tias, avós, a parentalha toda (e fomos sempre uma família, digamos, regida pelo matriarcado – refiro-me à linhagem de mamãe) virava e mexia soltava uma frase que era, na verdade, o brandir de um brasão imaginário:

– Somos parentes do Barão de Paraopeba!

Isso era usado em qualquer situação. Encerrava-se uma discussão com algum vizinho com essa sentença fatal:

– Somos parentes do Barão de Paraopeba!

Pequena pausa: isso me vinha sempre à cabeça, anos depois, quando eu ouvia o anúncio “ninguém, ninguém, ninguém segura o Khalil!” (entendam isso, aqui).

O Barão de Paraopeba era, para mim, na mais tenra infância, um mito. Vamos em frente.

Antes, porém, nova pausa: peço ao meu dileto e fraterno Diego Moreira, especialista na arte de escarafunchar o passado das famílias, que me auxilie com os graus de parentesco daqui por diante. Vamos lá.

Romualdo José Monteiro de Barros era o nome do Barão de Paraopeba. Teve, o dito cujo, 11 (onze) filhos, sendo que o mais velho era o Desembargador Francisco de Paula Monteiro de Barros. Este, por sua vez, teve 08 (oito) filhos, um deles Eugenio Monteiro de Barros, nascido na fazenda Boa Esperança, de propriedade do Barão, em Congonhas do Campo, MG, em 20 de agosto de 1835. Vida que segue, Eugenio Monteiro de Barros casou-se, já no Rio de Janeiro, com Francisca Carolina Werna da Fonseca Monteiro de Barros, nascida em 25 de maio de 1845, tendo morrido a dona Chica em 28 de fevereiro de 1918. Eis que dona Chica era outra personagem de minha infância. E isso porque as minhas velhotas particulares tinham uma outra frase impactante:

– Cadê o postal que a Isabel mandou pra Chica?

Era essa frase ser lançada no ar e havia sempre um atropelo em direção a uma das cômodas de um dos cômodos da casa de minha biasavó.

Vamos em frente. Eugenio Monteiro de Barros e Francisca Monteiro de Barros tiveram 08 (oito) filhos. Um deles? Francisco de Paula Monteiro de Barros, nascido em 12 de fevereiro de 1871. Foi este Francisco (que já tem nome idêntico ao Desembargador lá do começo da história) que casou-se, em 17 de setembro de 1892, com Leonor Isabel de Sá Caminha. Dentre os filhos que tiveram, nasceu meu bisavô, Eugenio Augusto Monteiro de Barros (tenho histórias dele pra contar, a quem não conheci, mas fica pra outro dia, vamos em frente), no dia 22 de novembro de 1893. Meu bisavô exerceu durante muitos anos o alto cargo de contador da Companhia de Navegação Costeira, foi presidente da União dos Empregados do Comércio do Rio de Janeiro, deputado federal classista tendo assinado a Constituição de 1934 e casou-se em 17 de maio de 1913 (mesmíssimo dia em que nasceu, anos depois, minha mãe), com a dona Mathilde Veloso, minha amada bisavó, que passou a assinar Mathilde Veloso Monteiro de Barros, ela filha de Francisco Veloso, português, e de Julia Pinheiro Veloso, egressa de São João da Barra.

Agora é que eu preciso do Diego! Eu sou o quê da dona Francisca, meu Deus?! Isso deixa para lá, vamos em frente.

As velhotas se engalfinhavam, de vez em quando, em busca de ver, de tocar, de ler o tal “postal que a Isabel mandou pra Chica”.

É que a dona Francisca, a Chica, era amicíssima da dona Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon. Filhota de Dom Pedro II, Isabel casou-se com o Conde d´Eu dando origem aos atuais herdeiros da coroa imperial, os Orléans e Bragança. Eis o fato: dona Chica era muito amiga da Princesa Isabel.

Isabel deixou o Brasil com 43 anos de idade (e se eu estiver errado me corrijam) em 17 de novembro de 1889, pouco depois da proclamação da República. Consta que teria partido “aos soluços, sob as ordens e intimações do tenente-coronel João Nepomuceno Mallet”.

Consta das lendas familiares que Chica traficava feijão preto pra França, a fim de matar as saudades que Isabel sentia do Brasil, do Rio de Janeiro. Consta, ainda, que eram muitas as correspondências mantidas guardadas sabe-se lá por quem.

E eis o que eu queria lhes contar.

Vovó mantinha em casa um dos postais – o tal, o tal! – e mamãe, ontem à noite e a pedido meu, fez de mim o fiel depositário do que é, pra nós, um documento.

O postal, datado de 08 de outubro de 1915, foi enviado de Paris e traz, na frente, uma fotografia de Isabel, onde se lê:

“Saudosos agradecimentos, Isabel Condessa d´Eu”

No verso, lê-se:

“Minha querida Chica: quanto lhe agradeço suas boas acções por ocasião do dia 29 de julho! (…) na saudosa Cathedral! Quantas recordações!

Não me lembro se você já tem esta photographia. Em todo caso lhe mando e com ella nossas lembranças muito affectuosas.

Isabel Condessa d´Eu.

O Silva Costa lhe fará entregar os 500$ que lhe serão úteis queridíssima!”

É, de fato, emocionante, estar com o cartão em mãos, 95 anos depois dele ter sido expedido de Paris, manuscrito pela Princesa Isabel, de ter chegado às mãos da dona Francisca (segundo minhas parcas contas, minha tataravó), de ter ficado tantos anos com minha bisavó, Mathilde, e outros tantos com minha avó, também Mathilde.

É desse patrimônio, imaterial e afetuoso, que é feito o espólio de minha avó.

E tem sido tão fascinante o revirar do baú que me foi entregue que tenho ouvido, em estado febril, o alarido das velhotas em êxtase diante das lembranças que guardo dentro de mim, agora amparadas pelos documentos, pelas fotografias, pelos bilhetes e pelas cartas que mamãe me entregou.

Com o passar dos dias, se os deuses assim permitirem, divido muitas coisas com vocês, contando as histórias que cresci ouvindo e que ainda hoje me assombram de deslumbramento de tanto amor que minha família semeou.

Até.

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VOVÓ (1924-2010)

Eis que vovó, minha avó materna, dona Mathilde, personagem de tantas histórias contadas aqui neste blog, personagem de tantas histórias que vi e vivi ao longo de meus 41 anos de vida, foi oló na noite de domingo. Estava eu em São Paulo quando o telefone tocou às 23h15min com a notícia. Vovó estava internada há pouco mais de duas semanas e confesso a vocês, publicamente, que não consegui receber a tristeza como companheira diante da notícia: vovó viveu intensamente seus 86 anos de vida, dos quais 41 comigo como testemunha, seu primeiro neto, sempre norteada pelo intenso amor herdado do exemplo de vida de sua mãe, minha bisavó, Mathilde também, o mesmíssimo amor que igualmente norteia a vida de mamãe, sua filha única. Na foto abaixo, que já ilustrou tantos textos aqui publicados, sou o menino de calças curtas e camisa listrada com a mão direta na mão de mamãe, com a mão esquerda nas mãos de vovó, ao lado também de minha bisa, que foi pro Orum em 1982, e tinha eu só 13 anos de idade (o que é, convenhamos, um privilégio… conviver 13 anos com a bisavó é um presente!).

Quem a conheceu – e refiro-me aqui a meus amigos mais próximos – por ela se encantou. Doce, pose e porte de rainha, cheirosa que só ela, vaidosa que só ela, vovó era um encanto de pessoa (escrevo “era um encanto de pessoa” e já me corrijo, vovó é um encanto de pessoa). A foto abaixo, de setembro de 2008, mostra vovó ao lado da minha menina e de sua menina, minha mãe. Vovó estava – como se vê, e como esteve até o último dia – elegante para receber, no Rio, na casa de meus pais, o portentoso Fernando Szegeri, meu irmão e também seu neto. Vou lhes contar, ao longo dos próximos dias, histórias bacanas da dona Mathilde, cujo velório, ontem, recebeu um público de Fla x Flu.

E é justo sobre o velório – rodrigueano – que quero lhes contar hoje, seguindo o princípio de que é preciso erguer o copo ao humor, sempre!

Chegamos de SP, eu e minha menina, por volta do meio-dia. Lá estavam suas amigas do pôquer – vovó jogava pôquer no Méier todas as sextas-feiras em uma mesa na qual era a caçula! -, dos centros espíritas que freqüentava, da “costura” – vovó costurava fraldas, lençóis, cobertores e mantinhas para os pobres – primas e primos, sobrinhas e sobrinhos, vizinhos e vizinhas, enfim… como lhes falei, um público de Fla x Flu.

E foi, meus poucos mas fiéis leitores, um velório tijucano e rodrigueano.

Logo na entrada da capelinha, uma coroa de flores gigantesca enviada por Gilberto Braga, sua irmã Rosa Maria e seu irmão Ronaldo. Vovó era amicíssima da Ieda, mãe dos três. Sua melhor amiga, contam. Os três a chamavam “tia Tida” e por ela tinham um carinho sem tamanho. Pois vamos à cena no melhor estilo Tijuca. As velhotas que se acotovelavam em volta do caixão vez por outra apontavam na direção da tal coroa de flores. Havia um alarido (apud Nelson Rodrigues) de vozes acompanhando aquele apontar de dedos. Até que deu-se a cena de cinema.

Uma das velhas tomou a direção da coroa de flores arrastando outra velhota pela mão. Estacou diante da coroa equilibrada no cavalete, pouco depois de estender uma câmera fotográfica para sua amiga. Postou-se ao lado da bóia de flores, esticou a faixa com os dizeres “saudades eternas”, apontou pro nome do autor de novelas e disse pra outra:

– Tira! Tira! Vai!

Foi então que formou-se uma pequena fila para a mesmíssima fotografia.

Mas não ficou aí, apenas, o tijucanismo do momento.

À certa altura adentra a capelinha Dayse Lúcidi, prima da vovó. A radialista e atriz, hoje fazendo o papel de uma avó e cafetina na novela das oito, causou um furor de velhas no salão. Cochichos, fotografias, explosão de flashes, autógrafos.

E lá estava vovó vivendo o drama tantas vezes retratado por Nelson Rodrigues.

“A dor tem, ao fundo, um alarido de xícaras e de pires”, disse o mestre.

Ontem, diante da ausência do bar da capela e da presença da modernidade, o alarido foi de flashes e do automático das câmeras portáteis.

Até.

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>MAIS SOBRE LUCIANA FRÓES

>

Anteontem publiquei O ANTI-BRASIL, NO JORNAL O GLOBO. No texto, expus um filminho feito e exibido pela “gastromaníaca” Luciana Fróes – o adjetivo dado por ela mesmo – gravado no restaurante LAGUIOLE, aqui no Rio. A crítica gastronômica exibe, ali, orgulhosa e deslumbrada, uma “chámmelier” – vejam aqui. Vai ao delírio com ampulhetas, pinças, tesouras, acha aquilo tudo o máximo e ajuda, assim, o jornalão em sua missão perniciosa em busca da destruição das coisas mais simples. Volto hoje à dita senhora.
A horripilante revista RIOSHOW, que vem encartada às sextas-feiras no jornal, traz matéria de sua autoria intitulada É COISA NOSSA. Vocês leiam a matéria abaixo e me digam se esses troços exaltados pela anti-carioca são coisas nossas. Vamos à análise da coisa, eis que sou preciso do início ao fim – coisa que incomoda sobremaneira a meus detratores.
Primeiro equívoco? No primeiro parágrafo, na primeira frase:
“Embalada pelo clima de amor à cidade que toma conta dos cariocas (…).”
Só mesmo uma anti-carioca que não conhece a cidade em que vive pode dizer uma atrocidade dessas. Perguntem a Luiz Antonio Simas, carioca máximo, se ele está embalado pelo amor à cidade (e a lastimável colunista só pode estar fazendo referência à invasão, pela polícia, do Complexo do Alemão) ou se ele a ama desde antes de nascer. Façam a mesma pergunta a Felipe Quintans, a Leonardo Boechat, a Marcos Handofsky, a Fernando Szegeri, a Bruno Ribeiro, a Arthur Tirone, estes três últimos moradores do Estado de São Paulo e mais cariocas que 99,99% dos leitores da revista que não se presta nem para servir de privada pro meu vira-latas. Mas vamos em frente. Pode ser – vocês devem estar pensando – implicância minha.
O que vocês acham da exaltação aos “biscoitos de polvilho à la Globo, que magistralmente o chef carrioca Claude Troisgros costumizou (com curry) e transformou numa das atrações do couvert de seu Olympe”? Deixando de lado o erro grotesco da jornalista – o certo é customizar e não “costumizar” – qual é o carioca que deixa de comer o biscoito original, fabricado na Rua do Resende, e vendido a R$ 0,50 (cinqüenta centavos) em qualquer loja honesta da cidade (não nas praias, onde custa R$ 3,00) para comer esse biscoito com curry criado pelo “chef carrioca” e que deve custar os olhos da cara? Tem mais.
Que tal a dica do picadinho a R$ 70,00 (setenta reais) (!!!!!)????? Picadinho eu como em qualquer buteco honesto por não mais do que R$ 10,00 (dez reais) – e estou jogando o preço bem pra cima. E sem essa porra de “terroir”!!!!! – vão tomando nota das expressões internacionais usadas pela referida senhora.
E a indicação da capirinha de lima-da-pérsia, “invenção de Chico Mascarenhas, restaurateur (…)”? O GUIMAS ainda foi elevado à categoria de “bistrô franco-carioca”. Ela pergunta:
“Conhece igual?”
Conheço, Luciana Fróes. Conheço muitos. E muito melhores! E pela metade do preço, diga-se.
Ocorre que o mais nojento, o mais revoltante, o mais abjeto da abjeta matéria, está por vir.
Demonstrando com isso o quanto O GLOBO não enxerga a cidade do Rio de Janeiro senão como uma ilhota chamada zona sul, o quanto o jornalão odeia (e não conhece) a cidade e seus habitantes de outras regiões que não as consideradas nobres pela autora da matéria, ela diz que “vale a viagem até Vicente de Carvalho” para comer o bolinho de bacalhau da ADEGA D´OURO que ela só deve conhecer por conta de expedições de vans organizadas por… … … isso-deixa-para-lá.
Isso mesmo. Ela recomenda uma VIAGEM até Vicente de Carvalho. Distante pouco mais de 15km de onde moro.
Um nojo. Um nojo absoluto!
A matéria está aí, na íntegra.    

Até.

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E SEGUEM DESTRUINDO O FUTEBOL…

Estava eu hoje, ao volante, em direção ao trabalho. Passava um pouco das 09h quando – rádio ligado na CBN – um sujeito cujo nome não pesquei (se alguém souber, por favor, ajude nos comentários), passou a tecer comentários – em um tom “hor-ro-ri-za-do” que já me deixou cabreiro – sobre a venda de ingressos para o jogo de domingo, do Fluminense. À certa altura, disse em tom de faniquito:

“O torcedor precisa ser tratado como um cliente pelos clubes!”

Eu quase bati com o carro de tão furioso.

Para delírio da Lucia Hippolito, que comandava o horário, o basbaque começou a ter um chilique em pleno ar:

“Cadê o Estatuto do Torcedor, Lucia?”

Uma outra locutora (ou repórter, sei lá), à moda das estagiárias das redações dos jornais de Nelson Rodrigues, emendou, animadíssima:

“Com tanta facilidade hoje, né, Lucia?, podendo haver venda de ingressos pela internet, como pode ainda acontecer tanto tumulto…?”

E eles todos gemiam “ohs” e “ahs”, deslumbrados em cadeia com as próprias sentenças.

Vamos ao que tenho a lhes dizer.

Em meados do ano passado lancei, digamos, uma série chamada MULHERES NO ESTÁDIO DE FUTEBOL. Recebi maciço apoio de quem leu e entendeu e fui criticado por quem leu e não entendeu (aqui, aqui, aqui e aqui), e volto a explicar.

Não tenho nada contra mulher em estádio de futebol. Tenho tudo contra gente fresca em estádio de futebol, e vali-me de “mulheres” para dar corpo ao que quis, naquele momento, dizer a vocês. Não tenho nada contra – serei, talvez pela primeira vez, politicamente correto para ser bem compreendido – um homossexual no estádio de futebol. Tenho tudo contra bichas escandalosas em estádio de futebol. Ficou claro que estou a tratar de um estado de espírito? Vou em frente, então.

Fui levado ao Maracanã pela primeira vez – e quantas vezes já lhes disso isso aqui… – pelas mãos de meu pai, no colo pra ser mais preciso. Tinha eu poucos meses de vida quando o velho Isaac,cheio de justificável orgulho, foi levar seu primogênito para respirar, pela vez primeira, o ar quente que subia das arquibancadas de concreto numa manhã ensolarada. De lá pra cá, de 1969 pra cá, perdi a conta de quantos jogos assisti. Mais que jogos, de quantos dramas assisti (aqui, conto um pouco disso), de quantas derrotas eu sofri, de quantas vitórias eu comomerei, de quantos empates me frustraram. Perdi a conta de quantas filas enfrentei. De quantas porradas, todas involuntárias, levei, de quantas porradas dei em busca de um lugar pra sentar, de um ingresso pra comprar, não tendo sido raro entrar no maior do mundo sem ingresso, pulando muro, furando esquema de segurança – tudo em nome da paixão pelo Flamengo e pelo futebol.

Vem daí – desse currículo, dessa história, desse hábito – minha revolta contra esse processo babaca de higienização do futebol brasileiro.

Quem é a moça, e que autoridade tem para fazê-lo, que como uma espécie de Luciana Fróes do futebol (entenda isso, aqui) clama, pelo rádio, pela venda de ingressos pela internet? Quem é o sujeito que, cheio de tom-de-autoridade, determina que torcedor de futebol tem de ser tratado como cliente pelo clube que ama? Será que não já está de bom tamanho a quantidade de transformações feitas nos campos brasileiros (e nos clubes, e nos regulamentos etc), capazes de tão aguda deformação do futebol em estado bruto que nos deu (e ainda nos dá) tanta identidade?

Por que é que eu tenho que achar normal o vice-governador do estado do Rio de Janeiro dizer que as cadeiras do Maracanã reformado (adeus, arquibancadas…) serão azuis para que seja seguido o modelo europeu? Por que é que eu tenho que achar normal a nova norma que identifica um estádio como arena? Por que é que tudo – botequins, por exemplo… – tem de ser adequado ao gosto escroto e plástico da elite-de-merda que insiste em invadir um espaço que é do jeito que é há milênios?

Eu quero enfrentar fila debaixo de sol quente pra comprar ingresso porque isso faz parte do ritual de imolação sagrado que o torcedor apaixonado cumpre com uma alegria que essa escória jamais vai compreender. Eu quero empurrar e ser empurrado pra entrar no estádio através de roletas de ferro, como as dos trens, porque ali prossegue o rito de exorcismo dos anjos e demônios que moram na alma do torcedor fanático. Eu quero encher a cara de cerveja nos bares dos anéis das arquibancadas a fim de aplacar a sede no mais amplo sentido da palavra sede. Eu quero sentar na arquibancada depois de ganhar um lugar no grito, na arquibancada de concreto, quente, ou mesmo ficar de pé ao lado dos irmãos-de-crença que vão gritar, vão xingar, vão chorar e vão vibrar durante os noventa minutos de bola rolando. Eu quero gritar “piranha” quando uma gostosa desembarcar na arquibancada. Eu quero mandar o juiz tomar no cu, chamá-lo de filhodaputa, roubando ou não roubando, que isso é um direito sagrado de todo torcedor, legitimado por anos e anos de batalhas heróicas que antecedem a assepsia do Estatuto do Torcedor a que o basbaque se referiu hoje cedo, pelo rádio. Eu quero meu rádio de pilha no ouvido. Eu quero, porra. E se eu quero, eu posso.

Ceder passivamente a modismos, modernidades e outros bichos nunca foi – e jamais será – do meu feitio. É pau na canalha, sempre.

Até.

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